4. DEMOGRAFİK DEĞİŞİM SÜRECİNİN EĞİTİM SEKTÖRÜNE
4.3. Demografik Eğilimlerin Eğitim Bakımından Ortaya Çıkardığı Riskler
4.4.2. Eğitim Kademelerine Göre Uzun Vadeli Büyüme Senaryoları ve
4.4.2.4. Yükseköğretim: Uzun vadeli büyüme senaryoları ve öngörüler
Murilo, um dos responsáveis pela Casa de Oração, relatou que a entidade tem origem em uma Comunidade Católica. Dentro desta, há diversos trabalhos, como visita a presídios, uma casa-abrigo para pessoas que vivem nas ruas e usuários de drogas, além de uma casa para enfermos.
Em 2011, um grupo de voluntários católicos de São Carlos, que desenvolvia trabalho de doação de alimentos para pessoas que vivem nas ruas, procurou a Comunidade a fim de conhecer o trabalho assistencial. Propuseram, então, a Murilo, organizar uma Casa de Oração em São Carlos.
Murilo e sua esposa aceitaram o trabalho de iniciar a implantação da Comunidade na cidade. Já havia alguns anos que acumulara experiência trabalhando em outra Casa de Oração desta Comunidade.
Ele explica que lá havia uma Casa de acolhimento temporário – similar a uma Casa de passagem da política assistencial, segundo ele –, uma outra Casa de permanência – onde era possível viver por longo período – e, ainda, uma terceira Casa, para enfermos.
No início da implantação da Casa de Oração em São Carlos, ela recebeu recursos da sede da Comunidade. Porém, com o tempo, precisou recorrer a pedidos de doações de dinheiro e de convênio com a Prefeitura para conseguir se manter de forma autônoma.
A Casa não tem profissionais contratados. Todo o trabalho é missionário, não há remuneração. O objetivo é viver em comunidade, em que todos compartilhem e se comprometam. Murilo e sua esposa são os responsáveis pela Casa e moram no local – uma pequena chácara em um bairro não central da cidade. Há um outro casal de missionários que também trabalha, mas não permanece todo o tempo. Para completar, há ainda um médico voluntário que vai até a Casa uma vez por semana.
No terreno há duas casas e um barracão. Uma delas é a moradia de Murilo e sua esposa; na outra casa há vários quartos, para morada dos atendidos. No barracão, encontram-se a cozinha e um refeitório com muitas mesas. Aí é, também, espaço de convivência, lugar para se fazer reuniões, orações e atividades diversas. Há ainda, no terreno, uma área para horta e criação de galinhas.
Até 2014, a Casa de Oração contava com cerca de 27 moradores, mas sempre com perspectiva de aumentar esse número de atendidos pois a procura era grande. Ao longo de um ano de funcionamento, já haviam passado por ela mais de 200 pessoas. Todos são homens,
não há vagas para mulheres. Aquelas que chegam até a Casa são direcionadas para a sede da Comunidade em outra cidade, onde há uma Casa específica para mulheres.
A Casa de Oração aceita doações de dinheiro, roupas ou alimentos que servem para a subsistência dos seus moradores; também aceita trabalhos voluntários daqueles que tenham interesse nesta causa.
Uma vez ao dia, Murilo sai da Casa de Oração em uma perua kômbi para algum compromisso na cidade (às vezes fazer compras, ir ao banco, levar alguém para um atendimento médico etc.). Por vezes, a Casa recebe telefonema do Centro POP a respeito de algum interessado em sair das ruas e frequentá-la. Quando isso acontece, Murilo aproveita suas idas ao centro da cidade para, eventualmente, buscar uma pessoa para ser moradora da Casa.
Todos aqueles que os procuram são atendidos de alguma forma. Na Casa, há aidéticos, pessoas que viviam nas ruas, pessoas com transtornos mentais e usuários de drogas. Ao entrar na Casa, a pessoa passa por uma entrevista e preenche uma ficha com dados pessoais. Este é o momento em que Murilo vai conhecer o futuro atendido. Ele vai entender quais são suas necessidades e explicar quais as condições, que devem ser seguidas, para permanecer na Casa – isto é, quais são as regras, as tarefas a desenvolver, em quais os horários etc.
Murilo expressa como compreende a vida na rua de São Carlos: é uma “vida cômoda”, onde sempre se consegue comida nos restaurantes, pernoites no Albergue e assistir televisão no Centro POP. Parece-lhe “uma vida fácil”, em que há mais lazer do que trabalho, é uma vida sem obrigações, sem responsabilidades. Essa “vida fácil” atrai quem vem de fora a querer permanecer na cidade com apoio dos que aqui já estão. Apoiar o itinerante a ficar na cidade é chamado de “aliciamento”, e é apontado como a causa pelo aumento da população de rua na cidade.
Segundo ele, o objetivo da Casa de Oração é ser um lugar onde as pessoas possam sair das ruas e “reingressar na vida social, na vida familiar”. A rotina diária é marcada por vários horários a observar. Às 6h30 da manhã o sino é tocado, e das 7h às 7h15 o café da manhã é servido. Quem não estiver presente perde a refeição. Às 8h há a oração matinal, da qual todos devem participar, mesmo que o indivíduo não seja da mesma religião.
“Mas eu não sou dessa religião” [uma pessoa argumenta]. “Tudo bem, mas tem que estar reunido junto” [responde Murilo]. Um princípio nosso é que a pessoa tem que entender as regras porque quem está na rua não sabe viver
com regras, então aqui ela tem que viver com regras (Murilo).
Murilo deixa claro que, além dos horários e atividades a cumprir, a Casa de Oração possui outras regras de convivência a zelar; por exemplo, não é permitido usar gírias, nem falar palavrões. Estas compõem “uma série de normas para desvincular daquela realidade que estava lá fora”, explica ele.
Como espaço que visa a proteção da vida de quem está vivendo nas ruas ou sob uso de drogas, a Casa de Oração exige, em contrapartida, que sejam cumpridas várias regras e uma rotina pré-definida seja obedecida. Como não há funcionários, todo mundo trabalha. Há uma escala semanal de tarefas nas quais todos são envolvidos, com exceção dos que estejam doentes.
Depois da oração matinal, cada um vai para seus afazeres diários definidos na escala; alguns trabalham na cozinha, outros na horta, outros ainda na limpeza da casa. Entre 11h30 e 12h, o almoço é servido e, até às 13h30, o tempo é livre para descanso. Às 13h30 o sino é soado novamente, e todos voltam às suas tarefas. Às 15h, ouve-se um novo badalar do sino, marcando o horário de mais uma oração; na sequência, serve-se o café da tarde. Este é o fim do dia de trabalho: as pessoas, a partir de então, estão livres para ver TV, ler, ouvir música, conversar, tomar banho etc. Às 18h há mais uma oração, às 19h a janta é servida e, por fim, às 22h, todos se recolhem para dormir.
3.2.3 Albergue
Como já mencionado, o Albergue atende há décadas pessoas sem moradia ou em trânsito pela cidade. Embora seja uma entidade de direito privado, os recursos para sua manutenção vinham integralmente do convênio com a Prefeitura. Isto se dá desde 1979, quando a Prefeitura negociou com o SOS a fim de que ela administrasse um Albergue. Para tanto, cedeu-se um terreno e garantiu-se o repasse de recursos. A partir da década de 1989, os recursos advêm de um convênio renovado anualmente.
O Albergue não tem vínculo religioso e é dirigido por membros de uma mesma família. Mas o trabalho diário é desempenhado por cinco funcionários contratados. Duas mulheres trabalham com a limpeza e na cozinha, há um motorista e um coordenador geral e um vigia, que trabalha a partir das 18h até às 8h da manhã. A partir das 22h, todos os funcionários já se foram, com exceção do vigia. O trabalho se reinicia às 6h da manhã.
O Albergue ocupa uma casa residencial situada em um bairro próximo a uma das saídas da cidade. Há uma garagem para a kômbi e também um espaço para guardar bagagens. Na entrada da casa, ao passar por uma sala acoplada à cozinha, há dois sofás e uma mesa de escritório, onde é feita a entrevista inicial de quem chega para ser atendido. Esse é o espaço principal de circulação dos funcionários. Ao lado dessa sala já há um dos quartos. E ao fundo, chega-se ao refeitório, com grandes mesas e uma televisão – espaço este onde as pessoas atendidas passam a maior parte do tempo. Depois do refeitório, vai-se para uma área correspondente a um quintal, e por ele chega-se a dois outros quartos e aos banheiros.
Os quartos comportam beliches e tem espaço para cerca de 20 pessoas. Há um quarto feminino e um masculino, e um terceiro quarto menor – onde, em geral, ficam os mais idosos ou doentes. As funcionárias dizem que o Albergue não tem uma capacidade máxima de pessoas; em tempos normais, elas dizem receber cerca de 40 pessoas, mas já houve ocasião em que se ultrapassou o número de 70 pessoas. Não há camas para todas essas pessoas, então, distribuem-se colchões pelo chão dos quartos e dos outros cômodos. Um rapaz frequentador do Albergue disse-me, certa vez, que numa dessas noites de superlotação, colchões foram colocados na garagem, local desprotegido do vento e do frio.
O Albergue também recebe doações de roupas, sapatos e alimentos vindos tanto de voluntários quanto do que é arrecadado pelo Fundo de Solidariedade. Este fundo existe desde 1983 e é gerido pelas primeiras-damas do município. Apesar de ter ficado sem muita atuação durante o mandato do prefeito Newton Lima, em 2009, foi remodelado durante a administração do prefeito seguinte, Oswaldo Barba.
O Fundo de Solidariedade serve, basicamente, para a coleta e distribuição de produtos para doações. Uma atuação do Fundo sempre foi realizar a anual Campanha do Agasalho, para receber doações durante o inverno. Desde de 2013, a primeira-dama do prefeito Altomani atua intensamente através do Fundo e organizou um local de coleta das doações ao lado do prédio do Albergue, além de promover eventos beneficentes, casamentos coletivos e organização de voluntariado.
No Albergue, frequentemente há falta de roupas masculinas e sapatos para doação, pois a demanda é grande. A circulação de pessoas é diária. Há ainda a obrigatoriedade do banho antes do jantar, então diariamente há pedidos de roupas limpas.
Joana, funcionária que estava coordenando o Albergue quando foi feita a entrevista, me mostrou uma ficha de cadastro que é preenchida na chegada de cada novo atendido. Esse
cadastro tem validade de um ano. Cada pessoa que ali é atendida pode pegar uma passagem de viagem uma vez ao ano; mas, independente disso, todos podem dormir no Albergue várias vezes ao ano.
Ela diz que, antes de se criar o cadastro, não havia controle de quantas vezes a mesma pessoa recebia a passagem. Ela dependia então da própria memória para lembrar de cada pessoa. Ao longo do tempo torna-se impossível recordar todas as pessoas que já passaram por ali. Estabelecer um cadastro com validade é uma forma de ter maior controle do fluxo de pessoas ao longo do ano. Ainda segundo ela, o ideal seria ter um programa de computador para arquivar todas as informações. Em cidades onde há maior controle e registro dos fluxos de pessoas, há também maior dificuldade de conseguir passagens a fim de que elas possam circular entre as cidades.
Na lista de cadastrados, ela mostra que há 11 nomes marcados como “fixo”. Eles são moradores do Albergue. São pessoas fixas de São Carlos, sem moradia nem vínculos familiares. Joana diz que, além destes, há ainda outros que lá ficam por tempo indeterminado, mas que possuem familiares na cidade e são atendidos pelo Centro POP. Nestes casos, ela não permite a doação de passagens, pois isso seria “fazer turismo”, já que as origens destas pessoas estão em São Carlos.
Entre suas principais atividades diárias de trabalho estão, além do preenchimento do cadastro, encaminhamentos a outras instituições e agendamento de consultas e exames médicos quando necessário. Ela faz abordagem de rua e mantém contato com o Centro POP a respeito dos casos de atendimento. Joana enfatiza: “Eu sempre comento com eles [funcionários do Centro POP] que a gente precisa estar ligado. Eu como Albergue, vocês como Centro POP, pra trabalhar em conjunto.”
O Albergue se relaciona com as instituições públicas do município, o Centro POP (de modo frequente) e também com o Centro de Atenção Psicossocial – CAPS (esporadicamente). Tanto um quanto o outro produzem demandas para o Albergue. Este também recorre a serviços de saúde quando algum de seus atendidos está em más condições físicas. Por outro lado, o Albergue também é procurado quando alguém sem moradia sai de uma internação hospitalar. Nessas condições, o Albergue aceita receber um novo atendido mesmo que não seja seu público-alvo prioritário (os itinerantes).
Joana se posiciona exatamente no cruzamento dessas relações institucionais, o que ela chama de “fogo cruzado”. Seu trabalho abarca fazer a mediação entre critérios e normas
institucionais distintas, o que não é fácil. E o resultado dessa dificuldade de mediação ela expressa quando diz que “vira uma bagunça” no interior do Albergue.
O problema mais comum no seu trabalho está na permanência dos itinerantes na cidade. Quando eles querem ficar, geram mais demandas à instituição, além de criar conflitos em torno do direito ao tempo de permanência no Albergue. Sobre isso ela diz: “No caso, vira uma bagunça porque [eles dizem] ‘se ele pode [permanecer] eu também posso’. Então tem essa cobrança. Uns vem buscar passagem e ficam”.
Segundo ela, aqueles que mais criam conflitos são os que estão frequentando o Albergue há mais tempo. De um lado, ela recebe a “cobrança” dos que lá vão para ser atendidos; de outro, ela tem que “segurar” o fluxo de entrada pessoas, inclusive daqueles vindos por encaminhamentos de outros profissionais das instituições da cidade. Isso porque o Albergue concentra pessoas bastante diferentes, além de vários conflitos (por exemplo, discussões e brigas). Há uma regra que proíbe a entrada de bebidas e drogas. Conforme o grau de alcoolismo em que a pessoa se apresenta, há até mesmo restrição a sua entrada. Como medidas de segurança, há um vigia que faz a revista das bolsas daqueles que entram para evitar o risco de haver drogas ou facas.
O formato do atendimento ao público segue uma rotina de três pernoites e doação de passagem. A partir das 6h as portas dos quartos são abertas, um café com pão é servido e depois as pessoas devem deixar o Albergue. De manhã, depois de servido o café com pão, o motorista do Albergue leva as pessoas para o Centro POP às 8h e em seguida, aqueles que viajarão, são levados para a rodoviária e embarcados ou são levados para a cidade de Araraquara ou para Itirapina (os únicos destinos oferecidos diretamente pelo Albergue).
Só é permitido que os atendidos retornem às 17h. Antes desse horário, comumente se vê pessoas sentadas na calçada, esperando a abertura do portão. Uma vez que se entra no Albergue, não é permitido sair. Se alguém quiser sair não poderá mais retornar naquela mesma noite. Há a obrigatoriedade de tomar banho antes do jantar, que é servido em torno das 19h30 e é geralmente uma sopa. Até às 22h as pessoas assistem televisão e conversam. Não há atividades a serem realizadas pelos atendidos – apenas esporadicamente o Albergue recebe algum grupo de voluntários que deseja fazer alguma visita para conversar, cantar. Depois desse horário da noite, há a obrigatoriedade de ir para os quartos e dormir. Uma vez que se entra nos quartos para dormir, também não se pode sair.
kômbi os lugares principais, onde há pessoas que vivem nas ruas, e as chama para ir para ao Albergue. Caso receba telefonemas informando acerca de alguém visto dormindo na rua, o motorista vai até o local. As recusas frequentes de ida para o Albergue são mencionadas por Joana. Tais recusas tem, como principal motivo, a rotina de regras da instituição. Contudo, para aqueles que trabalham no Albergue, elas podem ser interpretadas como uma “falsa liberdade”, como viu-se anteriormente no fragmento da notícia publicada no Jornal Primeira Página.