4.5 Büyük Devleti İstemeyen Ekoller
4.5.3 Anayasal İktisat Kuramı- Kamu Tercihi Teorisi
algumas para ilustrar, menos pela trajetória vital do autor que pela abrangência que pode ter o gênero autoficcional. E o faremos a partir da menção a Hernández (1993), citado por Elena Cuasante Fernández (2013) em seu estudo Aproximaciones críticas a los escritos en primera persona:
[...] al ser la escritura autobiográfica un compendio de relaciones entre el yo, el mundo y la escritura, intervienen en su elucidación y cuestionamiento conceptos provenientes de otras ciencias humanas tales como filosofía, historia, sociología, psicología, psicoanálisis, etc., dando origen a uno de los debates más complejos de la moderna teoría de la literatura en su concepto más amplio (CUASANTE FERNÁNDEZ, 2013, p. 31).
A busca e tentativa de (re)construção da identidade empreendida por Álvaro ocorrem pela rememoração de lembranças que são recuperadas quando manuseia antigos álbuns de fotografias, cartas e recortes de jornais encontrados entre antigos documentos da família. Esses materiais o levam a refletir sobre a história recente da Espanha e a perceber que ambas, a história de sua vida e a da vida espanhola, estão definitivamente ligadas. Nessa dinâmica a narrativa se bifurca em dois planos temporais – presente e passado – como se estivesse seguindo o fluxo de pensamento do narrador.
Assim, o presente se caracteriza mais pela reflexão sobre as ações que influíram na formação de sua identidade e constituem a razão de sua angústia existencial. O rigor de seu julgamento, a frustração por tudo que acredita que poderia ter feito, mas não fez, a constatação de que não é muito diferente dos demais: “[...] al cabo de largos años de destierro, estabas de nuevo allí [...] tal el culpable que furtivamente retorna al sitio de su crimen [...]” GOYTISOLO, 1977a, p. 12) - todas essas reflexões lhe sinalizam para a impossibilidade de recuperar suas “señas de identidad”, e a personagem conclui: “Tu salvación debías buscarla allí, en ellos (os excluidos) y su universo oscuro [...] tal era el margen, espacioso, de tu libertad” (p. 367).
1.4 A PATERNIDADE CONFRONTADA EM SEÑAS DE IDENTIDAD
Señas de identidad (1977a) narra a trajetória de Álvaro Mendiola, espanhol, oriundo da alta burguesia catalã, que após dez anos de exílio em Paris volta a Barcelona.
Seu retorno, junto com Dolores, sua esposa, para convalescer de um ataque cardíaco decorrente de uma tentativa de suicídio, desencadeia o início de uma busca por sua identidade. Instalada na velha casa de propriedade da família, a personagem, enquanto se recupera, começa a rever fotos, cartas, recortes de jornais, entre outros documentos do acervo familiar, e esses materiais se tornam o gatilho que dispara a sua memória. Esta não segue critérios de cronologia temporal, mais se assemelhando a um livre fluxo de consciência. Sua viagem ao passado faz emergir episódios marcantes da vida nacional e Álvaro se percebe como parte da história de seu país.
Em suas reflexões, o protagonista se autoanalisa e avalia que durante todo o tempo em que esteve no exílio se empenhou em romper com os valores que moldaram seu caráter e que são o alvo de sua crítica: religião, moral, educação, repressão sexual e a falsa moral burguesa. Entretanto, os valores que assume em sua vida adulta também são questionados e posteriormente abandonados. Suas rememorações trazem à luz uma personagem indecisa, em permanente crise de identidade, frustrada, amarga, pessimista. Incapaz de concretizar qualquer projeto e à falta de um modelo para se espelhar opta por juntar-se aos excluídos como último ato para romper de vez com todo o seu passado. Esses valores podem ser associados às representações da paternidade uma vez que se vinculam a uma tradição que, o autor/personagem questiona e rejeita. Em palavras do autor:
[…] arrancando de raíces y coordenadas idénticas – aversión a los valores tradicionales de nuestra clase, alejamiento del idioma catalán de la rama materna, indiferencia patriótica y religiosa, busca de un sustituto laico del catolicismo en la ideología que vertebraba la lucha clandestina antifranquista, concepción precoz de la literatura como único valor seguro […] (GOYTISOLO, 1985a, p. 279).
Essa obra se classifica no que Philippe Lejeune define como romance autobiográfico, ou seja, textos ficcionais nos quais se percebe, nas semelhanças evidenciadas, traços identitários entre o autor e a personagem, sem que, entretanto, o autor confirme ou negue tal identidade. Escrita e publicada ainda no período da ditadura franquista, a narrativa apresenta a volta de Álvaro à Espanha após um período de 10 anos vivendo em Paris. Seu retorno é assim explicado:
[...] con la desolada e íntima certeza de saber que habías vuelto no porque las cosas hubieran cambiado y tu expatriación hubiese tenido un sentido, sino porque habías agotado poco a poco tus reservas de espera y, sencillamente, tenías miedo a morir (GOYTISOLO, 1977a, p. 15).
Tal como nas demais obras da Trilogia, a memória e a autoficção são as bases discursivas a partir das quais a narrativa se desenvolve. O relato não tem uma sequência temporal linear e as rememorações do protagonista constituem o fio condutor da narrativa. Dessa forma, a função da memória para a personagem, nesse relato, se aproximaria do que afirma Henri Bergson, teórico francês dedicado aos estudos da memória: “não temos poder sobre o futuro sem uma perspectiva igual e correspondente sobre o passado” (BERGSON, 2006, p. 68).
A teoria de Bergson explicaria, em termos, a decisão de Álvaro, porquanto, se não encontra no passado o sentido de sua vida e se sente incapaz de construir perspectivas para o futuro, a sua tentativa de suicídio adquire significado, observando-se em primeiro lugar a personalidade frágil e dúbia da personagem. Entendemos que a premência de encontrar, em seu passado, suas señas de identidad representaria para Álvaro a possibilidade de dotar de sentido a sua vida futura: “Tu vida se reducía ahora a un solitario combate con los fantasmas del pasado y del resultado de la lucha dependía – lo sabías – la liquidación de la hipoteca que pesaba sobre tu angosto y casual porvenir” (GOYTISOLO, 1977a, p. 236-237).
Bergson explicita a dinâmica da memória e reconhece dois tipos de memória – a memória voluntária (ou consciente) e a memória espontânea (ou inconsciente). A primeira se configura pela repetição habitual e pode ser evocada a qualquer momento que se deseje: “podías imaginar asimismo con ayuda de tu memoria posterior de la cinemateca la apariencia insólita de las calles barcelonesas durante las jornadas revolucionarias de agosto del 36” (GOYTISOLO, 1977a, p.28-29). Trata- se de uma memória: “fixada no organismo (que) não é senão o conjunto dos mecanismos inteligentemente montados que asseguram uma réplica conveniente às diversas interpelações possíveis” (BERGSON, 2006, p. 176).
A segunda categoria – a memória espontânea – seria involuntária e, para Bergson, desfruta de maior prestígio:
[...] é a memória verdadeira. Coextensiva à consciência, ela retém e alinha uns após outros todos os nossos estados à medida que eles se produzem, dando a cada fato seu lugar [...] movendo-se efetivamente no passado definitivo (BERGSON, 2006, p. 177).
O fragmento a seguir constitui um exemplo desse tipo de memória: “De vuelta al campo habías examinado el libro redactado [...] y el pasado había irrumpido en ti de modo imprevisto, metamorfoseando tu libro en el perdido libro, tu voz en la atiplada voz de la señorita de compañía” (GOYTISOLO, 1977a, p. 21). Em Señas de Identidad prevalece a memória espontânea ou involuntária. E junto dela a ficção preencheria os espaços onde a memória se perdeu das lembranças.
Seria a essa memória espontânea que Walter Benjamin (1987) se refere quando discorre sobre o fenômeno que se observou nos soldados que retornavam do front de batalhas da primeira guerra mundial? Segundo o filósofo alemão, as experiências bélicas vivenciadas por aqueles soldados repercutiram de tal forma em suas vidas que comprometeram sua capacidade narrativa. Benjamin aborda o tema da memória na construção da narrativa em O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov (1987), e afirma que as pessoas narram o que vivenciaram e que registraram em sua memória. Porém quando esquecer é a melhor alternativa ficam sem ter o que contar. Nesse sentido sua afirmação se legitima no raciocínio de Bergson, para quem: “Quanto mais me esforço por recordar uma dor passada, mais tendo a experimentá-la realmente” (BERGSON, 2006, p. 159). Portanto, o silêncio viria como uma tentativa de apagamento do fato traumático.
Nesse contexto, o papel da memória em Señas de identidad pode ser considerado parte de um arcabouço discursivo que resgata e (re)interpreta a História, recria e remodela novas realidades no espaço da página em branco, como expresso no fragmento: “Con ayuda de unos y otros podías no obstante reconstituir las incidencias e imaginar las situaciones, zambullirte en lo pasado y emerger a lo presente, pasar de la evocación a la conjetura, barajar lo real con lo soñado” (GOYTISOLO, 1977a, p. 110).
As memórias de Álvaro revelam dados autobiográficos de Goytisolo e episódios da história da Espanha ao longo da narrativa, cujo marco temporal seria o ano de 1963. Nesse período, a ditadura franquista entrava em seu 27º ano e a personagem contava então 32 anos de idade, o que coincide com a idade do autor. Duas sequências narrativas que se repetem definem a alternância do tempo – por uma parte, as reflexões de Álvaro suscitadas pelas fotografias e demais documentos levam ao passado da personagem e à história da Espanha. Por outro lado, a garrafa de Fefiñanes (vinho procedente da Galícia) e a presença de Dolores com o remédio que Álvaro deve tomar trazem a ação para o presente da narrativa, agosto de 1963. Esta ocorre durante os três dias que permanecem em Barcelona – o reencontro com alguns amigos de juventude, o sepultamento de um antigo professor, entre outros fatos, constitui o presente da narrativa.
A evocação do passado coloca em cena, em primeiro plano, a sua família – a representação da figura paterna e alvo primeiro de sua crítica: “Definitivamente establecido el árbol genealógico (la rama paterna, con sus beatos y extravagantes, la materna, con sus psicópatas e iluminados” (GOYTISOLO, 1977a, p. 55). Álvaro/Goytisolo demonstra claramente a rejeição pela tradição familiar de seus antepassados e busca entre eles um modelo de rebeldia em quem se espelhar.
No era posible, te decías, que un sentimiento tan vivo e intenso, una anomalía tan honda e insobornable pudiera surgir de la nada […]. Un miembro anónimo de tu linaje los había experimentado tal vez antes que tú, te los había transmitido intactos a costa de negros años de compromiso y disimulo. Lo que en ti maduraba y daba fruto, alguno lo sintió germinar dentro de sí atemorizado, como un cáncer que aumenta y se fortifica en medio de la ceguera e ignorancia de los otros... (GOYTISOLO, 1977a, p. 55).
Essa busca, motivada em parte pela negação da identidade e pela rejeição da figura paterna, sustenta a narrativa. E esta, embasada nas recordações e críticas do narrador, resultará na obra que pode ser considerada uma moldura para a imagem de si que o autor constrói. Ou, em certo sentido, a sua máscara: “Te fuiste de España (abandonando a tus amigos en medio de una lucha política difícil e incierta) para realizar la obra que llevabas (o creías llevar) dentro de ti [...]” (GOYTISOLO, 1977a, p. 377). Essa reflexão propicia também um autoexame de consciência que,
segundo Goytisolo, é o verdadeiro tema da obra e remete ao seu título – um ser atormentado por uma permanente crise de identidade:
¿qué has hecho?: dormir, comer, fumar, emborracharte, matar el tiempo en charlas y discusiones ociosas con compatriotas exiliados y rancios en el vetusto café de madame Berger. ¿Puedes enorgullecerte del resultado? Desertaste de la acción para ser un artista y, a fin de cuentas, ¿qué eres?: un desterrado voluntario que duerme (doce horas diarias), fuma (cajetilla y media de Gitanes-filtre), come (una sola vez al día, en el oscuro Foyer de Sainte-Genéviéve), bebe (litro o litro y medio de tinto, según el caso), va al cine (Eisenstein, Pudovkin, Visconti, Lang, Wells; los de siempre) (GOYTISOLO, 1977a, p. 377).
Por um lado, se percebe claramente a consciência do fracasso da personagem e a inutilidade de sua vida e, por outra parte, Álvaro/Goytisolo parece mais interessado em mostrar como os fatos históricos impactaram em sua vida. Ao situar Señas de identidad em um notório contexto da história da Espanha, o autor confere à narrativa um efeito de realidade e fundamenta a crítica que desenvolve, estendendo-a a todas as representações da figura paterna.
Dessa forma, a ficção se configura também como um cenário onde se confrontam a memória e a História. Nesse enfoque a narrativa assume um duplo caráter – por um lado os fatos históricos, bem como os documentos e fotografias descritos, lhe asseguram um estatuto de verdade e, por outro lado, o filtro ficcional reforça o estatuto de verdade literária, ou seja, a realidade histórica se faz realidade estética. Nos parece coerente, para esse contexto, a definição de autoficção biográfica defendida por Vincent Colonna: “O escritor continua sendo o herói de sua história, o pivô em torno do qual a matéria narrativa se ordena, mas fabula sua existência a partir de dados reais, permanece mais próximo da verossimilhança [...]” (COLONNA, 2014, p. 44). A definição de Colonna ilustra, de forma apropriada, o jogo entre memória e ficção desenvolvido por Goytisolo. Por um lado, na categoria de leitor desse autor, sabemos que narra fatos verídicos e comprovados, e por outro lado, reconhecemos a matéria ficcional entretecida na narrativa. Sem lugar a dúvidas, não nos equivocamos nem nos sentimos enganados, já que pactuamos com o autor. E, por oportuno, lembramos a afirmação de Jacques Lecarme: “A autoficção reside na montagem e no intervalo lacunar entre as duas narrativas, uma fictícia, outra não fictícia” (LECARME, 2014, p. 92).
Álvaro alude a distintos episódios que marcaram a vida de Goytisolo e que abarcam dois períodos – memórias da infância, muitas vezes associadas à crítica aos antepassados: “cartas de esclavos del desaparecido ingenio de Cruces, [...] responsable tuyo en el moroso sucederse de las generaciones que cabalmente les negaba y desposeía” (GOYTISOLO, 1977a, p. 14); e também associadas à morte de sua mãe, às manifestações populares, à segunda guerra mundial, à Frente Popular, à greve geral deflagrada em 22 de março de 1951 em reação contra o aumento das passagens, e à guerra civil: “Cuando ganaron los nacionales y la sociedad te recuperó, tus educadores te impusieron por el temor un culto supersticioso y masoquista del que – enfrentado a las realidades de la vida – te liberaste pronto” (GOYTISOLO, 1977a, p. 31). A época da juventude coincide com as memórias dos anos em que Goytisolo estudou na Faculdade de Direito de Barcelona, os amigos, as primeiras inquietudes políticas e a decisão de autoexilar-se:
Al cabo de los años Álvaro conservaba de esta jornada un recuerdo brumoso. […] Su conciencia todavía opaca (esto lo supo bastante más tarde) le había impedido captar la trascendencia de lo que hubiese podido ser (y fue para muchos sin duda en un país privado durante lustros del sabor áspero y salvaje de la libertad) uno de los días más hermosos de su vida. Doce años habían pasado desde la fecha sin que la ocasión se repitiera y a menudo (en uno de esos trances sombríos que regularmente atravesaba) Álvaro temía morir sin haber gustado de nuevo […] (GOYTISOLO, 1977a, p. 97).
Essas lembranças se alternam no presente da narrativa e Goytisolo destaca o caráter ficcional da obra ao comentar a dificuldade de identificar o que seriam as memórias e o que seria o produto da imaginação. Mesmo que a memória seja mediadora do real, a realidade poderia se mostrar de forma diferente, nos informa Álvaro: “Sometida a los cánones imperiosos de lo real tu imaginación se resarcía componiendo con morosidad las situaciones, limando las aristas del diálogo, atando cabos y rellenando huecos, manejando con soltura su influjo catalizador” (GOYTISOLO, 1977a, p.160). Seria o caso, como afirma Vincent Colonna (2014), em que a sinceridade cede a vez à subjetividade e entra em cena o „mentir- verdadeiro‟, resultando no surgimento da máscara que o autor modela para si, criando a sua imagem literária. Ou também, como apontado por ARFUCH (2010), uma vantagem adicional do gênero que consiste em prender o leitor pelos elementos verídicos que apresenta e, ao mesmo tempo, apresentar-lhe a “construção
imaginária de „si mesmo como outro”. Tomemos as palavras de Goytisolo em sua entrevista a Emir Rodríguez Monegal:
[...] para juzgar Señas de identidad no hay que tener en cuenta los elementos que la componen sino el tratamiento que doy a esos elementos [...] el elemento esencial de la novela consiste en el tratamiento que doy a una serie de materiales, que son a veces materiales literarios, otras veces materiales reales, simples elementos que tomados en la vida real [...] hay algunos aspectos autobiográficos en el personaje de Álvaro. He volcado en él una serie de vivencias personales y ello por una razón muy sencilla: y es que yo creo que el escritor debe escribir siempre sobre lo que conoce y evitar lo demás. La mejor forma para mí era situar a Álvaro en ambientes y lugares que yo conozco personalmente. Dicho esto, no existe ninguna identificación de mi persona con el personaje de Álvaro; creo que somos muy distintos (GOYTISOLO, 1975, p. 111).
O argumento que subjaz e impulsiona as reflexões da personagem remete à questão central da criação de Goytisolo – o tema da Espanha. Entendemos que, ao fazer uso da ficção para abordar essa questão, o autor configura um amplo horizonte em que pode, antes que narrar o vivido, criar a sua vida pela narração e, dessa forma: “colocar em funcionamento um mecanismo retórico que engendra o modelo mais do que o replica – a vida como produto da narração” (ARFUCH, 2010, p. 75).
Goytisolo questiona o tema da tradição de distintas maneiras, estando o conflito com a figura paterna, enquanto representação literária dessa tradição, bastante presente. Em Coto vedado (1985a), o autor declara abertamente a relação conflituosa com o pai: “La admiración y respeto que probablemente sentía por él sufrieron así un daño irreparable [...] comenzó a inspirarme una injusta, pero real repugnancia” (GOYTISOLO, 1985a p. 59). Se nessa obra, reconhecidamente autobiográfica, a orfandade acontece pela morte real de sua mãe, em Señas de Identidad a orfandade se vincula à perda do pai, morto também, em decorrência da guerra: “En 1936 tu padre y cuatro desconocidos [...] habían caído allí tronchados por las balas de un pelotón de milicianos [...]” (1977a, p. 109).
A partir da página 17, a figura do pai passa a ser frequentemente citada, e curiosamente, as referências são sempre à sua morte, como a indicação do local e das circunstâncias. Esse fato nos parece importante, porquanto a figura de pai em Goytisolo se relaciona, sempre, a uma ausência presente como abordaremos no segundo capítulo desta tese. Álvaro não expressa nenhum tipo de sentimento pela perda do pai, tampouco relata memórias de infância que a essa figura se vinculem.
Entretanto o convívio com a mãe, sua descrição física e inclusive, em um parágrafo inteiro na página 86, a personagem revela uma certa nostalgia por sua falta:
¿Qué obstáculo se había interpuesto entre tu madre y tú? Aunque formulada a menudo la pregunta te pillaba desprevenido y no sabías que responder. Como dos líneas paralelas su existencia y la tuya no habían llegado a cruzarse y, en ocasiones sentías pesar retrospectivo por la aventura no vivida, por el encuentro nunca realizado. […] Salvo en momentos excepcionales (y cada vez más raros) su imagen (ojos azules y claros, frente amplia, nariz recta inmovilizados en alguna fotografía) había desertado de tu memoria para siempre (GOYTISOLO, 1977a, p. 86).
Señas de identidad (1977) marca a ruptura com a estética anterior de Goytisolo e se destaca pela renovação linguística, pela ruptura da cronologia lógica, narração em segunda e terceira pessoas, recorrente uso de metáforas, ausência dos signos de pontuação, especialmente no discurso da personagem Voces. A fragmentação do relato caracteriza o fluxo das memórias do narrador, e algumas vezes a descrição de um episódio antecede a explicação de sua causa. Tomemos como exemplo a menção ao ataque cardíaco sofrido pela personagem Álvaro, citado pela primeira vez na página 31, cuja causa será revelada na página 59:
Lo que ocurrió luego podías reconstruirlo con facilidad recomponiendo circunstanciadamente los pormenores de la foto: tu mirada ciega, el rostro lívido, la aparatosa y trivial caída - protagonista inconsciente del espectáculo gratuito ofrecido por ti a los hombres y mujeres que casualmente circulaban por el lugar (GOYTISOLO, 1977a, p. 59).
O narrador voltará outra vez ao tema e tomamos conhecimento de sua tentativa de suicídio quando relata sua decisão de subir ao “Tobogan fou de Malatesta”, desaconselhável para cardíacos. Após cinco meses desse episódio, Álvaro então retorna a Barcelona motivado pelo desejo de reconstruir sua vida, em busca de sua identidade e a de seu país. O episódio da síncope que sofreu em sua aventura no