• Sonuç bulunamadı

Büyük Devlet ya da Sosyal Refah Devleti

O ser humano por excelência em SQU, paradigma da generosidade gratuita, é Lorenzo, um humilde operário italiano, levado a Auschwitz através de uma firma que se encontrava na França quando os alemães a ocuparam e deslocaram todos os trabalhadores. A presença de Lorenzo no mesmo espaço de trabalho da Buna – a fábrica, parte da enorme e múltipla cidade de Auschwitz – garantiu a sobrevivência do escritor através do generoso e arriscado repasse de uma porção de sopa durante quatro meses a ele e ao amigo fraterno Alberto113. Este gesto cotidiano de alguém

“privilegiado” (por pertencer a uma categoria garantida em sua sobrevivência) delimita

a fronteira do humano e oferece a oportunidade de responder à pergunta do título É isto um homem?:

112“è proprio della condizione umana, di essere sospesi fra il fango e il cielo, fra il nulla e l’ infinito”

(Rabelais apud Levi. In “François Rabelais”, AM, p.17, trad. nossa).

113

I personaggi di queste pagine non sono uomini. La loro umanità è sepolta, o essi stessi l´hanno sepolta, sotto l´offesa subita o inflitta altrui. [...]

Ma Lorenzo era un uomo; la sua umanità era pura e incontaminata, egli era al di fuori di questo mondo di negazione. Grazie a Lorenzo mi è accaduto di non dimenticare di essere io stesso un uomo (SQU, p.106).

Os personagens destas páginas não são homens. A sua humanidade ficou sufocada, ou eles mesmos a sufocaram, sob a ofensa padecida ou infligida a outros. [...] Lourenço, não. Lourenço era um homem; sua humanidade era pura, incontaminada, ele estava fora desse mundo de negação. Graças a Lourenço, não esqueci que eu também era um homem (É isto um homem? p.124).

A recordação do amigo é retomada no relato “Il ritorno di Lorenzo”. Novamente, é um estranho-alheio ao mundo do Campo:

Alberto ed io eravamo stupiti di Lorenzo. Nell´ambiente violento ed abietto di Auschwitz, un uomo che aiutasse altri uomini per puro altruismo era incomprensibile, estraneo, come un salvatore venuto dal cielo: ma era un salvatore aggrondato, con cui era difficile comunicare (Il ritorno di Lorenzo, L,

TIR, p.644).

Alberto e eu estávamos espantados com Lorenzo. No ambiente violento e abjeto de Auschwitz, um homem que ajudasse outros homens por puro altruísmo era algo incompreensível, estranho, como um salvador vindo do céu: mas ele era um salvador sisudo, de comunicação difícil (O retorno de Lourenço, 71 contos, p.390).

Levi narra como, depois da guerra, manteve contato com o ex-pedreiro e como tentou ajudá-lo materialmente, em vão. Lorenzo levou uma vida de vendedor ambulante

e enfim optou definitivamente pela rua e pelo álcool, pois “conhecera o mundo de perto

e não lhe agradara, parecia-lhe em ruínas; já não se interessava pela vida”114. Quando foi preciso, Levi ajudou a interná-lo, porém Lorenzo fugiu: “Era firme e coerente em sua recusa à vida. Foi achado moribundo poucos dias depois e morreu no hospital em

solidão” 115

. Ele, que não era um sobrevivente, diz Levi, morreu do mal dos sobreviventes. 116 Resta o testemunho do gesto de hospitalidade dentro do Campo, o

elemento estranho, a substância “impura” capaz de reverter o rumo da destruição, por

meio do ato gratuito ou de alguma troca.

114

O retorno de Lourenço, 71 contos, p.392.

115Ibid., p.393. “

Il mondo lo a veva visto, non gli pia ceva , lo sentiva a nda r e in r ovina ; viver e non gli inter essa va più” (Il ritorno di Lorenzo, L, TIR, p.647).

116 Ibidem. A frase na edição brasileira é “Ele, que era um sobrevivente, morreu do mal dos sobreviventes.” Todavia, Levi diz o contrário: “Lui che non er a un r educe, er a mor to del ma le dei r educi”

(Ibidem). Lorenzo era um trabalhador emigrante na França, forçado a trabalhar para os alemães, mas não um prisioneiro deportado, um Hä ftling com o número tatuado. Portanto Levi diz que nã o era um r educe, um r evena nt, e por isso chama mais atenção o fato dele ter morrido desta dor.

No belo conto “Il discepolo” (O discípulo) 117

, por sua vez paradigmático para o tema da comunicação e da Babel, a relação ensino/aprendizado liga-se às modalidades do hospedar/escutar o outro, num contexto de estrangeiridade dupla: os protagonistas estão em Auschwitz e são estrangeiros entre si (italiano e húngaro). O episódio desenrola-se no momento específico de 1944 quando a chegada em massa dos judeus

húngaros alterou a composição de Auschwitz, colocando sua “esquisita” (“stramba”)

língua na lista dos idiomas mais falados. O primeiro encontro ocorre na cena de trabalho pesado, onde o forte e recém-chegado Endre Szántós empenha-se em carregar o máximo de tijolos durante um transporte feito em dupla com o prisioneiro Levi. Diante de um truque para diminuir o número de peças sem ser notado, sugerido pelo mais experiente Primo, o novato não mostra ser “um bom discípulo” por causa de sua

obstinação a cumprir “bem” a tarefa mas, em seguida, por respeito – quatro meses de

Campo eram suficientes para ter estatuto de mestre –, aceita a indicação de como poupar a fadiga.

Facemmo insieme tre viaggi, durante i quali, a frammenti, cercai di spiegargli che il posto in cui era capitato non era per persone gentili né per le persone tranquille. Tentai di convincerlo di alcune mie recenti scoperte (per verità non ancora bene digerite): che laggiù, per cavarsela, bisognava darsi da fare, organizzare cibo illegale, scansare il lavoro, trovare amici influenti, nascondersi, nascondere il proprio pensiero, rubare, mentire; che chi non faceva così moriva presto, e che la sua santità mi sembrava pericolosa e fuori luogo (Un discepolo, L, TIR, p.603, o sublinhado é nosso).

Fizemos juntos três viagens, durante as quais, com intervalos, tentei explicar-lhe que aquele lugar não era feito para pessoas gentis e tranquilas. Tentei convencê-lo de algumas das minhas descobertas recentes (na verdade, ainda mal digeridas): que, para sobreviver ali, era preciso se mexer, arranjar comida ilegal, evitar o trabalho, buscar amigos influentes, esconder-se, esconder os próprios pensamentos, roubar, mentir; que os que não faziam assim morriam logo; e que a santidade118 dele me parecia perigosa e fora do lugar (Um discípulo, 71 contos, p.354). 119

Detalhes biográficos são trocados na conversa, e Bandi – este era seu apelido - integra-se aos poucos ao universo dos prisioneiros graças à sua simpatia. Dois ou três meses se passam e acontece um evento importante e inaudito: Primo recebe uma carta

117

Um discípulo, op.cit., pp. 352-355.

118

Levi refere-se ironicamente à correspondência entre o sobrenome Szá ntós e o substantivo italiano “santo”, correspondência que ele via como significativa, embora em húngaro significasse “camponês”. 119

Encontramos na edição brasileira dos contos, a questão da tradução do verbo “organizar” (também presente em SQU e também desconsiderada em sua tradução brasileira), isto é a perda de uma expressão típica do jargão do La ger , que é o verbo alemão or ga nisier en, para indicar ao mesmo tempo “arranjar”, “encontrar”, “roubar”; acreditamos que se deva traduzir tanto o verbo como seus derivados sempre com o campo semântico do português “organizar”.

de resposta da mãe. O acontecimento é excepcional já que sua descoberta por parte dos alemães custaria a morte, assim como havia sido o anterior envio bem sucedido de uma carta, chegada na mão dos Levi (mãe e irmã escondidas) pelos tramites de Lorenzo e de uma amiga na Itália. Ações proibidas, perigosas para os envolvidos, tão arriscadas quanto necessárias. Um dia, acoplado de novo a Bandi no interior de uma cisterna,

Primo sente o desejo de compartilhar tal preciosidade: “A carta do doce mundo me queimava no bolso; sabia que era prudente calar, mas não consegui.”120

À luz fraca

Primo lê “a carta milagrosa”, tentando uma apressada tradução em alemão:

Bandi mi ascoltò con attenzione: non poteva certo capire molto, perché il tedesco non era la mia lingua né la sua, e poi perché il suo messaggio era scarno e reticente. Ma capì quanto era essenziale che capisse: che quel pezzo di carta fra le mie mani, giuntomi così precariamente, e che avrei distrutto prima di sera, era tuttavia una falla, una lacuna dell´universo nero che ci stringeva, e che attraverso ad essa poteva passare la speranza (Ibid.,p.605).

Bandi me ouviu com atenção, porque o alemão não era a minha língua nem a dele e também porque a mensagem era sucinta e reticente. Mas entendeu o que era preciso entender: que aquele pedaço de papel na minha mão, chegado tão precariamente e que eu destruiria antes da noite, era no entanto uma fenda, uma abertura no universo negro que nos apertava, e que através dela a esperança podia passar (Ibid., p.355).

Lembrando o episódio de SQU da tradução tentada e falha do canto dantesco ao atento companheiro Pikolo, esse tipo de escuta configura-se como uma atitude

“hospitaleira” que rasga a densidade preta da opressão concentracionária e estabelece

uma abertura no arame farpado de onde algo pode fugir da morte, algo como, por exemplo, uma carta de poucas linhas essenciais. O isolamento é rompido pela vida que pulsa debaixo do minimalismo do gesto e da mensagem, e este breve conto termina com eficácia quando a mensagem alcança o destinatário e se transforma em diálogo de poucas palavras e mais um pequeno-grande gesto:

O almeno, credo, che Bandi benché “Zugang”, abbia capito o intuito tutto questo:

perché, a lettura finita, mi si accostò, si frugò a lungo nelle tasche, e ne trasse infine, con cura amorosa, un ravanello. Me lo donò arrossendo intensamente, e mi disse con timido orgoglio: - Ho imparato. È per te: è la prima cosa che ho rubato.

(Ibidem).

120

Tive a impressão de que Bandi, apesar de Zugang, entendeu ou intuiu tudo isso: porque, terminada a leitura, ele se aproximou de mim, vasculhou os bolsos demoradamente e enfim retirou dali, com zelo amoroso, um rabanete. Ofereceu-me o alimento com as faces vermelhas e então me disse, entre tímido e orgulhoso: “Aprendi. É pra você: é a primeira coisa que roubei” (Ibidem).

No agradecimento do recém-chegado (Zugang) a um inusitado “mestre”, instaura-se uma maneira de hospedar, abrigar o outro no próprio espaço interno, de escuta, um espaço esvaziado dos afetos conhecidos e atrofiado pela falta de oportunidade de afetos novos, mas que na primeira ocasião volta a se reconstituir em torno de um mínimo gesto, uma mínima palavra, um mínimo olhar, onde este mínimo significa muito pelo simples fato de ser e de ter vencido a possibilidade de não mais

existir. A cena do encontro nos remete à sugestiva equivalência entre “fabricar o tempo” e “convidar” da língua hebraica comentada por Anne Dufourmantelle, na

introdução ao texto De l´hospitalité, de Derrida. A relação entre as duas expressões

suscita o quesito: “o que é então esta estranha inteligência da língua que pressupõe que, para se produzir o tempo, é preciso ser dois?”121

.

Da mesma maneira, o apátrida, colocado por Arendt numa posição central para pensar a política desde uma perspectiva de vanguarda, supera a condenação da perseguição ou da invisibilidade através dos laços de amizade, laços que tomam forma

no diálogo: “A felicidade, não o sofrimento, é loquaz”122

. De fato Arendt atribui à amizade um estatuto político central para qualquer pensamento sobre a sociedade, definindo-a como uma modalidade de ser e pensar longe de genéricas ideias de identificação ou empatia 123.

O conto “Il discepolo” costura a progressão das diversas formas de comunicar, começando pelo primeiro contato linguístico, passando pela explicação de códigos mais

complexos (poupar energias, “organizar” comida ilegal) até o compartilhamento

mediante a tradução da carta. No final, a resposta representada por um rabanete roubado demonstra que o discípulo recebeu a mensagem sobre a necessidade de infringir as regras do Lager, mas também algo mais. A troca escava fendas sutis na Babel. A narração da unicidade de um indivíduo, seu nome, sua história de vida, suas peculiaridades, testemunha a resistência à máquina ideológica dos genéricos e distorcidos “nós” e “eles”, construídos em torno das divisões de nação e raça.

121

DUFOURMANTELLE, 2003, p. 72.

122

ARENDT, Hannah. L’umanità in tempi bui. Milano: Raffaello Cortina, 2006, p. 65, trad.nossa ed.it.

123

Em virtude da curiosidade sempre acesa, tanto no momento do episódio assim como a posteriori na hora da escrita, Levi lamenta as falhas da memória ao tentar relatar todos os detalhes de mais uma personagem resgatada pela narrativa:

nel viaggio di ritorno parlavamo, ed appresi molte cose simpatiche sul conto di Bandi. Non potrei oggi ripeterle tutte: ogni memoria svanisce, eppure tengo ai ricordi di questo Bandi come a cose preziose, sono contento di fissarli in una pagina, e vorrei che, per qualche miracolo non impossibile, questa pagina lo raggiungesse nell´angolo di mondo dove forse ancora vive, e lui la leggesse, e ci si ritrovasse (Ibid., p.602).

na viagem de volta conversávamos, e logo aprendi muitas coisas simpáticas de Bandi. Hoje não seria capaz de repeti-las inteiramente: toda memória se apaga, e, no entanto, conservo as lembranças desse Bandi como coisas preciosas, sinto-me feliz por fixá-las no papel e gostaria que, por algum milagre não impossível, esta página o alcançasse no canto do mundo onde ele talvez ainda viva, e que ele a lesse e se reencontrasse nela (Ibid., p.353).

Ambos os aspectos acenados, o interesse por outro ser e a transmissão da mensagem, existem nos dois planos diferentes, o do ato da escrita e o do evento narrado. O conto assemelha-se a uma parábola com seu apogeu final – a colocação em prática dos ensinamentos – revelando o gosto pela anedota de Levi. Esse tipo de narrativa constitui, também, segundo a definição de Alberto Cavaglion, uma

“fecundação à distância”124

de SQU, aquele conjunto de textos breves ou longos que retomam temas e episódios do primeiro livro, os especificam, os detalham, os

reescrevem. À mesma categoria pertence “Auschwitz, cidade tranquila”, relato no qual

volta o tema do aprender/compreender, da ignorância e do conhecimento. Aqui, a vontade das vítimas de saber se opõe à vontade de muitos cidadãos alemães de não enxergar. O incipit do conto aborda a presença paradoxal do sentimento de curiosidade:

Può stupire che in Lager uno degli stati d´animo più frequenti fosse la curiosità. Eppure eravamo, oltre che spaventati, umiliati e disperati, anche curiosi: affamati di pane e anche di capire. Il mondo intorno a noi appariva capovolto, dunque qualcuno doveva averlo capovolto, e perciò essere un capovolto lui stesso: uno, mille, un milione di esseri antiumani, creati per torcere quello che era diritto, per

sporcare il pulito” (Auschwitz, città tranquilla, UNG, TIR, p.821).

Pode surpreender que, no Lager, um dos estados de ânimo mais frequentes fosse a curiosidade. E, no entanto, estávamos, além de assustados, humilhados e desesperados, também curiosos: famintos de pão e também de compreender. O mundo em volta parecia ele mesmo revirado, portanto alguém devia tê-lo revirado

124

e devia ser ele mesmo um revirado: um, mil, um milhão de seres anti-humanos, criados para torcer o que estava reto, para sujar o que estava limpo (trad. nossa).

O tema da curiosidade retorna entre várias testemunhas. Citando, além de Levi, os intelectuais Jorge Semprún, Victor Frankl, Elle Lingens, Luciana Nissim e Evgenia Semionova Ginzburg, Mengaldo observa como o surgimento do sentimento de curiosidade em situações extremas de aprisionamento é por eles confirmado, seja porque nasce espontâneo, seja porque ajuda a sobreviver, e enfim porque é o que resta a fazer quando não se tem nada a perder.125

A curiosidade em relação aos outros pertence a muitas personagens de Levi. Distanciam-se de bárbaros, invasores e inimigos, os muitos estrangeiros das páginas de romances autobiográficos e contos de fantasia: jovens prisioneiros em Auschwitz, generosos e cordiais como, além de Bandi, Schlome, que fala ídiche, ou o jovem cigano do conto homônimo; companheiros de viagem como o egocêntrico e carismático

Grego, o qual expressava sua solidão em longos monólogos com Primo “tão diferente,

tão estrangeiro”126, ou Olga, antifascista croata, refugiada antes da guerra junto a

milhares de “judeus estrangeiros que haviam encontrado hospitalidade, e breve paz, na Itália paradoxal daqueles anos, oficialmente antissemita”127

, ou ainda a multidão de estrangeiros em trânsito de todas as nações da Europa, acampados em “casernas

espectrais e em parte a céu aberto nos pátios espaçosos, invadidos pela grama”128 . Entre eles encontramos o polonês Avrom, “candido soldato di ventura” 129, sobrevivente a massacres e capturas, que “como tantos remotos viajantes nórdicos descobrira a Itália com olhar virgem, e como tantos heróis do Risorgimento lutara pela liberdade de todos,

num país que não era seu”130

, e cuja aventura termina frente à luz do mar Mediterrâneo.

125

MENGALDO, Pier Vinvenzo. La vendetta è il r a cconto, Torino: Bollati Boringhieri, 2007, p. 104.

126

A tr égua p.49.

127

Ibid., p.28. “ebr ei stranieri, che a veva no tr ova to ospitalità , e br eve pa ce, nella pa r a dossa le Ita lia di quegli a nni, ufficia lmente a ntisemita” (T, p.33).

128Ibid., p.123. “

In queste ca ser me spettrali, e in pa r te a cca mpa ti a cielo a per to nei va sti cor tili inva si da ll´er ba , biva cca va no miglia ia di stranieri in tr a nsito, come noi, a ppa r tenenti a tutte le na zioni d´Eur opa” (T, p.147).

129

História de Avrom (L, TIR p.625). Inspirada na autobiografia de Marco Herman. Cf. “Prefazione a M.Herman, Dia r io di um r a ga zzo ebr eo nella seconda guer r a mondia le”. PS, OP vol.2, pp.1242-1244. A expressão “ca ndido solda to di ventur a” é traduzida apenas com: “soldado por acaso” (71 contos, p.373).

130Ibidem; “

come ta nti r emoti via ggiator i nor dici a veva scoperto l´Ita lia con occhio ver gine, e come tanti er oi del Risor gimento a veva comba ttuto per la liber t à di tutti in un pa ese che non er a il suo” (Ibid.,

p.621). O herói do Risor gimento (a luta pela unificação da nação italiana e libertação dos dominadores estrangeiros) foi Giuseppe Garibaldi, também chamado “herói dos dois mundos” pela participação em batalhas no Uruguai e sul do Brasil.

O interesse pelo humano alimenta o prazer de narrar histórias vividas, vistas ou ouvidas, e de esboçar, em poucas linhas, personagens extraordinárias, oferecendo um rico repertório de humanidade feito de pessoas comuns e ao mesmo tempo únicas. A atitude sintoniza-se com o sentimento de “simpatia” conforme definido por Paul

Ricoeur, “uma ação em uma paixão, o respeito considerado em sua matéria afetiva, isto

é, em sua raiz de vitalidade, em seu élan”131. A simpatia representaria um sentimento em sua essência mais simples do que o ódio, sendo este, ao contrário, estruturado como esforço complexo para anular o valor já dado ao outro, pois para negá-lo todavia o pressupõe e aqui está o caráter contorcido deste sentimento destrutivo. A tensão da luta movimenta aquelas relações menos vitais e mais competitivas marcadas pela apropriação, a concorrência, as intrigas de poder, e apresenta-se como manifestação de um olhar dilacerado entre o reconhecimento do direito do outro e o desejo de negá-lo. Embora a simpatia, por sua vez, pareça reduzida a um setor privado de relacionamentos

humanos, “fora das forças que movem a história”, Ricoeur inverte esta concepção

questionando o lugar privilegiado dado à luta como situação “originária” das relações:

“a importância desta inversão que subordina a luta ao respeito (e, em geral, a oposição à

alteridade) não é só teórica, mas prática. [...] O respeito instaura a participação da não -

violência na História”132

. De fato, a percepção do estrangeiro em Levi oscila entre os dois polos que Ricoeur configura como “simpatia” e “luta”, com uma grande

preferência por personagens que optam pela “simpatia”, ou pela “curiosidade” e a

suspensão da desconfiança, embora seu pensamento coloque o conflito exatamente onde Ricoeur o questiona, como atitude primária. Se em sua produção ensaística encontramos a ideia segundo a qual a hostilidade seria um fenômeno animal e pré-humano ou uma infecção latente que a falta da racionalidade civilizatória desencadeia, a representação autobiográfica e ficcional gera uma gama variada de personagens cujo embate com estrangeiros, mesmo quando problemático, tende em direção à recepção e ao questionamento de enraizadas noções de pertencimento étnico ou religioso. Nem sequer os combatentes armados e na defensiva reagem belicosamente no encontro com o inesperado estranho-estrangeiro.

Em SNOQ a percepção da estranheza dos judeus por parte de não judeus ou entre judeus de países diferentes ocupa um espaço peculiar, dada a trama baseada no

131

RICOEUR, Paul. Simpatia e rispetto. Fenomenologia ed etica della seconda persona. In LÉVINAS, Emmanuel. MARCEL, Gabriel. RICOEUR, Paul. Il pensier o dell´a ltr o (org. Franco Riva). Roma: Edizioni Lavoro, 2008, p.30. Cf o texto nas pp. 13-38.

132

deslocamento de um grupo de resistentes judeus da Rússia até a Itália, atravessando