4. DEMOGRAFİK DEĞİŞİM SÜRECİNİN EĞİTİM SEKTÖRÜNE
4.3. Demografik Eğilimlerin Eğitim Bakımından Ortaya Çıkardığı Riskler
4.4.2. Eğitim Kademelerine Göre Uzun Vadeli Büyüme Senaryoları ve
4.4.2.1. Okul öncesi eğitim: Uzun vadeli büyüme senaryoları ve
Dentre as notícias que apresentam pessoas que vivem nas ruas como “necessitadas”, estão aquelas que divulgam serviços assistenciais da Prefeitura, sendo eles o Albergue noturno e o atendimento no Centro POP.
Percebe-se que essas notícias se estruturam de modo a apresentar, primeiramente, os problemas sofridos pelos que estão nas ruas, depois comentar alguns locais das cidades onde eles se encontram e, por fim, explicitar os serviços assistenciais e divulgar os contatos telefônicos.
No jornal SCA, apenas uma notícia com esse objetivo foi encontrada desde 2007; já no jornal PP, são sete as notícias em um período de dois anos. No caso deste último, são apresentados relatos bem detalhados acerca dos serviços oferecidos pela Prefeitura. Também são trazidas as falas de profissionais responsáveis por eles – por exemplo, a do coordenador do Albergue, de uma assistente social e da secretária municipal de Assistência Social. Em algumas notícias, o PP também entrevistou os assistidos, que falam das dificuldades da vida na rua e dos motivos de não irem para o Albergue.
Os problemas encontrados na vida na rua e que motivam a divulgação dos serviços assistenciais estão expressos nos trechos das notícias a seguir, publicadas nos veículos em questão:
A rotina diária dos moradores de rua é complicada e se tornou ainda mais difícil com o frio dos últimos dias. O papelão é usado como colchão e um cobertor precário tenta aquecer o corpo durante a madrugada. A cachaça é usada para ajudar nesta missão. Muitas vezes o único companheiro é o cachorro (Jornal São Carlos Agora, 18 de julho de 2012).
Os moradores de rua acabam sendo ignorados por muitos e tornam-se uma paisagem urbana dos médios e grandes centros urbanos. Apesar de todos saberem que eles existem, parecem invisíveis aos olhos das pessoas. […] Uma situação preocupante, uma vez que estas pessoas estão à margem da sociedade e sem nenhum direito (Jornal Primeira Página, 07 de maio de 2012).
Percebe-se, nesses trechos, que o frio, as condições materiais precárias e a solidão, a invisibilidade social, assim como a falta de direitos são os aspectos que caracterizam a vida nas ruas. A definição pela ausência de condições é o que aproxima essas representações sobre as pessoas que vivem nestas condições da definição dada na Política Nacional para a População em Situação de Rua. E é a partir dela que se efetivam os atendimentos públicos de Assistência Social.
A respeito dos motivos para se viver nas ruas, algumas notícias apresentam explicações a partir das falas dos agentes estatais e das pessoas que vivem nas ruas.
Segundo a Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social, grande parte dessas pessoas vem para São Carlos em busca de oportunidades de emprego, na expectativa de conseguir opção de moradia ou procurando atendimento na área de saúde. [...] “Cada um tem sua história: separação, perda do emprego. Perde o emprego e perde a mulher. Ou perde a mulher e acaba perdendo o emprego. E se tem a propensão a beber, a pessoa cai na rua. A maioria é usuária de álcool ou droga”, diz Malaquias [coordenador do Albergue noturno] (Jornal Primeira Página, 02 de fevereiro de 2013).
Essas explicações dos órgãos oficiais podem ser contrastadas com aquelas dadas pelos que vivem nas ruas e são conhecidos como “trecheiros”, entrevistados em outra notícia do mesmo jornal.
Mas o que leva uma pessoa a optar pelas ruas? A resposta ao questionamento vem da fala de João Carlos Santos. Morador de rua há mais de 30 anos, vindo de Minas Gerais, Santos é figura conhecida de todos na região da Estação Ferroviária. Está ali já há algum tempo e faz do espaço público sua moradia. Mas também já esteve em outras cidades. Vive no trecho, um período em cada lugar. “Não deu certo com minha família, vim para rua e aqui estou. Faz um tempão, 30 anos já que moro aqui. Não gosto de Albergue não. Prefiro a rua”, relata Santos, que aparenta ter mais de 50 anos.
Na rua, Santos encontrou amigos, fez uma nova família. Divide espaço com a cachaça. “Ela esquenta do frio”, garante. Mais três amigos e dois cachorros. Fiéis escudeiros. Sempre alertam quando chega uma “pessoa estranha em sua casa”. […] Na catedral, a equipe de jornalismo encontrou Paulo Oliveira, 49. Ele disse ser formado em Administração e hoje mora nas ruas, em casas abandonadas e cata latinhas, sucatas e papelão para sobreviver. “Fui da maconha ao crack. Da cerveja a pinga e minha vida se acabou. Tudo porque minha mulher foi embora com meu filho. Nunca mais os vi. Fico de cidade em cidade. Aqui estou há cerca de três semanas”, conta (Jornal Primeira Página, 07 de maio de 2012).
Ao apresentar estas falas, o Jornal Primeira Página enfatiza as dificuldades da vida nas ruas, o sofrimento com o frio, a perda da família e o uso de álcool e drogas como os problemas que os indivíduos enfrentam. Assim, apresentam uma situação na qual essas pessoas sofrem e precisam de assistência; mas esta deve ser feita por serviços especializados, por isso, há as instituições da Prefeitura. Esses serviços públicos não só prestariam “ajudas” pontuais, eles promoveriam a saída da situação de rua. Destacam-se a seguir as falas da então secretária municipal de Cidadania e Assistência Social, em 2009, e na sequência a da secretária municipal que a sucedeu, em 2013.
Essa época de Natal e do Ano Novo é comum o aumento no número de pessoas nas praças e vias públicas pedindo esmola, muitas vezes acompanhadas de crianças. Realizamos uma ronda diária nesses locais com o objetivo de encaminhar essas pessoas para atendimento tanto no Albergue Noturno como no CREAS e estamos constatando que na maioria das vezes esses pedintes vêm de outros municípios da região. Nesta semana mesmo tivemos casos de mães que vieram de Bauru, Jaú e Jaboticabal, então pedimos para que a população não dê esmola, e sim nos avise, faça uma denúncia para que possamos resolver a situação, realizar o atendimento necessário (Jornal São Carlos Agora, 11 de dezembro de 2009).
“As alternativas para solucionar ou minimizar esse problema”, diz a SMCAS, “implicam na intensificação das ações por parte da equipe de abordagem de rua do Centro POP e do serviço de ronda noturna do Albergue noturno com o objetivo de melhor identificar o perfil dessas pessoas e permitir assim um encaminhamento mais adequado para as demandas apresentadas” […] “No âmbito do trabalho”, explica a SMCAS, “é feito encaminhamento para o serviço de atendimento da Casa do Trabalhador vinculado a Secretaria Municipal de Trabalho, Emprego e Renda. Quando há necessidade de retorno à família é feita avaliação social junto ao Albergue noturno e fornecida passagem para o trecho que compreende as cidades de Araraquara ou Itirapina. No caso de retirada de documentação é feito o encaminhamento para o serviço do Poupatempo da cidade. No caso dos moradores de rua que tenham vínculos com a cidade de São Carlos, o serviço de referência para atendimento é o Centro POP da Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social (SMCAS) (Jornal Primeira Página, 22 de fevereiro de 2013).
Uma preocupação importante explicitada na primeira fala se refere aos itinerantes, já que a secretária municipal , em 2013, enfatizou os serviços de encaminhamentos destinados aos moradores de rua fixados na cidade. Essas falas expõem uma preocupação com o controle da vida na rua, administrando o fluxo de pessoas na cidade por meio de passagens, criando demandas para o Albergue e para o Centro POP por meio das rondas, além de procurar saber a procedência das pessoas que vem para a cidade e estimular a população a não darem
esmolas, portanto, negando a legitimidade desse tipo de assistência. A esmola deixa de ser uma “ajuda”. Ao invés disso, a população é estimulada a fazer uma “denúncia” aos órgãos públicos responsáveis pela devida destinação destas pessoas, quais sejam, doar-lhes passagens para outras cidades, atendê-las no Albergue e no Centro POP e encaminhá-las para retirada de documentos pessoais e um emprego.
O coordenador do Albergue noturno é quem mais frequentemente é entrevistado pelos jornais e comenta acerca da dificuldade de se efetivar o atendimento das pessoas que vivem nas ruas.
“Nós vamos lá, mas muitos não gostam de Albergue ou por que têm rixa com outros, e muitas vezes quem usa droga ou álcool se desprende, não se cuida, não toma banho. E se vier aqui, a pessoa tem que tomar um banho, pois vai conviver com outras pessoas, vai jantar... E muita gente quer ficar na rua do jeito que está. Até a sociedade diz que tem que passar na rua e pegar, mas não podemos obrigá-los”, diz Malaquias (Jornal Primeira
Página, 22 de fevereiro de 2013).
“Em nossas rondas encontramos muitas pessoas nas ruas, mas eles se negam a ser recolhidos. Nestes casos nós oferecemos cobertores, pois não podemos obrigá-los a pernoitar no abrigo”. Ele disse que a justificativa dada pelos andarilhos é a questão da liberdade. “Eles desejam aquela falsa liberdade. Por outro lado existem aqueles que chegam sozinhos e pedem por instalação no Albergue” (Jornal Primeira Página, 24 de julho de 2013).
A percepção do coordenador do Albergue sobre a “liberdade” das pessoas que vivem nas ruas nega a iniciativa dessas pessoas que são, portanto, vistas como incapazes de cumprir regras – como as de higiene e as de não uso de bebidas e drogas. A incapacidade dos indivíduos de mudar, como também apontada por voluntários religiosos, oferece a estes e às instituições assistenciais objeto de governo. É o governo das “almas” (FOUCAULT, 2006). Não é à toa que a privação de liberdade se torna a principal técnica de punição. A partir dela, é possível domesticar corpos e almas.
Também não é à toa que as pesquisas com a população em situação de rua (VIEIRA et al., 2004; BRASIL [PESQUISA NACIONAL], 2009) identificam, como principal motivo para a preferência a dormir nas ruas, a falta de liberdade existente nos Albergues.
A fala de alguns entrevistados pelo Jornal Primeira Página traz outra concepção para a “liberdade” nas ruas. Ela está relacionada à possibilidade de buscar formas de ganhar dinheiro nas ruas e à negação das relações de autoridade que as instituições impõem às pessoas que
vivem nas ruas.
Oliveira disse ainda que não gosta do Albergue por privarem sua liberdade. “A rua é melhor. Me viro com a sucata”, conta. Do lado de fora da escadaria da Catedral estava seu carrinho, onde armazena o material que recolhe (Jornal Primeira Página, 07 de maio de 2012).
Um deles, Clóvis Alves, disse que a vida nas ruas foi uma escolha e eles não têm interesse em ir para Albergue e nem para o CREAS POP (serviço socioassistencial do Centro de Referência Especializado de Assistência Social para a População em Situação de Rua). “Eles querem levar a gente, mas nós não queremos ter regras, ter que levantar cedo, obedecer as pessoas. Essa noite mesmo eles passaram para tentar nos levar, mas não quisemos. Tem as pessoas que nos dão cobertas, para nós está muito bom”.
Mesmo com a resistência, Alves afirmou que a noite foi muito fria. “Estava frio demais, mas nós temos uns cobertores, deu para passar a noite” (Jornal
Primeira Página, 24 de julho de 2013).
Suprir carências, portanto, está na base tanto do trabalho voluntariado quanto do assistencial. Pode-se dizer que este é o significado mínimo e comum a todas as instituições para a “ajuda”. Carências materiais são supridas com doações. Isso é o denominador comum em meio a todos os que praticam a ajuda. Mas outras carências também são supridas, seja por princípios religiosos, seja por serviços e direitos. E já aparece mais um elemento, a carência por regras. Esse aspecto é bastante importante, pois sustenta um entendimento negativo da liberdade nas ruas tensionando, assim, a “ajuda”, uma vez que ela não é questionada e negada.
Essa dimensão da carência das regras será retomada adiante. No item seguinte, deixo de lado os jornais e vou até as instituições de assistência. A seguir, apresento o trabalho voluntário na praça, a Casa de Oração e o Albergue noturno.