2.1 Kamu Tercihi Teorisi
2.1.4. Pozitif ve Normatif Kamu Tercihi
2.1.4.1. Pozitif Kamu Tercihi
A relação entre história e ficção na representação de Eva Perón consistiu no tema desta tese. Analisei as obras La razón de mi vida, de Eva Perón, Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez, e Evita: jirones de su vida, de Felipe Pigna, observando nelas, respectivamente, as representações autobiográfica, hagiográfica e política de Eva Perón. Busquei responder questões relativas à relação entre história e ficção na construção destas representações, identificando os elementos que relativizam os limites entre esses dois campos, ficcionalizando a matéria histórica, por um lado, e criando o efeito de historicidade, por outro. Além disso, questionei o papel do historiador na construção do efeito de historicidade, bem como o imaginário evitista na confluência das margens entre a história e a ficção.
Nesta pesquisa de tese, considerei a história como ciência dos homens no tempo, privilegiando a experiência humana, segundo Marc Bloch; como uma construção que segue um conjunto de práticas, de acordo com Michel de Certeau, e, ainda, como uma narrativa, segundo Hayden White. Sobre a ficção, utilizei o conceitual de Wolfgang Iser sobre os atos de fingir através dos quais o texto literário permite a realização do imaginário que adquire aparência de real. Apoiei-me também nas considerações de Walter Benjamin sobre o historiador alegorista como aquele que dá sentido à história e constrói sua experiência com o passado.
Discuti o efeito de efeito de historicidade criado, textualmente, na narratividade da história e, paratextualmente, com a autoria do historiador. Como elementos textuais criadores do efeito de historicidade, foram identificadas: notas, citações, tratamento do tempo, objetividade, conceitualização, cronologização, criação do enredo e argumentação. Quanto ao elemento paratextual, a presença do nome próprio do historiador com seu duplo reconhecimento – dos pares e do público – possibilita o efeito de historicidade.
Identifiquei as obras constituintes do corpora desta pequisa como integrantes de um espaço biográfico constituído por autobiografia (La razón de mi vida), biografia ficcional (Santa Evita) e biografia histórica (Evita: jirones de su vida).
Trabalhei com a noção da autobiografia como um gênero fronteiriço, multiforme e movediço, segundo Pozuelo Yvancos, para o qual ganha importância o pacto autobiográfico, segundo Lejeune, através do qual se estabelece um contrato de leitura entre autor e leitor. A autobiografia relaciona-se também à concepção do eu apresentado como modelo. Discuti a respeito da autoficção a partir de Alberca, considerando o seu fundamento a identidade
reconhecível entre autor, narrador e personagem do relato, além da possibilidade de o narrador criar múltiplas realidades. Sobre biografia, utilizei os aportes de Bakthin que a definiu como descrição de uma vida resultante da seleção, descrição e análise de uma trajetória individual. Com estes elementos, o biógrafo urde um enredo, sendo a biografia, portanto, uma construção, segundo Pierre Bourdieu.
Comentei o redespertar do gênero biográfico entre jornalistas e historiadores. Estes últimos buscam restaurar o papel do indivíduo na construção dos laços sociais. Ambos, jornalistas e historiadores, são influenciados pela literatura na produção biográfica que, embora apresentem semelhanças, como criação de personagens, introdução de licenças poéticas, interpretação e ficção, e uso do flasback no tratamento do tempo, também apresentam diferenças, que se referem ao tratamento diferenciado das fontes de pesquisa, o conteúdo ficcional e o tratamento da conjuntura.
Sobre hagiografia, refleti, observando seu caráter de um discurso que visa à exemplaridade, segundo Certeu, portanto um relato de sobrevivência após a morte, como apontado por Jolles.
Percebi o imaginário na confluência entre as margens da história e da ficção. De acordo com Jacques Le Goff, o imaginário faz parte de um campo de representação, a partir de uma perspectiva criadora, sendo um domínio da história. Observei que a percepção, nos textos literários, das representações, possibilita abrir portas ao estudo do imaginário.
Em La razón de mi vida, analisei a representação autobiográfica de Eva Perón. Verifiquei o pacto autobiográfico, a construção de si na narrativa como uma mulher humilde e vocacionada para a missão de cuidar dos trabalhadores de seu país; o relato de sua infância no qual se verifica sua vinculação ao projeto político peronista. Além disso, observei que Eva Perón constrói em seu relato alegorias da nação: lar e família. Nesta construção alegórica, ela é a mãe, Perón, o pai, e o povo são os filhos. Eva Perón apresenta-se como mediadora entre Perón e os trabalhadores.
Concluí que o efeito de historicidade é criado, nesta obra, a partir dos seguintes elementos: a autoria e o pacto autobiográfico; a construção do enredo (que dá intimidade e sentido à vida); os detalhes; as referências a personagens e instituições reais; a menção de datas históricas; a citação de documentos, a conceitualização e as fotografias. Estes elementos, em conjunto, possibilitam ao leitor tomar como realidade todo o relato.
Analisei, em Santa Evita, a representação hagiográfica de Eva Perón. A narrativa apresenta elementos constituintes do modelo do relato da vida de santo. Eva Perón é
representada como santa popular. Discuti a apresentação, nesta biografia ficcional, de suas origens na infância, sua ascensão, seus nomes e designativos, a irrupção do maravilhoso, a autoficção, a metáfora animal e a alegoria da história.
Concluí que sua origem e infância humildes são relacionadas à identificação posterior com os pobres, os descamisados e grasitas; sua atuação política atraiu admiração e repulsa resultando em múltiplas e antagônicas formas de designá-la; na obra, o maravilhoso irrompe através dos milagres e maldições da “Santa” Evita, sendo a principal relíquia de seu culto seu cadáver embalsamado. Concluí também que, com a autoficção, o narrador homônimo do autor se inclui na narrativa, relatando sua experiência com “Santa” Evita e com a construção de sua narrativa; através da metáfora animal, a história é alegorizada na narrativa, constituindo-se o narrador como um historiador alegorista que questiona as fontes, apresenta outras versões, convoca personagens outros para testemunharem, demonstrando que a história, está, portanto, também nas fontes desconsideradas pela “história oficial”. Logo, ao mesclar história e ficção, o romance possibilita intento de compreender o fenômeno político Evita com maior liberdade visto ser elaboração ficcional.
Em Evita: jirones de su vida, analisei a representação política de Eva Perón. A peculiaridade deste texto reside em sua constituição como biografia não ficcional escrita por um historiador renomado em seu país. Foram identificados os elementos criadores do efeito de historicidade, por um lado, e os que revelam a ficcionalização da história, por outro.
Concluí que a cronologização, a contextualização, a conceitualização, bem como a discussão das fontes e versões constituem os elementos textuais que possibilitam a a criação do efeito de historicidade. Além destes, também confere historicidade à narrativa a autoria do historiador, um elemento paratextual. Quanto à ficcionalização da história, esta se revela a partir da subjetividade, da criação do enredo e da presença do diálogo na narrativa.
Verifiquei que o historiador, em Evita: jirones de su vida, apresenta seu objeto através de uma representação linear, narrando sua transformação no decorrer do tempo de pessoa comum em ente político. Contextualiza a vida de Eva Perón apresentando os principais eventos na história geral e da Argentina, relacionando a biografada como sujeito histórico ao seu tempo. Pigna lança mão de conceitos já existentes e elabora outros para organizar a realidade histórica. Discute fatos e versões, dialogando, assim, com outros biógrafos e autores. Concluí, também, que a autoria do historiador confere efeito de historicidade ao texto biográfico. A partir do nome próprio do historiador são reconhecidos pelos leitores seu estilo e o gênero de sua obra. Sua assinatura caracteriza um modo de ser do discurso. Evita: jirones
de su vida, é recebida, portanto, como texto historiográfico, pelo público leitor que com ele estabelece o pacto de leitura.
O modo de narrar apresenta ficcionalização da história por meio da subjetividade, ou seja, o modo pelo qual o autor se dá a conhecer. São eles: juízos de valor, adjetivação, modo poético de narrar, comunicação com o leitor e indefinição. Além da subjetividade, há o enredo relacionado ao diálogo. São mecanismos, portanto, através dos quais a objetividade que se espera do historiador (em que pese o mito da neutralidade) é deixada de lado, transparecendo a construção da narrativa.
Por fim, analisei o imaginário evitista presente na confluência entre história e ficção, ou seja, entre as representações autobiográfica, biográfica e ficcional de Eva Perón. Apresentei o mito de Evita em sua dicotomia: antiperonista e peronista, concluindo que o mito tem grande produtividade na literatura e nas outras artes ainda hoje. Comparei as três representações com relação ao imaginário e concluí que a representação autobiográfica presente em La razón de mi vida estabelece as bases do mito; a representação hagiográfica em
Santa Evita discute e atualiza o mito e, finalmente, Evita: jirones de su vida pretende ser mais objetiva embora, em alguns momentos, apresente ficcionalização.
Desta forma, as representações alimentam o imaginário evitista nas margens confluentes entre a história e a ficção.