5. ĠSLAMDA KUTSAL MEKÂNLAR VE FONKSĠYONLARI
2.8. ÇAĞDAġ YORUMLAMALAR (ORYANTALĠSTLERĠN HADĠS HAKKINDAKĠ
2.8.2. Ġslâm Bilginlerince Goldziher‟e Verilen Cevaplar
Assustamo-nos quando informados sobre a ida dos representantes do INCRA à São Pedro de Cima. Desconhecíamos qualquer iniciativa deste tipo por lá e o movimento negro local, desde a movimentação pelo reconhecimento da comunidade como remanescente quilombola pela Fundação Cultural Palmares, não havia se articulado para a demarcação das terras. A reunião aconteceu em uma sala da escola municipal local.
O INCRA, como informado pela representante Luci Rodrigues, desde a promulgação do Decreto 4887 de 2003, realiza todo o processo que envolve a titulação dos territórios remanescentes quilombolas, direito previsto no artigo 68 do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988. Acontece que o processo deve ser autorizado pela comunidade, a decisão deve vir sempre dos próprios sujeitos. Esse primeiro encontro se colocou como uma exposição sobre todo este processo de titulação das terras, levantando os pontos mais importantes para que a comunidade tomasse uma decisão consciente.
Foi assim que todo esse complexo processo foi exposto. Ali se falou do direito territorial quilombola conquistado historicamente, do papel do INCRA nas demarcações e de cada etapa dos estudos necessários. Os moradores olhavam atentos a cada palavra. Sobretudo, foi esclarecido que as terras deveriam ser de propriedade coletiva, e que logo, não poderiam ser mais vendidas. Falou-se também em expropriação, quando necessário. Foi nesse caminho que a conversa começou a ficar séria e muitos moradores se manifestaram.
Percebemos que a ideia da identidade quilombola, ao menos numa visão dos
“remanescentes dos antigos quilombos”, não dava conta de definir toda complexa formação
da comunidade, que na verdade é fruto de uma mistura de sujeitos, em contextos históricos também distintos. Algumas falas, inclusive, apontavam os quilombolas como um grupo específico e não como a própria identidade que representasse todos de São Pedro de Cima. Ficou claro que a questão trazia a tona uma zona de conflito entre as famílias negras e não negras. Assim, tudo aquilo que há pouco nos referimos sobre a comunidade inclui essa diferença demarcada racialmente e espacialmente.
Nesse caminho nos perguntamos: é possível falar de uma territorialidade quilombola como algo que inclua todos esses diversos sujeitos? A recusa da titulação coletiva proposta pelo INCRA nos levaria a negar uma territorialidade que incluísse toda a comunidade e que apontasse para uma identidade quilombola bem definida e afirmada por todos. No entanto, todas as manifestações comunitárias que narramos nos levaria rapidamente a afirmar que existe um elemento em comum que permite aos moradores referenciarem sua vida naquele lugar.
Devemos retornar as considerações feitas sobre os núcleos familiares: a existência destas subdivisões não são meros acontecimentos do tempo e espaço – meras distâncias espaciais –, senão que demarcam claramente as diferenças e desigualdades que constituem as das relações de poder do território comunitário. Há, por suposto, uma opressão das famílias não negras sobre as negras. Não por acaso, afinal esta lógica de poder configurada – racista – habita o Brasil desde sua existência enquanto colônia60.
60 Aqui não só demarcamos uma desigualdade de poder e visibilidade, mas também uma desigualdade estrutural,
Lembramo-nos aqui de um artigo de Carneiro (2008) sobre a comunidade de São Pedro. Nele o professor reflete sobre a religiosidade da comunidade como metáfora das relações desiguais entre negros e não negros. Retoma a história da chegada posterior da famílias não negras, atraídas pelas terras baratas, para descrever como o processo de territorialização destes sujeitos implicou numa imposição política e religiosa, visto que os espaços religiosos e de liderança passam a ser ocupados pelos não negros.
A possibilidade de demarcação das terras pelo INCRA trouxe a tona este campo de luta invisível, ou ao menos, invisibilizado no cotidiano camponês, nas festas e na solidariedade comunitária. Após a reunião, houve uma mobilização das famílias não negras contra a demarcação das terras, com um abaixo assinado inclusive citado na missa da igreja local. Não obstante, as famílias negras, receosas em não poderem vender mais suas terras, não se movimentaram a favor da demarcação das terras.
Tempos depois, em outubro do mesmo ano, o Ministério Público agendou uma nova reunião com as famílias negras, desta vez na cidade de Divino. Surpreendentemente, as famílias não negras foram em peso à reunião, enquanto as famílias negras tiveram poucos representantes. Pouco se avançou no debate sobre a demarcação.
Sobre esse processo devemos sublinhar dois pontos: primeiramente, que a movimentação para a demarcação das terras, ainda que não tenha sido iniciada nessa ocasião e que não tenha sido totalmente apropriada pelas famílias negras, fez com que estas afirmassem seus direitos, o que de alguma forma significa algum tipo de ruptura na estrutura de poder vigente; por segundo, ficou evidenciada certa incapacidade destas instituições em trabalharem
com territórios que sinalizam situações para além do rótulo de “remanescentes”, onde a
mistura e o conflito são parte constitutiva dos processos de territorialização.
Acreditamos que o direito a titulação das terras como remanescentes quilombolas não só é um direito constitucional como também, no caso de São Pedro de Cima e de tantas outras comunidades Brasil afora, um mecanismo que impossibilita as grilagens e o avanço dos territórios do agronegócio, e logo, a perpetuação de um modelo agrário coronelista. Assim, uma ferramenta a favor da justiça social, do direito dos povos.
Isso ficou muito claro no caso de Dona Selma e Seu Divino, evidenciado no mapa abaixo. Tivemos os primeiros contatos com a família em 2008 e assistimos, nesse tempo de
nos diz um significativo dado: “Se separarmos o índice da comunidade negra no Brasil e avaliarmos apenas o Brasil negro, nosso IDH cai para 129, próximo da Etiópia e do Zimbábue, dois países que estão entre os de mais baixo desenvolvimento humano do mundo. Se isolarmos agora os brancos, o IDH do Brasil branco fica mais parecido com o da Bélgica e da Croácia, países de alto desenvolvimento humano”.
extensão, a evolução dos plantios de eucalipto ao redor de suas terras. O “dono61” das terras, morador de uma cidade vizinha à comunidade, emprega mão de obra de alguns moradores do núcleo familiar dos Pereiras e, onde outrora se plantava café, milho e feijão, agora assiste-se o crescimento da monocultura do eucalipto.
MAPA 7: Área do plantio de eucalipto (circunscrita em marrom) na porção norte da comunidade e a proximidade com a casa de Dona Selma e Seu Divino. Fonte: Google Earth, adaptado.
Como chamamos atenção em outros trabalhos (ITABORAHY, 2011 e 2012) o plantio do eucalipto representa uma outra lógica de territorialização. A despeito de suas consequências ambientais, ressalta-nos um conflito de usos do espaço, uma vez que o eucalipto não requer um manejo periódico, assim, não demanda a mão de obra camponesa. Além disso, plantado em grandes quantidades, seu sombreamento faz com que o eucalipto não conviva com outros plantios.
Dessa forma, funciona como um vetor de expulsão das famílias camponesas. Assistimos, com alguma proximidade, a lógica do território-mercadoria se impondo sobre o
61Impressionantemente as terras foram tomadas. Mas a questão é velada e abafada através de alguns mecanismos
de cooptação como troca de favores (como empregos na cidade) e mesmo a presentes. Aqui, o “não conflito” parece um objeto de estudo interessante, afinal estas estratégias de cooptação mantêm as relações desiguais e opressoras. Se tanto nos referimos a resistência nesse trabalho, aqui estamos diante do outro lado, da resistência do opressor.
território-habitat, proclamados por Mazzetto. A família agora concentra seus esforços para mudar para uma terra, longe de seus familiares.