Ao relatarem as experiências com internação psiquiátrica, fato comum é a violência sofrida ou presenciada neste espaço. Givaldo, após inumeráveis
internações, justifica sua queixa em relação ao tratamento recebido no Hospital,
“Lá, quer dar um no outro, quer bater no outro, aquele que não for mais forte apanha, quer bater no outro, quer tomar as coisas da gente, a gente não pode dormir de noite, porque o paciente mesmo pega as coisas da gente, o paciente, é!”.
A ausência da privacidade, a desconsideração da sua individualidade refletida na possibilidade constante de ver suas coisas tomadas, evidencia a não garantia do seu próprio espaço dentro da instituição, de onde se derivam as várias brigas, agressões, confusões e ameaças.
Diante dessa situação, Givaldo busca ao seu modo, adequar-se ao que o ambiente lhe impõe ao continuar dizendo:
“A gente tem que deixar pra lá, porque se a gente for dizer alguma coisa é pior, né? Se a gente for dizer alguma coisa é pior, eles querem é ferir a gente, eles querem machucar a gente e, quando o médico vem perceber já é tarde, já entrou o outro dia”.
A ausência da escuta de necessidades, o descuido, o abandono, contidos no relato acima, nos remetam a Goffman (1987, p.312), quando afirma que na internação psiquiátrica as pessoas podem se descobrir numa “atadura muito especial”. E,
Para saírem do hospital ou, melhorar sua vida dentro dele, precisam demonstrar que aceitam o lugar que lhes foi atribuído, apoiar o papel profissional dos que parecem impor essa condição, o que cria uma espécie de servidão moral onde, doentes e profissionais podem ser esmagados pelo peso de um ideal de serviço que torna a vida mais fácil para todos.
Na verdade, o que se desvela nesta “instituição total” - denominação dada ao hospital psiquiátrico por Goffman (1987), é a existência de um poder instituído que abarca e oprime a todos.
Basaglia (2005) ao analisar estas forças que agem sobre a pessoa internada, tão profundamente, a ponto de aniquilá-la, depois de já tê-la afastado da sociedade, reconhece que só uma seria capaz de provocar semelhantes danos: a autoridade. Somente uma organização que é baseada unicamente no principio da autoridade, renuncia à liberdade do doente para o bom andamento da instituição e, para ele a instituição psiquiátrica asilar “sempre escolheu a eficiência, e em seu nome o doente
foi sacrificado" (BASAGLIA, 2005, p. 54).
Entre os sujeitos que vivenciaram tal autoridade, como é o caso de Givaldo, até mesmo a administração da medicação - um dos recursos terapêuticos utilizados na assistência é visto como mais um fator de opressão,
“(...) Porque lá eles destratam a carne pra dá injeção”.
Para Lenira, a violência se deve ao fato de, no hospital, internarem muitas pessoas com dependência química e “ficar tudo misturado”,
“É muito agitado lá no Portugal Ramalho, quando eu tava lá, porque tem muita gente viciada em droga, né? Tão ali pra tirar o vício, daí fica misturado com os doentes. Daí, toda noite é uma briga, toda noite é uma briga. As mulheres amanheciam com o olho roxo, brigava uma com as outras (...) Quando pensava que não... Tava a briga. Eu não, o que eu escutava eu deixava pra lá, né? Não ia fala pras outra. Aí, se eu falasse eles iam me, me bater também”.
E o “destrato”, referido anteriormente por Givaldo reaparece também em seu discurso:
“Eles me agarravam à força pra aplicar injeção, aplicar Diazepan, aplicar injeção em mim pra ver se eu acalmava mais, mas no outro dia era a mesma coisa, voltava tudo de novo”.
Isso sugere a carência de contratos mínimos de sociabilidade durante o período de internação. O que deixa a pessoa à mercê do seu próprio problema, sem ninguém para ouví-lo (exceção que ela mesma faz ao encontro semanal com o psiquiatra) e; “solta” em espaços amorfos sem nada para fazer e se ocupar.
Na descrição da assistência hospitalar recebida, Maria Fernanda reafirma a centralidade na medicalização dos sintomas, a ociosidade, o abandono, o sentimento de desconfiança em relação aos profissionais do serviço.
“Lá é assim; só procura a gente pra dá remédio e, uma vez por semana é que a gente passava por psiquiatra, mas psicólogo eu nunca cheguei a passar não, só era atendida pelo psiquiatra e assim: pra tomar remédio. E, lá a gente fica à vontade assim (...) Um salão enorme, um vagão, né? Tem uma praça, que a gente fica assim, passeando, quem quer né? Mas, quem quer fica num canto parado, eu ficava num canto parada, só chorando, entendeu? Porque eu tomava remédio, parece que eu ficava pior, eu ficava mais, mais lenta assim, sabe como é? Porque eu não tinha ninguém pra conversar. Às vezes, no interior, aí você ficava com mais medo ainda, tinha pessoa que quebrava cadeira, outra pessoa batia, era briga, entendeu? A
pessoa pegava remé...Principalmente eu que me recusava a tomar o remédio, eles me pegavam a força pelo braço e, entendeu? Botava o remédio na minha boca pra eu tomar a pulso. Eu chegava a dizer: ‘eu não tô me recusando de tomar o remédio pra senhora e fazer isso comigo’, mas tinha agressão. No período muito grande que eu tive lá no Zé Lopes, era assim”.
Este relato mostra que para o sujeito a assistência dispensada no hospital é privada de trocas, de relações, favorecendo a dependência. Retrata um ambiente que favorece a agressividade, a violência, aumenta a insegurança e o medo.
Para Rotelli (2001a, p.61) a internação realizada dentro dos paradigmas tradicionais de tratamento psiquiátrico, tem como única finalidade a privação, ”subtração das trocas, estabelecer relações de mera dependência pessoal”. Subtrai das pessoas o direito ao mundo, ao privar a pessoa da sua própria identidade, ao exercer a violência em seu momento de profunda dor, ao reduzir as suas possibilidades de convivência, sociabilidade e produtividade.
Privação a que todos os entrevistados se sentem expostos, pois pudemos perceber de forma muito contundente: não desejam a internação, mas não excluem essa possibilidade que é, na verdade, um risco real. Risco real, na maioria das vezes, determinado pela trajetória imprevisível do seu problema de saúde e dificuldades financeiras que o colocam na condição de dependentes do sistema de saúde local. Sistema que, por sua vez, não dispõe de um número suficiente de CAPS e de serviços substitutivos de referência tais como: leitos psiquiátricos e serviços de emergência psiquiátrica em hospitais gerais que, em linhas gerais, acabam por garantir a centralidade do hospital psiquiátrico.
Centralidade que tem sido responsável, até agora, pela maior parte do conhecimento cientifico produzido para o entendimento e enfrentamento da doença mental no mundo (SARACENO, 1999).
Gergen (1985), quando critica a racionalidade deste conhecimento científico, compartilha com outros pensadores da necessidade premente de desconstrução da retórica da verdade, através do questionamento de todo conhecimento cientifico produzido até então com bases na razão.
Portanto, ao considerarmos: 1º Os sentidos produzidos entre os usuários por nós entrevistados acerca da internação psiquiátrica sofrida; 2º A constatação feita
por Saraceno (1999); 3º A perspectiva social construcionista de Gergen (1985) e; 4º A visão pós-moderna de Santos (2003a), não restará outra saída senão, questionar todo o conhecimento científico produzido pelo paradigma da internação. E, junto a isso, desconstruí-lo em seus princípios mais básicos e em suas verdades mais absolutas, guiando o nosso olhar para o conhecimento do senso comum e a nossa prática não mais para a instituição, seja ela qual for, mas um ocupar-se de sujeitos e responsabilizar-se com o sofrer humano.
O que reforça a importância em se identificar os sentidos da assistência entre estas pessoas, confrontando as experiências vividas em hospital psiquiátrico e em CAPS que, seqüencialmente tem representado em nossa sociedade a “velha” e a “inovadora” forma de agir em saúde mental. Partindo dessa premissa, dessa trajetória histórica, o segundo eixo temático aborda, a seguir, a assistência recebida no CAPS, sob a ótica destes mesmos usuários.