II. BÖLÜM
2.3. YĐRMĐNCĐ YÜZYILDA ABD TARĐH YAZIMI
Nova Iorque, [...] uma grande escultura mínimal, com vidros de seus arranha céus cobertos de gelo e ao mesmo tempo disseminada em seus imprevistos trajetos de angústia [...]
[...] uma escrita anônima agressiva, traçada com tinta em jato gasoso de aerosol atrai a atenção dos transuentes e de uma multidão anônima que atravessa a cidade[...]
Achille Bonito Oliva
O contexto urbano dos anos 70, no qual os grafites norte-americanos irão surgir, tem raízes históricas remotas. Se fizermos uma análise de como o ambiente cultural nova-iorquino foi sendo configurado, é possível compreender como foi propício para abrigar uma forma explosiva e radical de ocupação das ruas. Os grafites se manifestaram em todos os cantos do mundo, fundindo a cultura de massa ao meio ambiente urbano, rompendo as barreiras sociais, geográficas, abalando as estruturas de poder, radicalizando a experiência de vida na arte
A aceitação integral da modernidade e das formas artísticas implicava a negação de tradições que até então haviam sustentado a sociedade européia. Era preciso que os fundamentos do velho mundo desaparecessem para que uma nova realidade pudesse emergir plenamente [...] O novo mundo da arte não teria se efetivado como foi , se não fosse o desenvolvimento de uma nova situação cultural nos Estados Unidos - um país de tradições emergentes que forneceu um público para o impressionismo e construiu um campo para a arte moderna. (BUENO,1999, p.30).
A virada do século XIX para o século XX acentuou o ritmo de expansão e desenvolvimento nos Estados Unidos da América. A ampliação explosiva da população devido à imigração e o surgimento das grandes corporações redimensionam o universo da cultura e da arte. Começam a surgir interesses por parte dos novos ricos em investirem na arte, ampliando o seu mercado e impulsionando sua internacionalização. Cresce o número de Museus, institutos e galerias interessadas no novo tipo de “investimento”. Em decorrência destes fatores inicia-se um circuito social de artistas e intelectuais americanos ou que vinham da Europa.
Nas primeiras décadas do século XX, o universo industrializado em expansão se refletia na produção dos artistas que buscavam, no dia-a-dia metropolitano, inspiração para suas obras, expressionistas, dadaístas e surrealistas. Muitos artistas recorriam paralelamente à temática urbana e de consumo americana.
O impacto de um universo metropolitano industrializado em expansão afetava a produção de alguns artistas, revelando uma inclinação para o realismo e a figuração, enquanto a Europa tendia para a abstração. Trabalhos de artistas como Stuart Davis já refletiam diretamente tanto o instrumental cubista, quanto preconizavam o universo da pop art. Sua produção era
considerada pelos europeus “como muito pop, muito colorida e sobretudo muito americana”.(BUENO,1999, p.83-84)
Com a guerra, a vanguarda européia refugia-se principalmente em Nova Iorque aquecendo ainda mais o clima artístico no país. A presença de Marcel Duchamp e Francis Picabia consolidava a posição de Nova Iorque como a nova capital do modernismo. O estilo de vida modernista, a boêmia, a efervescência cultural trazida pelos artistas europeus estavam imbuídos no espírito “do novo” cultivado na América.
Os novos-ricos norte-americanos não possuíam, como na Europa, uma tradição aristocrática, pois obtiveram suas fortunas a partir do próprio trabalho braçal. Portanto, não cultivavam as distinções rígidas entre alta cultura e cultura popular. Desde o seu início, o modernismo norte-americano constituiu- se no entrecruzamento dos diversos segmentos sociais: artistas boêmios, pobres ou ricos, intelectualizados ou não.
Em contraposição à esfera social restrita que sustentou a tradição aristocrática européia, a nação americana, desde sua origem, pressupunha a noção de ampliação da esfera pública com a própria idéia de massa – concebida como aumento de população, ampliação do público. A valorização do indivíduo se desenvolveu em sintonia com a concepção de massa.
Mesmo o colapso provocado na economia pela queda da Bolsa em 1929, e o conseqüente retardo na cultura de consumo não abalam com vigor a indústria cultural, em ritmo de expansão com a difusão explosiva do rádio e a introdução dos processos coloridos no cinema em 1932. O grande êxodo de negros, vindos do Sul, para os grandes centros industriais do Norte, como
Detroit, Chicago e Nova Iorque, trazia novos estilos musicais que surgiam nos cabarés do Harlen, na música de Duke Ellington, Billy Holliday e outros grandes nomes.
As gerações de artistas nos anos 30 já atuavam nesta atmosfera social e tentavam construir um caminho próprio a partir dela. “Formavam um grupo bem diversificado: vinham de estratos sociais, estados, cidades e países diferentes. Nada os unia além da vida moderna, Nova Iorque e o desejo de ser artista”. (BUENO,1999, p.83)
Portanto, a arte tipicamente norte-americana, em suas várias correntes, nasce das várias experiências culturais do país com as de outros continentes, num mercado efetivamente já consolidado, aliada à cultura de massa e à uma estética cosmopolita.
A maneira como a arte nos Estados Unidos irá impor novas formas de visualidade com novos atores sociais, e uma nova lógica comercial, irá afetar toda a produção cultural das décadas seguintes.
O Expressionismo Abstrato pode ser abordado a partir principalmente da sua relação com as diferentes vertentes da arte que configuravam o cenário artístico norte-americano nos anos 40. Fruto do diálogo estabelecido entre Europa e Estados Unidos, principalmente através do exílio voluntário de artistas europeus, que buscavam em Nova Iorque um local para escapar da Segunda Guerra Mundial, funde experiências oriundas do Expressionismo Alemão, do Surrealismo, do Muralismo Mexicano. “Simbolizava uma espécie de fuga da realidade marcada pelos horrores da guerra. Em tempos de guerra, a liberdade de imaginação apresentava como única saída viável, o exercício da
liberdade possível. ” (BUENO, 1999, p.159). Com o fim da guerra, os Estados Unidos emergem como país “guardião” da liberdade e consagram o Expressionismo Abstrato como o símbolo representativo da nova cultura ocidental. Em 1948, a mostra A pintura não figurativa na América exerceu forte impressão sobre os artistas da Europa. O Expressionismo Abstrato se insere no mundo da arte no sentido de projetar-se fora dos Estados Unidos e principalmente no impacto que esse movimento teve no seu próprio país.
O impacto do Expressionismo abstrato foi tão grande sobre os espíritos europeus que é uma forma deste estilo que os estudantes franceses em revolta utilizaram em 1968 sobre os muros [...] em Nanterre para exprimir sua alienação e seu desejo de liberdade. A pintura como ejaculação dizia um poema escrito a giz perto de um afresco/grafite à la Pollock: O mingau que me fizeste engolir desde minha infância vomitei no muro. Estava ali, enfim a actions painting em ação? Era enfim a arte popular, a verdadeira arte mural, misturando o público e o privado, com a qual Jackson Pollock havia sempre sonhado? (GUILBAUT, apud BUENO, 1999, p.158)
A geração de artistas abstracionistas contribuiu para gerar um deslocamento do foco das inovações artísticas de Paris para Nova Iorque. A arte não figurativa torna-se representativa da cultura americana e um produto internacional. Estava em questão uma ruptura no âmbito estético, no que diz respeito ao sentido de autonomia do artista, a exploração da espontaneidade do gesto, da caligrafia pessoal e do uso de grandes superfícies. Esses fatores foram essenciais para o surgimento dos grafites, na forma como prevalecem hoje.