“Uma porta se abrindo” é a imagem que vem associada à avaliação feita por Machado (2005) sobre o Processo de Reforma Psiquiátrica, cujo um balanço da atual política brasileira de saúde mental mostra as conquistas inegáveis, apesar das resistências e dificuldades.
Para os usuários entrevistados, esta abertura de portas tem evidenciado um sentido de amparo, de proteção que se manifesta mesmo diante da necessidade, sofrida, de internação psiquiátrica. Maiara nos esclarece este sentido, quando declara:
“O que eu tenho a dizer é que aqui, na hora que eu mais precisei eles me abriram as portas, aqui eles foram uns pais pra mim, porque na hora que eu mais precisei eles me acolheram, porque a gente tem que ver (...) Tem que ver as coisas na hora que a gente precisa, né? Tanto que na minha crise, na minha primeira crise, eles me acolheram, me apoiaram, me deram amor, me deram carinho”.
Este discurso, mesmo trazendo em si a idéia arraigada de uma proteção paternal ainda buscada por muitos usuários, talvez pela influência deixada da tutela vivida no hospital, revela a necessidade suprida de “ter sempre as portas abertas”: para o acolhimento, o carinho, a atenção, o afeto, o apoio, criando oportunidades para a superação de seu problema de saúde.
A fala dos usuários evidencia modificações na assistência e a essa, novos argumentos vão sendo integrados. Um destes novos argumentos tem sido a abertura dos espaços de relação, refletidos nas possibilidades de encontros e de expressão de sentimentos. Neste sentido, certas formas de atenção psicossocial se constituem em verdadeiras “portas que se abrem” para um campo ilimitado de trocas que, mesmo quando sutis, enriquecem e dão vida a este espaço.
Para Paulo, o bom relacionamento e a atenção recebida, tanto usuários quanto profissionais do CAPS, fazem com que ele não se sinta “desprezado”,
“O tratamento é bom, o pessoal tudo são pessoa boa, a psicóloga, né? É uma pessoa boa, a assistente social. Todo mundo aqui trata muito bem, trata muito bem a gente. E, não deixa ficar assim desprezado, não deixa. Quando a gente chega aqui até se sente melhor, quando chega aqui, a gente sente melhor, os colegas que a gente tem aqui, os amigos aqui, né? Os pacientes, o pessoal que conversa com a gente”.
A fala de Paulo reforça a importância da expansão da rede de relações, acompanhada de vínculos solidários, o que propicia tornar-se sujeito do seu tratamento.
Estratégias de utilização de recursos interativos são utilizadas pelo serviço e são citadas e reconhecidas pelos usuários,
“Logo cedo, a gente faz uma rodinha de gente, não? Faz com as cadeiras uma roda. Aí, senta todo mundo e o profissional fica perguntando: ‘ Como foi sua noite? Dormiu bem? Como é que tá hoje?' Isso pra cada um, aí, cada um responde como tá se sentindo, na resposta diz como ta se sentindo”.
Assim, o espaço de expressão de sentimentos, trazido pela atividade desenvolvida no serviço e intitulada: Grupo Bom-Dia é vista pelos usuários como possibilidade de estabelecimento de vínculos, de trocas, de respeito,
“A gente faz grupos, a gente conversa, a gente brinca, ele (o profissional) conversa, ele pede sugestão à gente, pede opinião, faz o grupo, toda a semana. Aí, se reúne, faz uma roda, junta as cadeiras, a doutora entra com um assunto, a gente entra também, ele pede muito: ‘o que a gente achou?’. Eles não dão só a opinião deles não, participa com a da gente também, que é importante, né?”
Este tipo de discurso demonstra a importância do reconhecimento e consideração da pessoa na relação assistencial. Freqüentemente os usuários mencionam a atenção, o respeito e a educação com que são tratados, atendidos no momento em que mais precisam e, “ter com quem contar” nos momentos de crise. Sintetizam: “eles tratam a gente bem”.
A maneira de ser dos profissionais parece criar o clima, a atmosfera em que os usuários vivem no serviço. Quando, aos olhos destes usuários, os profissionais se mostram: solícitos, prestativos e honestos isso acaba por afetá-los de maneira sutil, gerando a segurança do acolhimento necessário nos momentos de dor.
Foi comum entre estes usuários, o relato de que os profissionais de saúde os tratam com educação, lhes dão atenção, não os desprezam, conversam com eles, possuem uma postura positiva.
Maiara, que já sofreu quatro internações, traça uma distinção da experiência vivida:
“Eu fiz muita bagaceira aqui também, aqui eu aprontei, mas eles não levaram pra outro lado não. Aqui é bom, aqui é uma terapia que a gente passa aqui, a gente tem um espaço, aqui tem carinho, a gente tem solidariedade, o pessoal daqui é muito carinhoso com a gente, é muito atencioso, da secretária ao chefe, é todo mundo carinhoso”.
Para Saraceno (1999, p. 55), entre outras, duas dimensões tornam-se essenciais para interações ressocializantes entre usuários e profissionais: “o suporte
e a permissividade”. A primeira, “o suporte” busca fazer o usuário sentir que é aceito
como é; a compreensão das emoções através da sua história e; a não apresentação de respostas que o possam conduzir a um novo fracasso. E, “a permissividade”, busca permitir a expressão dos comportamentos, mesmo que ‘desviantes’, comunicando assim o desejo do técnico de estar com o usuário, independente das formas de comportamento que ele venha a apresentar. Para este mesmo autor, essas duas dimensões são funcionais - devem ser acionadas para a superação do evitamento emotivo e da não receptividade.
Neste enfoque, os relatos revelam haver inovação na forma de convívio estabelecido neste serviço. Ao falar da relação interpessoal com os profissionais do CAPS, um dos sujeitos relata trechos da sua interação interna e externa aos serviços,
“Eles tratam a gente bem. Você vai conversar com eles, eles dão atenção pra você. A gente vai saltando do ônibus, eles passam por você, falam, eles vem logo falar comigo (...) Às vezes, eu passo pelas pessoas eu acho que são de mim que estão falando, eu não tenho essa confiança, né? Aqui não, aqui eles tratam a pessoa bem, eles tratam a gente muito bem, eu não tenho o que falar”.
Esta fala demonstra claramente que a desinstitucionalização, tomada aqui como uma forma inovadora de atenção psicossocial, envolve mudanças nas modalidades de interação entre profissionais e usuários e, também em outras dimensões de convívio social destas pessoas.
Como um inovador sentido, a simbologia da “porta que se abre”, deveria implicar na abertura de todas as portas: reais ou, simbólicas; materiais ou afetivas para uma nova forma de convívio com a existência-sofrimento psíquico, dentro e fora dos serviços especiais.
temidos de uma recidiva até o retrocesso à triste rotina do hospital psiquiátrico se desvelam. Givaldo explica a situação e identifica seus temores,
“Fizeram um assalto aqui, aí o CAPS tá meio (...) Tá ainda sem assistência, ne’? Aí, quando retornar, a gente volta pra cá de novo, né? A gente volta pra cá de novo. Eu acho bom tá aqui, que aqui a gente tem atividade, a mente da gente faz alguma coisa, tem atividade e deixa da gente tá pensando em besteira, em besteira, né? Porque a mente da gente ocupa com qualquer coisa, né? E, se a gente for ficar pensando em besteira, é pior pra gente, pior pra gente”
Fica nítida a angústia e o medo de entrar em crise e não ter com quem contar diante do serviço praticamente parado. Para Richard, freqüentar o CAPS se traduz na segurança de não sofrer ataques da epilepsia, de ter o acesso à medicação e de usá-la corretamente. Após esse assalto sente sua estabilidade ameaçada, estabilidade que se transformou em medo e perda de autonomia. Ele revela:
“Pra mim tava bom, porque não tava me atacando não, mas agora já me pegou umas três vezes (...) Eu tô pedindo a Deus que volte de novo o que era, né? É o que eu tô pedindo. Eu vivia melhor, ela não andava me atacando, como anda me atacando agora (...) de lá pra cá ela fica, de vez em quando, querendo me atacar, mas o remédio já tá se acabando, aí eu não tô conseguindo andar sozinho...”.
O CAPS permaneceu vários meses apenas em regime de plantão, fornecendo as medicações e fechando no período da tarde. Um período crítico para a maioria dos usuários que viam, nesta ocorrência, o risco aumentado da piora ou remissão dos seus sintomas e de internação, já que residem num bairro rodeado por hospitais psiquiátricos, com vizinhos e amigos que ali trabalham e, podem facilitar o acesso para o mesmo.
Esta compulsória mudança da dinâmica de funcionamento foi capaz de causar nos usuários, o receio de um fechamento definitivo do CAPS.
“Eu não queria que aqui se acabasse, eu queria que continuasse, porque a gente precisa. E, eu tô com medo que termina, porque como é que vai ser?”
A carência de recursos públicos, administrados pelos órgãos gestores, é lembrada e apontada por um dos sujeitos, como mais um receio de perda ou de uma porta que se feche:
“Era diferente, muito diferente: material, a gente fazia festa, direto. Nunca passou uma data dum aniversariante, todo mês a gente tinha festa do aniversariante, nós fazia festa dos profissionais, nós fazia festa do mês, nós tudo tinha e hoje nada disso
a gente pode fazer, porque não tem recurso (...) O diretor chefe sofre muito pra chegar ao ponto que está chegando, se ele não fosse um chefe tão forte, o CAPS já tinha fechado as porta (...) E nós? Onde é que a gente ia ficar? Ia ficar naquela mesma rotina. Rotina, somente”.
Estas falas mostram o quanto é imprescindível, para estas pessoas, a retomada do funcionamento normal da unidade. Para estes usuários com história pregressa de internação, é importante não retroceder à “triste” rotina dos espaços amorfos do hospital. Foi o que afirmou Elí, ao se referir sobre qual rotina temia retroceder:
“Do Hospital... No Hospital a rotina é triste. Não é como o CAPS”.
Por outro lado, as superações sugeridas extrapolam a necessidade da reabertura das portas do CAPS e, conseqüente da pura e simples retomada do atendimento anterior, nos encaminhando para a abertura de tantas outras portas.