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B. Kutadgu Bilig’de Yer Alan İslâmi Unsurlar

1. Ayetler

As disciplinas têm origem na história do desenvolvimento da ciência e das universidades que iniciaram o processo de sua constituição formal e criaram os programas nos quais o conhecimentos científicos estão organizados (GOMES, 2001). Assim sendo, o ponto de partida das reflexões em torno do conceito de disciplina é a noção de campo científico desenvolvido por Pierre Bourdieu (2003).

Para esse autor, a noção de campo inclui a ideia de um campo de forças e de lutas que buscam transformá-lo. O campo de produção tem estrutura que opõe dois

7 As interações, no contexto desta pesquisa, se referem àquelas que ocorrem entre ciências, no sentido amplo do termo, que poderá, portanto, ser substituído por outros como disciplina, área ou campo, que terão significados equivalentes.

campos: o de produção erudita (que produz bens culturais destinados a produtores de bens culturais) e o da indústria cultural (cujos bens culturais se destinam a não produtores). O campo de produção erudita tende a definir as normas de produção e os critérios de avaliação de seus produtos, sendo que o grau de autonomia desse campo pode ser medido por essa capacidade. Nesse campo de produção, o reconhecimento é concedido pelo grupo de pares, os quais são, ao mesmo tempo, clientes privilegiados e concorrentes. Tal funcionamento é facilmente identificado no campo científico. O campo científico seria, então, um lugar de concorrência pelo monopólio da autoridade científica, ou da competência científica, com a autoridade de quem tenha recebido da sociedade a autorização para falar e agir. O próprio funcionamento do campo científico produz e supõe uma forma específica de interesse, com a finalidade de adquirir bens de valor simbólico expressos em prestígio, celebridade e reconhecimento dos pares. Estes são pouco inclinados a reconhecer o valor do produtor, garantindo seu valor social, sem discussão ou exame, em função do valor distintivo e da originalidade da contribuição dada aos recursos científicos já acumulados. A produção e circulação dos bens científicos são asseguradas por um conjunto de instituições, entre elas o periódico científico (BORDIEU, 1983).

As metáforas utilizadas por Klein (1990) para se referir a uma disciplina associadas a ideias geopolíticas remetem à idéia de campo científico de Bourdieu de “disputa de território”; “propriedade privada”; uma “ilha” com fronteiras patrulhadas; um “império”; uma “oligarquia”; uma “divisão territorial” com domínios científicos separados; “feudos” com política dominante de “protecionismo” ocupados por grandes “colmeias” de caprichosos especialistas que criam um “nacionalismo acadêmico” e mantêm intacto o domínio das hipóteses. O termo disciplina, na acepção em que se relaciona ao conhecimento acadêmico-científico, está associado, segundo Klein (1990), a várias forças, como: a evolução das modernas ciências naturais, a “cientifização” geral do conhecimento, a revolução industrial, os avanços tecnológicos e a reforma agrária. Sua formulação inicial, de forma significativa, se deu nas áreas de teologia e artes (Paris), direito (Bolonha) e medicina (Salerno), no final da Idade Média, e culminou com o surgimento de vários ramos ou especializações no âmbito da ciência, no século XIX. Ao longo do século XX, se desenvolveu mais ainda graças ao progresso da pesquisa científica (MORIN, 2002). Como resultado desse processo, a última década do século XX, contava com

mais de 8.500 campos definidos e mais de 4.000 disciplinas identificadas a partir das subdivisões do sistema científico (KLEIN, 2004).

No âmbito acadêmico, o termo disciplina pode ter o mesmo significado de ciência, ou seja, conjunto de “ferramentas, métodos, procedimentos, exemplos, conceitos e teorias que explicam coerentemente um conjunto de objetos ou assuntos” que são “reformulados periodicamente por contingências externas e por demandas intelectuais internas” (KLEIN, 1990, p. 104). Pode significar, ainda, um “conjunto de conhecimentos em cada cadeira de um estabelecimento de ensino”, ou, simplesmente, uma “matéria de ensino” (FERREIRA, 1996). Para Sommerman (2006), o termo representa um recorte do saber ou “o aprendizado ou o ensino de uma ciência, seguindo as regras e métodos da ciência a que corresponde” (SOMMERMAN, 2006, p. 25).

Cada disciplina tenta “uma aproximação da realidade humana segundo a dimensão que lhe é própria, tendo o homem como centro comum” (GUSDORF, 2006), apresentando diferentes padrões de formalidade e organização, classificados segundo critérios como: grau de especificidade do objeto e rigor matemático; nível de codificação; peso paradigmático; grau de consenso; se forte ou fracamente estabelecidas; se com funções muito definidas ou abertas à interdependência entre elas (KLEIN, 1990). Para Nicolescu (2001), o que determinará o “grau de disciplinaridade” de uma disciplina é a maior ou menor escala que atenda aos postulados da ciência moderna. Segundo esse autor, somente a física “satisfaz inteira e integralmente” aos três postulados relativos a objeto, teoria e metodologia próprios (NICOLESCU, 2001, p. 12).

Em uma visão epistemológica mais ampla, a definição de Morin (2002), apresenta a disciplina como:

uma categoria que organiza o conhecimento científico e que institui nesse conhecimento a divisão e a especialização do trabalho respondendo à diversidade de domínios que as ciências recobrem. Apesar de estar englobada num conjunto científico mais vasto, uma disciplina tende naturalmente à autonomia pela delimitação de suas fronteiras, pela linguagem que instaura, pelas técnicas que é levada a elaborar ou a utilizar e, eventualmente, pelas teorias que lhe são próprias (MORIN,2002, p. 37).

Na perspectiva sociológica de Vakkari (1994), as concepções a respeito da estrutura e do escopo de uma disciplina “representam sempre construtos sociais que determinam a inclusão de certos objetos nesse domínio e a exclusão de outros”,

definindo assim a organização interna e as fronteiras de um campo de pesquisa ou disciplina (VAKKARI, 1994, p.1). As disciplinas são constituídas por grupos de pessoas que têm metas intelectuais comuns, sendo, como qualquer grupo social, subculturas que frequentemente são incompreensíveis ou impenetráveis para não iniciados (WINTER, 1996, apud NEVES; CRUZ, 2000). Assim, falar de “física” ou “biologia”, segundo exemplo de González de Gómez (2003), não se está referindo à representação do conhecimento da física ou da biologia de valor epistêmico, mas a uma estrutura organizacional institucionalizada que negocia critérios, interesses e objetivos dos pesquisadores e dos setores de demanda, em nível da política científica.

Entretanto, a natureza de uma disciplina pode ser caracterizada, ou diferenciada de outra disciplina, segundo Heckhausen (2006), pelos critérios abaixo, nem sempre bem definitivos, conforme explica o próprio autor:

domínio material – conjunto dos objetos dos quais se ocupam. Muitas disciplinas se sobrepõem neste domínio;

domínio de estudo – ângulo específico de seu domínio material. Noção vagamente definida que depende da constituição de uma dada disciplina;

nível de integração teórica – construção da “realidade” de seus domínios em termos teóricos, ou seja, seus conceitos fundamentais e unificadores devem ser abrangentes o suficiente para explicar e prever os fenômenos de seu domínio de estudo. Define a maturidade da disciplina e é o critério mais importante de identificação de uma disciplina;

métodos próprios – para apreender e transformar os fenômenos. Uma disciplina se torna autônoma quando aperfeiçoou seus próprios métodos, que devem ser adaptados à natureza do domínio de estudo, com correspondência entre aplicação concreta dos métodos e as leis gerais no plano teórico.

instrumentos de análise – apoiam-se em estratégia lógica, nos raciocínios matemáticos e na construção de modelos de processos. Aplicam-se a diversos domínios e são critérios neutros;

aplicações – orientação para a aplicação e a utilização prática no campo de atividade profissional.

contingências históricas – momento por que passa a disciplina em seu processo de evolução histórica, no qual interferem tanto a lógica interna do domínio de estudo quanto forças exteriores (HECKHAUSEN, 2006).

Cada disciplina busca atender aos critérios elencados e desenvolvem até mesmo formas de comunicação próprias, buscando respostas para os problemas na segmentação e no aprofundamento dos estudos no interior de suas próprias teorias e metodologias (JAPIASSU, 1976). Essa organização da ciência em disciplinas, ou disciplinaridade, foi definida por Heckhausen (2006) como

a exploração científica especializada de determinado domínio homogêneo de estudo, exploração essa que consiste em fazer brotar conhecimentos novos que se vão substituir a outros mais antigos (HECKHAUSEN, 2006, p. 80)

Japiassu (1976), complementando definição de Heckhausen8, diz que essa

exploração científica é

o conjunto sistemático e organizado de conhecimentos que apresentam características próprias nos planos do ensino, da formação de métodos e das matérias (JAPIASSU, 1976, p. 72).

Como exemplo prático de uma pesquisa disciplinar, Domingues (2005) cita o estudo do som feito no âmbito de diferentes disciplinas: na física – vibração e amplitude (acústica); na fisiologia – mecanismos de produção (órgãos fonadores); na linguística – significante e geração de significação; na música – ritmo, melodia, harmonia e timbre. Uma vez recortado, passa a ser exclusivo a um campo disciplinar específico.

Os desenvolvimentos alcançados pelas ciências por meio dos métodos e teorias disciplinares são inegáveis (MORIN, 2002). O quadro atual mostra que no séc. XX houve uma enorme “inflação de conhecimento” − profusão de disciplinas e um número tal de cientistas e de publicações em livros e revistas especializadas −, que supera todas as épocas históricas (DOMINGUES, 2005). Por outro lado, são também conhecidos os obstáculos e as barreiras epistemológicas erguidas pelas disciplinas à expansão do conhecimento, que levaram à sua fragmentação cada vez mais acentuada, gerando a superespecialização (MORIN, 2002). Como consequência houve um grande distanciamento da ciência em relação à realidade complexa (JAPIASSU, 1976).

O contexto científico no qual se fortaleceu a disciplinaridade mostra o mundo real em partes, onde os objetos estudados pela ciência são “delimitados, recortados e franqueados a alguns poucos iniciados, sendo o recorte menos um dado de fato

8 Trata-se de publicação de tradução do original publicado em 1972 pela OCDE: Discipline et Interdisciplinarité. In: L’Interdisciplinarié: problème de l’enseignement et de recherche dans les universités, em Paris.

ou de realidade do que um artifício do engenho humano, construído com as ferramentas do pensamento e os dispositivos do sujeito” (DOMINGUES, 2005, p. 21). Atualmente, ninguém domina seu campo de conhecimento ou especialidade e, simultaneamente, a obsolescência dos saberes vem aumentando em taxas exponenciais, Os campos disciplinares tornam-se cada vez mais estreitos, dificultando ou impossibilitando a comunicação entre eles (NICOLESCU, 2001). Uma crítica ao desenvolvimento especializado moderno é apresentada por Gusdorf (2006a):

O especialista, no sentido estreito e mesquinho do termo, é o homem de um só saber, modesto oásis perdido na imensidão de um deserto de ignorância. Depois de falar sobre o seu pequeno domínio, ele não tem mais nada a dizer (GUSDORF, 2006a, p.55).

Afinal, uma ciência completamente dividida em partes, muitas vezes incomunicáveis, pode fomentar situações indesejadas nas relações humanas. A desintegração do saber tem consequências para toda a civilização moderna, que é dominada por este tipo de desenvolvimento do conhecimento científico, acarretando uma distorção do espaço mental responsável por patologias do “sub-homem” contemporâneo (GUSDORF, 2006a; ZAN, 2006). Como resultado do questionamento crescente sobre a natureza, o papel e os resultados apresentados pelas inúmeras especializações, começaram a surgir, no início do século XX, desenvolvendo-se com maior força a partir dos anos 50, novas iniciativas em busca de alternativas para a integração da ciência. Surgiram, então, várias propostas de aproximação de disciplinas chamadas de multi ou pluridisciplinaridade, e, posteriormente, a inter e a transdisciplinaridade (NICOLESCU, 2000; DOMINGUES, 2005).

Essas novas abordagens, é necessário esclarecer, não negam as disciplinas, pois estão ancoradas nelas, como bases para o seu desenvolvimento. O mais importante, segundo Gusdorf (2006a), é a preocupação com a unidade do saber, algo que somente é encontrado no verdadeiro cientista, o qual, diferentemente do especialista, “ao mesmo tempo em que aprofunda a inteligibilidade deste ou daquele domínio do conhecimento, é capaz de situar o seu saber na totalidade do saber, isto é, no horizonte global da realidade humana” (GUSDORF, 2006a, p. 56).

O importante é “ecologizar” as disciplinas, ou seja, “levar em conta tudo o que lhe é contextual, aí compreendidas as condições culturais e sociais”, diz Morin

(2002, p.49). Não se podem quebrar as clausuras, como acontece na vida, na ciência e na disciplina, conclui o autor; não se pode jogar fora o que foi criado pelas disciplinas, que precisam ser abertas e fechadas, ao mesmo tempo.