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Belgede A‹LE SOSYOLOJ‹S‹ (sayfa 130-145)

Os programas desenvolvidos ou estimulados pelos governos do PT na área de educação ajudaram a reativar a oferta de vagas no sistema de ensino superior, sobretudo incluindo uma parcela significativa de jovens trabalhadores. No entanto, o problema estrutural da qualificação da força de trabalho brasileira persiste, resultado de incompatibilidades nos ritmos de universalização da educação e demanda do mercado. Segundo pesquisa da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), 52% da população economicamente ativa (PEA) entre 15 e 29 anos não estudam. Dos 18 aos 24 anos, idade ideal para cursar o ensino superior, apenas 25% dos homens e 22% das mulheres estudam (SNJ, 2013).Marília Sposito e Raquel Souza, a partir dos dados da PNAD 2011, indicam que

mais de 22,7 milhões de adolescentes e jovens com idade entre 15 e 24 anos trabalhavam, procuravam por trabalho ou desempenhavam atividades domésticas (conciliando ou não os estudos), o que corresponde a 68,8% dos indivíduos desta faixa etária […] ao passo que, entre os de 18 a 24 anos, esse percentual era de 83,9% (SPOSITO; SOUZA, 2014, p.47).

Adalberto Cardoso (2008) acredita que se configurou no Brasil um padrão

desenvolvimentista no percurso social dos jovens, marcado pela importância mínima dada à

educação na configuração das oportunidades iniciais de vida. O autor distingue esse padrão do chamado padrão fordista de transição, típico dos países de capitalismo avançado e caracterizado por forte controle, por parte das famílias e do Estado, dos processos gerais de qualificação para o trabalho nos quais a escola teve lugar central, sendo o principal elemento de mobilidade social e de geração de oportunidades de vida.

Ambos os padrões entraram em crise nos últimos vinte anos. O que caracteriza o mundo contemporâneo é o fato de o desemprego juvenil retardar as trajetórias dos jovens, empurrando o emprego para cada vez mais tarde na biografia dos indivíduos, enfraquecendo com isso a coincidência entre vida adulta e independência financeira,

e com esta a responsabilidade pelo provimento de si e de sua própria família. Com isso, a débâcle do desenvolvimentismo, iniciado na década de 1990 e ainda em consolidação, não significou o fim da precariedade do processo de transição da escola para o trabalho. Ao contrário, aumentou, e muito, as incertezas dos jovens quanto a seu lugar na ordem social. (CARDOSO, 2008, p.571)

De modo geral, dados do IBGE registram que o número médio de anos de estudo das pessoas com faixa etária de 10 anos ou mais teve um salto de 5,2, em 1995, para 7,2 em 2009. Apesar do progresso notável, ele ainda é insuficiente quando comparado aos índices dos países desenvolvidos (SOUZA; LAMOUNIER, 2010). Estes avanços foram mais eloquentes nas camadas mais populares, visto que aqueles que se encontram no topo da pirâmide já apresentavam índices próximos do ideal. Para Amaury de Souza e Bolívar Lamounier (2010), a educação é o símbolo por excelência da identidade de classe média e é vista como um dos principais fatores de ascensão social.16 Uma das conclusões a que chegaram os autores é que o diploma universitário, por conta de um certo descrédito quanto a sua utilidade prática, é insuficiente para a ascensão social.

Tais constatações não parecem suficientes para reduzir a demanda por educação, mas a consciência de que o diploma de curso superior por si só não garante emprego nem salário motiva a busca por maior especialização, visando conquistar uma posição compatível com a titulação formal. (SOUZA; LAMOUNIER, 2010, p.63)

Márcia Lima (2012) reconhece que o diploma permanece como um divisor de águas significativo na trajetória ocupacional dos indivíduos. Baseada nos dados da PNAD, a pesquisadora conclui que a qualidade da inserção dos diplomados é caracterizada por, além da manutenção de níveis de renda significativamente mais elevados, menores taxas de desemprego e de informalidade. A taxa de participação, que expressa a propensão à atividade, é também maior entre os graduados do que entre os não-graduados. Para Lima,

a relação entre educação e trabalho pode ser compreendida sob diferentes aspectos. Em primeiro lugar, a aquisição de educação é um atributo que potencializa as vantagens dos indivíduos em termos de qualificação e produtividade propiciando maiores retornos desse investimento em termos de inserção ocupacional, renda e status (LIMA, 2012, p.2).

A pesquisadora alerta que o mercado de trabalho brasileiro enfrenta, por um lado, em setores específicos, a carência de mão de obra especializada e, por outro, o aumento da

16 Souza e Lamounier (2010) baseiam-se na Pesquisa sobre Classe Média 2008, pesquisa quantitativa realizada entre os dias 8 e 12 de novembro de 2008. Foram realizadas entrevistas com 2002 eleitores de 16 anos ou mais, em 141 municípios do país.

escolaridade média dos trabalhadores sem efeitos na sua mobilidade ocupacional (LIMA, 2012). De acordo com Cardoso (2008), há um rompimento do padrão desenvolvimentista de inserção ocupacional e é preciso insistir que as mudanças recentes na estrutura econômica afetaram as chances de entrada no mercado dos jovens, mas não pioraram a já precária configuração do mercado de trabalho brasileiro, uma característica marcante do desenvolvimentismo, segundo o autor.

Vemos, sobretudo nos cursos tradicionais, o ritmo descompassado com que se reproduzem as carreiras em relação às necessidades do mercado. A impossibilidade de transformar anos de investimento financeiro e tempo de estudo no rompimento definitivo do

teto da classe média baixa afeta, portanto, milhares de jovens. Um exemplo trivial vem de um

dos cursos universitários mais prestigiados por estudantes de todas as classes, o de Direito. Um balanço feito pela FGV Projetos aponta que nas últimas nove edições do Exame de Ordem, 397 mil candidatos se inscreveram para a prova. Destes, 46% conseguiram a aprovação. Entre os aprovados, 44% obtiveram o resultado na primeira tentativa; 80% conseguiram em até três tentativas (FOLHA DE S. PAULO, 2014b). A aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, como se sabe, é obrigatória para quem deseja seguir a carreira de advogado.

Em um estudo do final da década de 1990, Marcio Pochmann discute a questão do primeiro emprego no contexto de crise daquele período. Comenta o economista:

o esforço do jovem, especialmente aquele pertencente às famílias de baixa renda, não é pequeno, considerando que somente 17% dos estudantes que ingressam na escola conseguem completar o ensino fundamental (oito anos de estudo) e ainda só 11% terminam o ensino superior. Como se pode notar, o verdadeiro funil da escola brasileira é fonte de produção e reprodução de desigualdades. (POCHMANN, 2000, p.27)

A colocação no mercado de trabalho é a prova de fogo para a formação educacional do jovem e para a satisfação da ambição por ascensão social. Segundo Pochmann (2000), havia uma “regressão nas formas de contratação da mão de obra no Brasil nos anos 1980 e sobretudo a partir de 1990, coincidentemente com aquele modelo econômico de inserção passiva na economia mundial”

a maior parte dos novos problemas do jovem no mercado de trabalho emerge das profundas transformações ocorridas na economia brasileira nos anos 90. Por isso, é importante que se retorne ao ano de 1990, quando a implantação das bases de um novo modelo econômico, caracterizado pela inserção externa e competitiva, terminou rompendo com o movimento interno de estruturação do mercado de trabalho (POCHMANN, 2000, p.33).

Lima (2012) aponta uma melhora após o movimento de reestruturação produtiva dos anos 1990, caracterizado por um significativo ganho de produtividade sem uma consequente elevação do nível de emprego. Com a retomada do crescimento, aquelas tendências do mercado de trabalho teriam sido estancadas ou revertidas. O emprego formal, inclusive, volta a crescer, ao passo que os níveis de renda, puxados por política de elevação do salário mínimo acima da inflação, aumentaram. Complementarmente, ao longo de toda a primeira década dos anos 2000, o crescimento dos níveis de renda foi relativamente maior para os mais pobres e, portanto, na base do mercado de trabalho, corroborando a análise de Singer (2009).

Este avanço no nível de emprego formal, contudo, não é acompanhado de grandes transformações em relação ao acesso dos diplomados ao primeiro emprego. O mercado de trabalho para quem possui ensino superior é relativamente mais estruturado e institucionalizado. No que se refere à relação entre função desempenhada e qualificação, entretanto, o mero acesso ao diploma não garante instantaneamente a colocação em ocupações que efetivamente demandem tal qualificação. Entre os fatores destacados pela pesquisa estão a má qualidade de cursos e instituições e a utilização de estratégias de manutenção do emprego nas quais o ensino terciário funciona de forma defensiva, como um recurso de manutenção do emprego e, talvez, de progressão na carreira, mas em ocupações menos complexas e que não demandam qualificação específica (LIMA, 2012).17

É preciso destacar que esses percursos de classe estão fortemente condicionados por aqueles que, tendo completado o colegial, nunca chegaram a cursar o ensino superior. Se desconsiderarmos esses últimos, o quadro muda bastante. Dos graduados nascidos em 1980, por exemplo, 80% estavam nas classes superiores ou médias urbanas aos 25 anos. Dos nascidos em 1970, essa proporção era de 78%. Logo, o que parece estar ocorrendo é o fechamento gradativo das posições superiores da hierarquia social aos não portadores de diploma universitário, combinado com o aumento da proporção de titulados na população total, que parece estar aumentando a competição por aquelas posições. (CARDOSO, 2008, p.600)

A escassez de profissionais com formação específica tende a supervalorizar certas carreiras. Dada a expansão do contingente de titulados e as suas características em termos de área de formação, o excesso de profissionais com formação redundante tende a inundar o mercado de trabalho com indivíduos que não necessariamente exercerão atividades na sua área específica e com níveis de renda compatíveis. Nesse caso, na seleção de trabalhadores para as ocupações em que há excesso de oferta de profissionais, assistimos a um quadro no qual

17 A pesquisa cita como exemplo que, para o operador de telemarketing “progredir na carreira” e se tornar um gerente de telemarketing muitas vezes é necessária uma graduação. Entretanto, essa graduação pode ser tanto em administração quanto em gerontologia.

critérios alternativos e/ou complementares ao diploma tornam-se cada vez mais relevantes para a seleção de trabalhadores. De todo modo, as demandas presentes do mercado de trabalho refletem, segundo Álvaro Comin e Rogério Barbosa (2011), “o estado atual do sistema produtivo, que, por sua vez é o resultado dos investimentos já realizados no passado”. Portanto, para esses autores, é razoável assumir que o forte aquecimento do mercado de trabalho, com aumento mais que proporcional nos estratos salariais mais baixos, colaborou de forma significativa para a rápida expansão do ensino superior na década de 2010.

A grande questão é saber até que ponto o crescimento do número de indivíduos com diplomas de nível superior vem se traduzindo (ou poderá vir a se traduzir) em melhores oportunidades de trabalho, necessariamente associadas a ocupações e setores econômicos mais produtivos. Mesmo que se pudesse abstrair a enorme heterogeneidade qualitativa da educação recebida pelos milhões de novos diplomados no Brasil [...] o desejado encontro entre qualificações e ocupações não depende apenas da política educacional; diz respeito, em última instância, ao modelo de desenvolvimento econômico. (COMIN; BARBOSA, 2001, p.77)

Com base na PNAD, Comin e Barbosa (2001) analisaram a variação da média de anos de estudo entre 1995 e 2009 e notaram que a distribuição dos indivíduos quanto aos graus completos alterou-se significativamente18. Em relação ao conjunto de indivíduos no ensino superior, os dados apontam que o crescimento das vagas atingiu principalmente a população ocupada, sobretudo a população que trabalha mais de 40 horas semanais. O perfil etário desses estudantes sugere que são, na maioria, pessoas já há muito inseridas no mercado de trabalho, que retornam aos estudos em proporção cada vez maior. A tendência de envelhecimento da população no ensino superior é nítida: em 1995, 31% dos estudantes de graduação brasileiros tinham mais de 25 anos, enquanto em 2009 esse número já havia alcançado 40%. “Por ora, parece mais razoável trabalhar com a hipótese de que são a inserção profissional já alcançada pelos indivíduos e a busca por se manter e progredir no mercado de trabalho o que explica esse movimento de volta à escola” (COMIN; BARBOSA, 2011, p.79).

18 De acordo com Comin e Barbosa, “em 1982, a escolaridade média do brasileiro era de 3,5 anos de estudo; em 2009, esse valor chegou a 6,1. Em 27 anos, a educação formal da população brasileira quase dobrou. Considerando os níveis educacionais completos, em 1995, quando a média de anos de estudo da população como um todo já era de 5,2 anos, 78,4% não possuíam nenhum nível de ensino completo, 9,6% tinham o ensino fundamental completo, 8,8% o ensino médio completo e 3,3% o ensino superior completo. Embora a variação da média de anos de estudo entre 1995 e 2009 tenha sido de pouco menos de um ano, a distribuição dos indivíduos, quanto aos graus completos, alterou-se enormemente: 59% não possuíam nenhum nível de ensino completo, 13,5% possuíam ensino fundamental, 21%, ensino médio e 6,5%, ensino superior. A quantidade de pessoas sem níveis de ensino completos reduziu-se em números absolutos e relativos, enquanto, paralelamente, os níveis de ensino mais elevados foram os que apresentaram crescimento mais acelerado, bem acima da média, dobrando sua participação relativa” (COMIN; BARBOSA, 2011, p.77).

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