4. BÖLÜM: BULGULAR
4.3. KADINLARIN AİLE YAŞAMINA İLİŞKİN BULGULAR
4.3.2. Aile İçi İlişkiler
O título desta dissertação evidencia a proposta de desenvolver uma análise metodológica sobre o programa adaptacionista. Tal proposta veio sendo galgada por meio dos diversos temas aqui apresentados. As discussões em torno desses temas foram motivadas pelo intuito de dispor, ao final desse longo processo, de um arcabouço conceitual a partir do qual o programa adaptacionista pudesse ser situado dentro do amplo debate sobre a evolução. Mas não apenas situado; também reconhecido como um programa de pesquisa que, de fato, traz contribuições para a biologia evolutiva, oferecendo explicações que majoram os valores cognitivos desse ramo da ciência.
Não coube aqui sustentar a tese de que as explicações adaptacionistas são as mais eficazes e têm maior credibilidade do que as alternativas existentes, com o intuito de fomentar seu amplo uso no meio científico. Em nenhum momento esse foi o foco dessa empreitada, mesmo porque essa tese é pouco plausível. Diferentemente disso, este estudo tentou mostrar que as explicações adaptacionistas têm seus valores cognitivos ampliados quando estão vinculadas às abordagens que se fundamentam em mecanismos evolutivos diferentes da seleção natural, bem como a conhecimentos bem estabelecidos. Isso permite a formulação das perguntas corretas diante dos fenômenos biológicos.
Por conseguinte, retomo a primeira epígrafe deste trabalho, pois penso ter seguido, mesmo que de uma forma um tanto quanto singela, a perspectiva popperiana expressa em uma analogia bastante significativa que afirma serem as teorias semelhantes a “redes, lançadas para capturar aquilo que denominamos ‘o mundo’: para racionalizá-lo, explicá-lo, dominá-lo. Nossos esforços são no sentido de tornar as malhas da rede cada vez mais estreitas.” (Popper, 2002, pp. 61-62). Mutatis mutantis, as malhas das abordagens formuladas dentro do arcabouço adaptacionista são estreitadas quando seus vínculos com outros mecanismos evolutivos, bem como com as leis naturais, permitem explicar, de forma plausível, vários fenômenos biológicos. Acredito que isso pôde ser visto na estrutura das Explicações Adaptacionistas Idealmente Completas.
Cumpre agora, com base em todas as referências que foram discutidas, propor uma reavaliação do programa adaptacionista, apresentado na primeira parte desta dissertação. Como ficou lá registrado, por adaptacionismo entende-se um tipo de programa que assume ser a seleção natural darwiniana o único processo – ou, ao menos, o principal – capaz de explicar,
coerentemente, tanto a existência e a função dos diferentes traços presentes nos organismos, como também o caso desses mesmos traços estarem (ou não) otimizados. Desse entendimento, há de se destacar dois aspectos que merecem atenção: 1) a otimização dos traços dos organismos; 2) a seleção como o principal processo evolutivo.
O aspecto (1) já foi bastante discutido neste trabalho e não há necessidade de se delongar por demais nesse tema. É suficiente dizer que na primeira parte desta dissertação foram apresentadas as críticas de Gould e Lewontin (1979) sobre o apelo às compensações (trade-offs) entre forças seletivas em conflito para explicar a presença de traços não otimizados nos organismos. No entender deles, isso não passa de um recurso ad hoc para salvar o programa adaptacionista. Mas também examinamos a réplica de Dennett (1995), segundo a qual, o que se deve analisar não são as características dos organismos em si mesmas, mas a referência ao grau ótimo, preconizado pela seleção natural, ou pela “Mãe Natureza”. O grau ótimo, contudo, sempre será limitado pelos materiais genéticos à disposição da seleção.
A seleção natural é como um bricoleur que, ao remodelar um artefato, tem em mente o melhor projeto para que esse artefato funcione da melhor maneira possível. Entretanto, os materiais à sua disposição o limitam e, nem sempre, ele poderá concretizar seu projeto de forma ótima. Essa é uma analogia que permite entender como a seleção natural otimiza as características dos organismos. Há de se aceitar que a resposta de Dennett é suficientemente boa para superar o impasse decorrente das críticas de Gould e Lewontin (1979), concernente ao apelo adaptacionista às compensações. Com essa resposta, é possível fazer as modificações pertinentes no que se refere à reavaliação do adaptacionismo no que tange, especificamente, ao aspecto (1), com o intuito de melhorá-lo.
É importante nos atermos agora ao aspecto (2) que, para os propósitos destas considerações finais, merece um pouco mais de atenção. Quando se afirma que algo é principal em relação a outras coisas, isso não implica exclusão dessas outras coisas. Dessa forma, dizer que a seleção é o principal processo evolutivo significa dizer que ela tem um
status diferenciado, com referência aos demais. Essa pressuposição não ignora, evidentemente, a importância e a influência dos outros mecanismos no processo evolutivo. Mas, o que garantiria esse caráter especial, atribuído ao processo descoberto por Darwin? Uma resposta, em poucas palavras, seria: o seu poder criativo.
Na seção anterior tematizamos esse poder criativo da seleção natural, que seria a capacidade de fazer com que uma característica nova apareça em uma população, aumentando a probabilidade de uma mutação ocorrer. Para tanto, a seleção mudaria o pano de fundo
genético sobre o qual os mecanismos de mutação e recombinação atuam para gerar variantes orgânicas (Godfrey-Smith, 2009b). Essa pressuposição, se verdadeira, já garante um status diferenciado ao processo darwiniano. Sem a ação da seleção, a diversidade das formas orgânicas, provavelmente, não seria tão exuberante.
Não obstante, Gould (2001) oferece uma explicação concernente ao aumento da complexidade orgânica que minimiza o pressuposto de que a seleção tem um poder criativo. Ela está pautada no que ele denominou “paredes direita e esquerda” e vincula-se à sua conhecida ideia de constrições que direcionam tanto processos filogenéticos quanto ontogenéticos. Sua argumentação se baseia em cálculos estatísticos cujos resultados são apresentados de forma assimétrica37 em torno de uma determinada medida de tendência central com dispersão para a direita ou para a esquerda dentro de sistemas completos.38 Essas tendências devem ser vistas como resultado da variação que se expande ou se contrai, em vez de entidades concretas que se deslocam numa direção definida. Elas complementariam as explicações de cunho evolutivo sem terem como referência as medidas estatísticas abstratas de valor médio ou de tendência central, os chamados tipos abstratos ou platônicos.
A parede esquerda indica o modo mais simples de existência orgânica em termos físicos, de modo que uma simplicidade ainda maior seria impossível. Considerando nesse cenário que os mecanismos de evolução já estejam presentes, a parede esquerda dá a margem de distribuição da variação com desvio para a parede direita da complexidade ou “tendência direcionada”, nas palavras de Gould. O processo inverso também é possível quando os limites da parede direita (complexidade máxima) dão a margem de distribuição da variação com desvio para a parede esquerda.
A espécie humana, por sua complexidade, encontra-se mais próxima dos limites da parede direita. Mas essa condição não lhe dá qualquer vantagem em comparação a outros organismos. Nós somos apenas mais uma espécie dentre tantas outras, com a única diferença
37 Uma distribuição assimétrica é semelhante à distribuição apresentada na figura 11 e pode ser positiva ou negativa. A figura 11 apresenta uma distribuição positiva; uma distribuição negativa teria a cauda (ver nota 39) voltada para o lado esquerdo. Já uma distribuição simétrica tem um eixo de simetria que divide o gráfico em duas partes iguais, com caudas, também simétricas, para ambos os lados. Nessa distribuição, há a coincidência dos valores da média, da moda e da mediana, que indicam onde os dados estão mais concentrados.
38 Em um sentido comum, pode-se assumir que a expressão ‘sistema completo’ faz referência a um conjunto de elementos interconectados, de modo a formar um todo organizado, no qual as partes ou os elementos mantêm relações entre si. Como se vê, essa expressão está vinculada à visão holista de Gould, segundo a qual os organismos devem ser entendidos como um todo complexo, um fenômeno único, isto é, irredutível a suas partes. Mas, nesse argumento, parece que ele leva essa concepção ao extremo, assumindo o pressuposto de que o conjunto de todos os organismos, do passado e do presente, forma um sistema completo. Cada espécie deve ser vista, então, como uma entidade concreta que se move em uma direção específica dentro desse sistema.
de que nos situamos no extremo de uma pequena cauda39 direita de complexidade (figura 11), mas como resultado de um processo acidental e não como resultado principal do processo evolutivo.
Figura 11 – retirada de Gould, 2001, p. 235.
Se Gould está correto quanto à sua explicação acerca do aumento da complexidade orgânica, a seleção natural perderia seu status especial e passaria a ser um processo evolutivo como os outros. Isso porque o poder criativo da seleção teria pouca influência dentro do cenário apresentado por Gould, tendo em vista que o aparecimento da complexidade orgânica – e mesmo o “retorno” a uma complexidade menor, limitada pela parede direita – se dá porque há uma tendência de aumento da complexidade demarcada pelos limites da parede esquerda, mas que também pode ser limitada pela parede direita, representando complexidade máxima. Além disso, o aparecimento das formas orgânicas tal qual conhecemos hoje é fortuito, tendo em vista que o processo evolutivo poderia produzir outras formas inteiramente diferentes. É nesse contexto que cabe a famosa experiência de pensamento de Gould sobre a hipótese de a árvore da vida ser replantada a partir da semente e criada do mesmo modo e sob condições similares. Não teríamos qualquer garantia de que os organismos resultantes seriam parecidos com os que conhecemos hoje.
39 Termo da estatística que faz menção a um desvio assimétrico para a direita ou para a esquerda em torno de uma determinada medida de tendência central.
Parede esquerda de complexidade mínima
PRÉ-CAMBRIANO