• Sonuç bulunamadı

II. BÖLÜM

2.2. YĐRMĐNCĐ YÜZYIL VE TARĐH YAZIMI

Sobretudo, sabemos que números cruciais da combinação que iria abrir o dilema do artista e ajudar a dar luz àquela nova força da invenção não seriam encontrados nem nos Museus, nem na privacidade do ateliê. Mas ao lado, debaixo e atrás dele, naquela caminhada, nas coisas aparentemente triviais e marginais, quase despercebidas, [...] nos cartazes comerciais brilhantemente ao longo da avenida e nas vitrines das lojas, [...] nos jornais e revistas de caricaturas [...] e até nos garranchos ordinários nas paredes das ruelas escuras - ali estava o alfabeto para a nova linguagem da arte. Ali, em germe, estava outro notável poder da época vindoura – a cultura urbana moderna, um fenômeno tão vulgar e poliglota nas energias de representação modernas.

Adam Gopnik

Nos anos 30, o fotógrafo surrealista Georges Brassaï registrava com sua câmara o submundo dos bares, prostitutas e pequenos hotéis de Paris. Brassaï, saía à procura de desenhos na rua, no asfalto e nos buracos cavados nos muros na companhia de Picasso, que se interessava por esses (Fig. 21-22)

grafites. Brassaï publicou num livro intitulado Graffiti, imagens de rostos feitos por buracos no muro, com preciosos depoimentos de Picasso sobre as impressões que provocavam essas imagens. “isto é tão rico quanto a fachada de uma catedral”. (PICASSO, apud BRASSAÏ, 2000, p.328)

O gesto gratuito, as incisões e raspagens, como signo e como forte elemento visual, entre ranhuras e buracos dos muros, registrados por Picasso e Brassai, trouxeram um novo sentido de percepção para a imagem e o traço. O olhar idealizado e orientado pelas academias de arte burguesa precisava ser “deseducado”, para que aquilo que estava sendo produzido nas ruas pudesse ser percebido. Picasso declara ao seu amigo Miro “a criação pura é um pequeno graffiti [...] um pequeno gesto sobre o muro, isto é a verdadeira criação”. (PICASSO, apud RIOUT, 1990, p.48).

Salvador Dalí, André Breton, Henri Matisse, Picabia, Tzara, Paul Éllouard, e outros artistas também promoveram excursões urbanas por lugares banais, deambulações aleatórias nas ruas, tão fascinados pela força que os grafites exerciam, a ponto de passarem a incorporá-los a suas obras.

O Dadaísmo apontou uma nova dimensão à percepção e à representação da realidade, e o Surrealismo adicionou à arte o inconsciente, e ambos constituíram uma forma de arte inspirada profundamente na experiência de vida. Adicionava ao mundo das aparências o mundo das aparições, a fantasia, a simbologia dos sonhos, componente latente que a psicanálise revelou. A questão era fazer uma apropriação da realidade e, para isso, era necessário penetrar no universo visionário, primitivo e psicopatológico.

A pintura surrealista foi inspirada nas excentricidades vertiginosas de artistas de épocas passadas, como Hieronymus Bosch, Paolo Uccello, Albrecht Durer, Giuseppe Arcimboldo, Goya e também nas paisagens e episódios fantásticos e temas inspirados na mitologia greco-romana, na bíblia ou no cotidiano medieval. Fez uso de aspectos que permanecem até hoje, e são bastante recorrentes também nos grafites: o caráter visionário e alegórico, presente em pinturas em grande escala que representam, muitas vezes, paisagens oníricas, personagens fantásticas, freqüentes no repertório iconográfico dos grafiteiros. São “murais”, nos quais priorizam o uso de técnicas rebuscadas e efeitos de tridimensionalidade que evidenciam e causam ilusionismo, além de despertarem a imaginação.

No caso do surrealismo, não se trata de opor a forma fantástica à representação da realidade, mas de conciliar esta com o processo ilógico dos estados delirantes ou oníricos para formar uma “sobrerrealidade” (ALEXANDRIAN, 1976, p.52).

Desde o final dos anos 40, já havia uma tendência de alguns movimentos de retomada das formas de expressão como a volta à natureza, aos mitos primitivos e selvagens próprios do Surrealismo. Como o grupo Cobra de 1948 e o grupo Phases no início dos anos 50.

Saudemos portanto, a pintura do imaginário, a única digna de exprimir totalmente este conhecimento do mundo e a vontade de o transformar que constituem a primeira qualificação moral de qualquer pesquisa humana. (JAUGUER, apud RIBEIRO, 1997, p.37)

Estes movimentos encorajaram o aparecimento de idéias que abrissem para novas perspectivas experimentais e de rompimento com as tendências já estabelecidas.

Os grafites muitas vezes apontam para este sentido: apresentar um olhar vertiginoso sobre a realidade, sobretudo a urbana, disponibilizando ao cidadão um tipo de percepção de seu ambiente, mais contemplativo diante dos estímulos dispersos do dia-a-dia urbano. Para muitos grafiteiros, os grafites exercem o papel de propor para a cidade um tipo de experiência visual imaginária em contraponto à sua frieza e neutralidade. Permitem um ilusionismo pictórico capaz de alterar a situação ambiental, naquele determinado espaço onde se situa. Fazem nascer algo onde não havia nada, senão uma parede, uma interrupção. Para o grafiteiro, no entanto, a parede

grafitada, ao absorver a pintura, deixa de ser uma interdição, e cria um outro espaço, transborda o seu limite e torna-se um ambiente a ser experimentado e vivenciado.

Seres, grafiteiro conhecido em Belo Horizonte faz experiências de criação de imagens imaginadas. Utiliza no seu trabalho um tipo de pesquisa que parte de representações orgânicas do corpo humano e outras representações da natureza.

Pesquisa profundamente o universo real dos órgãos, membranas, estruturas celulares, cria a partir delas, e leva para os muros. Representa, de

FIGURA 23 FIGURA 24

forma estilizada, imagens fantásticas inspiradas no corpo humano que, colocadas no muro, provocam outros tipos de interpretação.

Eu gosto de ler uns livros de arte, gosto de pesquisar sobre mistura de cores, uso de cores, mas isso não quer dizer que é uma influência para mim. Eu gosto mesmo é de pesquisar em livros de medicina, que tem umas “paradas” de pele, de células. Aquelas imagens de dentro do corpo, eu levo para o meu trabalho. Dá para “viajar” em muitas imagens, [...] se eu vejo alguma coisa que encaixa bem no meu trabalho, eu tiro dali. A gente tem que buscar as coisas dentro da gente mesmo. (Seres – grafiteiro – em entrevista concedida à autora)

Já Hyper e Dalata, grafiteiros que atuam também na cidade, anunciam com seus grafites a existência de outros seres. Fetos emaranhados em circuitos eletrônicos, gigantes robóticos que ganham vida, figuras híbridas meio gente, meio máquinas. Personagens imaginárias, criadas em ambientes simulados, paisagens virtuais. Imagens que requerem do observador um mergulho vertiginoso e profundo em um mundo virtual, como as realidades vivenciadas nos games e filmes de ficção científica. (Fig. 23 – 24- 25 – 26)

[...] trata-se de uma estética própria da cenarização do mundo, desta realidade- telão. Oposta à da ruína onde tudo é marcado pelo tempo. A imagem mais que real não substitui coisas que se perderam, mas constitui o que jamais existiu. (BRISSAC, 1987, p.206)

Buscar as coisas dentro de si mesmos e criar um universo imaginário é o que propõem Os Gêmeos - Gustavo e Otávio Pandolfo - a dupla de grafiteiros brasileiros mais conhecida no país e no exterior. O reconhecimento de seu trabalho se deve à utilização de uma técnica bastante apurada e um estilo próprio que funde crítica social, cultura brasileira e um universo onírico de representação. Suas pinturas nos muros, hoje em várias cidades do mundo, retratam sonhos, paisagens imaginárias, personagens fantásticos, mesclados ao cotidiano da cidade, principalmente de São Paulo. (Fig.27)

Conforme diz Otávio: “Nossa pintura é uma mistura de tudo que a gente vê, ouve, sonha. É o nosso dia-a-dia. Tem coisa que é muito nossa, outras que são brincadeiras e também mensagens do cotidiano” (WAINER, João. Os Gêmeos colorem Cambuci e o mundo. Jornal Folha de São Paulo. São Paulo, 30 out. 2005. Ilustrada, p. E6).

A obra se faz a partir de uma interação intuitiva entre os dois irmãos, um complementa o outro, e constroem nos muros um mundo imaginário particular, experiências compartilhadas por ambos desde a infância.

A proposta poética dos Gêmeos está centrada em produzir um ambiente onírico, bucólico, relacionado contraditoriamente à cidade de São Paulo “uma referência direta aos migrantes nordestinos, aqueles para quem a cidade ainda é uma promessa, um sonho. É desse princípio que parte a produção dos Gêmeos. Os personagens não andam de metrô, flutuam em barcos encantados, carregam igrejas nas cabeças atracam seus navios sobre peixes que tem asas. (ESTRELLA, in POATO, 2006, p.21)

Alguns grafiteiros entrevistados, fazem referências a alguns artistas surrealistas, porém poucos conhecem o contexto em que foram produzidas as

obras desse movimento. Porém, os grafites estão impregnados desse apelo ao figurativo imaginário, como forma de acrescentar aos espaços urbanos deteriorados uma visualidade que possa propiciar ao cidadão experiências visuais diferentes daquelas que a própria cidade produz. Para eles, pintar a cidade muitas vezes é como desejar uma outra cidade, imaginada.

Os surrealistas investiam em pesquisas e viagens a todos os continentes, com o intuito de aprofundar o estudo da simbologia, mitologia, e, particularmente, de aproximar o espírito que ditara as formas ritualísticas das comunidades “primitivas”. Interessava-lhes profundamente a iconografia nas representações gráficas das paredes das cavernas, dos túmulos e tudo aquilo que inspirasse o oculto. A arte primitiva também poderia acrescentar novos elementos plásticos à mesmice na qual se encontrava a arte.

Os procedimentos psicanalíticos de Freud abriram caminho para as pesquisas, que naquela época eram conhecidas por um grupo restrito de intelectuais e artistas. A exploração do automatismo psíquico foi uma das tentativas surrealistas de penetração no inconsciente, com o objetivo de conhecer e propor experimentações diferenciadas da realidade. Surge, a partir daí, a escrita automática surrealista como um modo capaz de dissolver o controle da razão e do gosto, até o ponto em que a consciência de si fosse colocada de lado em proveito da mão que escreve, que traça os sinais gráficos.

Segundo Sérgio Lima (1995) a escrita surrealista ressurge do frenesi alucinatório e do rompimento das barreiras, reintegrando a exaltação, a

transgressão e o desejo sem fronteiras. O domínio onde o desejo é o rei.

A escrita é a mão, portanto é o corpo, as suas pulsões, os seus controles os seus ritmos, os seus pesos os seus deslizes, assim suas complicações, as suas fugas, em resumo, são a alma. Pouco interessa a grafologia, mas o sujeito carregado com o seu desejo e seu inconsciente. (BARTHES,1982, p.191)

Escrever sem emendas ou qualquer controle da razão, e o mais rapidamente possível, o que se passa no espírito é quando conseguimos nos libertar suficientemente do mundo exterior. Esse mesmo gesto mais tarde foi retomado pela pintura no automatismo da action painting, quando artistas como Robert Densos e Arshile Gorky investem na escrita automática em suas telas. Isso “implica um mergulho abissal aos múltiplos estados da consciência”, a explosão dos limites e do excessivo [...] (LIMA, 1995, p.322).

“[...] o automatismo psíquico puro, predicado pelos surrealistas, de modo que até as forças psíquicas mais recônditas brotam no intenso impulso da entrega emocional de pintar, aproveitando ao máximo toda cerebralidade que a mão humana possui até para atuar por si mesma [...]” (HISTÓRIA GERAL DA ARTE, p.54)

Com esse mesmo ímpeto investem muitos grafiteiros em suas “telas” – muros - e com tamanha eloqüência imprimem suas eletrizantes caligrafias. Há uma coragem, uma verdade e principalmente um desejo de repetir cada vez mais o ato.

O surrealista é aquele que se inclina diante da imaginação, convida a ultrapassar o mundo utilitário, aposta no revolucionário, no extraordinário, naquilo que ganha destaque no costumeiro. “Esta dimensão desconcertante, que nos retira das significações habituais [...] abre caminho para o sonho, para a imaginação”. (MATOS, 1989, p.67). O Surrealismo foi capaz de ampliar a

percepção dos sentidos e das experiências artísticas, trazendo para a arte também uma relação de não-conformismo, de oposição, de divergência e de insubordinação às regras instituídas. Esse tipo de pensamento de oposição à burocratização, ao autoritarismo, toma forma radical em maio de 1968, no movimento de Paris, quando as intenções criativas foram experimentadas radicalmente e colocadas diretamente no espaço urbano sob o lema “a imaginação no poder”. E assim surgem os grafites contemporâneos.