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YABANCI DİL ÖĞRETİMİNDE KÜLTÜR DUYARLILIĞI VE İŞLEVİ

Para Givaldo, a internação no Hospital e depois o tratamento no CAPS integram claramente uma experiência de continuidade entre ambos os serviços. Fica evidente a sua necessidade de se sentir “controlado” diante das crises que o tomam e, ao que parece o CAPS lhe traz esta estabilidade. Porém, parece viver a inevitabilidade da internação hospitalar, onde “destratam sua carne”, mesmo assim ele se vê impelido pela sua “não condição” de ficar no CAPS, o que é validado pelos profissionais de saúde.

“Meu tratamento? Quando eu tô em crise, quando eu tô em crise, eles não conseguem internar mais. Se não conseguir internar no José Lopes não manda para o Miguel Couto, né? Porque lá eles destratam a carne pra dá injeção. Aqui não, eu já tenho a minha injeção controlada, eu tomo a minha injeção, daí eu passo o dia, eu passo o dia aqui e a tarde eu vou pra casa, lá pra umas cinco horas, né? Eu vou pra casa, né?Quando elas vêem que eu não tô com condição de ficar aqui elas me internam, sou internado, vou internado, fico interno e lá tomo a minha injeção também, a medicação”.

E, de certa forma, vive uma ambigüidade, pois, ao mesmo tempo em que diz ser bem tratado por todos; a condição subjetivada de “ser doente” continua presente,

segue a destratá-lo, e “só Deus tem misericórdia”,

“Pra resolver o meu problema só Deus tem misericórdia, vejo vulto, vejo voz e tô seguindo, tenho fé em Deus e tô seguindo, né? E, aqui eles me tratam bem, né?Eles me recebem bem, todos aqui, eles me recebem bem, Graças ao meu Bom Deus, eles me recebe bem(...)No Zé Lopes, na Miguel Couto quando eu tava internado, eles me tratavam bem, o profissional de saúde me trata bem, todos eles aqui me trata bem, todos eles”.

Maiara há cinco anos sendo acompanhada no CAPS, traz no vínculo com o profissional, o “passe facilitador”, “uma ponte” para suas internações,

“O profissional Y é muito bom, o que me atende, sabe do meu problema todinho, porque ele começou a participar da minha vida desde que eu tive a primeira crise, eu sentia muita dor de cabeça e aqui eu tive muito apoio, tive amor, carinho, muito afeto. Eles são ótimos! São bons profissionais, todos eles que trabalham aqui, principalmente o profissional Y, eu gosto muito dele. E, meus internamentos tudo é ele que vai comigo, vai com a minha família e eu lá no Portugal Ramalho16 pra eu

poder me internar na Ulysses, porque só interna se passar pelo Portugal Ramalho, tem que pegar guia pra eu me internar na Ulysses...”

E, em seu discurso, Maiara admiti não querer ser internada, sabe que corre tal risco, no entanto, menciona a rede interligada entre o CAPS e o Hospital;

“Eu passei quatro meses lá porque eu tive uma crise forte, mas eu não pretendo me internar mais. E, se outra vez eu tiver que me internar eu só interno na Ulisses, eu não me interno em outro hospital, por causa do profissional de saúde X, que é meu terapeuta, eu só me interno lá. Eu prefiro...”

Caso tenha que internar, prefere o hospital onde o profissional de saúde do CAPS trabalha. No entanto, vale repetir o que já havia dito em momento anterior,

“Eu tenho fé em Deus, eu fiz uma promessa com Deus que enquanto vida eu tiver eu não vou me internar mais, mas ninguém sabe o dia de amanhã, né? A gente que toma esses remédios não sabe, porque assim: tem dia que eu durmo, tem dia que eu não durmo, tem dia que eu choro”.

A experiência foi de tal forma negativa que Maiara recorreu a uma promessa para não internar mais. No entanto, acredita que o seu problema de saúde tira-lhe a possibilidade de confiança quanto ao seu futuro. E, que perspectiva lhe resta?

Ao que tudo indica, diante da eminência de uma crise, o usuário egresso tem

16O Hospital Escola Portugal Ramalho, único hospital psiquiátrico público no Estado, tem tido a incumbência de fornecer a autorização de internação para os outros hospitais que, por sua vez, são conveniados ao Sistema Único de Saúde.

grandes chances de regressar ao hospital, não encerrando assim o ciclo descrito por Givaldo:

“A gente vai e volta, vai e volta, vai e volta, não sabe quando vai ficar bom, só Deus é por nós e tem misericórdia”.

Seria esta a única força capaz de quebrar este ciclo crise e internação?

Segundo o Ministério da Saúde, os Centros de Atenção Psicossocial são unidades intermediárias de saúde mental que se propõem a evitar a internação, seja em hospital geral ou psiquiátrico. Porém, devem visar, não somente a diminuição deste tipo de ocorrência, mas a mudança do modelo de atenção em saúde mental até então, centrado no hospital, sendo referência para a assistência, educação, pesquisa em saúde mental e produção de tecnologias de cuidado (BRASIL, 2002; BRASIL, 2001b).

Não basta prevenir internações ou diminuí-las, estratégia típica do modelo preventivista, baseado de atenção primária secundaria e terciária. Dentro deste modelo, o CAPS reforça o sentido de se ser um filtro das internações mesmo que, diminuindo-as ou aplicando as medidas de prevenção e tratamento precoces. Para Lancetti (1990, p. 81), há uma espécie de progresso-retrocesso, neste modelo de atenção, pois “os grandes pilares da saúde mental continuariam sendo as chamadas retaguardas ou macro-hospitais psiquiátricos”. Neste sentido, ele considera que,

As experimentações singulares que estamos vivendo nos ensinam que em vez de preservarmo-nos dos desequilibrados é preferível nos prevenirmos do asilo [...] Se há algo que temos de nos prevenir é das instituições, das suas organizações, das suas justificações e da imensa ilusão que elas produzem. Seria melhor abandonar a denominação de programas e pensar em estratégias de interrupção das linhas hegemônicas operantes e efetuação de dispositivos de continência e transformação real da vida dos usuários e dos próprios agentes de saúde mental (LANCETTI, 1990, p. 88).

Para os usuários entrevistados, parece estar claro que o sentido da existência do CAPS é evitar a internação psiquiátrica. No entanto, nos depoimentos, percebe- se a manutenção da centralidade do hospital psiquiátrico, fazendo com que o CAPS, de certa forma, se constitua neste “filtro para internação”.

Este fato nos remete para Nicácio (1990), quando afirma que a criação de novos serviços, mesmo com a missão de substituição ao manicômio, por si só, não

quer dizer que foi transformada a lógica de compreender e agir da psiquiatria. Ao que tudo indica, na realidade estudada, a centralidade do hospital permanece mantida e, como conseqüência, tem o foco na terapêutica medicamentosa, tal como na lógica médico-centrada denominada por Merhy (1998, ver página 30).