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Minha primeira atitude hermenêutica quanto a essa problemática da transição foi, diante da rebeldia do texto, procurar, a partir de um lastro textual pontual, estabelecer dois pólos diametralmente opostos de relação com a morte apregoados ou sugeridos nos Ensaios, importando-me primeiramente menos em delimitar fronteiras textuais e temporais do que indagar sobre o poder dos argumentos e a construção de duas atitudes alternativas diante do morrer. Mas não basta ter documentado minhas afirmações sobre Montaigne com sua própria voz, como procurei fazer no que se passou até aqui, agora é necessário ainda um estudo de extensão e fronteiras.

Uma vez aceitas a coerência de algumas passagens dos Ensaios umas com as outras e a oposição contra outras passagens, resta agora a tarefa de mostrar e demonstrar que, mais do

que faces da filosofia da morte e do morrer em Montaigne, nós temos fases de sua evolução. Pretendo aqui apresentar apenas os mais importantes resultados do trabalho da cartografia textual que testa a hipótese evolucionista. Uma amostra do que poderia ser um mapeamento dos territórios e zonas fronteiriças encontra-se como um quadro no “Apêndice”. Para a infelizmente não completamente metafórica microscopia desse estudo, comparei as versões de 1580 e do exemplar de Bordéus dos capítulos mais relevantes para o tema dessa dissertação, visto que as edições críticas atuais, ainda que mostrando todos os acréscimos, não fornecem todos os decréscimos e alterações, além de exibirem aqui e acolá erros de atribuição de um dado trecho a uma dada camada.

Os capítulos do primeiro livro, em sua primeira camada de publicação, tão próximos em conteúdo e espaço, formam uma rede coerente de idéias bem como os capítulos do terceiro livro formam uma outra rede de idéias interligadas, salvo nas passagens excepcionais que indiquei no “Apêndice”. Assim, temos dois grandes blocos opostos entre si.

Espacialmente entre os dois grandes blocos referidos, há algumas passagens de texto no segundo livro, em sua primeira camada, além de excertos isolados, que constituem zonas de transição. Os excertos de transição pontuais foram transcritos e comentados no “Apêndice”. Quanto aos blocos de transição, temos:

No sexto capítulo do segundo livro, Montaigne continua afirmando a necessidade de experimentar o morrer, ou pelo menos, algo suficientemente semelhante ao morrer como forma de obter resolução no último dia, mas já lança desconfianças sobre a força dos “discursos” e da imaginação em fornecer uma imagem fiel, sem, por enquanto, rejeitá-los. Com isso, a experiência crucial da queda é pensada, já não apenas como propulsora251, mas ainda como auxiliar da simulação e não como sua substituta252.

A “Apologia de Raymond Sebond”, esse ensaio tão complexo e rico, contém, além de uma reafirmação do estatuto negativo da imaginação produtora253, um ataque à doutrina que prescreve o uso metódico da imaginação254 e uma concomitante constatação do valor da

251 Ver capítulo 3.

252 Algo semelhante acontece no II, 37, numa passagem específica indicada no Apêndice.

253 II, 12, p. 491A: “Combien en a rendu de malades la seule force de l'imagination?” [“Quantos apenas pela

força da imaginação adoeceram?” p. 237].

254 “Mais quand la science feroit par effect ce qu'ils disent, d'émousser et rabatre l'aigreur des infortunes qui nous

suyvent, que fait elle que ce que fait beaucoup plus purement l'ignorance, et plus evidemment?”, II, 12, p. 490A [“Mais ainda que a ciência fizesse efetivamente o que eles dizem – atenuar e diminuir o amargor dos infortúnios que nos perseguem – o que faz ela além do que faz muito mais puramente a ignorância, e mais evidentemente?” p. 236], lembremos que o termo ‘science’ tem, em Montaigne, um sentido mais amplo que o atual, porém mais restrito que meramente ‘cognaissance’, pois significa algo como um conhecimento organizado, nutrido de livros mais do que de experiências, sendo que a própria noção de experiência, por sua vez, não se resume, em

ignorância em ter efeitos éticos superiores, mais exatamente, a resolução, indiferença emocional ou contentamento alegre. Nesse contexto, insere-se a retomada do exemplo do porco de Pirro, realçando mais a importância do porco do que a do filósofo255 bem como uma atenção a outros personagens tão ou quase tão ignorantes em sua facilidade em alcançar a resolução256. Em seguida, aparece a conhecida apologia da ignorância.

Não há, portanto, uma súbita revolução257, todavia muito antes uma evolução, inclusive com idas e vindas. E não obstante as idas e vindas258, notamos que quanto à morte há pelo menos duas filosofias em Montaigne, possivelmente até mais de uma, se considerarmos que, não somente pela fatalidade da morte do autor em 1592, o texto é por si inacabado, inconcluso.

Além dos avanços já presentes na edição de 1580, devo também reconhecer alguns pontos isolados, presentes na edição de 1588 e nos acréscimos manuscritos, de retomada de algumas idéias ou práticas do método de simulação da morte. Esses pontos de retorno também estão exibidos e comentados no “Apêndice”. Considerados os trechos e passagens de idas e vindas referidos aqui e no “Apêndice”, acredito poder dizer que na maior parte da edição de 1580 e 1582, Montaigne defende as idéias do ideal de simulação do morrer e na maior parte dos ensaios e acréscimos posteriores, ele esposa a predisposição natural.

Não que eu queira com ‘a maioria’ galgar uma vulnerabilidade interpretativa já não alcançada com a totalidade. Procurei montar uma leitura que abarcasse de modo coerente, mas sem artifícios, o maior número de léguas de texto. O fato de que algumas pegadas tenham permanecido fora do caminho é um convite a que outros, munidos de mais habéis, porém igualmente justos instrumentos hermenêuticos, venham a se empenhar em abraçar a integralidade do livro, o que por ora está além do alcance de meus olhos míopes.

Além das remissões do texto à biografia pessoal ou intelectual do autor, a fortuna crítica sobre os Ensaios ainda procurou escavar linhagens históricas para compreensão do texto. Montaigne, ao que se consagraria mais tarde no empirismo como sendo uma captação de dados do mundo exterior através dos sentidos. Pelo termo ‘experiência’, deve-se entender, sobretudo, vivências pessoais.

255 II, 12, p. 490A.

256 Homens “(...)ausquels on void ordinairement beaucoup moins de ressentiment de mort (…)”, cada um deles

“(…) preparé de soy mesmes par habitude naturelle.” II, 12, p. 490A [“(...) nos quais vemos habitualmente muito menos clamores sobre a morte (...)”, “(...) preparado por si si mesmo por hábito natural.” pp. 236-237].

257

Brody (1982, p. 94) acredita que Villey parece muito mais defender uma revolução do que evolução. Além dos exageros de Villey, tal julgamento exibe os do próprio Brody, entre eles negar qualquer mudança.

258 Como bem imagina Brush, 1966, p. 57: “Even in the most Senecan of the essays, Montaigne had been aware

that there were cracks in the wall he wished to build around himself and that its foundations might be weak.”, embora a citação (I, 10, p. 40A) que ele dá em apoio seja inapropriada, pois refere-se às fraquezas da capacidade de imaginar em geral e não à simulação da morte.

Aqui, preciso diferenciar dois conceitos metodológicos importantes: linhagem e linha de continuidade. A identificação de uma linha de continuidade não necessariamente supõe uma linhagem histórica. Uma linhagem é uma espécie de filiação reconhecida, ou seja, uma origem comprovada de conceitos ou teses, ao passo que uma linha de continuidade é apenas uma semelhança entre dois textos sem necessariamente haver filiação entre eles. Pois bem, conquanto pense que a tarefa filosófica na leitura de textos possa ser, entre outras, encontrar linhas de continuidade, a filosofia eventualmente poderá nutrir-se da tarefa historiográfica de verrumar linhagens desde que úteis na decisão entre possibilidades alternativas de interpretação. No próximo capítulo, empreenderei um sobrevôo histórico por diversas linhas de continuidade e linhagens eventualmente interessantes para a interpretação dos Ensaios, panorama esse que se deve menos a uma eventual exigência intrínseca à dissertação do que à minha própria necessidade de divertimento. Não sejam estas minhas considerações compreendidas, portanto, como pretensas provas de uma interpretação específica de uma suposta causa eficiente atuando implacável sobre nosso autor. Apesar de eu estar, com o próximo capítulo, promovendo ao corpo do texto as observações historiográficas que, ao longo do restante da dissertação, contentam-se com a condição de notas de pé de página, elas visam muito antes ampliar espaços imagináveis de leitura do que restringi-los.