Na narrativa autoficcional, temas como História e Memória participam da fábula desempenhando funções, muitas vezes, intercomplementares, reciprocamente enriquecedoras, considerando que, enquanto a primeira atesta a veracidade do narrado, a segunda garante uma certa autenticidade à narrativa. Tal peculiaridade remete diretamente à natureza do gênero autoficcional que se configura nos interstícios de uma realidade concebida em dois planos, o real (histórico) e o literário (memorialístico). Parece-nos oportuno registrar aqui a afirmação de Le Goff: “Até os nossos dias, „história e memória‟ confundiram-se praticamente, e a história parece ter se desenvolvido sobre o modelo da rememoração, da anamnese e da memorização” (LE GOFF, 2013, p. 432).
Tendo em vista que o surgimento de novos campos do saber ocasionou múltiplos desdobramentos e aplicações do próprio conceito de História e que, de igual maneira, os estudos da e sobre a Memória vêm sinalizando para uma mais ampla compreensão do termo, parece-nos oportuno revisitá-los, buscando assim um melhor entendimento do processo pelo qual esses temas, enquanto instâncias discursivas, são utilizados por Goytisolo para a elaboração de sua escritura.
Em sua acepção primeira, o termo História tem origem na cultura grega com Heródoto (485 a.C. 430 a.C.), sinalizando uma atividade de pesquisa e conjunto de conhecimentos resultantes de investigações. Em sua obra História e Memória, Jacques Le Goff (2013) afirma que, para além do sentido inicial, de origem grega, o termo “história” abrange também outras acepções, entre elas a de narração: “Uma história é uma narrativa, verdadeira ou falsa, com base na „realidade histórica‟ ou
puramente imaginária – pode ser uma narração histórica ou uma fábula” (Le GOFF, 2013, p. 22).
Atendendo os aspectos de narratividade e realidade histórica, nos parece pertinente, portanto, observar o diálogo que se estabelece, em Goytisolo, entre as instâncias história e memória. Tomemos como ilustração os dois fragmentos que aparecem à página sete de Reivindicación del Conde Don Julián. No primeiro, extraído de Historia de España – De los orígenes a la baja Edad Media (1952), de Luis García de Valdeavellano, o teor de caráter quase especulativo e o reiterado uso da partícula si corroboram a assertiva de Le Goff e não deixam margem a dúvidas de que a narrativa histórica nem sempre se fundamenta em fatos:
De él se iba a apoderar pronto la leyenda con el nombre de „Conde Don Julián‟ y, en realidad no sabemos si era berberisco, godo o bizantino, si gobernaba Septem como conde porque la plaza dependía del Reino visigodo, si era un exarca o gobernador que dependía del Imperio de Bizancio o si, como parece más probable (grifo nosso) era un bereber señor de la tribu católica de Gomera... (GOYTISOLO, 1999, p. 7).
O segundo fragmento, extraído da Crónica General de Alfonso X El Sabio, de época bastante anterior (século XIII), e, portanto, com menor distanciamento temporal dos fatos, apresenta o “misterioso personaje” de Luis García de Valdeavellano, não mais como personagem mas como pessoa a quem, em meio a acusações e impropérios de toda ordem, se atribui a entrada dos árabes em território espanhol: “matador de su señor, enemigo de su casa, destroidor de su tierra, culpado et alevoso el traidor contra todos los suyos; amargo es el su nombre el la boca de quil nombra” (GOYTISOLO, 1999, p. 7). Nesse contexto específico, temos o que Le Goff define como colocar a explicação no lugar da narração. E é possível constatar em Goytisolo a preocupação com o que é de fato História e o que a memória individual e coletiva historicizou.
O autor considera que a negação da própria história leva à negação da identidade. Sua condição de exilado se reflete em sua obra como parte de seu projeto literário. Projeto esse que propõe o questionamento do mito do ser espanhol e o desmascaramento da hipocrisia e de uma tradição que nega a própria história. Em resposta à pergunta: “Entonces se puede decir que la distancia del exilio constituye la posibilidad de su obra narrativa?”, Goytisolo declara: “En mi caso concreto sí. […]
Esta posibilidad del exiliado de ver una cultura a la vez con intimidad y con distancia me parece fundamental” (GOYTISOLO, 1998). Sua resposta nos permite concluir que o afastamento geográfico imposto pelo exílio lhe permitiu uma visão mais ampla e profunda da realidade espanhola e, consequentemente, uma postura mais crítica frente aos valores que lhe foram inculcados. Goytisolo credita à sua experiência de vida fora da Espanha, e ao conhecimento que tal experiência lhe proporcionou, um divisor de águas em seu amadurecimento literário.
Em face dessa declaração, nos parece possível pensar que o episódio do exílio reverbera em sua obra em forma de uma crítica contundente a uma realidade que, mesmo com todas as transformações que se observam após o fim da ditadura franquista, continua sendo alvo de sua atenção. Em outras palavras – apesar do tempo e da distância, Goytisolo não conseguiu se tornar indiferente ao seu país de nascimento e o recupera no espaço da escritura. Suas estratégias discursivas apontam, na maior parte das vezes, para três direções:
a) crítica literária e social: “original y castizo sistema crítico fundado en la tribal, primitiva economía de trueque! : poetas, narradores, dramaturgos al acecho del planetario premio” (GOYTISOLO, 1999, p.129-130);
b) mágoa: “con la visión cruel y lúcida de tu doble experiencia de español y de emigrado, con treinta y dos años a cuestas de escamoteada (no vivida) historia civil” (GOYTISOLO,1977, p.133-134); “Que ningún respeto ni humana consideración te retengan en un barrio olvidado de esa ciudad de cuyo nombre no quieres acordarte” (GOYTISOLO, 1999, p.185);
c) tentativa de ruptura: “[…]: ayúdame a vivir sin suelo y sin raíces : móvil, móvil : sin otro alimento y sustancia que tu rica palabra” (GOYTISOLO, 1999, p. 110).
Pelo registro da História o homem, de alguma maneira, confere um sentido à sua existência, configura sua identidade e constrói seus valores. Paulatinamente, vai constituindo seu acervo de memórias que, com o decorrer do tempo, será matéria prima das grandes narrativas épicas, nacionais, mitológicas e históricas, ou mesmo autoficcionais. Ao incorporar à sua obra elementos históricos, Goytisolo consolida as
bases de seu projeto literário e, ao fazê-lo, define o papel da memória em sua narrativa: dotar de sentido a sua própria história.
Resumindo, em palavras de Eclea Bosi: “Há um modo de viver os fatos da história, um modo de sofrê-los na carne que os torna indeléveis e os entrelaça com o cotidiano, a tal ponto que já não seria fácil distinguir a memória histórica da memória familiar e pessoal” (BOSI, 1994, p. 464). Essa afirmação nos parece adequada para exemplificar a trajetória vital e literária de Juan Goytisolo.
Algumas menções fragmentárias, ao longo da obra, sobre episódios que remetem à vida do autor, bem como sobre outras personalidades podem ser identificadas como marcas autobiográficas dentro da narrativa ficcional. Tais ocorrências interligam a História e a memória. Portanto, como proposto nos objetivos específicos, enumeramos algumas citações que exemplificam essa ocorrência. Um exemplo da mágoa expressa pelo narrador nas linhas iniciais de Don Julián é reconfigurado em: “reviviendo el recuerdo de tus humillaciones y agravios” (GOYTISOLO,1975, p.16); mais adiante a reflexão da personagem: “la vida de un emigrado de tu especie se compone de interrumpidas secuencias de renuente y laboriosa unidad” (GOYTISOLO,1999, p. 19) é legitimada na declaração do autor:
El narrador de esta novela (como su autor, por otra parte) ha renunciado a la realidad física de su país, pero no a su cultura; a la tierra, pero no a la palabra. Hace 14 años que vivo fuera de España; al principio fue por razones políticas, ahora mi exilio es mucho más general y puedo considerarme en cierto modo como un „self-vanished‟ (GOYTISOLO, 1975, p. 141).
Cabe aqui registrar a observação de Leonor Arfuch sobre a relação entre o biográfico e a narrativa histórica. Considerando uma sólida base conceitual, a autora propõe uma elucidação entre história e ficção (grifo da autora), já que: “ambas compartilham os mesmos procedimentos de ficcionalização, mas se distinguem, seja pela natureza dos fatos envolvidos [...] seja pelo tratamento das fontes e do arquivo” (ARFUCH, 2010, p. 116-117). Essa afirmação coincide em pleno com a reflexão de Goytisolo quando discorre sobre os mitos e os lugares de memória presentes na narrativa histórica espanhola. E a teórica argentina conclui:
Ao que parece, os gêneros canônicos (biografias, autobiografias, memórias, correspondências) jogarão um jogo duplo, ao mesmo tempo história e ficção, [...] integrando-se assim, com esse estatuto, ao conjunto de uma obra de autor – no caso de escritores – e operando simultaneamente como testemunho, arquivo, documento, tanto para uma história individual quanto de época (ARFUCH, 2010, p. 117-118).
As sucessivas acepções e aplicações que, enquanto Ciência, a História vem recebendo, além de outros recortes epistemológicos que abordam temas como subjetividade, nação e nacionalismo; os avanços tecnológicos que impactam nas formas de observação, registro e análise das informações, aliados a uma maior criticidade por parte dos estudiosos e escritores a História se (re)atualiza e se abre a questionamentos em outras épocas impensáveis.
Analisar as causas de como e por que os fatos sucederam de determinada maneira poderá, na perspectiva de Goytisolo, contribuir para que não se repitam no futuro os erros do passado. (Re)vista pela perspectiva do vencido, a História certamente será distinta daquela escrita pelo vencedor. Apropriada pela ficção, poderia revelar verdades silenciadas nas lacunas da memória. Tomemos as palavras de Goytisolo:
Jacques, le tout à des prix imbattables, galopando por tierra y por aire hasta la otra orilla del mar a fin de prestar mano fuerte a Cortés y, al frente de los de Cholula, Tezcuco y Tascala, hacer gran degollina de indígenas, embistiéndoles a bocados y coces para que se funden en México tres Audiencias reales con once obispados [...] (GOYTISOLO, 1999, p. 123-124).
Embora se saiba que toda narrativa de si é ficcionalizante, algumas questões suscitam debates que podem contribuir, não necessariamente com a pretensão de encontrar ou oferecer respostas, e atuam no sentido de aprofundar o debate. E na discussão que se instala sobre os temas de memória e imaginação, esquecimento e memórias encobridoras, se destaca a questão nebulosa dos limites entre autoficção e realidade e desperta a atenção de teóricos como Manuel Alberca, Serge Doubrovsky, Jacques Lecarme, para citar alguns, que se dedicam aos estudos da escrita autoficcional.
O termo autoficção surge em 1977, quando Serge Doubrovsky publica sua obra Fils. Esse romancista francês, partindo do questionamento de Lejeune sobre a possibilidade de criação de um romance sobre o próprio autor, assume a empreitada de escrever tal obra, que veio a ser considerada como romance autoficcional. E a
partir de um neologismo, Doubrovsky cunha o termo. Cumpre lembrar que, anterior à obra de Doubrovsky, o romance de Marcel Proust Em busca do tempo perdido (1913) é considerado pela crítica como romance autoficcional, o que nos remete ao fato de que a contribuição de Doubrovsky se vincula muito mais à criação do termo do que ao próprio gênero.
Para Doubrovsky, a autoficção seria: “Ficção, de acontecimentos e fatos estritamente reais” (DOUBROVSKY, 2014, p.120). Esse teórico considera o gênero como uma variante pós-moderna da autobiografia e propõe uma distinção entre ficcional e fictício, em que o primeiro termo se referiria à utilização das mesmas estratégias discursivas presentes na narrativa do romance moderno e contemporâneo, ou seja, a forma literária. O segundo termo, por sua vez, seria o próprio ato de fabular. Por outro lado, é possível identificar certa coincidência entre Doubrovsky e Lejeune no que tange à semelhança entre autobiografia e romance autobiográfico, como se pode comprovar na citação:
Chamo assim todos os textos de ficção em que o leitor pode ter razões de suspeitar, a partir das semelhanças que acredita ver, que haja identidade entre autor e personagem (grifo do autor), mas que o autor escolheu negar essa identidade ou, pelo menos, não afirmá-la. Assim, definido, o romance autobiográfico engloba tanto narrativas em primeira pessoa (identidade do narrador e do personagem) quanto narrativas „impessoais‟ (personagens designados em terceira pessoa); ele se define por seu conteúdo. A „semelhança‟ suposta pelo leitor pode variar de um vago „ar de família‟ entre o personagem e o autor até uma quase transparência que leva a dizer que aquele é o autor „cuspido e escarrado‟ [...]. Já a autobiografia não comporta graus: é tudo ou nada (LEJEUNE, 2008, p. 25).
Trazemos a contribuição desses teóricos por considerar que seu aporte lança luzes sobre o tema que nos ocupa neste estudo. A vida e a obra de Goytisolo apresentam indeléveis sinais dos impactos causados pela História recente da Espanha. Sua condição de exilado, aspecto fulcral de sua obra e componente de seu projeto literário, questiona o mito do homo hispanicus: “la destrucción de las instituciones y símbolos sobre los que se ha construido la personalidad española […] del mito del caballero cristiano [...], del destino español singular y privilegiado, […] la esencia hispánica a prueba de milenio […]” (GOYTISOLO, 1989, p. 33). Vários episódios da história espanhola são mencionados na Trilogia e aqui citamos alguns em alusão a Franco, representação ameaçadora da figura paterna, e à sua ditadura. Em Don Julián: “[...] bajo la autoridad enmarcada del Ubicuo [...] en aquellos dichosos
tiempos, abolidos por decreto ahora que soplan vientos conciliares” (GOYTISOLO, 1999, p. 31-32); em Señas de Identidad: “[...] la guerra civil española le había pillado en La Habana y el mismo 18 de julio del 36 a las siete en punto de la tarde hora local […]” (GOYTISOLO, 1977a, p. 35); e em Juan sin Tierra: “[...] cuando la inmunda jauría de l‟Allergie Française imponía abiertamente su ley en la calle (cacheo común, redada masiva, discriminatorio toque de queda” (GOYTISOLO,1977b, p. 93).
José María Pozuelo Yvancos propõe o termo autofiguração em substituição ao de autoficção a partir de uma argumentação bastante esclarecedora. O teórico contextualiza o surgimento do termo, que extrapola uma mera resposta de Serge Doubrovsky ao questionamento de Philippe Lejeune e cujo resultado foi a obra Fils (1977) que, de acordo com sua interpretação, seria uma falsa autobiografia ou contra-autobiografia. Sugere que a publicação de O pacto autobiográfico de Philippe Lejeune e a crise da personagem como entidade narrativa postulada por teóricos do Nouveau Roman na Paris dos anos 60 e 70 foram fatores importantes para a origem do gênero. Outro fato que se somou à configuração do contexto foi a publicação da autobiografia de Roland Barthes – Roland Barthes por Roland Barthes (1975) e, seguindo o raciocínio de Pozuelo Yvancos, a autoficção surgiu como uma categoria resultante desse momento.
De acordo com o entendimento de Pozuelo Yvancos ao falar de autoficção Doubrovsky estaria apontando para a ruptura da entidade narrativa – elemento essencial da história; da personagem e da pessoa nela representada. Esse estudioso considera a autoficção como um subgênero e esclarece sua preocupação quanto ao uso indiscriminado do termo:
Considero importante rescatar este origen, si no queremos seguir contribuyendo a que ocurra con la autoficción lo que ha ocurrido con los conceptos paralelos de posmodernidad o de deconstrucción, que de tanto usarse, para tanto y en distintos contextos y para diversos autores, y obras, han acabado perdiendo su distintividad y su capacidad de decir lo que querían decir cuando nacieron y resultaban categorias realmente útiles (POZUELO YVANCOS, 2006,p.16).
O teórico alerta para o equívoco muito frequente de associar a autoficção a identidade real do escritor. A própria crítica teria entendido que a representação do eu pessoal remeteria à natureza autobiográfica e cita como exemplo o fato de se
classificarem obras com esse critério. Aponta que não se pode confundir a questão da identidade na constituição da voz narrativa como índice de referencialidade: “como si las ficciones fuesen vías de representación de un yo ajeno a ellas y previo a la construcción de su mundo, lo cuál significa ignorar el estatuto de palabra imaginaria que en cuanto ficciones tienen” (POZUELO Yvancos, 2006, p. 21).
Quando propõe a expressão “figurações do eu” em substituição a autoficções, o teórico argumenta, citando fontes como os Dicionários da Real Academia Española e María Moliner, que desde suas origens o termo figuração se inscreve no mesmo campo semântico de fantasiar, imaginar, supor, aparentar, entre outros. Seu questionamento, bastante adequado ao nosso estudo, provoca o leitor: “¿Habría una forma de ser una voz personal y no ser biográfica, esto es de ser la voz de quien escribe y no constituirse en el correlato de una vivencia vital concreta?” (POZUELO YVANCOS, 2006, p.29). Sua resposta é afirmativa, e nosso estudo nos leva a considerar que, independentemente da escolha entre autoficção ou autofiguração, estamos diante de uma trilogia que, em muitas vozes, nos fala de uma época, de uma História, de um contexto, de um autor, de suas representações. E mesmo que toda escrita de si seja autorreferencial o eu que escreve nem sempre se escreve, mas muitas vezes se inventa. A escrita oferece inúmeras formas de existir – autor, personagem de si, projeção do Outro, autofiguração, entre outros.
Em seu estudo, já citado, Julio Premat (2009) aponta que:
La historia literaria está repleta de ejemplos de escritores que, desde el manuscrito y los ritos de escritura hasta las estrategias de edición, desde la puesta en escena ficticia del acto de creación hasta los debates estéticos subyacentes en sus textos, desde las imágenes fotográficas o discursivas que promueven sobre sí mismos hasta los modos en que reaccionan adaptándose a los efectos de sus propios textos, de escritores que, entonces, producen una figura de sí en tanto que autores. Figura de sí que es perfectamente ambivalente y condicionada en dos sentidos: condicionada desde fuera, por el campo literario en el que se incluye, condicionada desde dentro, por las resonancias con el yo ideal y con las ficciones de la escritura. Borges es un espléndido ejemplo de este proceso, que puede denominarse, como algunos críticos lo han hecho, una autofiguración (PREMAT, 2009, p. 24).
A personagem de Reivindicación del Conde Don Julián (1999), desde o início da narrativa, não oculta a mágoa que carrega e que alimenta seu desejo de vingança: “la venenosa cicatriz que se extiende al otro lado del mar : herida más bien,
infectada y aberta : borrosa, distante” (GOYTISOLO, 1999, p. 56). Essa afirmação é reiterada nas páginas 62 e 118, o que sinalizaria para uma tentativa de, pelo processo da escritura, elaborar um trauma de infância marcado por perdas. E, de forma mais contundente, perdas afetivas. Analisado por esse ângulo se poderia pensar que, ao se referir ao seu país como “venenosa cicatriz”, o narrador aludiria às lembranças que o autor carrega por ter nascido e vivenciado ali experiências que lhe resultam difíceis de esquecer. Destarte, a memória cumpriria o papel de resgatar, pela escrita, a trajetória de uma vida que foi interrompida e que culminou em um autoexílio com todas as perdas, e também benefícios, que lhe são inerentes.
Em função mesmo de suas características, a História sempre remete à memória, com a qual guarda estreita relação. Essa, ao longo dos tempos, vem merecendo a atenção de diversas ciências como a biologia, a psicologia, a psicofisiologia, a neurofisiologia e a psiquiatria. Para os fins de nossa pesquisa sobre o tema, partimos de uma definição, de caráter organicista, proposta por Jacques Le Goff, para quem: “a memória se refere a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 2013, p. 387).
Vale destacar que, em consonância com os objetivos a que nos propusemos neste estudo, consideramos adequado abordar a memória em sua representação individual e coletiva na obra de Goytisolo. Essa opção nos remeterá ao questionamento do autor sobre a memória histórica, que perpassa, em distintos níveis, sua narrativa. Não serão abordadas, portanto, as modalidades de memória oral, virtual, genética, ou para sintetizar em um termo mais atual – a memória em expansão.
Em uma entrevista, Nélida Piñon (2015) afirmou que a memória e a invenção caminham juntas. Para a escritora, a memória não se constitui um elemento isolado, é parte integrante do processo de elaboração da escrita e diretamente vinculada à ficção. Sua observação remete a Goytisolo quando discorre sobre a dificuldade de separar o que é memória e o que é invenção: “[...] pero devuelto a tu infancia [...] venticinco, ventiséis años? : nueve tenías tú ( si los tenías) y la imagen (inventada o real) pertenece a una ciudad, a un país de cuyo nombre no quieres acordarte”