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Nüfus Değişiklikleri ve Eğitim (Planlaması) Üzerindeki Etkileri

2. NÜFUSBİLİM VE EĞİTİM SEKTÖRÜ İLİŞKİLERİ

2.2. Nüfusbilim ve Eğitim Sektörü (Planlaması)

2.2.2. Nüfus Değişiklikleri ve Eğitim (Planlaması) Üzerindeki Etkileri

Entre dezembro de 2009 e novembro de 2010, meu local de trabalho era um CREAS (a partir de 2011 chamado de Centro POP pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS). Em funcionamento desde julho de 2008, este Centro foi criado pela Secretaria de Assistência Social do município, ligada à administração da Prefeitura de São Carlos-SP. O Centro POP é o estabelecimento público responsável pela execução da política assistencial à população em situação de rua no município. Em São Carlos, ele se situa no centro da cidade, em uma região próxima ao grande comércio, onde comumente também se encontram pessoas que vivem nas ruas e que também transitam nas ruas, buscando formas de sobrevivência ou formando moradias em locais públicos, como marquises e praças.

Na época, o Centro era composto de uma equipe multidisciplinar, formada por um assistente social, um terapeuta ocupacional, um psicólogo, duas educadoras, um coordenador e outros funcionários – como o motorista, uma auxiliar administrativa (secretária), uma profissional de serviços gerais (faxineira), uma merendeira e um guarda municipal. Dentre os serviços oferecidos pelos profissionais destacam-se, principalmente: os encaminhamentos para retirada de documentos pessoais (RG, CPF, Título de Eleitor, Carteira de Trabalho); a inclusão em Programas e Benefícios sociais, como o Bolsa Família, por exemplo; e os encaminhamentos para outros serviços públicos, tais como cursos profissionalizantes, atendimento em postos de saúde e o Albergue noturno.

Funcionando das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira, o Centro POP oferta alimentação, condições para higiene pessoal e guarda de pertences, além de atividades educativas e/ou ocupacionais, como por exemplo oficinas e atividades lúdicas.

Minha função no Centro era realizar abordagens de rua, isto é, encontrar pessoas e grupos nas ruas, tomar conhecimento de suas situações, identificar dentre os que estavam na rua quem era público-alvo da instituição, oferecer os serviços e levá-los, quem desejasse ir, até o Centro POP. Ou seja, a abordagem de rua se fazia em movimento, era o trabalho de

fazer a ponte entre o espaço da rua e o estabelecimento de Assistência Social.

Desta experiência de trabalho, percebi algumas características da vida nas ruas em São Carlos, uma vez que parte do trabalho que desenvolvia era diretamente na rua, mantendo visitas e conversas frequentes com os mesmos grupos de pessoas. Além do trabalho realizado nas ruas da cidade, também participava de reuniões de equipe e realizava relatórios para a instituição. Deste modo, estas vivências profissionais possibilitaram um conhecimento desta instituição que não seria possível de outro modo.

Posteriormente, trabalhando em um curso de Serviço Social em uma universidade particular entre 2011 a 2012, me dei conta de que pelo menos parte da formação de assistentes sociais se baseia em teorias da dialética histórico-materialista que buscam, nas tensões da estrutura social, as origens das questões sociais. Compreender os conflitos e contradições da estrutura social, bem como saber mediar conflitos no cotidiano de trabalho era o que se esperava dos futuros assistentes sociais deste curso de Serviço Social. Estas experiências de trabalho foram motivações para seguir pesquisando neste campo de estudo.

Deixo claro que esta Tese não é resultado de um trabalho distanciado, puramente racional, isento de emotividades. Não, não é. Por isso, o processo de pesquisa (e principalmente o de escrita) foi permeado de momentos de reflexão sobre o que Gilberto Velho (1987) chamou de “estranhar o familiar” e como dele produzir conhecimento,62 ou ainda, o que chamou Favret-Saada (2005) de “ser afetado” ao ocupar lugar na feitiçaria, não só como observadora – isto é, com distanciamento dos fatos – mas sim como alguém que está inteiramente implicado neles. Ocupando um lugar na feitiçaria, a autora se pergunta como esta “aventura pessoal” pode se tornar uma operação de conhecimento63.

Ocupar um lugar – questão esta colocada por Favret-Saada – também esteve presente na pesquisa de Meigniez (2014) a respeito de uma instituição voluntária de doação de alimentos. Sua posição variava de acordo com as situações de ajuda, isto é, estar entre os voluntários e os beneficiários é, muitas vezes, ocupar uma posição ambígua. Em um lugar ou outro, ocupar

62 Segundo o autor: “O processo de estranhar o familiar torna-se possível quando somos capazes de confrontar intelectualmente, e mesmo emocionalmente, diferentes versões e interpretações existentes a respeito de fatos, situações” (VELHO, 1987, p. 132).

63 Segundo ela: “Nesses momentos, se for capaz de esquecer que estou em campo, que estou trabalhando, se for capaz de esquecer que tenho meu estoque de questões a fazer [...] se for capaz de dizer-me que a comunicação (etnográfica ou não, pois não é mais esse o problema) está precisamente se dando, assim, desse modo insuportável e incompreensível, então estou direcionada para uma variedade particular de experiência humana – ser enfeitiçado, por exemplo, porque por ela estou afetado” (FAVRET-SAADA, 2005, p. 160).

uma posição é ter um certo número de possibilidades de ação.

Lembrando ainda do que ensinou Marc Bessin sobre o “fazer pesquisa”, durante meu estágio no Institut de Recherche Interdisciplinaire sur les Enjeux Sociaux (IRIS) observei que, enquanto pesquisadores, devemos nos questionar sobre nossa presença social tanto em campo quanto institucionalmente. Ao longo da pesquisa é preciso assumir que temos determinada presença frente aos outros, e refletir sobre como isso se dá e quais seus efeitos na pesquisa.

Minha trajetória tem algo de similar com a de Dominique Schnapper, socióloga que trabalhou no Conselho Constitucional na França (WEBER, 2011), depois de se afastar profissionalmente do Conselho, ela decidiu a ele retornar para estudá-lo. Nessa nova condição de pesquisadora, ela tem tanto uma posição de insider quanto de outsider. Seja como membro do Conselho, seja como pesquisadora, ela ocupou o lugar de etnógrafa em suas notas, em suas perguntas sobre a história da instituição, em suas análises dos pontos de vista, das organizações dos grupos etc. Um verdadeiro trabalho mental que deu sentido a uma trajetória de trabalho e pesquisa em uma mesma instituição.

Distanciamentos e proximidades no tempo e nas relações também marcaram as minhas idas e vindas nesse processo de produção de conhecimento. Inicialmente, meu contato com pessoas que vivem nas ruas se deu por meio da instituição – mas não como pesquisadora, e sim como trabalhadora. Esse vínculo continuou balizando muitas relações até o fim da pesquisa. Por muito tempo fui identificada como a “moça do Centro POP”, mesmo para aqueles que sabiam que eu não estava mais trabalhando lá, e sim estudando na Universidade.

Mas há algumas outras implicações disso: algumas conversas se mantiveram no padrão daquelas que tínhamos no período em que eu era funcionária. Por exemplo, ainda haviam reclamações sobre dificuldades de se conseguir consultas médicas, benefícios sociais, documentos. E eram recorrentes, também, minhas respostas no padrão de orientar a procurarem a instituição X ou Y, ou ainda, de aconselhar irem ao Centro POP para pedir que os funcionários providenciassem seus pedidos.

Meu vínculo com a Universidade também foi importante. Havia aqueles que entendiam que eu poderia escrever sobre alguma situação problemática, assim como faria um jornalista. Ouvi alguns relatos de agressão policial e sabia que, ao me contar, esperavam alguma posição minha. Essas situações para mim foram bastante angustiantes e me faziam questionar quais os limites e potencialidades de uma pesquisa diante de um caso de violência, por exemplo.

Mas além dos meus vínculos institucionais, minha presença física também precisava ser interpretada. Certo dia, fui a uma praça onde eu ainda não havia ido. Por ser uma zona onde se juntam muitos homens e onde também há tráfico de drogas, tive receio de ir sozinha.

Sempre buscava alguém conhecido nas praças por onde andava; do contrário, não me aproximava – e nessa praça eu não sabia se encontraria algum dos meus conhecidos do Centro POP. Meu constrangimento, nesse sentido, está baseado na relação de gênero. São poucas as mulheres na rua. Quando há, geralmente estão ligadas a algum homem. “Uma mulher não pode estar sozinha”, já me explicaram na rua. Durante o serviço de abordagem eu tinha o respaldo da instituição, uma identificação da Prefeitura. Mas como pesquisadora não mais a tinha.

Neste dia fui à praça com um colega de doutorado, William Alvarez.64 Logo identifiquei conhecidos e me aproximei como quem fazia uma visita. Fui reconhecida e a conversa se iniciou lembrando do Centro POP, dos tempos passados. Como minha visita foi inesperada, surgiram alguns comentários que visavam dar significado para mim. Uma pessoa falou para que eu levasse ao médico um rapaz que estava doente; ou seja, minha presença foi imediatamente associada ao serviço prestado pelo Centro POP. No entanto, outras duas pessoas discordaram daquele pedido e disseram que eu não tinha obrigação de fazer aquilo. Um deles comentou em tom de crítica que “tem gente que pensa que os outros têm obrigação de ajudar”, como se isso fosse mudar alguma coisa na vida deles. Entendi que ele estava mesmo questionando esse tipo de “ajuda” institucional, o que provavelmente não teria sido dito em outro momento (quando eu ainda possuía a credencial da Prefeitura, por exemplo).

Outra pessoa também retrucou e falou que eu ajudava sim: “ela ajuda, você não fica feliz quando a encontra, então, é porque ela ajuda”. Percebi que a minha presença no espaço tinha um efeito e provocava discussão.

Depois dessa discussão que servira para me definir ali, naquele ambiente – sem que eu falasse nada – ficou mais evidente, para mim, que eu era entendida no papel da ajuda, seja da forma institucional, por meio do Centro POP, ou ainda de uma forma mais abrangente, não

64 Aproveito para agradecer a William Alvarez e Josimar Priori pela companhia em algumas das minhas visitas à praça. Willian é doutorando do PPGS-UFSCar e defendeu, em 2014, a dissertação intitulada “Sobreviviendo con la pipa: drogas, violencia y conflictos interetnicos em el Paraíso” na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO) do Equador. Atualmente, realiza o Doutorado em Sociologia, sobre segregação socioespacial e marginalidade em Cartagena (Colômbia). Josimar também doutorando do PPGS-UFSCar desenvolve pesquisa intitulada “Sociabilidade e experiência: um estudo sobre política e gestão de moradores de rua”.

institucional, pela minha própria presença.

Mais evidente ainda se tornou esta associação entre minha presença na praça, minha posição de mulher na rua e as representações da ajuda quando, ao fim da visita, conversei com William e percebi que ele travou conversas muito diferentes das minhas. Ele ouviu relatos de brigas na rua, de violência policial, uso e tráfico de drogas, enquanto que eu recebi relatos de vida, lembranças do passado, histórias de viagens no trecho, sofrimentos de saúde. Há uma seleção do que contar e a quem contar que passa pela identidade de gênero e pela percepção sobre a ajuda que cada um poderia oferecer.

“Ajuda” é termo que pode ter vários usos em vários contextos, mas é, sobretudo, muito usado entre trabalhadores do assistencial, sejam eles os voluntários, sejam os profissionais da Assistência Social.

A ajuda foi investigada por Meigniez (2014) enquanto trabalho voluntário de doação de alimentos. A ajuda pode ser uma ação de solicitude muito próxima da bondade, ou ainda da dádiva, quando há uma obrigação de retribuição entre as partes envolvidas. Mas a ajuda também se mescla ao trabalho não remunerado e, portanto, mais próximo de uma relação de exploração ou de um “trabalho sujo”65 (HUGHES, 1954), isto é, o trabalho que ninguém quer exercer mas que precisa ser realizado por alguém.

O termo que mais se aproxima de todos esses sentidos de ajuda é o care.66 A partir da leitura do livro de Molinier, Laugier e Paperman (2009), sabe-se que os questionamentos sobre o care vêm de estudos de gênero e do trabalho feminino. Os estudos do care levam em

65 No livro Men and their Work, Everett Hughes (1958) dá exemplos do que chamou de “trabalho sujo” ao questionar um lixeiro sobre o que há de ruim em seu trabalho. Um lixeiro responde ser o odor, a sujeira, mas um outro lixeiro aponta ainda que o que é ruim é receber um trabalho delegado por outro que não quer fazê-lo. O fato de não poder “contar com” um colega, de não poder escolher não fazer a tarefa, é o que há de pior. Hughes argumenta, então, que em toda profissão há um aspecto de “trabalho sujo”, que é justamente o trabalho desagradável que é delegado a outrem. Trabalhar com pessoas em situação de rua pode ser considerado um “trabalho sujo” pois significa, além de ajudar pessoas indesejáveis para sociedade, lidar com a sujeira da rua e a doença dos corpos.

66 Os primeiros estudos foram desenvolvidos nos Estados Unidos, ainda na década de 1980. No campo da psicologia, Gilligan (1982) é quem inaugura os estudos ao apontar, em uma pesquisa com meninas e mulheres, uma “voz moral diferente”. Tronto (1993) vai interpretar que essa voz, daqueles que se dedicam a cuidar dos outros, dar atenção a alguém, é dar uma “resposta adequada”, ajustada a um problema de outrem. Tronto defende, assim, a necessidade de politizar o care, uma vez que todas as pessoas são alvos de cuidados, mas esse trabalho fica invisibilizado, silenciado. O termo care costuma vir sempre em inglês por conter não só os sentidos de cuidar, de “se importar”, “dar atenção”, mas também conter um significado de “trabalho”, conjunto de significados este que nem sempre um termo em outra língua contempla. Essa dificuldade de tradução também aparece em português: em geral, care é traduzido como “cuidado” – embora essa palavra não seja usada sempre da mesma forma que a palavra care e pode até mesmo ter outros significados diferentes.

conta, por exemplo, o campo do cuidado de idosos ou de crianças, ou ainda o trabalho doméstico.67

Care está em todas as formas de “cuidado”, “atenção”, “ajuda” ou “solicitude”, em que implica uma relação na qual um lado está necessitado ou dependente do outro. Tratar a saúde, educar, proteger ou mesmo vigiar são trabalhos específicos que envolvem pessoas em situação de dependência alheia. Por isso, o care é muito observado em profissões femininas e também em trabalhos subordinados ou de atendimento ao público.

E qual o significado de uma mulher em uma praça, junto a um grupo de homens que vivem na rua, sem que ela seja moradora de rua? Só pode ser “alguém que ajuda”. Provavelmente era esse o sentido da discussão acerca da minha presença na praça.

Bessin (2012) propõe pensar o care enquanto presença social.68 O trabalho social se caracteriza pela presença, isso significa estar engajado em uma situação e no como o realiza. Tal presença pode mesmo ter vários sentidos, ser ambivalente. A presença não é só individual, não se faz só pelo corpo em um lugar. A sociedade pode se fazer presente em uma pessoa. Por exemplo, o Estado, por meio das suas instituições e seus profissionais, estabelece sua presença perante a população. Tal presença pode ser benevolente e também coercitiva, como é o caso da presença policial, que tanto pode proteger quanto ameaçar.69 Presenças ambíguas, como aquelas relatadas por Gregori (2000) entre crianças de rua e educadores sociais ou policiais.

Quando o Estado se faz presente em um problema social é mais fácil, então, que indivíduos se ausentem da ajuda. Por exemplo, é mais fácil alegar não dar dinheiro para o pedinte já que há um serviço do Estado para esse público.

67 Mas o care não é uma característica feminina, pelo contrário, é resultado de uma socialização que leva em conta a atenção ao outro. Moliner (2012, p. 32) faz a seguinte observação que resume, em poucas palavras, as dimensões do que se entende por care: “[...] essa atenção particular, ajustada às necessidades do outro, em sua sutileza, sua capacidade de antecipação, sua discrição, é solicitada por um trabalho de garçom de café ou de médico”.

68 Ao explicar a presença, Bessin (2012) deixa claro que esta não é uma noção sociológica, mas sim ligada ao vocabulário de várias ocupações. Dentre os seus significados estão a presença física de alguém, mas também a presença simbólica e sobrenatural de Deus; a presença também se faz ao dar resposta às necessidades do outro, responder a um problema. Ela também faz parte do saber de vários profissionais como os da enfermagem e do esporte, da segurança e do trabalho social.

69 Bessin e Lechien (2002) mostram que a fronteira entre o cuidado e a repressão é sutil. Ao estudar a prisão como modelo de disciplinamento e vigilância como propõe Foucault, há de se apontar a dimensão do “cuidado” partilhado por profissionais de segurança e saúde tendo, cada um, tarefas tanto de cuidado como de controle. O excesso de atenção pode ser interpretado não como um cuidado, mas como uma coerção. Cf. Marc Bessin e Marie-Hélène Lechien, “Hommes détenus et femmes soignantes: l'intimité des soins en prison” (In:Ethnologie française, v. 32, p. 69-80, 2002).

Minha presença na praça teve de ser significada em termos de uma presença tanto institucional quanto individual. Teria eu a obrigação de ter levado o homem doente ao hospital ou não? Este questionamento fez parte da discussão para a minha definição na praça. Naquele momento, a resposta foi “não”, porque este era um papel institucional que eu não desempenhava naquele momento.

Eu precisava ter clareza de qual era a minha posição nesse feixe de relações que perpassavam a rua e as instituições antes mesmo de empreender a escrita desta Tese. Tendo clareza disso, minha escolha foi construir um texto em que ficasse explícita a minha trajetória nesse campo, no qual a pesquisa de Doutorado é uma parte. Com essas reflexões, a “ajuda” ganhou uma importância maior do que eu imaginava, antes da escrita do texto.

Ao longo da pesquisa, minha posição em campo foi variada e, ao mesmo tempo, unificada pelo sentido de “ajuda”. Fui trabalhadora, pesquisadora, voluntária, amiga, mas seja lá como eu fosse identificada, eu era colocada como “uma pessoa que ajuda”.

Ocupei várias posições, o que me trouxe vantagens e desvantagens. Primeiramente, meus vínculos institucionais me identificavam. Sou ex-funcionária do Centro, e esse vínculo de trabalho ainda esteve presente em várias situações – por exemplo, nas lembranças de situações passadas para iniciar uma conversa ou compartilhar certos conhecimentos, ou ainda expor opiniões de trabalho com os funcionários. Meu vínculo com a Universidade também me identificou como alguém que estuda e busca soluções para problemas sociais e, algumas vezes, me vi sendo questionada como quem era uma especialista no tema.

Mas não só os vínculos institucionais serviam para demarcar a minha posição dentro das relações com a instituição pesquisada. As próprias relações pessoais também marcaram posições mais próximas de alguns e mais distantes de outros, tanto entre funcionários quanto entre os atendidos. Em alguns momentos, fui a voluntária que ajudava dentro da instituição – por exemplo, na festa junina, em um evento esportivo, num passeio – o que me aproximou ainda mais de uma identidade de trabalhadora, porém, voluntária.

Outras vezes, fui alguém com quem conversar, alguém que escutava um desabafo ou histórias de vida, uma amiga para alguns. Os homens se rendiam aos desabafos e buscavam minha confiança mais do que a das poucas mulheres que frequentavam o Centro POP. Elas se mostravam mais distantes ou desconfiadas, e não se abriam muito.

Também sentia mais facilidade nas conversas com os mais velhos, os quais me achavam “uma menina” e sempre pensavam que eu era muito mais nova do que realmente sou. Não ser casada e ser estudante também afetava a percepção que tinham de minha idade e de minha posição junto deles. Talvez pelo fato de eu ser identificada como “alguém que ajuda”, “que cuida”, é que havia mais proximidade com os mais velhos, os quais também demonstravam cuidado para comigo.

Entre os mais novos – na mesma faixa etária que eu – conversas surgiam por outros motivos. Às vezes, me viam como uma intermediária entre eles e os funcionários do Centro POP, ou ainda como alguém para quem eles poderiam fazer reclamações. Outras vezes,