1.1. Siyasi Yozlaşmanın Nedenleri
1.1.4. Rasyonel İlgisizlik
Logo após sua morte, Evita converteu-se num mito ou em vários mitos, de acordo com Beatriz Sarlo (1999, p. 302, tradução nossa), “pois sobre ela projetaram-se distintas imagens identificadoras do peronismo: a providente, a mediadora entre o líder e seu povo e a combativa e militante”.249 A singularidade de Eva, segundo Sarlo (1995, p. 22), explica o
fascínio, o ódio, a devoção com que foi cercada. A ensaísta aponta também a excepcionalidade de Eva Perón que a transformou num mito:
Seu caráter excepcional não se mantém só pela beleza, nem pela inteligência, nem pelas ideias, nem pela capacidade política, nem sequer pela origem social, nem por sua história de interiorana humilhada que vai à forra quando chega ao topo. Existe algo de tudo isso: Eva seria uma soma em que cada elemento é relativamente comum, mas esses elementos, todos juntos, formam uma combinação desconhecida, perfeitamente apta a construir uma personagem para um cenário também novo, como era a política de massas do pós-guerra. [...] Muito daquilo que, depois, foi a base de seu magnetismo corporal estava na origem de seu fracasso como aspirante ao mundo superpovoado da indústria cultural argentina. Sua diferença, que a favoreceu na cena política, não a impulsionara na cena do radioteatro nem do cinema. (SARLO, 1995, p. 21)
249No original: “pues sobre ella se proyectaron distintas imágenes identificadoras do peronismo: la providente, la mediadora entre el líder y su pueblo y la combativa y militante”.
Para Sarlo (2005, p. 21), a aparência de Eva, insignificante no mundo do espetáculo, era excepcional na cena política. O fato de ser deslocada, de estar fora do lugar, unido à paixão que Eva sentiu pelo marido e, depois, pela ação política contribuiu para sua excepcionalidade. Até mesmo suas roupas têm importância no seu estado de exceção: “A roupa de Eva foi um negócio de Estado para um regime que descobriu as formas modernas da propaganda política e o peso decisivo da iconografia” (ibdem, p. 75).
Na mitologia evitista, há espaço para Evita rainha, rainha da moda, a única rainha vestida por Christian Dior, segundo suas palavras. A beleza do corpo jovem de Eva
proporcionava ao regime a sustentação da ficção que fundava sua própria figura dupla: de um lado, como ela o repete dezena de vezes em La razón de mi vida , a mulher humilde e ignorante que é a mulher do presidente; de outro, a manifestação concreta do regime peronista, como intérprete e representante do líder. (SARLO, 2005, p. 98)
De acordo com Rosano, a figura de Eva Perón guarda uma hibridização das lógicas de representação do Estado e as da indústria cultural: “Apenas ela foi capaz de misturar-se com a multidão e ganhar, assim, no imaginário popular, um lugar de lenda” (2005, p. 19, tradução nossa).250
Segundo Marysa Navarro (2012, p. 98), a mitologia evitista possui vitalidade exuberante ainda hoje; contém aspectos das duas visões antagônicas a respeito de Evita, com forte predomínio da mais negativa; é mais poderosa que os fatos aos quais supostamente se refere, isto porque muitos desses fatos são, segundo a autora, comprovadamente falsos. A atualidade do mito evitista manifesta-se no próprio corpora desta pesquisa ao pensarmos na distância temporal que SE e EJSV guardam entre si, publicadas em 1995 e 2012, respectivamente (a quarenta e três e a sessenta anos da morte de Evita), e entre LRMV, publicada em 1951.
A oposição peronismo e antiperonismo tem forte influência na mitologia evitista manifestando-se em duas visões diametralmente opostas da mesma pessoa. Inicio a reflexão pela visão antiperonista, da qual farei breve apanhado, atendo-me, posteriormente, ao mito como manifesto no corpora da pesquisa, mais aproximado da mitologia peronista.
A mitologia da antievita foi propagada pelos opositores ao governo peronista, sobretudo após a Revolução Libertadora (1955) que não apenas retirou Perón do poder como, de modo revanchista, condenou toda realização peronista bem como manifestações de apoio ao regime. A versão da antievita recebeu influência, principalmente, da obra La mujer del
250No original: “Sólo ella fue capaz de entremezclar-se con la multitud, y ganarse así en el imaginario popular
látigo,251 de Mary Main, romancista e jornalista norteamericana que representa Evita como uma “mulher dura, má atriz, ressentida e sedenta de vingança por sua origem social e a vida difícil que teve” (NAVARRO, 2012, s/p, tradução nossa).252
Outras duas obras contribuem para a visão negativa do mito de Evita, também chamado por Navarro de mito da Mulher Maravilha, justamente por apresentar uma Super Mulher que tudo controla e domina (2002, p. 32); são elas: Bloody precedent, de Fleur Cowles, e El mito de Eva Duarte, de Américo Ghioldi.253 A jornalista norteamericana Fleur Cowles constrói em sua biografia de Eva Perón uma representação em que Encarnación Ezcurra, esposa de Juan Manuel de Rosas, seria antecedente da primeira dama peronista, seguindo a mesma linha de Américo Ghioldi que também as havia relacionado (NAVARRO, 2002, p. 22). Segundo Suzana Rosano (2005, p. 124), a biografia escrita por Cowles afirma que Encarnación e Evita usaram o casamento para construir seu próprio prestígio e poder; e a escrita por Ghioldi defende que o mito de Eva foi criado intencionalmente pelo governo peronista.
Segundo esse ponto de vista antiperonista, Perón representava a versão moderna do passado bárbaro argentino identificado com o regime de Rosas: “Encarnación Ezcurra era o antecedente de Evita, porque Rosas era o antecedente histórico de Perón. Rosas foi ‘o primeiro tirano argentino’, segundo palavras de Américo Ghioldi, e Perón, o segundo” (NAVARRO, 2002, p. 24, tradução nossa).254 O velho conflito entre liberais e nacionalistas na Argentina acentuou-se durante a Segunda Guerra Mundial em que os liberais vêem crescer os “nazifascistas locais”. Com o golpe militar de 1943, a polarização entre liberais ou “democráticos” e nacionalistas ou “nazifascitas locais” aumentou com a oposição ao governo militar. A oposição identificava o nazifascismo com as políticas adotadas pelo governo, sobretudo as tomadas pelo Secretário do Trabalho, Juan Perón. Foram porta-vozes dessa perspectiva o Departamento de Estado dos Estados Unidos, no campo internacional, e grande parte dos partidos políticos, no nacional, principalmente o Partido Socialista. A oposição, com
251 Publicada em Nova York, em 1952, sob pseudônimo de María Flores. Publicada na Argentina com o nome verdadeiro da autora, Mary Main, após a Revolução Libertadora.
252No original: “mujer dura, mala actriz, ressentida y sedienta de venganza por su origen social y la vida difícil
que había tenido”.
253 Bloody precedent (Antecedente sangrento) foi publicada em Nova York, em 1952. El mito de Eva Perón foi publicada no Uruguai, também em 1952. Apenas a última foi publicada na Argentina logo após a Revolução Libertadora.
254No original: “Encarnación Ezcurra era el antecedente de Evita porque Rosas era el antecedente histórico de
apoio da Embaixada dos Estados Unidos, uniu-se contra Perón nas eleições de 1946, no entanto este foi vitorioso. Os conservadores não se recuperaram da derrota e a esquerda perdeu sua base natural, a classe trabalhadora, para Perón. Embora o governo norteamericano com o passar do tempo mude sua política exterior com a Argentina, a imprensa norteamericana continua vendo Perón como um ditador nazifascista. Os liberais argentinos também não mudam de opinião e passam a vê-lo como o novo Rosas, portanto o “Segundo Tirano”. Estabelece-se no país uma política maniqueísta: de um lado, uma oposição frustrada, furiosa e impotente, de outro, um governo exultante, arrogante e personalista (NAVARRO, 2002, p. 24-25).
É nesse contexto que surge a mitologia evitista que, segundo Navarro, no aspecto antiperonista, dá forma a uma criatura irreal, extraordinária e cheia de contradições, existente apenas em sua imaginação: a Mulher Maravilha em sua encarnação argentina, que elege seu homem e o põe no governo, torna-se autoritária e enriquece, é ambiciosa, fria e calculista. Um exemplo da sua atuação como super heroína seria sua atuação na crise de 1945, quando teria tirado Perón da prisão e o levado em triunfo pelas ruas até a Casa Rosada para que discursasse às multidões (2002, p. 32). No entanto, sabe-se, como apontado por Pigna (EJSV, p. 111) e também pela própria autobiografia de Evita (LRMV, p. 42) que esta não teve grande participação neste evento, tendo sido o clamor popular responsável pela libertação de Perón, ou seja, cristalizou-se no imaginário uma ideia sobre o evento que não corresponde ao que realmente aconteceu. Isto comprova a afirmação de Navarro de que os relatos nos quais apoia- se esse mito antiperonista são pobres em fatos concretos e em fontes, mas são aceitos como se fossem verdades inquestionáveis (2002, p. 34).
Outro exemplo dado por Navarro (2002, p. 39) do quanto o discurso antiperonista pretende ser um relato histórico e assim é aceito, embora seja ficção, é a atuação de Evita, como Mulher Maravilha, que cria a Fundação Eva Perón para vingar-se por ter sido rejeitada pelas senhoras da sociedade de beneficência. No entanto, segundo a autora, a passagem dessa instituição ao Estado não foi decisão de Evita. Resultou de um processo de modernização do Estado, parte de um plano elaborado por vários governos, sendo o primeiro passo dado em 1943, quando foi criada a Direção Nacional de Saúde Pública e Assistência Social. Afirma a autora que embora o conto do enfrentamento de Evita com as oligarcas pareça mais interessante que a apresentação pormenorizada de documentos e decretos que comprovam o contrário ele pouco tem a ver com a realidade (2002, p. 41). Segundo Andrés Avellaneda
(2002, p. 3), isto ocorre, porque, em matéria de literatura e política, interessa mais a discursividade (ficcional) do que a referencialidade.
Compõe o mito antiperonista a ideia de Eva como forte e Perón fraco e covarde, “única explicação possível para que um homem pudesse permitir que sua esposa ganhasse tanto poder e influência” (NAVARRO, 2002, p. 36, tradução nossa).255 A autora destaca,
assim como Pigna, o quanto é significativo que nessas biografias, bem como em muitas obras peronistas, não seja mencionada a atuação política de Evita. Muitas obras antiperonistas são especulativas e apresentadas com o objetivo de revelar “a verdadeira Evita”, “a outra face de Evita”, contar “sua verdadeira história” como se apenas eles tivessem acesso à verdade. Detinham-se em temas como seus amantes, seu péssimo desempenho como atriz, sua personalidade vingativa e ambiciosa, buscando revelar um retrato íntimo, sem no entanto apresentar fontes ou provas (NAVARRO, 2002, p. 36):
Mas ao deixar de lado sua atuação política e ignorar o papel que desempenhava na política argentina, arrancavam-na do político, silenciavam-na e a despolitizavam, produzindo-se assim uma situação extraordinária já que Evita foi a fundadora e presidente de um partido político, o Partido Peronista Feminino, que trabalhou decididamente para que as mulheres argentinas se organizassem e votassem em
Perón em 1951, era a celebrada “Porta-voz dos Descamisados”, o laço de união
entre Perón e a Confederação Nacional do Trabalho (CGT), a única mulher que fazia parte do Conselho Superior do Partido Peronista e, durante um tempo, foi candidata a vice-presidência da Argentina. Uma mulher que, quando descobriu a política, apaixonou-se perdidamente por ela, e que desde 1946 até quando caiu enferma em 1951, praticamente não deixou de fazer política. (NAVARRO, 2002, p. 36, tradução nossa)256
Ao mesmo tempo em que se difundia um retrato despolitizado de Evita, o governo de Aramburu parecia ter clareza sobre o significado político e emocional de Eva para os peronistas e o simbolismo de seu cadáver embalsamado, razão pela qual os militares desaparecem com o corpo, transformando-a, segundo Navarro (2002, p. 37), na primeira desaparecida das ditaduras que se seguiriam. Além disso, o rigor antiperonista da primeira década da Revolução Libertadora acabou por tornar irresistível a fantasia do peronismo. Dessa forma, como aponta Andrés Avellaneda (2002, p. 1), o peronismo foi um fato maldito
255No original: “única explicación posible para que un hombre pudiera permitir que su esposa ganara tanto poder
e influencia”.
256 No original: “Pero al dejar de lado su actuación política e ignorar el papel que desempeñaba en la política argentina, la arrancaban de lo político, la silenciaban y la despolitizaban, produciéndose así una situación extraordinaria ya que Evita fue la fundadora y presidente de un partido político, el Partido Peronista Femenino, que trabajó denodadamente para que las mujeres argentinas se empadronaran y votaran por Perón em 1951, era
la celebrada ‘Abanderada de los Descamisados’, el lazo de unión entre Perón y la Confederación Nacional del
Trabajo (CGT), la única mujer que formaba parte del Consejo Superior del Partido Peronista y, durante un tiempo, fue candidata a la vicepresidencia de la Argentina. Una mujer que cuando descubrió la política, se apasionó perdidamente por ella, y que desde 1946 hasta que cayó enferma en 1951, prácticamente no dejó de
brevemente depois de 1955, com a literatura antiperonista; começou a deixar de sê-lo nos anos 1960 e 1970, no reexame da relação entre literatura, sociedade e política; e reciclou-se, por fim, como intertexto dos mitos sociais argentinos na literatura recente.
Para Suzana Rosano (2005, p. 14), Eva Perón foi condenada por muitos argentinos baseados num imaginário associado a um estereótipo de feminilidade: a mulher como centro, protetora do lar; no entanto este mesmo estereótipo permitiu a construção da representação de Evita pela narrativa oficial peronista. Essa aproximação no fundo do imaginário evitista entre os dois pólos é possível, porque, segundo Sarlo (1995, p. 21), as qualidades de seu corpo “não esgotam nenhum mito, mas sustentam todos eles. A paixão move o corpo coberto pelos vestidos [...].”
A paixão a que se refere Sarlo apresenta-se em forma narrativa em LRMV, obra autobiográfica em que Eva Perón constrói uma imagem de si vinculada ao projeto político peronista, como já mencionado, e lança as bases do que viria a ser o mito evitista. Para uma sociedade patriarcal, Eva apresenta-se como mulher, em segundo plano, sempre ao lado de Perón. Reafirma o papel da mulher como esposa e mãe, responsável pelo lar e pela família, alegorizando inclusive a pátria e o povo como lar e família. Ao elaborar a primazia de Perón, Eva chega ao ponto de apagar parte de sua identidade em sua autobiografia, não mencionando seu passado como atriz, relatando o encontro com Perón e como este transformou sua vida. Chama a atenção o quanto Eva, embora tenha papel protagônico no peronismo, insiste em colocar-se fora do centro, no entanto apresentando-se como um modelo a ser seguido em sua devoção a Perón. Isto talvez se deva ao intento de buscar um local de fala sem romper completamente com os valores sociais vigentes. Ao mesmo tempo, o peronismo, ao tornar esse discurso oficial, um verdadeiro “manifesto peronista”, mostra-se bastante habilidoso ao aglutinar as massas a Perón através da instrumentalidade de Evita.
Nas bases da mitologia evitista, estão a eleição de Evita para cumprir um destino; sua mediação entre Perón e o povo, e o fanatismo com o qual devota seus esforços ao líder. Eva credita a uma força que pode ser chamada de Deus, destino ou providência, sua eleição para realização de uma missão para a qual não foi forçada, mas aceitou cumpri-la generosamente (LRMV, p. 50), desde que conheceu Perón. Ora, o encontro aproximado ao que, religiosamente, chama-se “conversão”, Eva teve com Perón. Esse fato que transformou sua vida que, pela leitura de sua autobiografia, poderia ser entendida como dividida em dois períodos: antes e depois de Perón. Antes, período que não merece consideração, apenas no que se refere ao que serviu para moldar seu caráter e pôde ser utilizado pela causa peronista
como, por exemplo, sua indignação frente à injustiça. E depois, quando tudo passa a ter sentido e suas ações ganham importância, pois são fruto de indignação frente à injustiça e paixão pela justiça social motivada por seu marido e líder. Perón é, desta forma, apresentado como um tipo de Cristo, aquele no qual creram os humildes quando surgiu menino em Belém (LRMV, p. 38). O texto de LRMV contém vários elementos messiânicos, sendo Evita também um tipo de Cristo, ao assumir função mediadora. Assim como o Filho na concepção cristã é o mediador entre Deus e os homens, estava Evita entre Perón e o povo cumprindo idêntica função. Essas características messiânicas são, segundo o discurso de Evita, voltadas à construção de uma ordem social cristã oposta ao liberalismo e ao comunismo, como bem observou Rosano (2005, p. 54), o que possibilitou que os Montoneros a tomassem como líder nos anos 1970.
O modo como Eva dá a conhecer em sua autobiografia seu caráter geminado, isto é, composto por duas personalidades que se manifestam de acordo com a função social que desempenha, também se torna uma das bases de seu mito. Deixa Eva Duarte para trás, e já nem a menciona mais, passa a ser Eva Perón que contém em si Evita. No trato social e político como primeira dama, é Eva Perón, mas quando está diante do povo é Evita e este papel que desempenha, o melhor papel e seu desempenho mais bem sucedido, é o seu preferido. Como Evita, ela é a ponte estendida entre Perón e o povo, a mediadora.
A tarefa mediadora é cumprida por Evita de modo exagerado, fanático. Poderia aqui afirmar de outro modo: sobre sua tarefa mediadora, Evita declara-se exagerada e fanática. No entanto, esse discurso, se confrontado com fatos, revela-se verdadeiro, visto que é sabido que trabalhava longas jornadas em atendimento ao povo, com urgência em fazer justiça social, deixando-se consumir. Isto alimenta o mito crístico: a ideia de que entregou sua vida em prol dos mais necessitados. Além disso, o fato de que seu discurso possa ser comprovado por seus atos ajuda aos seus simpatizantes a fixar a ideia de que seu relato é verdadeiro.
Cabe ressaltar que esse empenho fanático devotado a Perón é exemplar, destinado a formar as bases peronistas, sendo LRMV tomado como um catecismo do peronismo. Nesse catecismo, relata-se a história de amor de uma mulher por um homem que é alegoria do amor deste homem pela nação. Uma mulher que, como uma santa, dedica-se intensamente a ajudar seu povo a entender a luta do “santo” líder revelando a motivação para sua frenética e laboriosa atividade de justiça social, enumerada em seu texto, à semelhança do bíblico Atos dos Apóstolos.
Concordo com Rosano (2005, p. 57), que afirma que LRMV está na ordem dos sentimentos, portanto não segue os parâmetros da racionalidade. É um contrato de amor entre Perón e o povo, que sela o pacto de lealdade do peronismo com as massas através da identificação de Evita com o povo. Desta forma, esta mulher converte-se no pilar fundamental da eficácia simbólica do peronismo. Observo que esta obra escrita de modo simples, como já mencionado anteriormente, com bastante clareza, sem rodeios, atingiu seu público, que também se viu, pouco tempo depois, em meio aos eventos de seu falecimento, seu funeral, a derrocada do governo peronista e o desaparecimento de seu cadáver. Tudo isto contribuiu para o imaginário evitista.
Em SE, discutem-se os motivos pelos quais Evita tornou-se um mito (SE, p. 183-197): ascensão meteórica; morte precoce; atuação política; amor de conto de fadas; fetichismo popular; justiça social e, por fim, monumento inconcluso.
Em apenas quatro anos, Eva saiu do anonimato de papeis medíocres na rádio para ocupar o posto de Primeira Dama e ser entronizada como a única mulher Benfeitora dos Humildes e Chefe Espiritual da Nação (SE, p. 183). O fato de isto ter ocorrido em pouco tempo contribuiu para impactar o povo, sobretudo porque sua intensa atividade como Evita parecia anunciar seu fim próximo. Da mesma forma, causou admiração e repulsa aos que se tornariam com o passar do tempo seus opositores ferrenhos: “Los que no le habían prestado atención como actriz la odiaban ya como ícono del peronismo analfabeto, bárbaro y demagogo” (SE, p. 184).257
O narrador comenta sua atuação pública que se parecia à de um macho, para os códigos culturais da época. A afirmação de que embora Evita sempre se colocasse atrás do marido, ele parecia a sombra, é confirmada com a citação de um escritor:
En una de sus invectivas memorables, Ezequiel Martínez Estrada definió así la
pareja: ‘Todo lo que le faltaba a Perón o lo que poseía en grado rudimentario para
llevar a cabo la conquista del país de arriba abajo, lo consumó ella o se lo hizo consumar a él. En ese sentido también era una ambiciosa irresponsable. En realidad,
él era la mujer y ella el hombre’. (SE, p. 184)258
Sua morte precoce coloca Evita ao lado de mitos argentinos como o músico e cantor Carlos Gardel e o líder revolucionário Che Guevara, falecidos aos 44 e 39 anos,