Tito Lívio reporta as dissensões domésticas ocorridas nos anos subseqüentes, direta ou indiretamente, fomentadas por inspiração dos mesmos tribunos da plebe, eleitos pela quinta vez em 458, como esclarecido em III, 29, 8 e pela pretensão de que se aprovasse a lei
terentília (III, 30, 1). O historiador declara que “inflamaram-se tanto os ânimos” (III, 30, 2) em torno da questão que havia a possibilidade da medida ser aprovada no ano de 457. Todavia, foi anunciado, “como se fosse de propósito” (velut dedita opera), que uma guarnição de Córbio pereceu em um ataque noturno promovido pelos équos (III, 30, 2)53. Tito Lívio parece ironizar – “como se fosse de propósito” – a recorrência e a conveniência, para o patriciado, destas incessantes incursões de soldados équos, que postergavam as discussões quanto à aprovação das medidas de Caio Terentílio. Não obstante, um exército sabino alcançou os campos romanos e se aproximava da cidade (III, 30, 4). Logo, “este temor abateu [os romanos] de modo tal que os tribunos da plebe consentissem com a convocação das tropas” (III, 30, 5). Assim, se a princípio, o historiador escarnece a conveniência dos ataques inimigos, o reconhecimento da ameaça por parte do tribunado da plebe conferia veracidade e dramaticidade à questão.
O historiador expressa, percebe-se, sua crença na importância do metus hostilis para a preservação da paz interna em Roma (LIEBESCHUETZ, 1967, p.52), pois que os romanos, cujos ânimos estavam inflamados em função da proposta de lei (que, por seu turno, alimentava a discórdia entre as ordens), se unem em torno do objetivo maior, qual seja, a defesa da cidade54. Entretanto, a aquiescência dos tribunos da plebe no tocante à convocação dos milites foi condicionada a um pacto, a saber, que se elevasse para dez o número de tribunos da plebe, visto a lei terentília por cinco anos ter sido posposta e a composição da magistratura plebéia reputada insuficiente para proteger os plebeus. Diante do quadro que se configurava, não restou alternativa aos patrícios senão concordar com tais exigências e, assim, trinta e seis anos após a criação do tribunado da plebe, ampliou-se a quantidade de seus membros (III, 30, 5-7).
53 A investida noturna dos équos salienta para os leitores a insídia como marca dos inimigos retratados por Tito
Lívio, em oposição às virtudes do povo romano que o autor anseia perpetuar (PERELLI, 1988, p.1238).
54 Faz-se necessário alertar que o historiador não aplicou a perspectiva do metus hostilis invariavelmente a todo e
Depreende-se deste relato que Tito Lívio mantém uma apreciação negativa das manobras da magistratura plebéia, dado o ponto de vista aristocrático que exprimia (PERELLI, 1988, p.1237). O preceito do salus rei publicae seria ignorado pelos tribunos da plebe, posto que se aproveitam do medo causado pela aproximação do inimigo para beneficiarem a si mesmos. Concernia ao patriciado, neste quadro, dedicar-se exclusivamente a Roma, pois que não haveria alternativa senão aceitar as condições listadas pelo tribunado da plebe, em virtude das incursões de équos e sabinos.
Em 455, todos os tribunos da plebe clamaram pela aprovação da lei em seus discursos (III, 31, 2). Entrementes, os équos promoveram um ataque contra Túsculo, aliada de Roma, o que compeliu os cônsules daquele ano, Tito Romílio e Caio Vetúrio, a combatê-los. Bem-sucedidos, os cônsules amealharam considerável espólio, que acabou por ser vendido, em razão de sua perecível condição (III, 31, 3-4). No entanto, tal atitude desagradou os soldados e forneceu uma oportunidade para os tribunos da plebe incriminarem os cônsules. Desta forma, no ano seguinte (454), ambos foram condenados com pesadas multas, causando grande indignação entre os patrícios (III, 31, 5-6). Ainda segundo Tito Lívio, a condenação dos cônsules predecessores não diminuiu o ímpeto daqueles que os sucederam na magistratura, Espúrio Tarpeio e Aulo Atérnio. Pelo contrário, estes “disseram que era possível que eles próprios fossem condenados, mas que não era possível para a plebe e os tribunos promulgar sua lei” (III, 31, 6).
Na seqüência deste episódio, o historiador inseriu um dos pontos-chave de todo o livro. Diz Tito Lívio que os tribunos da plebe,
naquele momento, para que a rejeitada lei fosse promulgada, [...] consentiram em agir moderadamente para com os patrícios. Era preciso pôr termo, disseram, às querelas; se o projeto de lei da plebe parecesse inaceitável, eles [os patrícios] podiam ao menos concordar que se criasse de comum acordo uma comissão legislativa composta de patrícios e plebeus, encarregada de redigir leis úteis a ambas [as ordens] e assegurar igual liberdade (III, 31, 7, grifo nosso).
Os patrícios não recusaram a oferta, mas declararam que somente os integrantes de sua ordem estariam aptos a redigir as leis romanas. Para tanto, enviaram a Atenas uma missão encarregada de copiar as famosas medidas solonianas e familiarizar-se com as instituições, leis e costumes de outras cidades gregas (III, 31, 8).
Sendo assim, o historiador explicitamente assevera sob quais condições patrícios e plebeus alcançam um comum acordo. O ato moderado (lenius agere) do tribunado da plebe permitiu que os patrícios adotassem medidas concretas (a embaixada para Atenas) direcionadas à redação de um corpo de leis, contrastando significativamente com as atitudes desmedidas que caracterizaram a ação tribunícia até então no que concernia à questão. Neste versículo, por seu turno, Tito Lívio retomou a noção de igualdade (aequandae libertatis) relativa à lei, cuja distorção as palavras de Caio Terentílio destacaram (como visto em III, 9, 4). O resultado, logo, seria inequívoco: ao longo dos anos de 454-3, “os tribunos da plebe permaneceram em silêncio” (III, 32, 1)55, pois que o historiador transmite a noção de que a harmonia se fundamenta na justiça aplicada de modo idêntico para todos.
Segundo explicita Ducos (1984, p.274), ademais, Tito Lívio exibe uma concepção de lei na qual esta poderia ser modificada ou adaptada às circunstâncias. A rogatio terentília em 462 preconizava medidas que limitassem o poder consular (III, 9, 4-5). Contudo, visto os patrícios jamais aquiescerem com tal proposta (III, 31, 6), restou aos tribunos da plebe alterá- la (no que se insere a ação moderada), acordando que se redigissem leis que abarcassem igualmente ambas as ordens (III, 31, 7).
55 Tome-se nota, não obstante, que Tito Lívio condicionou a ausência de agitações populares em razão
igualmente da fome e peste que acometeu os romanos naquela época, ceifando a vida de um dos cônsules de 453, Sexto Quintílio, e quatro tribunos da plebe (III, 32, 2-4).