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CEZAYI ORTADAN KALDIRAN NEDEN

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O outro desafio que a introdução dos precedentes vinculantes deve enfrentar no Brasil está ligado ao modo com que se formam os acórdãos no País, pois, conforme explica Castelo Branco (2016, p. 178), os tribunais brasileiros, ao exercerem o seu trabalho jurisdicional, valorizam tão somente a parte dispositiva das suas decisões, o que ocasiona muitas vezes acórdãos sendo formados em um dado sentido25 apenas por somatório dos votos, os quais muitas vezes têm fundamentações incompatíveis entre si.

Em situações assim, surge um problema, que é o de tentar saber qual é a ratio

decidendi de uma decisão formada dessa forma. O que podemos concluir é que decisões assim

não têm uma ratio decidendi discernível, uma vez que a existência desta pressuporia razões adotadas pela maioria do colegiado que proferiu a decisão, e não apenas por um ministro ou desembargador que faça parte dele.

A ausência de uma ratio decidendi discernível dificulta o manuseio da decisão para os fins de ser utilizada como um precedente judicial obrigatório para uma decisão futura, pois não há como considerá-la vinculante sem saber quais são as “razões de decidir” que lhe deram causa. Como explica Neves (2016, p. 1314-1315), o ideal é que os acórdãos fossem

formados não por adesão à conclusão do relator, mas, sim, por concordância com os seus fundamentos.

Seguindo essa linha, o mais recomendável, em nosso entender, é que houvesse uma votação dos argumentos apresentados pelos membros do colegiado, porque, a partir daí, ficaria mais fácil saber quais foram as razões adotadas por mais da metade do colegiado e que, portanto, são aptas a serem utilizadas como precedentes obrigatórios.

5 CONCLUSÃO

O que se conclui, ao fim do presente trabalho, é que o novo Código de Processo Civil traz subsídios legais para a introdução de uma teoria dos precedentes vinculantes no Brasil e para a aplicação de instrumentos jurídicos típicos dos países de common law, como o

distinguishing, o overruling e o overriding, que são elementos que possibilitam o uso

equilibrado dos precedentes judiciais em países que os consideram como sendo detentores de eficácia vinculante.

A nova sistemática de precedentes obrigatórios deve permitir que o trabalho do Judiciário brasileiro tenha inúmeras melhorias, entre as quais podemos citar um nível mais elevado de previsibilidade, de segurança jurídica, de isonomia e até mesmo uma maior qualidade nas suas decisões.

Porém, isso não significa que não existam desafios com a vigência do novo Código. Como tivemos a oportunidade de observar ao longo do presente trabalho, o texto do novo CPC foi muito genérico no tocante ao tratamento dado a questões muito importantes para uma teoria dos precedentes vinculantes, como as possibilidades de superação (overruling/overriding) dos precedentes obrigatórios ou os requisitos para se entender pelo uso da distinção (distinguishing).

Tal circunstância faz com que o trabalho judicial no início do período de vigência do novo CPC seja incerto, mas, no futuro, seguramente, os estudos da doutrina irão auxiliar e conduzir a sistemática de precedentes judiciais brasileira a um bom caminho.

O modo como são formados os acórdãos no Brasil é um outro desafio, pois precisa ser aprimorado para possibilitar a formação de rationes decidendi mais claras, tendo em vista que só assim os magistrados poderão ter um parâmetro seguro de precedentes vinculantes que lhes sirvam de paradigma para as suas decisões.

Ademais, não podemos deixar de observar que uma teoria dos precedentes vinculantes bem sucedida é aquela que é aplicada pelos magistrados, o que significa que é necessário que os juízes e os tribunais brasileiros adquiram a consciência da importância de haver maior estabilidade nos entendimentos judiciais.

Só assim teremos um país com maior nível de segurança jurídica e mais propício ao planejamento jurídico das pessoas e empresas que aqui vivem ou atuam.

Um outro aspecto importante do presente trabalho é observar que as possibilidades de superação de um precedente judicial estão no cerne da discussão de como otimizar o funcionamento do sistema judicial brasileiro por meio dos precedentes vinculantes.

Se por um lado, não podemos pensar em uma sistemática judicial em que os precedentes sejam imutáveis. Por outro, não devemos imaginar uma em que os precedentes sejam excessivamente flexíveis. E isso porque, no primeiro caso, estaríamos acabando com as possibilidades de modificação do direito, algo essencial a uma sociedade em rápida e constante modificação, como a nossa, ao passo que, no segundo, estaríamos desfigurando a própria ideia de precedentes obrigatórios.

Por tal razão, acreditar que acontecimentos como uma modificação legislativa, uma declaração de inconstitucionalidade de um dispositivo legal que fundamentou a criação de um precedente ou o afastamento da aplicação de um precedente por este ser considerado como “manifestamente injusto” ou “impossível de ser replicado a casos semelhantes” devam ser argumentos suficientes para levar o precedente a uma nova discussão no tribunal que o formou é algo que favorece uma solução equilibrada para o problema da rigidez das possibilidades de superação de precedentes judiciais.

A grande questão é fazer com que os magistrados não se utilizem das ideias de “injustiça manifesta” e de “impossibilidade de replicação de um precedente em situações semelhantes” para simplesmente não aplicarem os precedentes judiciais com os quais não concordam.

Mas isso só o tempo dirá.

De nossa parte, acreditamos que o novo CPC é muito bem-vindo e é uma novidade que reúne as condições necessárias para obter sucesso no seu intento de otimizar a atividade jurisdicional no Brasil, trazendo-lhe mais previsibilidade, celeridade e isonomia.

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