2.1 Kamu Tercihi Teorisi
2.1.3. Kamu Tercihi Teorisinin Temel İlkeleri
2.1.3.1 Metodolojik Bireysellik
É importante atentar para as semelhanças entre história e ficção, mas também para as diferenças. Reconhecer que um campo não anula o outro e sim que cada um permanece em seu domínio, embora suas margens possam confluir para um imaginário. Determinar em que medida cada área atua na formação do imaginário coletivo seria tarefa hercúlea que demandaria pesquisa acerca da recepção dos textos, algo possível, sem dúvida, entretanto não neste momento em que o foco está especificamente nas narrativas.
262Tradução nossa: “Chegou ao mais alto partindo de muito baixo, morreu jovem e no esplendor de uma vida
onde a história se tinge com o rosa e o negro das respectivas lendas”.
A motriz da questão que motivou esta pesquisa centra-se no modo de narrar e não exatamente na determinação de uma versão histórica. Tal modo de narrar ou tais modos de narrar construtores de cada representação – autobiográfica, hagiográfica e política – são observáveis na dinâmica da narratividade da história, por um lado, e da historicidade da ficção, por outro. A alegoria das margens confluentes aponta para o imaginário, o caldeirão onde se misturam os vários mitos de Evita, ali onde ela pode ser tudo, pode enfim “ser milhões”.
Selecionei três situações mencionadas ou não nas obras analisadas para refletir sobre sua presença ou ausência, bem como semelhanças e diferenças de abordagem, associando-as às representações de Eva Perón nelas construídas: a condição de filha natural, o encontro com Perón e a morte, o sequestro e o desaparecimento do corpo de Eva. Tais situações foram selecionadas por serem relevantes na sua biografia e possibilitarem a discussão a respeito das diferentes representações e o imaginário.
Embora vários biógrafos indiquem a condição de filha natural de Eva Perón (Ibarguren e não Duarte) como responsável por sua percepção ainda na infância da injustiça, em LRMV
ela não é sequer mencionada. Isto seria admitir a falsificação da certidão de nascimento que a tornou filha legítima para casar-se com Perón; não que isso fosse uma exigência legal, mas Eva apaga sua história antes de se encontrar com o general. O pouco que menciona é sobre a infância pobre e sua compreensão ainda criança da caridade como ostentação da riqueza. A necessidade que sentiu de forjar uma certidão de nascimento para então, finalmente, nela ser, ainda que soubesse fictíciamente reconhecida pelo pai há muito falecido, e o fato de não comentar essa adversidade permite refletir não apenas sobre o quanto isto a incomodava, mas também sobre o quanto era fruto de seu tempo, presa às imposições sociais, apesar de em muitos aspectos havê-las rompido.
Em SE a ilegitimidade de Evita é mencionada quando o narrador comenta os dados falsos na certidão de casamento de Perón e Eva: ele mentiu sobre o lugar da cerimônia e o estado civil; ela sobre a idade, o domicílio, a cidade em que nasceu (SE, p. 143). O narrador discute as fontes utilizadas pela historiografia e critica o fato de alguns biógrafos e historiadores tomarem como verdadeiros os dados presentes na certidão. Pergunta-se os motivos que teriam levado os nubentes a tal feito e, dentre os vários questionamentos que faz, indaga se Evita disse que nasceu em Junín porque em Los Toldos era ilegítima (SE, p. 144). A representação hagiográfica não se macula com essa falsidade, afinal é comum que o santo
passe por um período de engano ou de ignorância antes que sua santidade seja manifesta e que isto seja relatado em sua narrativa de vida.
A questão dos filhos naturais ocupa parte considerável do primeiro capítulo de EJSV, “Cholita”. Discute-se o quanto ser ilegítimo no início do século XX era um estigma social. Pigna dedica-se a comentar os mitos que se criaram a partir do nascimento de Eva Perón, propondo-se a esclarecer os fatos. Menciona a certidão de casamento que revela a adulteração efetuada na certidão de nascimento de Eva com vistas a reparar sua condição de filha natural:
Fue inscripta por su madre como María Eva Ibarguren. El cambio en la partida de la condición civil de sus padres, de concubinos a casados, debía ir necesariamente acompañado de la modificación de la fecha de nacimiento de María Eva, porque Duarte estaba casado, no precisamente con Juana, y recién en 1922 cambió su estado civil por el de viudo. Esta alteración en la fecha eliminaba entonces la condición de
“hija adulterina” de Evita. La modificación se produjo en 1945, en los días previos a
la boda con Perón, cuando Evita fue anotada con estos datos ficticios en el acta número 728, documento que originariamente correspondía a un bebé muerto a los
dos meses de vida, llamado Juan José Uzqueda”. (EJSV, p. 16)264
O historiador segue explorando o tema, discutindo por que Juan Duarte recusou-se a reconhecer Eva, embora conclua que não se sabe muito bem o motivo. O mais notável é sua observação de que a condição de natural levava fatalmente à discriminação social e jurídica (EJSV, p. 19). Portanto, é desse ponto de partida que arranca a representação política de Eva Perón, demonstrando de quão baixo ascendeu, de uma condição de marginalidade.
A segunda situação cuja abordagem é comparada nas três obras é o encontro de Eva e Perón. Em LRMV, esse dia é descrito como um divisor de águas. Eva descreve-se naquele momento como alguém que imaginava que sua vida não sofreria grandes mudanças, havia se resignado a ser vítima e a viver uma vida monótona (LRMV, p. 32). Contudo o dia em que sua vida coincidiu com a de Perón deu-se a maravilha: começou sua verdadeira vida, aquela para a qual havia sido forjada e vocacionada. Como já abordado anteriormente neste trabalho, Perón é descrito como o melhor dos homens ao lado de quem Eva se coloca (LRMV, p. 35).
Faz-se necessário à narrativa autobiográfica este momento epifânico que estabelece um antes e um depois na vida de Eva, que se concentra justamente em narrar sua vida a partir deste evento. Declara aprender com Perón, seguir seu exemplo, descobrindo assim sua
264 Tradução nossa: “Foi registrada por sua mãe como María Eva Ibarguren. A mudança na certidão da condição civil de seus pais, de concubinos a casados, devia ir necesariamente acompanhada da modificação da data de nascimento de María Eva, porque Duarte estava casado, não exatamente com Juana, e recentemente em 1922
mudou seu estado civil para o de viúvo. Esta alteração na data eliminada então a condição de ‘filha adulterina’
de Evita. A modificação se produziu em 1945, nos dias anteriores ao casamento com Perón, quando Evita foi registrada com esses dados fictícios na certidão número 758, documento que originariamente correspondia a um
verdadeira vocação que não é a representação artística, mas a encarnação da mediadora entre Perón e o povo, representando o papel de Evita.
O dia em que Eva conheceu Perón é abordado em SE com um intertexto de LRMV
como introdução: “En La razón de mi vida, Evita describió su encuentro con Perón como uma epifania: se creyó Saulo en el camino de Damasco, salvada por una luz que caía del cielo” (SE, p. 189).265 O fato é elaborado a partir do esclarecimento sobre o que motivou o ajuntamento de pessoas (o terremoto ocorrido em San Juan, em 1944 e o show beneficente em prol das vítimas) e das fontes consultadas (noticiários filmados de vários países aos quais assistiu nos Arquivos Nacionais de Washington). O narrador é preciso: revela a hora exata do encontro e identifica as pessoas que cercavam Eva. De modo onisciente, relata que ela queria muito conhecer o “coronel do povo” a quem ouvia pela rádio e com quem fantasiava um encontro (SE, p. 190). Segue narrando os sentimentos de Eva, o modo como se sentia predestinada a conhecê-lo, o que a faz tomar o assento contíguo ao seu e a entabular uma breve conversa com uma frase de efeito com a qual surpreende o coronel: “Gracias por existir” (SE, p. 192).266 Com isto, o narrador cria uma memória ficcional que preenche uma
lacuna na história, afinal não se sabe o que de fato foi dito.267
O narrador emite opinião sobre a versão dada por Eva em LRMV, classificando-a como muito verbal e confrontando-a com as imagens dos noticiários a que alega ter assistido, indica que apenas a frase curta foi dita. Segundo ele, as imagens mostram o momento em que, ao final do evento, Eva sai do local acompanhada por Perón, com a mão em suas costas, como quem tomou posse da história e a leva aonde quer (SE, p. 193). Essa observação faz ecoar as versões do mito da antievita que considera Perón um fraco, dominado por Eva, o que nos leva a perceber que os elementos que compõem a mitologia evitista aparecem em ambos lados, o positivo e o negativo.
Na biografia histórica, o tema do encontro ocasiona oportunidade para discutir diferentes versões sobre quem teria sido a pessoa que facilitou para que Eva se sentasse ao lado de Perón (EJSV, p. 75). Após apresentar tais versões, o historiador conclui que o certo é que Eva e uma colega atriz ocuparam os lugares vazios ao lado de Perón (EJSV, p. 76). Além disso, comenta a versão de Perón, que mescla as anteriores, para por fim discutir as versões de
265Em português: “Em La razón de mi vida, Evita descreveu seu encontro com Perón como uma epifania: ela se
sentiu como Saulo a caminho de Damasco, salva por uma luz caída do céu” (p. 164).
266Em português: “Obrigada por existir” (p. 167).
267Em entrevista a Juan Pablo Neyret, “Novela significa licencia para mentir”, Tomás Eloy Martínez afirma haver criado a frase que passa a ser intertexto para outras obras ficcionais.
Evita. Se, em LRMV, Eva limitou-se a dizer que aquele foi seu dia maravilhoso, a uma amiga confiou como de fato tudo aconteceu: agiu por impulso, sem ajuda, ao posicionar-se perto de Perón, iniciou uma conversa animada e, ao final do evento, foram embora juntos. A essa amiga Evita teria dito ainda que Perón gostava de mulheres decididas (EJSV, p. 79). Uma vez mais, surge a ideia do comando feminino, da mulher decidida, ideia agora corroborada pelo testemunho da amiga. No entanto, no texto biográfico, essa amiga não é identificada, sem que se ofereçam explicações para essa indeterminação. Com isto, podemos indagar se não estamos uma vez mais diante de puro mito.
O tema da morte de Eva e o sequestro de seu cadáver é central em SE, dispensando outros comentários além dos já realizados neste trabalho. Como a representação ali efetuada é hagiográfica, o cadáver embalsamado, principal relíquia do culto evitista e símbolo de seu mito, constitui o principal elemento do enredo da narrativa da biografia ficcional. A história que se narra não é apenas a da vida de Evita, mas sobretudo as aventuras pela quais passa seu corpo no longo tempo em que esteve ocultado. Não se abordam, no romance, as ações dos Montoneros que, com o sequestro e execução do ex-presidente Aramburu, que havia sido responsável, por sua vez, pelo sequestro do cadáver de Evita, provocaram a entrega deste a Perón e, posteriormente, sua repatriação. O narrador encerra seu relato fazendo-o convergir ao início, como se o relato do mito evitista tivesse de ser retomado uma e outra vez, iluminando outros pontos de seu repertório, ampliando o caráter circular do mito.
Já em EJSV, o historiador apresenta várias versões sobre o momento final de Eva Perón, concluindo que todas coincidem num ponto: o horário em que ocorreu (EJSV, p. 324). O dado objetivo, pontual, é o mais fácil de ser obtido num momento como este, em que cada um guarda sua lembrança pessoal com o ente que está prestes a partir. Como já vimos no capítulo anterior desta tese, a biografia relata a decisão de Perón de realizar um funeral massivo e de conservar o corpo, segundo ele para cumprir a vontade de Evita; o início dos trabalhos de taxidermia com o Dr. Pedro Ara; o luto nacional e o velório multitudinário; as repercussões ao redor do mundo e, por fim, o breve descanso do cadáver embalsamado na sede da CGT. O historiador narra também como o rancor dos contrários a Evita acirrou-se com tantas homenagens póstumas; a Revolução Libertadora; o sequestro do cadáver que não foi entregue à família como havia sido pedido; o revanchismo contra o peronismo deposto; a fúria da “desperonização”; os relatos de maldições que acometeram os que ocultavam o cadáver; o sepultamento do cadáver na Itália; o sequestro e a execução de Aramburu pelos
Montoneros; a devolução do cadáver. Conclui seu relato com uma breve discussão sobre como, ainda depois de morta, Evita desperta medo aos militares (EJSV, p. 370).
Essa profusão de informações, com ampla discussão de fontes, revela o trabalho historiográfico em tentar narrar de modo completo o que aconteceu. Embora pretenda ser um discurso objetivo, não se furta de mencionar e apresentar algumas questões que mais parecem aproximadas a um relato mítico como, por exemplo, as maldições que cercavam o cadáver e o temor que Evita ainda infunde, a tantos anos de sua morte e estando agora seu corpo guardado em caixa forte no cemitério da Recoleta. Aqui cabe ainda uma observação: apesar da sacralização política de seu corpo, ele é ponto turístico na cidade de Buenos Aires, recebendo inúmeros visitantes diariamente. Evita tornou-se um símbolo não apenas político, mas pop. No imaginário evitista, na confluência entre história e ficção, Eva pode ser milhões.
Conclui-se que LRMV estabeleceu as bases do mito evitista, SE discutiu e atualizou o mito, enquanto EJSV pretende ser um relato mais objetivo embora, em alguns momentos, apresente ficcionalização. Desta forma, as representações alimentam o imaginário evitista nas margens confluentes entre a história e a ficção.