Estudiosos do tema da autoficção sinalizam que a escrita de si remonta ao período da Antiguidade Clássica. Com outras nuances e objetivos, e certamente com outras concepções de sujeito, a literatura registra a existência de fragmentos de textos nos quais a vida e os feitos de alguém eram enaltecidos. Essa literatura foi, provavelmente, o embrião daquilo que veio a constituir, na contemporaneidade, a chamada escrita autoficcional, inserindo na pauta dos estudos literários questões como autobiografia e autoficção, fictício e ficcional, romance autobiográfico e autonarração, sujeito e identidade, e mobilizando a atenção de teóricos e pesquisadores para a discussão sobre o estatuto de um possível gênero literário.
O mundo medieval e sua visão teocêntrica de sofrimento e contemplação como meio para alcançar o paraíso foi o cenário propício para a produção de autobiografias que se tornaram cânones no gênero. Apresentando, geralmente, uma narrativa dirigida a Deus, registram-se desse período os escritos de São Tomás de Aquino (1225 – 1274) e São Francisco (1182 – 1226), assim como as Confissões de Santo Agostinho, escritas entre os anos de 397 e 400, dez anos após sua conversão ao Cristianismo. Já se faz presente nessas obras um traço de subjetividade que viria a ser o início da configuração do conceito do sujeito moderno, dotado de individualidade e em relação com Deus e com os demais homens.
O advento da modernidade ensejou o florescer de ideias e ideais que alavancaram profundas transformações sociais. Nessa conjuntura, a narrativa autoficcional ganhou espaço, mostrando o homem com suas inquietações, busca de autoconhecimento, desejo de superação, e fixando sua dimensão humana e também autônoma, isto é, assumindo-se como sujeito. As Confissões de Jean-Jacques Rousseau (1755) constituem um claro exemplo dessa narrativa. Segundo Leonor Arfuch:
Efetivamente, é no século XVIII – e, segundo certo consenso, a partir das
Confissões de Rousseau – que começa a se delinear nitidamente a especificidade dos gêneros literários autobiográficos, na tensão entre a indagação do mundo privado, à luz da incipiente consciência histórica moderna, vivida como inquietude da temporalidade, e sua relação com o novo espaço social. Assim [...] traçariam, para além de seu valor literário intrínseco, um espaço de autorreflexão decisivo para a consolidação do individualismo como um dos traços típicos do Ocidente (ARFUCH, 2010, p. 35-36).
Para Sartre (1989) o processo da escritura implica, via de regra, uma necessidade de desnudamento ou exposição pública quando, ao desenvolver sua narrativa, o escritor descreve sua realidade e aí se inscreve. No ato de textualizar sua experiência vital, o escritor recompõe uma realidade a partir da qual os fatos narrados adquirem significado. Essa possibilidade de a literatura como meio de se dar a conhecer enlaça simultaneamente autor e obra, gerando uma situação bastante complexa, na medida em que lida com conceitos polêmicos tais como verdade e realidade. Destacamos que nosso estudo parte de uma leitura das obras da Trilogia Álvaro Mendiola como romance autobiográfico e as teorias da autoficção
se revelam imprescindíveis para essa perspectiva crítica que questiona a ficção absoluta do romance e a verdade absoluta da autobiografia clássica.
O raciocínio de Sartre confirma a leitura da Trilogia Álvaro Mendiola como romance autobiográfico, conforme veremos no cotejo com os pressupostos de outros teóricos do tema. Nesse sentido, nos parece adequada a observação de Vincent Colonna (2014) para quem, no romance autobiográfico, o nome do autor estaria cifrado ou esquivado. Nas obras da Trilogia o narrador-protagonista reúne várias características do autor e, portanto, seguindo o raciocínio de Colonna, Álvaro Mendiola pode ser considerado, a partir de uma estratégia discursiva, uma espécie de codinome do autor. Soma-se a essa possibilidade o fato de que na terceira obra da Trilogia o nome Juan já aparece no título. Essa coincidência reforça nosso posicionamento sobre a Trilogia como romance autobiográfico, amparado também no conceito proposto por Colonna.
Suscitam polêmicas determinados aspectos pertinentes ao gênero autobiográfico ou autofigurativo, entre eles a questão de origem, definição e amplitude. No entanto, alguns estudiosos do tema apresentam consenso quanto à sua importância e processo de desenvolvimento. Anotam ainda o fato de que abarca, além da própria autofiguração, os relatos de viagem, romances, filmes, entrevistas, teatro, autorretrato, etc. Leonor Arfuch (2010) inclui também no gênero: confissões, conversas, perfis anedotários, testemunhos, histórias de vida, relatos de autoajuda, variantes do show – talk show, reality show. Por essa razão determinadas declarações de Goytisolo integram nossa fonte de pesquisa.
Paul De Man (1991) propõe uma definição que foi adotada também por Lejeune (2008) e que transfere para o leitor a decisão de classificação da obra. Ambos os autores sustentam que o que define o gênero é, antes de tudo, o modo de leitura:
Se podemos dizer que a autobiografia se define por algo que é exterior ao texto, não se trata de buscar, aquém, uma inverificável semelhança com uma pessoa real, mas sim de ir além, para verificar, no texto critico, o tipo de leitura que ela engendra, a crença que produz (LEJEUNE, 2008, p. 47).
De Man (1991) considera essa modalidade de narrativa menos um gênero, que uma forma de leitura ou chave de entendimento, que em distintos graus pode ser
encontrada em qualquer texto. O autor sugere então o conceito de momento autobiográfico, que corresponderia a um alinhamento entre os dois sujeitos que interagem no processo de leitura. Essa narrativa, por sua arquitetura textual, apresenta um procedimento em que o sujeito que conta sua vida mostra dois “eus” que se constituem no processo mesmo da narração. Essa afirmação nos remete à questão dicotômica de ficção e realidade – tema de presença obrigatória para a maioria dos estudiosos do gênero.
Apontamos em Reivindicación del conde don Julián (1999) algumas evidências desse duplo eu. O primeiro deles ao comentar o eu que está sendo gestado em relação ao eu que historicamente teria existido, o autor joga, simultaneamente, com ficção e realidade. O narrador do presente da narrativa dirige-se ao seu outro eu, tratado como destinatário da narrativa, e fala de seu projeto com relação à Espanha:
Nadie desconfía de ti y tu plan armoniosamente madura: reviviendo el recuerdo de tus humillaciones y agravios, acumulando gota a gota tu odio: sin Rodrigo, ni Frandina, ni Cava : nuevo Conde Don Julián, fraguando sombrías traiciones (GOYTISOLO, 1999, p. 16).
Georges Gusdorf (1991), para quem as origens do gênero autobiográfico podem ser identificadas na literatura religiosa do século XVII, afirma que é impossível reconstruir objetivamente o passado e, portanto, considera que a autofiguração é a narrativa das memórias de vida: “la autobiografía es renacimiento, iniciativa que plantea las condiciones para una eventual reconquista de sí mismo, de una reconstrucción, de una reconstitución” (apud MIRAUX, 2005, p. 14). Nessa mesma linha argumentativa se desenvolve o raciocínio de Leonor Arfuch (2010) quando aponta, no capítulo primeiro de sua obra, o que considera uma vantagem suplementar da autobiografia que seria: “a construção imaginária de si mesmo como outro” (ARFUCH, 2010, p. 55). Um eu narrador, pelo processo mesmo da escritura, constrói um outro eu, o que, segundo Gusdorf, faz do gênero autobiográfico um procedimento de criação e autocriação:
La recapitulación de lo vivido pretende valer por lo vivido en sí, y, sin embargo, no revela más que una figura imaginada, lejana ya y sin duda incompleta, desnaturalizada además por el hecho de que el hombre que recuerda su pasado hace tiempo que ha dejado de ser el que era en ese pasado (GUSDORF, 1991, p. 13).
Destarte, o autor se configura mais como alguém em busca de sua identidade do que como uma testemunha fiel do que narra: “El carácter creador y edificante así reconocido a la autobiografía saca a la luz un sentido nuevo y más profundo de la verdad como expresión del ser íntimo” (GUSDORF, 1991, p. 17). Ou, colocado de uma forma mais explícita: “no es la simple recapitulación del pasado; es la tarea, y el drama, de un ser que, en un cierto momento de su historia, se esfuerza en parecerse a su parecido. La reflexión sobre la existencia pasada constituye una nueva apuesta” (GUSDORF, 1991, p. 15).
Consideramos oportuno salientar que a confluência para os temas de ficção e realidade, presentes nos autores que consultamos, será, dentro dos limites de nossa pesquisa, trazida ao texto como forma de ilustrar determinadas facetas do gênero que, nessa perspectiva, revela um caráter híbrido. Isto é, consideraremos que a verdade expressa será sempre a interpretação da realidade sob a ótica do narrador, que necessariamente fará uso dos elementos formais da ficção para dar corpo ao seu relato.
A propósito do imbricamento entre ficção e realidade na narrativa autofigurativa, Jean Starobinski (1991) afirma que o relato autobiográfico seria uma interpretação feita pela pessoa sobre si mesma, mas como o “eu” que narra está separado do “eu” narrado, embora contenha marcas históricas, existenciais, documentais etc., a narrativa é ficcional. Para esse autor, a autobiografia exige, como condições básicas, que haja identidade entre o narrador e o sujeito da narração, que o relato não seja descritivo e que cubra um período de tempo suficiente para que se configure a trajetória de uma vida que será sujeito e objeto da narrativa: “Te decías entonces que bien mezquina y sorda era tu patria si, como a veces te inclinabas a creer, su rica ofrenda había sido inútil” (GOYTISOLO, 1977, p. 49). Esse fragmento congrega, a nosso ver, as condições básicas propostas por Starobinski.
Embora tenha como foco principal de sua análise as obras Coto Vedado (1985) e En los reinos de taifa (1986), James Fernández comenta em seu estudo La novela familiar del autobiógrafo: Juan Goytisolo (1991) alguns aspectos que consideramos pertinentes, uma vez que se inscrevem no mesmo gênero, e dessa forma os incorporamos a este estudo. Afirma o estudioso que: “[…] el autobiógrafo demuestra
a cada paso su aguda conciencia de las múltiples „trampas‟ de la escritura autobiográfica […] trampa inherente al género: narrar (desde el presente) es traicionar (el pasado)” (FERNÁNDEZ, 1991, p. 54); Álvaro Mendiola o comprova: “[...] Tus esfuerzos de reconstitución y de síntesis tropezaban con un grave obstáculo. [...] Vacía tu memoria por diez años de destierro, ¿cómo rehacer sin daño la perdida unidad?” (GOYTISOLO, 1977a, p.159).
Fernández aponta na narrativa de Goytisolo algumas marcas textuais (episódios e situações) que ele considera típicas do gênero: a sensação de haver nascido em um lugar e um momento impróprios: “[...] te olvidaremos tu nacimiento fue un error repáralo” (GOYTISOLO, 1977a, p.13); a rejeição da família e da sociedade contemporânea: “cielo bajo el cual incomprensiblemente has vivido”
(GOYTISOLO,1999, p. 27); a aquisição da escrita simbolizada por um renascimento que possibilitará ao autobiógrafo vislumbrar outros horizontes, novas realidades: “despejado el camino, el día te pertenece: dueño proteico de tu destino, sí, y lo que es mejor, fuera del devenir histórico” (OYTISOLO,1999, p. 24); a construção de uma nova família, uma nova genealogia: “soy de nacionalidad cervantina. No me considero ligado a ningún pedazo de tierra, nunca he creído en esto” (GOYTISOLO, 2007). E a busca e o encontro de um espaço autêntico a partir do qual poderá expressar-se textual e sexualmente:
autonomía del objeto literario : estructura verbal con sus propias relaciones internas, lenguaje percibido en sí mismo y no como intercesor transparente de un mundo ajeno, exterior : [...] y aunando de golpe, en polisémico acorde, sexualidad y escritura : [...] resolviendo por fin, al cabo de tan largo periplo, la secreta ecuación de tu doble desvío : manipulación improductiva (onanista) de la palabra escrita, ejercicio autosuficiente (poético) del goce ilegal (GOYTISOLO, 1977b, p. 296-297).
E, por último, a narrativa autofigurativa retrospectiva anunciada desde esse ponto conquistado: “inventar, componer, mentir, fabular : repetir la proeza de Sherazada durante sus mil y una noches escuetas, inexorables” (GOYTISOLO, 1999, p.13). Considerado um dos precursores dos estudos do tema, o filósofo alemão Wilhelm Dilthey já sinalizava para essa característica do gênero autoficcional, cuja narração se situa no espaço entre a ficção e a realidade, considerando que o(s) eu(s) vão se configurando na chave de leitura e interpretação da realidade histórica enfocada pelo
autor. Dilthey (1944 [1976]) propõe a leitura da autofiguração enquanto método de entendimento dos princípios organizativos da experiência. Destarte para o autor
La autobiografía es la forma suprema y más instructiva en que se nos da la comprensión de la vida. En ella el curso de una vida es lo exterior, la manifestación sensible a partir de la cual la comprensión trata de penetrar en aquello que ha provocado este curso de vida dentro de un determinado medio. Y, ciertamente, quien comprende este curso de vida es idéntico con aquel que lo ha producido. De aquí resulta una intimidad especial del comprender (DILTHEY, 1976, p. 224).
De acordo com Dilthey a tarefa autobiográfica será o resultado da organização da experiência de vida do autor, que selecionará entre suas vivências aquelas que calaram mais fundo em sua sensibilidade. Nesse contexto, constitui um aspecto basilar, no gênero, o papel desempenhado pela memória. Os procedimentos discursivos adotados pelo autor lhe permitirão enfatizar, omitir ou ainda evidenciar o apagamento de lembranças de fatos constituintes de sua trajetória vital. E nesse interstício a ficção e a realidade entram em cena. Leiamos o que diz Álvaro/Goytisolo: “En la severa selección de tu memoria algunas escenas emergían con mayor precisión que otras y aquel primer curso universitario se resumía casi en tu recuerdo a la presencia de Ana y su hijo [...]” (GOYTISOLO, 1977a, p. 91); em Reivindicación del Conde Don Julián: “enredados aún en tu memoria, tal implicantes vides, los versos de quien, en habitadas soledades, con sombrío, impenitente ardor creara densa belleza ingrávida” (GOYTISOLO, 1999, p. 36). Com essa citação, Goytisolo alude a Luis de Góngora, poeta com quem se identifica pela busca de uma linguagem renovada e na rejeição à repetição dos modelos tradicionalistas. Sua obra é citada como o livro de cabeceira do narrador quando enumera os pertences que tem em seu quarto: “[...] sin contar el libro del altivo, jerifalte Poeta que, despreciando la mentida nube, a la luz más cierta sube [...]” (p. 15).
Concluímos com a reflexão do narrador anônimo de Juan sin Tierra: “pues la vida es sabrosa y debe apurarse sin remilgos ni teorías, con la conciencia tosca pero clara de que no hay otra realidad fuera de la que uno ve, gusta y toca [...]” (GOYTISOLO, 1977b, p.13). Esses fragmentos nos apontam coincidências entre a teoria de Dilthey e a leitura que oferece as obras da Trilogia.