4.2. ĐŞE DAYALI ÜCRET SĐSTEMLERĐ
4.3.2. Yetkinliğe Dayalı Ücret Sistemi
O fenômeno da globalização5, o uso de novas tecnologias, a crise dos mecanismos tradicionais de política agrícola, a agregação de valor6 aos produtos, são transformações estruturais que estão acontecendo no mundo, nas últimas décadas, e têm provocado a “necessidade” de mudanças profundas no sistema de produção da agropecuária, e que despontam em um novo modelo produtivo: o agronegócio.
Difundido no Brasil, a partir da década de 1980, a concepção de agronegócio tem seu fundamento pautado nas formulações realizadas, no ano de 1957, por John Davis e Ray Goldberg, professores da Universidade de Harvard (EUA) 7. Em uma obra intitulada Concept of Agribusiness foram os primeiros a estudar as transformações na agropecuária modernizada dos Estados Unidos, a partir de um contexto mais amplo do processo produtivo, destacando a crescente inter-relação setorial que passa a existir entre as atividades agrárias e outros setores, ou seja, o processo de transferência das funções agrícolas para “além da propriedade agrária”.
Para Davis e Goldberg (1930) o agribusiness compõe a soma total das operações associadas à produção e distribuição de consumos agrícolas, das operações de produção nas unidades agrícolas, do armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrícolas, e dos itens derivados.
A concepção baseada na crescente inter-relação setorial entre as atividades agrárias realizadas “dentro da porteira”, a produção agropecuária, as atividades da indústria e os serviços inicialmente, apontados por Davis e Goldberg foi expandida após por Goldberg quando publica a obra Agribusiness Commodity System. Esta concepção reúne todos os participantes envolvidos no processo produtivo, no processamento e
marketing de um único produto agrícola, bem como as instituições que envolvem e coordenam as sucessivas etapas do fluxo de commodities, tais como, o governo por meio de políticas governamentais, os mercados futuros e as associações comerciais. Depois das concepções elaboradas por Davis e Goldberg (1957) sobre o tema Sistema Agroindustrial, denominando-o de Agribusiness, outras definições aparecem como o
5 Utilizamos o termo aqui, no sentido empregado por Harvey (2004b) como um processo de produção de
desenvolvimento temporal e geográfico desigual do capitalismo.
6 A agregação de valor no agronegócio é indicação de maior competitividade.
7 Explicam o processo, a partir das formulações teórico-metodológicas neoclássicas da produção de
Quesnay, e na Matriz Leontieff (1930) ou Matriz Insumo– Produto. Elaboraram a concepção de
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termo filière – cadeia – agroalimentar empregado por Louis Malassis do Institut
Agronomique Mediterranèe – IMM, de Montpellier8.
Segundo Ledesma (2004), a designação filière apresenta uma diferença ao analisar as relações entre as atividades agrárias e a agroindústria a partir da organização política do sistema. De acordo com o autor, essa análise aproxima as formas de coordenação e mecanismos de regulação, a partir de fluxos e ligações por produtos, e da identificação dos agentes econômicos presentes em cada etapa da cadeia produtiva de valor, compreendida como o conjunto das atividades de uma empresa que agrega valor, desde a entrada de matérias-primas até a distribuição do produto final.
Graziano da Silva (1998) ao analisar as bases do Sistema Agroindustrial formulado pelo grupo de Montpellier (filière) cadeia agroalimentar, e pelo grupo de Goldeberg e seus seguidores (agribusiness), avalia que são apenas redefinições do conjunto setorial macroeconômico na fase da agricultura industrializada. Isto é, os dois conceitos buscam explicar a lei do atraso secular da importância da agricultura no conjunto da economia pela transferência de funções para outros ramos da economia. Assim, podem ser pensadas a partir de um processo histórico uma vez que se sobrepõem à agricultura moderna e ao domínio da agroindústria acima das atividades nomeadamente rurais e agrárias.
Difundida por vários países, a concepção de agribusiness passou a ser incorporada ao discurso e às análises de autores brasileiros, a partir da década de 1980, associada ao termo Complexo Agroindustrial. Os primeiros movimentos organizados e sistematizados em torno deste tema surgiram no Estado de São Paulo e Rio Grande do Sul, paralelos à criação da Associação Brasileira de Agribusiness (ABAG) e pela criação do Programa de Estudos dos Negócios do Sistema Agroindustrial da Universidade de São Paulo (PENSA/ USP). Academicamente, o primeiro a usar o termo foi Ney Bitencurt de Araújo e outros, na obra intitulada Complexo Agroindustrial: o
agribusiness brasileiro, em 1990.
De acordo com Araújo (2003, p.16) a criação da ABAG teve a intenção de congregar segmentos do agronegócio, como insumos, produtos agropecuários,
8 Malassis traduz o termo agribusiness para o francês e enfatiza a sua dimensão histórica, situando o
complexo agroindustrial como fazendo parte da etapa do desenvolvimento capitalista em que a agricultura se industrializa. (GRAZIANO DA SILVA, 1998; LEDESMA, 2004).
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processadores, indústrias de alimentos e fibras, distribuidores e áreas de apoio financeiro, acadêmico e comunicação. Segundo o autor, esta associação passou a representar mais os interesses das grandes empresas, sobretudo multinacionais, produtoras de insumos ou compradoras de produtos agropecuários.
No Brasil, o termo agronegócio é utilizado a partir de várias interpretações9, assim localizamos os termos Complexo Agroindustrial10 refletido no conceito de
agribusiness e de Sistema Agroalimentar inspirado nas concepções de Malassis11, com algumas variações em sua forma de abordagem. A concepção do agronegócio empregada está ligada às transformações que passam a ocorrer na base técnica da agricultura brasileira e com a concretização do Complexo Agroindustrial (CAI) que excede a questão da produção limitada ao “dentro da porteira” e recebendo mais destaque os seguimentos que compõem o “antes da porteira” (fatores de produção necessários à produção agropecuária) e o “depois da porteira” (processamento e distribuição dos produtos agropecuários até chegar aos consumidores). No emprego do termo Complexo Agroindustrial (CAI) destacam-se Guimarães (1979), Muller (1986), Delgado (1985) e Kageyama (1987).
O Complexo Agroindustrial é compreendido como um conjunto constituído pelas atividades associadas à produção e transformação de produtos agropecuários e florestais. É uma unidade de análise do processo socioeconômico que abrange a geração de produtos agrícolas, o beneficiamento e sua transformação, a produção de bens industriais para a agricultura, os serviços financeiros, técnicos e comerciais correspondentes e os grupos sociais. Para Delgado (1985, p.43), dentre os elementos que configuram o CAI destaca-se o
9 Para Muller (1989) o conceito de agribusiness tem como componente fundamental, em termos de sua
definição, a mudança de forma de produzir na agricultura. Para o autor há uma ambigüidade inerente à definição de complexo agroindustrial que assume importância quando se trata especificamente da agricultura brasileira.
10 Para Graziano da Silva (1998, p. 64), diferentemente dos complexos industriais, a origem de
agribusiness não tem a ver com quaisquer teorias do desenvolvimento ou com a dinâmica de crescimento.
Segundo o autor sua origem ‘estática’ servia apenas para ampliar o conceito de agricultura, já que nos Estados Unidos dos anos 1950, esta não podia mais ser tratada como ‘setor primário’ – no sentido que recebe insumos dele mesmo – nem ignorar o aumento de sua interligação com o restante da economia, principalmente com o setor financeiro – assim agribusiness, que, traduzido, virou complexo agroindustrial ou simplesmente CAI.
11 O setor agropecuário, na forma como define Malassis, nas sociedades complexas industrializadas,
abrange quatro subsetores: o das empresas que fornecem à agricultura serviços e meios de produção – chamados de indústria a montante -; o agropecuário; o das indústrias agrícolas de transformação e alimentícias – chamado de indústrias à jusante -; e o de distribuição de alimentos. (GRAZIANO DA SILVA, 1998, p. 68).
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(... ) desenvolvimento tecnológico, que possui como referência os princípios da “Revolução Verde”; um estilo de inserção da agricultura brasileira no mercado internacional, marcado pelo aumento da participação, na pauta de exportações de produtos agrícolas elaborados e de um determinado perfil de atuação do Estado, em que o estilo de regulação financeira sobressai como eixo de articulação fundamental da intervenção estatal na economia. (DELGADO, 1985, p. 43).
Muller (1989) e Delgado (1985), consideram importante, em suas análises, a fusão intersetorial de capitais que caracteriza a formação do CAI brasileiro e não somente a integração tecno-produtiva, já que a modernização que passa a conformar a agricultura compõe o fator que imprime maior agilidade ao processo e prepara a base do desenvolvimento capitalista. Muller (1989) assinala que o capital se apropria da agricultura, primeiramente, pelos meios de circulação, e, em seguida, pelo seu modo de produzir, em que o espaço agrícola é entendido não somente como um ‘setor funcionalmente’ integrado aos demais setores da economia, mas interligado à dinâmica do capital financeiro e industrial em função da transformação da base tecno-econômica. Assim, quem viabilizou o processo de industrialização no campo foi capital financeiro e servindo de sustentáculo ao novo desenvolvimento desigual e combinado.
A participação do Estado nas bases produtivas que se materializam no CAI brasileiro, são evidenciadas nas políticas de créditos fiscais, por meio de estímulos a uma maior participação nos padrões produtivos e mercantis internacionais intensificando o processo de incorporação do setor agrícola às regras do capitalismo oligopolizado. O suporte proporcionado pelo Estado, via subsídios e incentivos fiscais, foi concedido às entidades privadas, organizações econômicas e empresas individuais (MULLER, 1989) convocadas a guiar a produção agrícola e a renovação das estruturas de dominação (SORJ, 1980).
A noção de Complexo Agroindustrial, a partir de 1990, começa a ser questionada enquanto aparato conceitual capaz de analisar a dinâmica do setor, a partir do momento em que a participação do Estado, como agente estimulador e financiador da modernização agrícola, reduz sua atuação. Com isso abre espaço para os diferentes capitais com interesse na atividade agroindustrial, articulados, especialmente, pelo setor privado. Com a redução do papel intervencionista do Estado, foi ampliada e reforçada a possibilidade de formulação de estratégias pelas empresas, combinadas a uma
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diversidade de oportunidades advindas a partir da implementação das novas tecnologias. (MAZZALI, 2000). Becker (1997, p. 6) afirma, nesse sentido que
Rompe-se o ‘tripé’ que sustentara a modernização conservadora com a crise do Estado que deixa de ser o indutor do crescimento e da economia, e o tecido social aflora em sua complexidade. Novas parcerias entram em cena associadas aos vetores de transformação cuja organização, em redes, é indicativa da estrutura transicional do Estado e do território no país. (BECKER, 1997, p. 06).
Discordamos dessa tese, a redução do papel do Estado e não o seu desaparecimento, como agente estimulador do processo produtivo não o exclui do processo de reprodução do capital, já que a concessão de terras, a taxação de juros, a criação de subsídios para importação e exportação, entre outras ações fazem parte de um conjunto de políticas elaboradas em acordo com os interesses do mercado. De acordo com Harvey (2004b, p. 80) o papel do Estado no processo de acumulação do capital, não pode ser secundarizado uma vez que
(...) tem usado os seus poderes não apenas para formar a adoção de arranjos institucionais capitalistas, mas também, para adquirir e privatizar ativos como a base de acumulação do capital. O poder político, o governo territorializado e a administração se constituem numa variedade de escalas geográficas e compõem um conjunto hierarquicamente organizado de ambientes politicamente carregados no âmbito dos quais ocorrem os processos moleculares de acumulação do capital.
A incorporação da ciência e da técnica, como um novo campo de valorização do capital foi outro fator decisivo para que as fronteiras do Complexo Agroindustrial se tornassem mais flexíveis. Segundo Harvey (2005, p. 52)
À medida que a racionalização geográfica do processo produtivo depende, em parte, da estrutura mutável dos recursos de transporte, das matérias-primas e das demandas de mercado em relação à indústria, bem como, da tendência de interesse à aglomeração e à concentração da parte do próprio capital.
Assim, criam-se exigências e demandas que possam dar sustentação à inovação tecnológica no setor agropecuário. O paradigma tecnológico no setor agropecuário baseado, conforme afirma Santos (1997), no desenvolvimento técnico-científico- informacional e na racionalidade econômica têm alterado tanto a organização técnica, corporativa e social da produção das empresas agropecuárias como também os padrões
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de demanda, distribuição e consumo, cujo fundamento tem por base a busca de integração competitiva ao mercado mundial.
O avanço técnico-científico-informacional, demonstrado nos últimos anos, também no meio rural, fornece uma base material e conhecimento e informação indispensáveis à formação de uma economia-empresarial sob a alcunha de agronegócio – atuando de forma profundamente interligada e articulada ampliando a base produtiva e os lucros provenientes do setor. Um processo evidenciado pela expansão sem fronteiras do capital, em sua necessidade de estender os fronts comerciais além dos limites nacionais para a produção de mais-valor.
Regida segundo os padrões da lógica empresarial capitalista a propriedade agrícola incorpora à produção mais ganho em capital fixo, mais insumos científicos, simulando a produção e diminuindo a quantidade de trabalho. Assim, produtos, bens e serviços relacionam-se em estreita combinação com a circulação unificando do capital, na medida em que a propriedade da terra se transforma a partir das novas formas de produção. Na concepção pautada no agronegócio, a produção agrícola é inserida num amplo sistema de commodities cuja lógica é pautada no processo de acumulação do capital em sua articulação ao mundo ‘glamouroso’ dos grandes negócios.
Da mesma maneira que nessa forma de “economia”, são mantidas as características da acumulação primitiva, abordadas por Marx (1974), como a expulsão de populações camponesas e a formação e acentuação de um proletariado sem terra, entre outras – e ainda se mantém fortemente presentes na geografia histórica do capitalismo. Nesse sentido é que Oliveira (2003, 2005), Fernandes (2004), Stédile (2005) Thomaz Jr (2009) defendem a idéia de que o agronegócio possui no seu interior um caráter ideológico que mascara as contradições decorrentes do processo de territorialização do capital no campo brasileiro.
O agronegócio, no Brasil, correlacionado aos ajustes econômicos que envolvem toda a cadeia produtiva agrária, alterou-se para um modelo próprio de organizar a agricultura na forma de grandes fazendas modernas, com pouca mão-de-obra, com o predomínio da monocultura pautada na especialização das exportações. Esta concepção está associada à elevada produtividade do campo, ao aumento do PIB do agronegócio e à expansão da área cultivada de commodities agrícolas voltadas para a exportação e/ou
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para atender aos interesses das corporações agroalimentares (THOMAZ JR, 2009), segundo a lógica expansionista do mercado globalizado.
Essa lógica expansionista demonstrada pela elevação do PIB do agronegócio e pela importância que ele assume na pauta do mercado externo reflete em realidade a inserção do território brasileiro nos ardis do capitalismo mundial. A globalização da economia patrocina a expansão de produção agrícola altamente capitalizada frente à busca de competitividade e um crescimento do comércio exterior e, conseqüentemente, uma expansão da acumulação do capital que traz em seu interior as contradições em uma escala mais ampla.
Situado no contexto de reestruturação produtiva no espaço agrário cuja expressão reflete o agronegócio, uma face do capital industrial e financeiro, o Brasil passa a ter seu território organizado e estruturado para sustentar uma demanda cada vez mais crescente pela incorporação de terras para o cultivo, de lucros, mas, ao mesmo tempo, carregando em suas entranhas todas as contradições inerentes ao processo de reprodução do capital.
Conceitualmente pode-se dizer que o agronegócio é tributário da tradição da teoria econômica neoclássica representando “um agregado de subsistemas interrelacionados por fluxos de troca” (GRAZIANO SILVA, 1998, p. 67). O que significa dizer que na modernidade capitalista, a prática agrícola é dependente de um setor econômico responsável por lhe fornecer bens de produção, como a indústria de máquinas, implementos agrícolas e insumos, e de um setor que, crescentemente, processa industrialmente o produto agrícola como a agroindústria. Ao agronegócio, portanto, estão articuladas outras atividades que propiciam uma efetiva integração aos setores financeiro, comercial e de serviços.
Quando se fala em agronegócio, portanto, se está referindo a um processo econômico, histórico, social, que vincula e subordina atividades tradicionais agropecuárias a outros setores da economia. O termo remete não apenas a agentes econômicos, mas a uma multiplicidade de atores que participam desse processo integrador: agricultores, fabricantes de máquinas, implementos e insumos agrícolas, transformadores da produção agropecuária, bancos, Estado, comerciantes, distribuidores, transportadores, armazenadores e outros. Portanto, conceitualmente se
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refere a um sistema que integra diferentes atividades econômicas tendo como eixo articulador a agropecuária. Essa atividade agropecuária, por sua vez, incorpora diferentes formas de produção.
E por forma de produção nos apoiamos na fundamentação e contribuição da economia política marxista, que adota o trabalho como princípio ontológico que rege o mundo social, isto é, o que define as condições ou a essência de um empreendimento econômico são as relações sociais ‘urdidas’ no processo de produção de bens.
Articulamos, também, o agronegócio enquanto discurso, já que se refere a um conjunto de relações que o tornaram um campo de conhecimento com práticas específicas. E para entendermos o agronegócio como discurso não se deve ter os olhos atentos apenas para a forma como seus elementos foram gradativamente elaborados e para o surgimento de novos aspectos e organizações a eles vinculados, mas também para um sistema de relações que a partir dele se estabeleceu. É nesse sentido que entendemos o agronegócio como um discurso, isto é, como uma prática, um funcionamento aliado a uma rede de dispositivos sociais, econômicos e que tem seus efeitos materializados nos territórios.
A conceituação de discurso como prática social sublinha a idéia de que o discurso sempre se produziria em razão de relações de poder e há duplo e mútuo condicionamento entre as práticas discursivas e as práticas não discursivas, embora permaneça a idéia de que o discurso seria constitutivo da realidade e produziria, como o poder, inúmeros saberes. Esse discurso, que passa por verdadeiro e que veicula saber – o saber institucional – é gerador de poder. A geração desse discurso, gerador de poder é controlada, selecionada, organizada e distribuída por determinados procedimentos que têm por função eliminar toda e qualquer ameaça à permanência desse poder.
Assim, entender o agronegócio também como uma prática discursiva, num primeiro momento, significa dizer que este traz em sua concepção um conjunto de regras, de procedimentos que são baseados na incorporação da ciência, da tecnologia e da informação para aumentar e melhorar a produção agrícola, propiciando transformações econômicas e, num segundo momento que este não promove apenas uma mudança econômica: altera drasticamente dinâmicas políticas, sociais e identitárias nos territórios em que se apresenta, consequentemente mudanças socioespaciais.
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Desfaz-se, portanto, o uso do conceito “agronegócio” como atividade meramente econômica.
Da mesma forma que discutimos anteriormente sobre a forma como o discurso da modernização da agricultura, nas décadas de 1960/70, alterou a base técnica de produção, mas também alterou as relações sociais de produção, transformando modos de vida, formas tradicionais de produzir ao inserir mudanças de hábitos de consumo, de trabalho etc. A incorporação de métodos modernos de produzir, baseados na ciência, envolveu uma mudança de ordem interna, de aspectos bastante subjetivos, pois como se explica vencer a resistência dos grandes proprietários de terras, das mudanças de formas tradicionais para a atividade empresarial no campo, ou da mudança do que Bruno (1997) reporta como ethos, o “nós, os empresários rurais”?
O desenvolvimento de métodos científicos, portanto de um conjunto de relações, para a realização da produção agrícola, visando o aumento de produtividade e a redução de custos, aperfeiçoou e expandiu seu processo produtivo, induzindo a importantes progressos técnicos, que foram fundamentais para imprimir inovações às forças produtivas. Com a pesquisa tecnológica foi possível reestruturar o conjunto de elementos técnicos empregados nesta atividade, transformando os tradicionais sistemas agrícolas e abrindo novas possibilidades à realização da mais-valia mundializada, por meio de um processo de fusão de capitais com os demais setores econômicos.
A estruturação histórica do agronegócio brasileiro só efetivamente se consolidou quando o setor agropecuário se integrou aos demais setores da economia, tornando-se um mercado de bens de consumo e de capital fornecidos pela indústria. Foi essa a principal conseqüência de nosso processo de “modernização conservadora”: transformou a estrutura de produção agropecuária através da radical modificação tanto da base técnica de produção, quanto das relações de trabalho.
Há, portanto, um conjunto de regularidades que conferem homogeneidade e coerência ao agronegócio em seu enfoque modernizante enquanto discurso, conforme