Segundo Lucio Ferreira (2010), as ciências no Brasil já estavam consolidadas na transição do Império para a República, incluindo-se a arqueologia. Três dos mais importantes centros de pesquisa em ciências naturais no país, e ainda importantes centros de referência em nossos dias, O Museu Paulista (São Paulo), Museu Nacional (Rio de Janeiro) e o Museu Paraense (Belém), surgiram entre o final do XVIII e início do XIX (Barreto 1999- 2000, Souza 1991). A arqueologia, em particular, não só encontrava-se consolidada como participava enfaticamente das estratégias políticas de definição de fronteiras étnicas e geográficas do Império e República.
A Arqueologia, como ciência geográfica, equacionava-se a uma
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territórios. Em primeiro lugar, porque os artefatos arqueológicos eram passíveis de serem marcadores do espaço, delimitadoras de fronteiras geopolíticas, instrumentos para moldar as raias do território nacional em construção. Em segundo lugar, porque, solidificando estereótipos sobre os indígenas como grupos sociais fossilizados, “degenerados” ou “primitivos”, desencadeou representações coloniais e legitimou projetos de colonização. A Arqueologia, em suma, foi uma ferramenta colonizadora (Ferreira 2010, p. 18).
De maneira similar à Europa, o Brasil do século XIX passava por um momento semelhante ao do nacionalismo étnico europeu, com a particularidade do processo de independência de Portugal. Norbert Lechner (Lechner 2000) adentra o tema da construção da memória nacional da América Latina, atentando, em princípio, para duas questões de valor à argumentação que aqui se tece. Assim como na Europa, a construção da ordem independente na América Latina toma forma de Estado-Nação, ou seja, o Estado é também o escolhido [por uma elite revolucionária] para sustentar e manejar a consistência social da Nação (Lechner 2000, p. 68). Em segundo lugar, a modelagem da unidade nacional funda-se numa pequena, mas necessária, incoerência: passado glorioso, mas futuro promissor. Ao mesmo tempo em que as independências realizam-se em nome do futuro, rompendo com a temporalidade herdada (no caso colonial), a cultura e a história são de particular interesse na hora da construção de um “eu mesmo”, da memória nacional (Lechner 2000, p. 69).
O passado evocado como mãe/pai fundadores de um grande povo é selecionado em sacralizações de personagens, práticas, tradições e edificações.
Dito de outro modo: como índice da formulação da auto- imagem de uma nação ou de um grupo étnico, o patrimônio cultural é periodicamente selecionado, re-selecionado, revisado, dispensado e, muitas vezes, intencionalmente destruído. Daí ele ser um poderoso símbolo dos conflitos sociais (Ferreira 2008, p. 84).
Era necessário “selecionar” as etnias que poderiam ou não fazer parte da criação do brasileiro. Enquanto colônia, é fácil para a elite crioula identificar- se com a Europa e fugir da herança indígena. No entanto, a partir do momento
115 em que se nega o vínculo com a pátria metrópole, nega-se também com a pátria mãe. Como, então, ser crioulo? Ser nativo? Ser misto? Ser europeu perdido nos trópicos? Há que selecionar quem faz e quem não faz parte da história e memória da nova nação crioula.
Assim, concordo com a argumentação de Lucio Ferreira de que a construção discursiva sobre as pretensas “raízes” culturais indígenas é em si um posicionamento político. Tal discursividade aciona automaticamente os mecanismos de construção identitária do momento de secessão política com a Europa e mecanismos de exclusão social remanescentes do pensamento colonial.
Scientia et potentia – tratava-se, para a Arqueologia imperial,
de melhor conhecer o indígena para melhor dominá-lo e civilizá-lo, para aproveitá-lo como mão-de-obra e como colonizador do interior do país, para amansá-lo como sujeito econômico e de direito, para abrigá-lo sob a égide de um contrato social (Ferreira 2005a, p. 144).
Os Museus são as propostas de preenchimento da lacuna entre passado e presente, conectar os saltos históricos da canonização de alguns eventos em detrimento de outros, e trazê-los como continuum anunciador do futuro brilhante da nação (Lechner 2000, pp 71-72).
Vários foram os argumentos arqueológicos sobre o indígena, como também nos mostra outro trabalho de Lucio Ferreira (2005b): para alguns, possuíam uma ascendência gloriosa, virtuosa e promissora. Gonçalvez de Magalhães, importante intelectual do Império, defendia uma antiga superioridade indígena que se poderia averiguar em sua honra a um único deus (Tupã), o resguardo da virgindade até a puberdade, a proteção a família e as regras de matrimônio. Incluindo os rituais antropofágicos, possuíam uma “dignidade viril” (Ferreira 2005b, p. 142). Para outros, não era mais que uma raça de eternos condenados desde seu princípio. Para Francisco de Varnhagen, o passado civilizado dos indígenas, reconhecido como fora por outros intelectuais, não mais era uma realidade, e a única alternativa possível para integrá-los aos planos nacionais de desenvolvimento era através da força (Ferreira 2005b). Gonçalves Dias, no entanto, também sentia que o passado
116 dos indígenas civilizados se havia perdido para sempre, mas seu histórico de dignidade e pacifismo os garantiria um lugar na nação e a possibilidade de assimilação, não pela guerra, mas pelo trabalho rural e industrial (Ferreira 2005b).
Seja partindo de uma ancestralidade indígena gloriosa, virtuosa e promissora ou de uma raça eterna de condenados, as argumentações arqueológicas sobre o passado indígena do território brasileiro confluíam no mesmo presente: tribos degeneradas que necessitavam de manejo e reestruturação. Ou seja, os heróis e inimigos do passado selecionados e superpostos na tentativa de sacralização de um passado nacional, rumo à exclusividade/inclusividade do povo moderno. A domesticação dessas tribos significa a organização da população brasileira (Ferreira 2005b).
A mesma finalidade da ciência arqueológica continuará durante os primeiros anos da república e, depois, com o movimento modernista das décadas de 1920-1930. Não mais se tratava de extirpar a raça mais baixa de um país em civilização, mas de absorver a massa indígena no corpo civil republicano. Antes, tempo imperial, indígenas eram medidos pelos aspectos biológicos. No início do XX, “o indígena” torna-se uma categoria humana como qualquer outra, e sua integração à “brasilidade normal” seria apenas uma questão de mudança em seu comportamento cultural. Alterando-se as práticas, teríamos um civilizado como qualquer outro (Sequeira 2005). Nesse processo, a educação cívica substituía a evangelização na efetiva pacificação e introdução do indígena à população civil através da recategorização das diversas etnias que povoavam o território nacional em uma única parcela de potenciais trabalhadores urbanos.
A partir de uma perspectiva positivista, a integração de populações indígenas era parte de um avance inevitável à civilização. Assim, o indígena era visto como “não-índio”, i.e., um futuro brasileiro, um trabalhador em potencial, um ser a transformar-se em cidadão cedo ou tarde (Sequeira 2005, p. 356).
Ainda segundo Sequeira, não a o Serviço de Proteção do Índio e Locação de Trabalhadores (nome sugestivo) criado em 1910, mas o próprio
117 Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN)52, criado em 1937, e a proposta legislativa de preservação patrimonial de Mário de Andrade também da década de 1930, são frutos dessa posição sócio-política de integração do indígena à identidade nacional, elementos da “brasilidade” excêntrica e distinguível das nações européias.
A idéia de preservação e inclusão da população indígena no presente e futuro da nação brasileira necessariamente evocava outro eixo temporal – o passado – através da incorporação da memória deles [indígenas] à da nação. Portanto, o conceito de herança e a existência de uma legislação para a preservação da herança, existem como aspectos complementários da modalidade discursiva engajada num processo de construção da nação que é imaginada e projetada pelo discurso republicano (Sequeira 2005, p. 357).
De acordo com Tania Andrade Lima e Regina Coeli Pinheiro da Silva (Andrade Lima & Pinheiro da Silva 1999 apud Lima 2007), uma análise dos livros didáticos de história do Brasil mostrou que, entre 1898 e 1998, dois foram os momentos em que a pré-história brasileira foi usada com veemência para a construção da identidade nacional: no final do século XIX e ao longo do governo de Getúlio Vargas (Lima 2007, p. 17).
O índio passou a ser um elemento fundamental na arquitetura do mito da democracia racial, fundado na caracterização do povo brasileiro como uma “raça de mestiços”, expressão aglutinadora de qualidades positivas, morais e sociais (Lima 2007, p. 19).
O argumento de Tânia Andrade Lima nos remete à divisão conceitual de um nacionalismo cívico apresentada por Margarita Díaz-Andreu. Não mais a defesa de uma única raça pura a compor as fronteiras nacionais, mas um nacionalismo embebido na mestiçagem e na aglutinação de toda a diversidade sob as asas do Estado.
De fato, Sandra Pelegrini argumenta que a “linhagem modernista” buscara a identificação de uma proposta cultural nacional através do “mapeamento das manifestações culturais consideradas genuinamente
118 brasileiras” (Pelegrini 2006, p. 11). Entre as manifestações tidas como “genuinamente brasileiras”, os processos de tombamento deram grande atenção à arquitetura colonial, em especial àquela representativa de setores da elite nacional, mas também a obras de caráter mais singelo como o “Museu dos Caixeiros Viajantes do Rio Grande do Sul, sambaquis, coleções arqueológicas” (Girão 2001:120 apud Pelegrini 2006, p. 11). No entanto, a autora comenta que essas políticas seguiam, em essencia, os critérios da Carta de Atenas sobre a visibilidade e viabilidade para apreciação de tais monumentos. Política que não estaria isenta, certamente, de interesses sobre a constituição da nova nação moderna sob o Estado Novo.
Tal tática de preservação subtrai da paisagem as imagens não concatenadas com o modelo escolhido para reafirmar a brasilidade considerada adequada àquele contexto histórico, qual seja um momento histórico em que se forjavam novas representações da nação e moldava-se um outro perfil para o cidadão brasileiro: limpo, ordeiro e trabalhador. A adoção desse tipo de prática intervencionista mostrava-se conveniente, pois somadas às medidas saneadoras das moradias populares, resultava na demolição de habitações coletivas consideradas desabonadoras da imagem nacional (Pelegrini 2006, p. 12). Apesar de concordar com a argumentação das autoras, é também importante salientar o peso jurídico dessa legislação modernista. Em primeiro lugar, Mário de Andrade e os intelectuais modernistas defendiam a mudança de vetores da história e política nacionais, da herança europeizada ao anti- heroísmo de Macunaíma; inverte as linhas de troca, colocando o pólo humano no estandarte tropical, fazendo da antropofagia, da deglutição de Fernão Sardinha, o novo marco da Era, invertendo a fagocitose cultural (Andrade 1928). Em segundo lugar, alguns especialistas consideram a criação do SPHAN e o Decreto-Lei 25/37 como os primeiros mecanismos oficiais de proteção patrimonial no país (Cf. Pelegrini 2006, p. 10). Apesar de o Golpe de Estado de Getúlio Vargas em 1937, o projeto de lei 511/36 que havia sido proposto por Mário de Andrade foi outorgado pelo presidente como o Decreto- Lei nº 25/37, “que ainda está em vigor” (Funari & Robrahn-González 2008, p. 17). E foi conseqüente dessa lei que “um novo código penal também foi emitido
119 em 1940, pela primeira vez punindo a destruição de bens culturais, incluindo os arqueológicos” (Funari & Robrahn-González 2008, p. 17).
Se observarmos a definição de “patrimônio histórico” explícita no corpo textual do Decreto-Lei,
Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico (Brasil 1937).
Apesar da “vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil”, a consagração do patrimônio histórico fica também a cargo de seu “excepcional valor arqueológico ou etnográfico” (Brasil 1937). Da mesma maneira que os intelectuais modernistas tiveram forte poder de veto e decisão sobre o que seria considerado como de grande valor na identificação da brasilidade, a arqueologia e demais ciências humanas possuem igual peso na definição do que é “excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”.
Mais uma vez, voltamos ao ponto instável entre as conveniências e inconveniências da normatização da identidade. Por um lado, a proposta dos modernistas arrasta a tarefa crioula de construção de uma imagem peculiar do Brasil, materializando a história pretensiosa e centralizadora do Estado Novo através dos bens tombados (Rodrigues 1996, p. 196). Por outro, esse aparelho jurídico que se cria para a proteção do patrimônio arqueológico e cultural nacional permite que a disciplina tenha espaço para dar sua opinião e colocar em prática sua distinta capacidade técnica e interpretativa. É uma questão de escolha: defender Peri ou Macunaíma? Mais uma vez para tomar as palavras de Tânia Andrade Lima,
Em se tratando do Brasil, uma arqueologia a serviço da construção da identidade nacional precisa marchar no sentido contrário ao da perspectiva homogeneizante, unificadora, bem como refugar a erosão das diferenças. Antes, tem que trabalhar para resgatar e revelar, na profundidade temporal em que opera, a diversidade étnica e cultural que se instalou desde os primórdios da presença humana em nosso território, e que
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se intensificou ao longo de milênios, até a conquista (Lima 2007, p. 21).
Assim, concordo com Ana Piñon Sequeira quando afirma que podemos falar “de valores sociais e ideológicos, mais que princípios científicos e teóricos, como pilares da arqueologia e, por extensão, da identidade indígena” (Sequeira 2005, p. 359).
Com o retorno do regime democrático, a arqueologia brasileira vê a atuação de um de seus mais importantes intelectuais, Paulo Duarte. Sua militância pela proteção do patrimônio arqueológico nacional foi responsável pela aprovação da primeira lei brasileira sobre patrimônio arqueológico, a lei 3924 de 1961. Como vimos no primeiro capítulo, essa lei é base legislativa da proteção do patrimônio arqueológico nacional. Essa lei não só dá posse à União das jazidas arqueológicas, livres das normas da propriedade privada (Brasil 1961, Art.1) como penaliza qualquer atuação de valoração econômica desse patrimônio (Brasil 1961, Art. 3 a 5). Cabe lembrar que, apesar da denominação de “jazidas arqueológicas” ser hoje já considerada insuficiente (atem-se principalmente aos sítios pré-históricos), seu artigo 7º retifica que
As jazidas arqueológicas ou pré-históricas de qualquer natureza, não manifestadas e registradas na forma dos Artigos 4° e 6° desta lei, são consideradas, para todos os efeitos, bens patrimoniais da União (Brasil 1961, Art. 7).
Outro parâmetro fundamental estabelecido por essa legislação foi a atribuição ao IPHAN da responsabilidade de gestão sobre esse patrimônio e também de prover as permissões para intervenção arqueológica (Brasil 1961, Art.11).
O mesmo personagem criou o Instituto de Pré-história, baseado no Musée de l’Homme de Paris, influenciado também por sua amizade com seu diretor, Paul Rivet (Funari & Robrahn-González 2008, p. 15-16). Por essa mesma aliança franco-brasileira, chega, entre 1954 e 1955, o casal Joseph e Annette Laming-Emperaire, cuja contribuição para o início da pesquisa
O conhecimento arqueológico no Brasil, como no exterior, sempre foi usado para legitimar políticas Estatais de identidade nacional.
121 científica no país é ressaltada até os dias de hoje. Joseph realizou a primeira datação radiocarbônica (C14) no Brasil, e o casal lecionou um curso de métodos e técnicas de campo e laboratório para aplicação em sambaquis, a convite de José Loureiro Fernandes do Centro de Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná (Souza 1991). Assim, entre os anos 1950 e 1970 inicia-se uma nova fase de formação de profissionais da área arqueológica, profissionais brasileiros sob tutoria e trabalhos com pesquisadores estrangeiros (Soares 1991).
Em 1964 o exercito brasileiro toma o poder no governo federal através de um Golpe de Estado, instaurando uma ditadura militar que duraria até final dos anos 1980. No mesmo ano do golpe de estado, começa o Programa Nacional de Pesquisa Arqueológica (PRONAPA) coordenado por dois arqueólogos americanos do Instituto Smithsonian sediado em Washington, Betty Meggers e Clifford Evans (Funari & Robrahn-González 2008), que já haviam trabalhado no Brasil desde os anos 1950 (Soares 1991).
O propósito do Programa foi colocar em vigor uma estratégia tipológica para a cerâmica brasileira, capaz de reconhecer processos de ocupação Pré- históricos e a aplicação de datações relativas (Soares 1991). Apesar do sucesso dessa estruturação tipológica (primeira disponível na arqueologia brasileira, e ainda usada em nossos dias), o Programa foi criticado por diversas razões. Dentre elas, sua vinculação ao regime militar brasileiro que inviabilizou trabalhos arqueológicos com vieses mais críticos. Esse fato criou profissionais preocupados somente com questões de método (Funari & Robrahn-González 2008), produzindo aquartelamentos em diversos estados do país. Em função disso, o SPHAN passou a confiar nos pesquisadores do Programa como extensões de sua vontade nos cantos do território de mais difícil acesso (Soares 1991), além de criar um vício que até hoje atormenta a arqueologia brasileira, que é o reconhecimento imediato de grupos indígenas à tipos cerâmicos (Oliveira 2006).
122 Com o fim do regime militar e a volta do regime democrático nos anos 1980, a arqueologia no Brasil volta a buscar outras influências nos trabalhos desenvolvidos na Europa e Estados Unidos (Funari & Robrahn-González 2008).
São três pontos, portanto, que a descrição acima suscita: i) a filiação estatal da arqueologia e o caso brasileiro, que não se afasta do contexto internacional da história da disciplina; ii) o fato de que essa filiação estatal tem demandado da arqueologia sua participação na construção da etnicidade que definiria o panorama nacional e, por fim, iii) o processo pelo qual o Brasil passou na construção de seu próprio aparato jurídico para a proteção do patrimônio arqueológico nacional.