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4.5 Büyük Devleti İstemeyen Ekoller

4.5.1 Yeni Liberalizm

Entendemos que um processo de busca de uma nova identidade tem como motivação inicial a rejeição daquela que se tem, e que mesmo sendo a “sua” identidade a pessoa não se percebe como tal gerando assim uma desidentificação que resulta em conflito. No caso de Goytisolo/Álvaro, uma série de fatores irá determinar a negação de si e a consequente busca que se dará por meio de sua escritura. Aqui começa a revelar-se o eixo do projeto literário do autor: uma tentativa de ruptura em todos os sentidos. Esse propósito de romper com tudo que representava suas origens, nacionalidade, idioma materno, educação, meio familiar e social, o autor/personagem leva para o campo autoficcional como leitmotiv para refletir sobre uma realidade que lhe/s provoca insatisfação, vergonha e remorso: “Heredero tú de él habías logrado cortar a tiempo las amarras sin conseguir por eso liberarte del todo. […] tu vida no podía ser otra cosa […] que un lento y difícil camino de ruptura y desposesión” (GOYTISOLO, 1977a, p. 55). Esse afã de libertação, quase uma obsessão do autor e da personagem, se vincula à sua dificuldade em lidar com a autoridade. Inserida no campo literário tal característica ganharia então uma nova dimensão.

Na terceira página de Señas de Identidad, a narrativa em segunda pessoa interrompe as críticas dirigidas a Álvaro para dar um feedback da vida da personagem e informar sua condição de exilado: “orden promiscuo y huero del que habías intentado escapar, confiando, como tantos otros, en un cambio regenerador […]” (GOYTISOLO, 1977a, p. 11). E, em Reivindicación del Conde Don Julián as palavras que abrem a narrativa apontam para um desejo de ruptura ao dirigir-se o narrador à Espanha com palavras carregadas de mágoa e rancor. No desenvolvimento da narrativa o tom de despedida se transformará em ameaça: “tierra ingrata, entre todas espuria y mezquina, jamás volveré a ti” (GOYTISOLO, 1999, p. 11). Nota - se aqui uma primeira evidência da ruptura com a pátria, cujos

valores consolidaram, em certa medida, a identidade que o narrador nega. Em Juan sin Tierra (1977b):

[…] las fotografías atabacadas, marchitas, que presidieran el cónclave de fantasmas de tu niñez no están aquí para ilustrar tus pasos […], en el país de cuyo nombre no quieres acordarte : cortadas las amarras, seca la raíz, el material auxiliar es escaso (GOYTISOLO, 1977b, p.14).

Em Señas de Identidad há uma personagem nomeada pelo narrador por Voces (grifo nosso), que representa, no contexto da obra, o discurso das tradicionais instituições de poder espanholas que lhe dizem: “tú que has sido de los nuestros y has roto con nosotros [...] al fin y al cabo no serás el primer español que ha desamado a su patria […] para qué volver mejor te quedas fuera y renuncias de modo definitivo a nosotros” (GOYTISOLO, 1977a, p.12). Na sequência das obras o narrador, em seu propósito de alcançar total negação de si como meio para a busca e a (re)construção de uma nova identidade, levará seu processo de ruptura a outros temas na narrativa, terminando por romper com a tradição do próprio gênero.

Edward Said (citado por FERNÁNDEZ, 1991, p. 55) afirma que há uma tendência do escritor moderno em substituir os laços de família (biológicos, hereditários, familiares) por laços de afiliação (intelectuais, morais ou religiosos) e que escritores da modernidade – Lawrence, Pound, Joyce – consideram essa etapa como necessária para a formação literária do escritor. E para Fernández:

parecería que de todos los géneros literarios el autobiográfico es el más adecuado para describir esta ruptura y sustitución: el paso de la filiación a la afiliación se registra, de una forma u otra, en casi todos los textos del género (FERNÁNDEZ, 1991, p. 55).

Entendemos que no caso de Goytisolo essa etapa pode ser considerada também como parte de seu processo de busca e negação de si. Seu exílio em Paris contribuiu expressivamente para o estabelecimento de novos vínculos que poderiam responder a essa necessidade de afiliação. Temos, portanto, no aspecto familiar sua relação com Monique Lange, que foi por muitos anos sua referência de família.

Em uma entrevista publicada em novembro de 1998 na revista “Amigos Común Ausentes”, Goytisolo, quase como um desabafo, assim se expressa: “Desde que

murió Monique no encuentro lugar [...]. He sido extranjero en varios países y quizá donde he sentido con mayor intensidad ese sentimiento es en mi España” (GOYTISOLO, 2010). Atraem a atenção nessa afirmação dois fatos – o sentimento de carência de pertencimento e a exacerbação desse sentimento quando o autor declara que se encontra, não na Espanha, mas naquela que ele chama de “minha” Espanha. Goytisolo estaria sinalizando para as mágoas que carrega e que são fruto da decisão de abandonar sua pátria? E não cabe dúvida de que essa opção pelo exílio tem como causa primeira a figura de um pai castrador – Franco. O fantasma do pai mantém vivo o conflito com a figura paterna que recebe, na pluma do escritor, o tratamento literário e traz à luz sua criação.

Com relação a sua afiliação intelectual, podem ser lembrados Sartre, Carlos Fuentes e, de uma forma muito especial, Jean Genet: “un escritor que ejerció en mí una influencia perdurable fue Jean Genet. […] Él me enseñó […] a centrarme en algo más hondo y difícil: la conquista de una expresión literaria propia […]” (GOYTISOLO, 2010). Para muitos estudiosos da criação literária de Goytisolo, Señas de identidad é a obra que melhor retrata a ruptura e a busca de identidade, ao mesmo tempo em que busca, também, a história da Espanha. A esse respeito, María Dolores de Asís escreveu na Revista Mercurio:

Las características técnicas de la obra: la disminución del relato en tercera y segunda persona […] demuestran que la búsqueda de identidad del protagonista no es exclusivamente individual, sino la historia de España. En este caso, la reciente, la de la juventud rebelde y revolucionaria de la postguerra. Es decir, existe el intento de formular una postura crítica hacia los mitos, costumbres y valores de la cultura española. La ruptura consigo mismo y con su país termina en Señas de identidad con el deseo del protagonista de unirse a los pariasy rechazar los valores de su clase (ASÍS, 2008, p. 8).

Álvaro Mendiola, protagonista e narrador e na verdade o alter ego do autor, mais que uma personagem, seria, portanto, o outro eu que expressa rejeição ao seu passado e o desejo de buscar uma nova identidade. Essa busca de identidade para si e para uma Espanha que ele possa reconhecer como seu país se constitui nesse contexto, o tema principal da obra.

Quanto mais avança a narrativa, mais se evidencia a amplitude da ruptura que ensejou o processo de busca de Goytisolo/Álvaro – romper com tudo o que

significou viver sob um regime autoritário, uma família de valores burgueses, uma educação que em nada contribuiu para sua formação e que, nos limites do campo ficcional, ganha vida com Álvaro. Este, um fotógrafo espanhol, que retorna a Barcelona para se recuperar de um ataque cardíaco. Nesse ínterim, inicia o trabalho de resgate de sua história e aos poucos descobre que a tarefa a que se propõe lhe permitirá comprovar como toda sua vida esteve calcada em um lento processo de ruptura. No segundo parágrafo nos diz o narrador: “[…] un decreto irrisorio del destino te había otorgado, al nacer, [...] sin solicitar tu permiso, con religión, moral y leyes hechas a su medida [...]” (GOYTISOLO, 1977, p. 11). Desfazer-se desse legado seria, então, o projeto de vida da personagem e o projeto literário do autor.

Em seu artigo Valores figurativos y compositivos de la soledad en la novela de Juan Goytisolo (1981), Gonzalo Sobejano comenta que a ruptura de Goytisolo/Álvaro com sua comunidade e país é ainda mais determinante se comparada à que se vincula aos laços afetivos. A solidão de Álvaro, preenchida com a busca de identidade, de algum modo, confere sentido a sua vida. Concretizado no plano da narrativa: “Lentamente, conforme se rompían las raíces que lo ligaban a la infancia y a la tierra, Álvaro había sentido formarse sobre su piel […] la conciencia de la inutilidad del exilio y, de modo simultáneo la imposibilidad del retorno (GOYTISOLO, 1977a, p. 259).

Percebe-se, claramente, como personagem e autor comungam os mesmos ideais na declaração de Goytisolo: “[...] mi exilio nunca fue enteramente voluntario” (GOYTISOLO, 1979a, p. 133). E conclui Sobejano:

Perdida la juventud, inválidas las señas de identidad, Álvaro concluye su rememoración resuelto a marcharse para siempre, luego de haber contemplado por los telescopios de Montjuich su ciudad y en ella toda la España de entonces, incompatible con sus necesidades éticas (SOBEJANO, 1981, p. 3).

A leitura de Señas de identidad traz à luz inúmeras situações com as quais Goytisolo optou por romper, sendo, obviamente, a decisão de se manter no exílio a primeira ruptura. Álvaro, vivenciando o processo de amadurecimento do autor, enquanto rememora sua vida, comenta fatos em que evidenciam, por suas críticas, as rupturas levadas a efeito pelo autor. Em várias entrevistas, Goytisolo fala de suas

experiências e de como as enfrentava, antes mesmo do exílio. Selecionamos algumas para ilustrar, menos pela trajetória vital do autor que pela abrangência que pode ter o gênero autoficcional. E o faremos a partir da menção a Hernández (1993), citado por Elena Cuasante Fernández (2013) em seu estudo Aproximaciones críticas a los escritos en primera persona:

[...] al ser la escritura autobiográfica un compendio de relaciones entre el yo, el mundo y la escritura, intervienen en su elucidación y cuestionamiento conceptos provenientes de otras ciencias humanas tales como filosofía, historia, sociología, psicología, psicoanálisis, etc., dando origen a uno de los debates más complejos de la moderna teoría de la literatura en su concepto más amplio (CUASANTE FERNÁNDEZ, 2013, p. 31).

A busca e tentativa de (re)construção da identidade empreendida por Álvaro ocorrem pela rememoração de lembranças que são recuperadas quando manuseia antigos álbuns de fotografias, cartas e recortes de jornais encontrados entre antigos documentos da família. Esses materiais o levam a refletir sobre a história recente da Espanha e a perceber que ambas, a história de sua vida e a da vida espanhola, estão definitivamente ligadas. Nessa dinâmica a narrativa se bifurca em dois planos temporais – presente e passado – como se estivesse seguindo o fluxo de pensamento do narrador.

Assim, o presente se caracteriza mais pela reflexão sobre as ações que influíram na formação de sua identidade e constituem a razão de sua angústia existencial. O rigor de seu julgamento, a frustração por tudo que acredita que poderia ter feito, mas não fez, a constatação de que não é muito diferente dos demais: “[...] al cabo de largos años de destierro, estabas de nuevo allí [...] tal el culpable que furtivamente retorna al sitio de su crimen [...]” GOYTISOLO, 1977a, p. 12) - todas essas reflexões lhe sinalizam para a impossibilidade de recuperar suas “señas de identidad”, e a personagem conclui: “Tu salvación debías buscarla allí, en ellos (os excluidos) y su universo oscuro [...] tal era el margen, espacioso, de tu libertad” (p. 367).

1.4 A PATERNIDADE CONFRONTADA EM SEÑAS DE IDENTIDAD

Señas de identidad (1977a) narra a trajetória de Álvaro Mendiola, espanhol, oriundo da alta burguesia catalã, que após dez anos de exílio em Paris volta a Barcelona.