3.2. Devletin Büyümesini Açıklayan Teoriler
3.2.3. Diğer Teorilere Genel Bakış
Primo Levi esteve envolvido com o universo da tradução de forma “ativa” –
traduzindo livros de outros (textos científicos, obras de Lévi-Strauss, O Processo de Franz Kafka)134 e de forma “ passiva ”, seus livros sendo traduzidos em diversas línguas, entre as quais, línguas conhecidas, que neste caso permitiram uma vigilância direta, como no intenso caso da edição alemã.
Mas começaremos pela representação narrativa do traduzir e do tradutor. Em SQU, ao chegar em Auschwitz, os prisioneiros poliglotas assumem a tarefa de traduzir, para os companheiros desorientados, as primeiras informações sobre o Campo e as
ordens das SS. No começo do capítulo “Sul fondo”, os deportados descem do caminhão
e são fechados numa sala gelada, “vasta” e “nuda” (“ampla” e “nua”), à mercê da sede
de quatro dias (uma sede que os torna “ferozes”135
) e próximos a uma goteira de água
não potável que desce de uma torneira. “Este é o inferno”, deduz o narrador,
visualizando um mundo infernal moderno naquela imagem de sala vazia onde, obrigados a ficar de pé, exaustos e sedentos, se insere uma nova consciência de tempo
imóvel: “o tempo passa gota a gota”.136
O primeiro evento que irrompe na imobilidade noturna é a busca por um tradutor, sem o qual as ordens dos alemães permaneceriam incompreensíveis:
133
TODOROV, 2005, p.37.
134
Desde 1952, Levi inicia uma colaboração com a Editora Einaudi para as publicações científicas, que continuará especialmente antes de 1960 e depois de1975. Ainda traduz ou realiza consultorias com as editoras Boringhieri e Adelphi. (BELPOLITI, Marco. Pr imo Levi di fr onte e di pr ofilo. Milano: Guanda, 2015, pp.496-499).
135
SQU, p.15, trad.nossa. A expressão “ci r ende fer oci” é traduzida porém com “nos enlouquece” (É isto um homem? , p.20). Mas o adjetivo fer oce é parte do léxico peculiar de Levi.
136
Non siamo morti; la porta si è aperta ed è entrata una SS, sta fumando. Ci guarda senza fretta, chiede: Wer kann Deutsch ?- Si fa avanti uno fra noi che non ho mai visto, si chiama Flesch; sarà lui il nostro interprete. La SS fa un lungo discorso pacato, l´interprete traduce. Bisogna mettersi in fila per cinque, a intervalli di due metri fra uomo e uomo; poi bisogna spogliarsi e fare un fagotto degli abiti in un certo modo [...] togliersi le scarpe ma far molta attenzione di non farcele rubare (SQU, p.15).
Não estamos mortos: abre-se a porta, entra, fumando, um sargento SS. Olha-nos sem pressa ; pergunta : - Wer kann Deutsch ?- Adianta-se um de nós que eu nunca vira, chama-se Flesch ; será nosso intérprete. O SS fala longa e tranquilamente; o intérprete traduz. Devemos formar filas de cinco, deixando um espaço de dois metros entre um e outro; a seguir, despir-nos e fazer uma trouxa com nossas roupas conforme critério determinado [...] tirar os sapatos, com cuidado para que não nos sejam roubados (É isto um homem ? p.20).
Uma série de perguntas forma-se entre os prisioneiros e o tradutor as reproduz :
Tutti guardiamo l´interprete, e l´interprete interrogò il tedesco, e il tedesco fuma va e lo guardò da parte a parte come se fosse stato trasparente, come se nessuno avesse parlato. Non avevo mai visto uomini anziani nudi. Il signor Bergmann portava il cinto ernario, e chiese all´interprete se doveva posarlo, e l´interprete esitò. Ma il tedesco comprese, e parlò seriamente all´interprete indicando qualcuno; abbiamo visto l´interprete trangugiare, e poi ha detto: - Il maresciallo dice di deporre il cinto, e che le sarà dato quello del signor Coen -. Si vedevano le parole uscire amare dalla bocca di Flesch, quello era il modo di ridere del tedesco
(Ibid., p.16).
Para poder analisar esta citação, precisamos propor uma tradução que não mude o jogo dos tempos verbais com a intenção de garantir uma coerência sintática, pois o próprio escritor escolheu quebrá-la .
Estamos todos olhando para o intérprete, e o intérprete perguntou ao alemão, e o alemão fumava e o atravessou com o olhar de parte a parte, como se fosse transparente, como se ninguém tivesse falado.
Eu nunca tinha visto velhos nus. O Sr. Bergmann usava um cinto herniário, e perguntou ao intérprete se devia tirá-lo e o intérprete hesitou. O alemão compreendeu, porém, e falou sério ao intérprete indicando alguém; vimos o intérprete engolir seco, e em seguida disse: - O sargento manda o senhor tirar o cinto e receber o do Sr Coen. Viam-se as palavras amargas saindo da boca de Flesch, era o jeito do alemão rir (trad. nossa). 137
137
Observe-se como a tradução da edição brasileira tende a arrumar todo o texto, eliminando conjunções e mudando a pontuação. E principalmente não segue os tempos verbais originais, impondo um coerente e constante presente (exceto no verbo final): “Olhamos todos para o intérprete, o intérprete pergunta ao alemão e o alemão continua fumando, olha através dele como se fosse transparente, como se ninguém tivesse falado. Eu nunca tinha visto velhos nus. O Sr. Bergmann usa um cinto herniário; pergunta ao intérprete se deve tirá-lo e o intérprete vacila. O alemão compreende, porém; fala sério ao intérprete
O tradutor é transparente para o oficial nazista, porque é humano de um lado só, do lado dos prisioneiros que precisam dele para viver.
Observe-se a mudança de tempo verbal intercorrente entre o olhar em direção ao tradutor e a pergunta colocada por este à SS. Não se trata do único exemplo de mudança de tempo verbal, embora aqui particularmente rápido, e as notas de Cavaglion à última edição italiana de SQU não deixam de assinalar tal peculiaridade. Mas o que acontece nesta defasagem gramatical? O passato remoto (um passado, como o passé simple francês, utilizado para passados mais longínquos, em textos de histórias, fábulas, biografias etc.) substitui o presente e em seguida é atenuado pelo passato prossimo (como o passé composé, um passado mais próximo, mais usado). Como afirma Pier Vincenzo Mengaldo o presente atualiza a experiência e convida o leitor a adentrá-la, a
sentir sua realidade incancelável, e por esta razão o tempo “desliza insensivelmente de histórico a acrônico, ou eterno”138
. Ressaltaremos que o deslizamento acontece na mesma frase, desde o olhar do sujeito plural – o “nós” narrativo – enquanto observa o
intérprete (“Tutti guardiamo l´interprete”), isto é do presente de uma ação silenciosa,
mental (o olhar), à ação do tradutor, na qual o verbo é transformado ou deformado ao passado (“l´interprete interrogò il tedesco”), alteração que permanece na ação do olhar do alemão (“il tedesco lo guardò da parte a parte”). O tradutor é, nesta frase, o motor da transformação, ele traduz o presente em passado, ele transfere os prisioneiros, como Caronte aos mortos, de uma margem à outra, e os leva até o olhar do alemão, que é (in)diferente, como se eles fossem de ar, almas perdidas sem corpos (i dannati), pois ele olha através de uma transparência, “come se nessuno avesse parlato.” Ao assumir o passado, o diálogo entre o tradutor e a SS volta a ser testemunho, recordação. De repente o leitor, que estava dentro do Lager com o prisioneiro (e os tempos verbais no presente), retoma o lugar na plateia como espectador. Esta aproximação-distanciamento assemelha-se ao exercício de se colocar no lugar de quem narra, entrar na narração ao máximo possível e conseguir ao mesmo tempo permanecer em parte fora, no lugar de quem deverá preservar sua capacidade analítica após ter vivido empaticamente o que
indicando alguém; o intérprete engole seco e traduz: - O sargento diz que o senhor tire o cinto e que receba o do Sr Coen. Nota-se que as palavras saem amargas da boca de Flesch; foi este o jeito do alemão de rir de nós” (p.21).
138
leu139. De fato, é o mesmo movimento do escritor que escreve, para o qual Mengaldo dá
o nome de “narração comentada”140 .
Outro aspecto estilístico para a mudança temporal é identificável na utilização de elementos da narração oral141, observado ainda por Mengaldo. Domenico Starnone utiliza uma expressão eficaz ao dizer que Levi está entre “os que escrevem deixando dentro da própria escrita um pouco de voz. Quem começa a ler, se sente mais ouvinte do
que leitor.”142
A liberdade da narração oral permite passagens temporais enquanto
presente e perfeito “distante” ou “histórico” (o “passato remoto”) possuem ambos
legitimidade para narrar fatos longínquos. Pode-se instalar também, no leitor, a sensação de que o escritor esteja engajado numa tentativa en abîme para encontrar o enfoque certo – como o gesto de ajeitar o foco de uma lente fotográfica – para que, então, seja possível contar a ofensa. E se trata justamente de um episódio de humilhação emblemática. Como encontrar as palavras, pergunta-se Levi, quando o significado de
“humanidade” é ofuscado, desfocado, embaçado, incerto?
Ainda podemos pensar em uma incoerência sintática, uma confusão gramatical como reflexo do desnorteamento, de estar de repente num mundo sem referências, sem hoje nem amanhã, sem as leis conhecidas. A sucessão de diversos tempos verbais atrapalha a compreensão, embaralha a visão clara do que acontece na frente dos olhos. Enfim, o presente pertence ao momento de ingenuidade, de perguntas, de descoberta, enquanto a realidade do Campo impõe um passado, o tempo de quem morreu.
O texto de Derrida sobre Blanchot, L´instant de ma mort, relato de um episódio parecido com a condenação à fuzilação de Dostoievski, também suspensa no último instante, ajuda-nos a pensar sobre as mudanças temporais dos verbos em Levi. Derrida analisa as expressões temporais e gramaticais capazes de captar e imobilizar o instante da não-morte narrado por Blanchot: “Não há um tempo só, e como um instante não possui nenhuma medida comum ao outro, a partir da causalidade introduzida pela
139
Seria útil poder analisar a correspondência completa com o tradutor Heinz Riedt, que inclui esclarecimentos sobre os tempos verbais, mas ainda de difícil acesso. Cf. BELPOLITI, 2015, p.94.
140
MENGALDO, op.cit., p.203.
141
Levi comentou em SES que SQU “doveva essere più che un libr o, un na str o di ma gnetofono” (SES p.142); “devia ser, mais do que um livro, um registro de gravador” (Os a foga dos e os sobr eviventes, p.148).Todavia, Belpoliti observa com razão que sua oralidade é sempre subordinada à escrita, ou pe lo menos “não se trata da tipologia popular do narrador espontâneo, e sim a do narrador culto, de origem intelectual, um escritor que é antes de tudo um leitor (ou um ouvinte, como afirma em A cha ve estr ela)”
(BELPOLITI, op.cit., p. 601-2). De resto, é suficiente assistir a entrevistas com Levi (disponíveis na Internet) para perceber o estilo de sua fala.
142
morte, não é possível medir o tempo nem uma vez recuperada a percepção do real”143. Mais do que aplicar a Levi as palavras de Derrida dedicadas a Blanchot, gostaríamos de sublinhar o quanto a presença da morte ordena ou desarruma o tempo, alienando o indivíduo da dimensão cronológica, que antes era um ponto de referência. No “buraco
negro” de Auschwitz, podemos afirmar com Derrida que o tempo não é mensurável144,
tanto é que passa “gota a gota”, quase parando, parado, ou é percebido como imóvel. E,
neste sentido, o tempo do Lager apresenta-se como um extenso “instante” da própria morte.
Entre os “milagres” que segundo Domenico Scarpa o escritor consegue obter,
está o desmontar e o montar, sob o olhar do leitor, os tempos da narração.145 Um episódio exemplar concerne à pagina sobre o exame de química, onde está em jogo o futuro do prisioneiro 174 517 (se deve a mais esta etapa a sobrevivência do autor, o qual, podendo trabalhar em lugar fechado, conseguiu escapar às piores consequências do rígido inverno de 1944-45). A alternância de tempos do pretérito de diferente qualidade (o passato prossimo e remoto) parece estar a serviço da reviravolta da percepção temporal dentro do campo e também da necessidade de transmitir o peso da ofensa. Mas a ofensa não passa, pertence a todos os tempos, e a memória testemunhal há de ser declinada no presente.146 Na cena do tradutor, o nazista confirma com sua atitude o estatuto de inferioridade dos prisioneiros pois a pergunta é como se fosse inexistente. E se houver resposta, virá sob o signo do desprezo:
Si apre la porta, entra un tedesco, è il maresciallo di prima; parla breve, l´interprete traduce. – Il maresciallo dice che dovete fare silenzio, perché questa non è una scuola rabbinica -. Si vedono le parole non sue, le parole cattive storcergli la bocca uscendo, come se sputasse un boccone disgustoso. Lo preghiamo di chiedergli che cosa aspettiamo, quanto tempo ancora staremo qui, delle nostre donne, tutto: ma lui dice di no, che non vuol chiedere (SQU, p.17). Abre-se a porta, entra um alemão, é o sargento de antes; fala brevemente, o intérprete traduz : - O sargento mandou ficarem calados, isto não é uma escola rabínica. Vê-se que as palavras, estas palavras maldosas, que não são dele, fazem repuxar a sua boca, como se ele cuspisse um bocado nojento. Rogamos que pergunte o que estamos esperando, quanto tempo ainda vamos ficar aqui, que pergunte pelas nossas mulheres, que pergunte tudo, mas não, ele diz que não, que não quer fazer perguntas (É isto um homem ? p.22).
143
DERRIDA, L´ista nte della mia mor te. In Aut-a ut , n.267-8, 1995 p.51, trad.nossa.
144 Ibid., p.52. 145 SCARPA, 1991, p.236. 146 Ibidem.
O tradutor, estrangeiro para os italianos presentes, mas tão estranho-alheio quanto eles, apesar de ser alemão – vivencia uma notável dificuldade, quando, ao usar aquele idioma alemão – daquela forma e naquele lugar –, vê-se obrigado a engolir o Lagerjargon com seus significados brutais e paradoxais; em suma, a violentar a linguagem.
Questo Flesch, che si adatta a malincuore a tradurre in italiano frasi tedesche piene di gelo, e rifiuta di volgere in tedesco le nostre domande perché sa che è inutile, è un ebreo tedesco sulla cinquantina [...] È un uomo chiuso e ta citurno, per il quale provo un istintivo rispetto perché sento che ha cominciato a soffrire prima di noi (Ibid., p.17).
Esse Flesch, que contra a sua vontade concorda em traduzir para o italiano frases alemãs geladas, e que se recusa a verter para o alemão as nossas perguntas, porque sabe que não adianta, é um judeu alemão de uns cinquenta anos [...] É um homem retraído e caladão, pelo qual sinto um espontâneo respeito, porque compreendo que começou a sofrer antes de nós (Ibid., p.22-3).
Duas observações são oportunas. Aqui, o tempo presente acompanha a sequência inteira, mais subjetiva, onde prevalecem o pensamento do momento e o estado de ânimo do narrador, embora de maneira implícita. Numa primeira leitura,
somos levados a identificar os verbos “provo” e “sento” com as emoções de Levi
prisioneiro no decorrer do episódio (ele sentiu respeito e ao escrever se lembra e testemunha este sentimento), porém, podem pertencer ao instante da escrita (sente respeito na hora de escrever o testemunho). Ou a ambos, pois a escrita atrelada à memória não estabelece fronteiras temporárias rígidas.
A segunda reflexão diz respeito ao perguntar. Flesch, em seu papel, improvisado mas fundamental, encontra-se na impossibilidade de traduzir as perguntas do prisioneiro, e o narrador reconhece o drama de sua condição. Percebemos um elo com o já mencionado episódio em que Primo arranca um pedaço de gelo para satisfazer a sede
“feroz”, e um Kapò intervém brutalmente, “Warum”, seguido da seca resposta: “Hier ist
kein warum” (aqui não existe por quê). Ecoa, neste diálogo, a oração dantesca posta na
entrada do inferno“Lasciate ogni speranza voi ch´entrate”147
. Ecoa mais aqui, nesta negação do pensamento e do diálogo, da explicação e da compreensão, do que no portão
de Auschwitz, onde “Arbeit macht frei” acolhe os escravos. Tanto é que outro verso, quase “sinônimo” à inscrição na porta do inferno, aparece logo para sustentar a
147
DANTE, Inferno, Canto III, v.9. “Deixai toda esperança. O vos que entrais” (A divina comédia.
“repugnante” resposta: “Qui non ha luogo il Santo Volto,/ qui si nota altrimenti che nel
Serchio”148.
Qualquer ponto de interrogação é metafórica e concretamente abolido em função de frases imperativas, exclamativas, unilaterais destinadas a dar ordens sobre vida e morte. E onde o diálogo desagrega-se, a tradução também é amputada. O percurso será o inverso no capítulo “O canto de Ulisses”, quando, a partir de uma tradução falha, Levi conseguirá estabelecer uma daquelas frestas por onde passam a poesia, a relação humana, o pensamento vivo.
Ainda na mesma cena da tradução inicial, a reação à ruptura da comunicação humana se expressa nos prisioneiros com um silêncio culpado: “O alemão se retira;
agora ficamos em silêncio, embora um tanto constrangidos por ficarmos em silêncio”149 . A vergonha do silêncio evoca a vergonha da ofensa da qual Levi fala no capítulo homônimo de SES, e parece aqui juntar-se à vergonha concreta do estar nus, após a ordem de tirar as roupas. Uma atmosfera incompreensível, grotesca e ameaçadora, na qual tudo pode acontecer.
Era ancora notte, ci chiedevamo se mai sarebbe venuto il giorno. Di nuovo si aprì la porta, ed entrò uno vestito a righe. [...] Ci parla, e parla italiano. Oramai siamo stanchi di stupirci. Ci pare di assistere a qualche dramma pazzo, di quei drammi in cui vengono sulla scena le streghe, lo Spirito Santo e il demonio. Parla italiano malamente, con un forte accento straniero. Ha fatto un lungo discorso, è molto cortese, cerca di rispondere a tutte le nostre domande (Ibid., p.23, subl. nosso150). Ainda é noite, e nos perguntamos se vai voltar a ser dia. Abre-se novamente a porta, entrando um camarada de roupa listrada. [...] Fala conosco, e fala italiano. Nada mais nos assombra. Parece-nos assistir a alguma peça maluca, dessas onde as bruxas, o Espírito Santo e o Diabo aparecem no palco. Ele fala italiano, mas com dificuldade, com forte sotaque estrangeiro. Faz um longo discurso, é gentil, procura responder a todas as nossas perguntas (Ibid., p.23).
Responder as perguntas é sinal da gentileza que substitui a hospitalidade impossível na chegada ao Campo. Para os novos prisioneiros, a tradução não representa apenas uma passagem entre duas línguas, entre significantes e significados, mas um choque brutal que os obriga a buscar no arquivo das coisas conhecidas um sentido correspondente àquele código ofuscado, como se a compreensão consistisse num
148
Ibid., Infer no, XXI, v. 48-9. “Aqui não tem o Vulto Santo:/ não estás a nadar no Serchio teu”. O Serchio é um rio da Toscana.
149
É isto um homem? , p.23. “Il tedesco se ne va , e noi a desso stiamo zitti, qua ntunque ci ver gogniamo un poco di sta r e zitti”(SQU, p.17).
150
Novamente, a tradução não respeita a descontinuidade verbal e opta pelo presente. Utilizamos o sublinhado inteiro para indicar o pa ssa to r emoto, o pontilhado para o presente, o traçado para o pa ssa to pr ossimo.
procedimento defasado, uma focalização oscilante, instável, difícil. Os falantes do episódio têm que pôr em ação um duplo processo de recodificação – aquele code switching indicado já por Jakobson151 como um aspecto cognitivo inerente à tradução mas também à comunicação em geral – pois o vácuo gerado por um contexto inclassificável impede apegar-se a qualquer referência. Portanto, transmitir a realidade de Auschwitz a quem não a vivenciou pode se revelar uma empreitada comunicativa complexa, como sempre reiteraram as testemunhas e como Levi expressa: “Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para
expressar esta ofensa: a aniquilação de um homem.”152
Robert Antelme relata que, com a liberação do campo de Buchenwald, os soldados do exército anglo-americano depararam-se com prisioneiros impacientes de contar, e alguns, no começo, mostram-se receptivos. Todavia,
em seguida os camaradas não param mais: contam, contam, contam, e logo o soldado não os ouve mais.[...] É que a ignorância do soldado aparece imensa.[...] Diante do soldado percebe-se já [...] a sensação de estar possuído por uma espécie de conhecimento infinito, impossível de ser transmitido (ANTELME, Robert.
L´éspèce humaine. Paris: Gallimard, 2010, p. 317, trad. nossa).
Apesar de as histórias de cada um serem verdadeiras, Antelme conclui: “é preciso
muito artifício para conseguir transmitir uma porção de verdade” e, se a literatura pode
ser a voz das testemunhas, ele ainda duvida: “nestas histórias, não existe este artifício que venceria a necessária incredulidade. Aqui, precisaria acreditar em tudo, mas a
verdade pode ser mais cansativa do que a fabulação” 153
. Igualmente o ganhador do Nobel Imre Kertész, que subverte os padrões testemunhais em Sorstalanság (Sem destino), julga imprescindível enfrentar o paradoxo de um ato complexo e pensar o
Campo através da lente literária: “Do Holocausto, desta realidade incompreensível e
caótica, podemos ter uma ideia realística somente graças à imaginação estética”154. A partir dos comentários dos próprios escritores, Geoffrey Hartman reformula a questão:
Um realismo maciço sem qualquer consideração por uma restrição da representação e na qual a profundidade da ilusão não seja equilibrada pela profundidade da reflexão, não simplesmente dessensibiliza, mas produz o oposto
151
JACOBSON, Roman. Saggi di linguística generale. Milano: Feltrinelli, 2002, p.82.
152
É isto um homem? p.25. “Allor a , per la pr ima volta ci sia mo a ccor ti che la nostr a lingua ma nca di