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5.6. Anayasal İktisadın Devletin Büyümesine Karşı Önlem ve Küçültülmesi

5.6.2. Ekonomik Anayasanın Bölümleri

5.6.2.2. Parasal Anayasa

Não nos parece despropositado aceitar que, ao cristalizar no tema da paternidade seu posicionamento com relação à tradição espanhola, Goytisolo explicita sua rejeição a toda forma de autoridade. Que tal fato possa ser aceito como uma marca autorreferencial; como uma resposta à crítica; ou mesmo como parte de um elemento circunstancial que, em um dado momento, repercutiu em sua escrita, seria, uma questão de viés de leitura. E, portanto, passível de distintas interpretações. Vamos nos ater ao critério da paternidade enquanto representação de poder tal como explicitado nos objetivos.

Em seus estudos sobre o tema da paternidade, Freud (2006, 2015) distingue três versões para a figura do pai – o Édipo, o Pai da Horda e Moisés. Em todas essas interpretações o estudioso inscreve a questão do parricídio, que conduz à ideia de que, para o autor da Psicanálise, o pai é o pai morto. Na fábula da tragédia grega de

Sófocles, “Édipo Rei” (427 a. C.), Freud lê, já no século XIX, as bases do complexo de Édipo, e as utiliza para descrever os sentimentos da criança com relação aos pais e que constituem, segundo o autor, sentimentos antagônicos e conflituosos.

A partir desses estudos Freud define o Complexo de Édipo como sendo um conjunto de desejos amorosos e hostis desenvolvidos por volta dos três aos cinco anos e nutridos pela criança em relação aos pais. Em seu aspecto positivo, o Complexo de Édipo ressignifica a fábula do mito de Laio, Jocasta e Édipo, considerando a pulsão de um desejo da morte do adversário do mesmo sexo, o pai, e o desejo de posse da mãe. Por outro lado, em sua forma negativa, desenvolve aversão pelo progenitor do sexo oposto e amor por aquele do mesmo sexo. Para Freud, o Complexo de Édipo atua de forma decisiva na estruturação do psiquismo e na orientação futura do desejo da criança.

Um estudo de Ramón Moreno Rodríguez (2001), apresentado como sua tese de doutoramento intitulada “Edipo en la frontera análisis de la trilogía álvaro mendiola de Juan Goytisolo” propõe um cotejo entre as personagens Édipo e Álvaro Mendiola que, segundo Rodríguez, permite identificar alguns aspectos psicanalíticos e existenciais de Goytisolo e que nos parece oportuno comentar.

Seu estudo enfoca a trajetória das duas personagens como uma viagem em busca de si mesmo, de sua identidade. Seguindo o que preconiza Freud, Rodríguez aponta que Édipo e Álvaro precisariam matar, simbolicamente, o pai para se constituírem enquanto sujeitos. Assim, o pai estaria representado pelo passado das personagens, considerando que esse passado foi decisivo na construção de sua subjetividade. E sua negação poderia ser uma possibilidade de reconstruir ou reinventar sua identidade. Rodríguez vê no fato de ambas as personagens se expatriarem, e poderíamos pensar também no próprio Goytisolo, uma forma de buscar para si uma nova identidade:

La primera huida les da una momentánea y ficticia identidad. Ambos logran adaptarse a la ciudad que los acoge […] Son bien aceptados por el medio que los rodea: Edipo se convierte en el salvador y rey de la ciudad, Mendiola ingresa a los grupos de resistencia de republicanos en el exilio […]. Como quiera que fuere, este remanso de paz concluirá precipitada y trágicamente: Edipo huye de Tebas ciego, Álvaro Mendiola huye a Tánger

obnubilado por el kif y por un deseo de romper definitivamente con su pasado. A estas alturas de la experiencia de sus vidas ambos han renunciado a aquello que buscaban anhelantes: construirse una nueva identidad. Están dispuestos a enfrentar su condición definitiva de parias, sin identidad nacional o cultural bien definida. En efecto, en la segunda novela del tríptico, Reivindicación del Conde don Julián, el protagonista ha perdido el deseo de recuperar su identidad española (tema central de Señas de

identidad) […]. Al renunciar a su patria, su nacionalidad, su cultura, su lengua, etc. Mendiola está haciendo una renuncia tácita de su identidad española (MORENO RODRÍGUEZ, 2001, p. 699).

Face a esse argumento, uma afirmação de Goytisolo legitima a citação de Ramón Moreno Rodríguez e embasaria a ideia do pai como narrativa do passado com toda a sua carga de interdição e, no caso específico de Goytisolo, potencializada pela ruptura dos laços familiares e por uma representação da figura paterna tão real quanto ameaçadora: “Dicho narrador – fugitivo, no ha que olvidarlo, de los cuarenta años de orden franquista sueña en una nueva invasión de su patria cuyos efectos duren también ocho siglos” GOYTISOLO,1989, p.32). Considerando o objetivo de abordar a figura paterna, neste estudo, tão somente enquanto figura literária, em sua representação de poder, passamos à segunda categoria definida por Freud, que seria o pai da horda.

Freud se apoia nos estudos de Charles Darwin e retoma a figura do pai como o líder de um bando que detém total poder sobre todos os membros. Essa figura onipotente castiga e expulsa os filhos do sexo masculino quando se aproximam da idade adulta e, com essa estratégia, mantém a supremacia sobre a horda e a exclusividade sobre as mulheres. Os excluídos se reorganizariam em novos bandos e eliminariam a ameaça pondo fim à vida do pai. Nesse rito de supressão de uma autoridade tirânica e falocêntrica e início de uma nova dinâmica de ordenamento e sobrevivência grupal, os filhos se alimentariam do corpo do pai, estabelecendo com esse gesto duas novas simbologias – a identificação pai e filho e o estabelecimento de normas de convivência, em que ganha espaço uma aproximação à ideia do divino.

Essa temática é analisada por Freud em Totem e Tabu (1913 [2013]), que inscreve no contexto o surgimento da questão da culpa, elemento subjacente ao sentimento de religiosidade no catolicismo. Tal como no banquete totêmico, quando o animal cultuado como totem serve de alimento para os membros do bando, os filhos expulsos da horda se alimentam do corpo do pai. Como consequência desse ato

coletivo, passam a conviver com o remorso, porém esse sentimento, ao ser compartilhado, é atenuado. Por outro lado, a sensação de culpa assegura mais visibilidade ao pai morto, que pela ausência se faz mais presente. Sobre esse fato Freud comenta: “Um evento como a eliminação do pai pelo bando de irmãos tinha que deixar traços tão indeléveis na história da humanidade e achar expressão em numerosos substitutos, tanto mais numerosos quanto menos ele mesmo era lembrado” (FREUD, 2013, p. 162).

Freud conclui que o parricídio não resolveu a questão do acesso às mulheres da horda, uma demanda fundamental dos filhos. Pelo contrário, o pai morto, com mais poder que antes, estabeleceu outro nível de interdições introduzindo a ideia de incesto que se tornou a primeira das proibições. Com esse mito, Freud estabelece o percurso do pai primitivo tirano e vingativo que, pela morte, ascende a um poder maior. E se transforma então no Pai simbólico que determina o lícito e o ilícito, define punições, manipula à sua conveniência o sentimento de culpa dos filhos e está sempre presente. Essa ideia de um pai ausente presente nos parece interessante enquanto chave de leitura para a narrativa de Goytisolo, e sobre ela nos deteremos mais adiante.

Em Moisés e o monoteísmo (2006), Freud analisa o mito da personagem bíblica e propõe outra dimensão da figura do pai. O autor desenvolve a ideia de um pai que seria uma liderança político-religiosa e elo entre o humano e o divino. Esse pai é materializado na figura de Moisés, um egípcio, que fez opção pelo povo judeu e o resgatou de seu cativeiro no Egito. Tal como nas versões de Édipo e de Pai da Horda, Moisés não escapa do assassinato; o sentimento de culpa e os esforços empreendidos para atenuar o remorso pelo crime cometido terminam por gerar uma necessidade de agradar a Deus. Segundo Freud, a cegueira de Édipo como castigo autoimposto pela personagem e, em Moisés e o monoteísmo (2006), a prática da circuncisão, imposta por Moisés, aludem ao tema da castração, fato que se concretiza no Pai da horda e é considerado por Freud uma das causas presentes em comportamentos neuróticos. Esclarece o autor:

A circuncisão é o substituto simbólico da castração que o pai primevo outrora infligira aos filhos na plenitude de seu poder absoluto, e todo aquele que aceitava esse símbolo demonstrava através disso que estava

preparado para submeter-se à vontade do pai, mesmo que esta lhe impusesse o mais penoso sacrifício (FREUD, 2006, p. 136).

Moisés, fundador do Judaísmo – religião do pai, com sua morte abre o caminho para o advento de uma nova doutrina religiosa, o Cristianismo – a religião do filho, que se propaga e se mantém sobre as bases da culpa pelo crime praticado. Para as três versões de pai, descritas por Freud, converge o mesmo fato – o assassinato do pai pelos filhos. A instauração do sentimento de culpa e suas consequências participam, de acordo com o autor, na estruturação do psiquismo, e dessa forma a constituição da subjetividade tem traços de traumas que a humanidade carregaria ao longo dos tempos.

No campo das Artes é frequente a representação da figura paterna associada à violência e à eliminação do pai ou do filho. Na narrativa mitológica grega o arquétipo do pai vingativo, que ameaça e pune, permeia as aventuras de deuses, semideuses e heróis, e tem recebido a atenção de várias ciências. Estudiosos do tema referem que Crono, a pedido de sua mãe, castrou seu pai Urano e tomou seu lugar, sendo, mais tarde, vencido por seu filho Zeus; ideia que se vincula ao tema do eterno retorno descrito por Mircea Eliade (2013) como um dos aspectos do mito. Resguardados todos os desdobramentos que constituem o campo de estudos das ciências da psique, encontramos em Junito Brandão (1986) uma abordagem pragmática no que concerne à questão da disputa pelo poder, que desde os primórdios permeia a conflituosa relação pai e filho. Esse autor assinala:

Os "modernos", todavia, denunciaram em determinadas atitudes do poderoso pai dos deuses e dos homens o que se convencionou chamar de Complexo de Zeus. Trata-se de uma tendência a monopolizar a autoridade e a destruir nos outros toda e qualquer manifestação de autonomia, por mais racional e promissora que seja (BRANDÃO, 1986, p. 344).

O mesmo tema inspirou pintores como Michelangelo, que em 1511 pintou A criação de Adão, retratando Deus Pai transmitindo a vida à sua criação. Na narrativa bíblica essa dádiva é acompanhada de restrições, cujo descumprimento trará ao agraciado castigos terríveis que se estenderão a toda sua descendência. Em outra tela, Adão e Eva expulsos do paraíso (Masaccio, 1508 -1512), o castigo imposto pelo pai marca o momento da transgressão que dá origem à ruptura com Deus/Pai e imprime no filho a marca do pecado original. Nos parece pertinente supor que, respeitadas a

profundidade e a complexidade do tema, esse conflito que integra o inconsciente coletivo poderia expressar-se também por algum tipo de negação e/ou rejeição de valores que se relacionem ao conceito de pai circunscrito à dimensão que propomos neste estudo.

Se considerarmos a figura do pai biológico de Goytisolo, José María Goytisolo, encontraremos uma relação que, segundo o autor, marcou negativamente a sua vida. Em Coto vedado (1985a), na maioria das vezes que se refere ao pai será sempre em tom de crítica, mágoa ou menosprezo. No fragmento a seguir, Goytisolo faz uma autoavaliação que sinaliza para a figura do pai como uma ausência, compreendida esta como um modelo que não correspondeu às expectativas do filho:

Hoy, esta falta de piedad y comprensión filiales me parece desde luego chocante. Las pruebas a que había sido sometido mi padre sobrepasaban el límite de sus fuerzas y no merecían una actitud de rechazo como la mía. [...] el personaje omnipotente y magnífico levantado en mi conciencia hasta los cuernos de la luna no era sólo un ser de carne y hueso como los demás sino por colmo un hombre senil, desvalido (GOYTISOLO, 1985a, p. 85 - 86).

Essa ausência ganhará materialidade no episódio do autoexílio, porquanto a figura do pai protetor e provedor é anulada e a da mãe zelosa e cuidadora já não existia. Uma sucessão de circunstâncias familiares, tais como a doença do pai, os valores burgueses cultivados em família, a imposição da religião católica, a ausência de liberdade de expressão, a identidade sexual por longo tempo reprimida, concorreram para um estado de ânimo que o autor define como desarraigamento. Buscar na ficção respostas que a realidade negou seria uma forma de preencher lacunas e dotar de sentido uma vida que se constrói pela escrita.

No que se refere ao tema da sexualidade, o narrador de Don Julián lhe dedica bastante atenção e espaço. Poderia ser uma estratégia de que o autor lançou mão para desmistificar o tabu que se criou sobre essa questão na cultura espanhola, e também uma possível forma de enfrentamento a uma realidade que por muito tempo lhe causou transtornos. Por essa ótica, a coerção para adequação aos padrões de gênero masculino, socialmente hegemônico, teria sido também uma das interdições associadas à temática do conflito com a figura paterna.

A seguir abordamos alguns aspectos da sexualidade comentados pelo narrador. Começaremos citando o neologismo criado a partir do vocábulo “coño”, notadamente uma palavra de baixo calão utilizada para referir-se à genitália feminina. Com início na página 149 e terminando na página 152, o narrador discorre sobre a Igreja; Franco e Espanha: “[...] Sacrocoñísimo, quién lo hubiera dicho, del Coño [...] emblema nacional del país de la coña [...]” (GOYTISOLO, 1999, p.149). O resultado desse jogo de palavras, longe de ser vulgar, é divertido, criativo, e dá uma certa leveza à narrativa, além de destacar a verve cômica do autor, algo não muito frequente em sua criação.

O narrador de Don Julián define um repertório linguístico para se referir aos sexos masculino e feminino e às perversões sexuais, e inclui também algumas descrições para discorrer sobre a homossexualidade. Essas palavras se repetem ao longo da narrativa e, mais que meros recursos de retórica, se configuram como instâncias discursivas que Goytisolo utiliza para consolidar sua crítica. Observa-se que, mesmo quando aborda a temática feminina, é o conflito com a figura paterna que está em evidência, considerando-se que os mitos e dogmas referentes ao universo feminino têm sua origem na concepção de mundo estabelecida pela supremacia falocêntrica.

As referências ao sexo masculino estão associadas, com maior frequência, às palavras: culebra, serpiente, flauta, lobo, artillería fálica: “los bienpensantes hablan en voz baja al pasar frente a tu choza y apresuran el paso : infinidad de historias corren sobre ti y la suntuosa dimensión de la culebra” (GOYTISOLO, 1999, p. 187). Com relação ao sexo feminino e ao mito da virgindade: reducto sombrío, caverna, milenario templo: “estás en el umbral del Misterio, en la boca de la infernal Caverna, en el melancólico vacío del, pues, formidable de la tierra bostezo que conduce al reino de las Sombras, del Sueño y de la Noche” (p.146).

A respeito das perversões sexuais, o narrador transcreve uma inscrição que encontra em um banheiro público: “con los niños el látigo es necesario” (GOYTISOLO, 1999, p. 54) e que será compreendida já bem ao final do romance, na página 195, quando Alvarito, sodomizado, passa também a ser espancado. Outro exemplo de perversão se encontra na página 50: “tengo-señorita-española-hebrea- marroquina-niña-niño : y algún cisne tal vez, de esos que tanto admiraba Rubén,

para estragados viciosos [...]” (p. 50). O autor destaca a um só tempo a prostituição, com o tangerino que sai à rua para oferecer aos turistas seu serviço de viabilizar encontros sexuais; a perversão, relacionada à lenda mitológica grega “Leda e o cisne”, podendo-se incluir também aqui uma alusão ao poema “Los cisnes”, de Ruben Dario. Goytisolo burla da cultura espanhola abordando temas que seriam impensáveis na ótica puritana e conservadora dos escritores espanhois. E, seguindo esse raciocínio, o narrador destaca também a questão da homossexualidade. Talvez seja essa uma das formas adotadas pelo autor para elaborar seu conflito com a figura paterna.

Na página 38 há um relato que remete a um outro que se repete em Coto Vedado, Señas de identidad e Juan sin Tierra: a descrição de fotos antigas de seus familiares que estavam dependuradas nas paredes da casa onde viveu a infância em Barcelona. Em Don Julián, esse relato se prolonga: “[...] dan (as fotos) la impresión de añorar como tú las notas agudas de la flauta y las femeninas ondulaciones del niño bailarín : insólita y campesina flor que juega y travesea [...]” (Goytisolo,1999, p. 38). Poderiam ser marcas que remetem tanto à cultura homofóbica e retrógrada que Goytisolo critica quanto à sua própria experiência vital. Identificamos algumas delas na atração de Alvarito pelo árabe que o sodomiza e o corrompe e na observação do narrador: “jóvenes de piel cobriza y dientes blancos, de alma pequeña, errante, cariñosa : ordinariamente sin estudios ni empleo : pero abiertos y comprensivos [...]” ( GOYTISOLO, 1999, p. 49).

Ao abordar o tema da sexualidade, da forma como o faz em Don Julián, Goytisolo demonstra sua rejeição à tradição espanhola da negação do corpo, bem como à Igreja, cuja influência foi decisiva na formação dessa tradição. Significativamente, parte do plano de vingança do narrador é erotizar o país:

oídme bien árabes de miembros rudos y piel áspera, manos bastas, boca carnicera disponed vuestro aguijón venenoso vírgenes fecundadas por lentos siglos de pudor y recato esperan impacientes vuestra cornada sus muslos suaves, sus pechos mórbidos, reclaman a gritos la embestida, el mordisco (GOYTISOLO, 1999, p.150).

Com essa convocação, o narrador outorga à vingança a possibilidade de fazer aflorar desejos reprimidos e romper uma tradição que, por força da religião, se

manteve. Para alcançar seu objetivo, o narrador dispara sua crítica contra um alvo duplo – a procissão da Semana Santa: “la hispana teoría sale de la iglesia de Santa María Mayor precedida de la guardia civil [...] poseídos del demonio tropical de la música” (GOYTISOLO,1999, p.159-161); um momento de oração da rainha católica: “la muchacha vestida de monja, reza devotamente sus oraciones [...] invocando masculina ayuda con labios sedientos [...] el crucifixo es a todas luces insuficiente” (p. 142-144). Outra parte do plano de vingança do narrador se daria pela infecção por meio do sangue contaminado que doa em um posto da Cruz Vermelha: “(no estás en Tánger, sino en España, y la sangre que tan maliciosamente ofreces infectará obligatoriamente a tu tribu) ” (p.114).

Distintas estratégias discursivas usadas pelo autor em Don Julián apontariam para uma atitude, por parte do narrador, de rejeição à uma paternidade que para ele significaria: “Ruptura no sólo interior sino física [...] con el ambiente familiar en que crecí [...] la España opresora y oprimida por Franco, para forjar mi obra y morada vital lejos [...]” (GOYTISOLO, 1985a, p.280). Relembramos que junto com seu país o narrador perde também sua identidade, e, se em Señas de Identidad (1977a), há uma tentativa de busca dessa identidade, o mesmo não ocorre em Don Julián (1999). Nessa obra o narrador decide por construir uma nova identidade e uma nova pátria: “huye de ellos Julián, refugíate en el café moro : a salvo de los tuyos, en la africana tierra adoptiva : aquí la nefanda traición dulcemente florece [...]” (GOYTISOLO, 1999, p.111). Essas vozes ecoam na voz do próprio autor:

[…] por el hecho de vivir fuera, he sustituido la noción de tierra por la noción de cultura. No obstante, si me preguntan si me considero parte de la sociedad española digo que no. No comparto los valores de esta sociedad, me siento extraño a ella (GOYTISOLO, 1998).

Como já reiteramos ao longo deste estudo, Goytisolo não cessa de mencionar a figura paterna. Para citar um exemplo, aludimos ao ensaio “In memoriam F.F.B”, de sua autoria, publicado por ocasião da morte de Franco. Nesse texto, o autor comenta que a figura de Franco, pela ameaça real que representava, se sobrepunha à de seu pai biológico, e que mesmo durante seu exílio sentia a ausência daquele como uma sombra que o espreitava. Afirma também que deve a Franco o fato de ter se tornado um eterno andarilho, um João sem terra, incapaz de se estabelecer e

criar raízes. Considerando o contexto de vida do autor, nos parece possível uma leitura das críticas presentes em Don Julián (1999) como uma expressão de rejeição a um passado que, em última análise, lhe imprimiu a identidade e que, portanto, se vincularia ao aspecto da paternidade.

Dentro da ampla rede de significados que o termo intertextualidade abriga –alusão,