Neste contexto, e conforme é assumido pela OSCE, o policiamento de proximidade, através das parcerias com outras autoridades públicas e comunidades para a resolução proactiva de problemas, pode contribuir de forma tangível e duradoura para a estratégia de prevenção da radicalização e do terrorismo (OSCE, 2014, p. 21).
No entanto, conforme é referido pela mesma Entidade, devemos ter expetativas realistas sobre os resultados que o policiamento de proximidade pode oferecer em resposta a um problema geralmente de baixa incidência, altamente complexo e multidimensional, e, por outro lado, o policiamento de proximidade deve ser inserido numa estratégia abrangente, coerente e compatível com a desejada proteção dos direitos humanos e com o combate aos fatores que propiciam a radicalização (OSCE, 2014, p. 21).
A prevenção da radicalização passa, assim, por uma abordagem holística e com a intervenção, cooperação e coordenação de uma grande variedade de agências, de parceiros e das próprias comunidades, incluindo a Polícia.
Quais são, então, os benefícios que o policiamento de proximidade pode trazer na prevenção da radicalização?
São várias as vantagens do policiamento de proximidade que podem ser identificadas na prevenção da radicalização. A OSCE identifica as seguintes:
Ancorar o policiamento no respeito pelos direitos humanos e pelo Estado de Direito;
Melhorar a perceção pública e a interação com a Polícia; Melhorar a comunicação com o público em contraterrorismo; Aumentar a vigilância pública e a resiliência das comunidades;
Melhorar a compreensão policial das comunidades como base para melhor se relacionar e cooperar com estas;
Ajudar a identificar e abordar questões e queixas de segurança comunitária;
56
Facilitar a identificação atempada e encaminhamento de situações críticas; e
Melhorar as relações entre a Polícia e indivíduos ou grupos difíceis de alcançar ou não envolvidos (OSCE, 2014, p. 21).
Conforme referem Cymerman e Oreg, o maior desafio são as células criadas localmente e “qualquer batalha contra uma ideologia radical, dirigida ao coração e à mente de alguém, deve envolver uma abordagem social e comunitária não apenas na fase posterior ao ato (…) mas também no âmbito da prevenção e deteção” (H. Cymerman e A. Oreg, 2018, p. 177).
Desta forma, o policiamento de proximidade contribui para uma correta adaptação das soluções dos problemas às comunidades, contribui para uma maior coesão e resiliência destas, aumenta a confiança na Polícia, melhora as relações e a cooperação, aumenta a credibilidade e legitimidade da Polícia, aumenta e melhora as sinergias com as outras entidades e parceiros, aumenta a quantidade e qualidade da informação e promove a satisfação dos polícias através de um maior aumento de relações positivas com a comunidade (OSCE, 2014, p. 78)
De forma prudente, a OSCE identifica igualmente alguns perigos na aplicação do policiamento de proximidade na prevenção da radicalização, dos quais se deve ter consciência e que se devem evitar, como os seguintes:
Excesso de confiança no policiamento de proximidade;
Estigmatizar comunidades particulares através do engajamento seletivo; Securitizar o relacionamento com as comunidades;
Utilizar o policiamento de proximidade para “espiar” a comunidade; Riscos para as pessoas envolvidas com a Polícia;
Dar involuntariamente a sensação de proteção ou apoio a determinados cidadãos comprometendo o exercício da sua influência positiva na comunidade, ou alienar outros membros da comunidade (OSCE, 2014, p. 22).
De particular relevância para o nosso trabalho, e para o contexto de Portugal, onde existe a proliferação de novas mesquitas de comunidades muçulmanas constituídas por fluxos de imigrantes de outras origens, para além da comunidade muçulmana nativa, conforme anteriormente referido, é o sucesso
57
da abordagem do policiamento de proximidade aos líderes religiosos e às comunidades baseadas na fé.
Neste sentido, são identificados alguns fatores críticos de sucesso, para os polícias de proximidade, como a necessária compreensão das comunidades do ponto de vista local, demográfico e complexidade; a rejeição de estereótipos e preconceitos; a demonstração de conhecimento e de sensibilidade para as questões religiosas, ainda que não partilhem a mesma religião; deixar claro que a sua religião não é a causa do terrorismo e da radicalização, e desafiar essa associação através do relacionamento dessa comunidade com o público; a demonstração de que a atividade de prevenção da radicalização se dirige à segurança das comunidades; a garantia do envolvimento de todas as religiões e mobilizá-las para a denúncia da violência e a expressão da solidariedade com as vítimas (OSCE, 2014, p. 147).
No relatório da OSCE, elaborado por Peter Neumann45, relativo às ideias,
recomendações e boas práticas de prevenção do extremismo violento e radicalização para o terrorismo, são analisados várias iniciativas e estudos de caso, de vários países, identificando boas práticas com incidência particular na prevenção (OSCE, 2017, p. 8).
Alguns países possuem mais experiência do que outros nesta temática. Mas, conforme é referido no relatório, não existe um programa ou atividade tipo que possa ser simplesmente copiado, uma vez que estes refletem determinadas condições e contexto específicos, sendo necessário o seu estudo cuidadoso e adequada adaptação (OSCE, 2017, p. 44).
No que se refere especificamente ao papel das Polícias na prevenção da radicalização é salientado o modelo do policiamento comunitário. Assim, considera-se que o policiamento é facilitado, e as comunidades sentem-se mais seguras, se as forças policiais não forem vistas como autoridades distantes que só aparecem quando há problemas, mas fazem parte das comunidades que servem, constroem relações de confiança, em especial com aquelas que tradicionalmente são mais desconfiadas das autoridades (OSCE, 2017, p. 51).
Assim, o modelo de policiamento comunitário deve ser implementado com base em três princípios centrais – de parceria com a comunidade, da orientação
58
para a resolução de problemas e da orientação para a proatividade e prevenção, (OSCE, 2017, p. 52). Através deste pretende-se aumentar a resiliência da comunidade, aumentar a cooperação e atenuar as tensões e a polarização, por exemplo, após a ocorrência de um ataque terrorista (OSCE, 2017, p. 51).