Os anos 1970 e 1980 apresentaram trabalhos acerca de “meninos de rua” e “mendigos” (STOFFELS, 1977; FERREIRA, 1979; NEVES, 1983). Os primeiros foram tomados como marginais, delinquentes, e os últimos como trabalhadores ou ex-trabalhadores. O entendimento desses sujeitos se deu dentro de uma perspectiva macrossocial, em que aparecem preocupações em perceber como se chega a essa condição de vida nas ruas. Compreender esse fato dentro de uma dinâmica do capitalismo, da estrutura de classes, da ideologia, e de concepções de identidade, estigma e desvio.
Marie-Ghislaine Stoffels (1977), quem primeiro escreveu uma tese sobre os “mendigos”, traçou uma genealogia do fenômeno desde a Antiguidade. Na falta de estudos anteriores no Brasil, a autora buscou tal genealogia na literatura francesa. A mendicância é fenômeno tipicamente urbano, que teve, desde a Idade Média, uma grande diversidade de formas. O mendigo foi tido tanto como um ser sagrado pelos católicos – a pobreza sendo uma qualidade do espírito – como também uma expressão do mal, incarnada no mendigo enganador ou fraudulento.
Interessante notar que, na Idade Média, houve até mesmo instituições de mendicância, as gueuseries. Formavam-se organizações próprias para a atividade de mendicância e havia reuniões, documentos, letras de músicas, uma linguagem e cultura próprias dos mendigos. Com a evolução do capitalismo, há o aumento da repressão a esta prática e a criação de leis, punições e instituições para tratar dos mendigos tidos, a partir de então, como desviantes dentro da nova ordem social.
A estigmatização dos mendigos enquanto indivíduos sempre carregou julgamentos morais maniqueístas – e que se refletem até mesmo na produção acadêmica em que Stoffels (1977) pesquisou. Há, de um lado, um individualismo que responsabiliza o mendigo pela sua condição devido ao seu vício, loucura, ou por ser inapto, vadio, desonesto. E em outra vertente, há interpretações que responsabilizam a sociedade e não o indivíduo. Entretanto, essa vertente considera que há classes inaptas ou perigosas, ou ainda que o pobre existe uma vez que existe assistência. Segundo a autora, argumentos como estes tem origem no calvinismo, mas não se restringem a ele.
A distinção maniqueísta entre o mendigo bom (o ‘verdadeiro pobre’, o ‘necessitado’, o ‘pedinte verdadeiro’) e o mendigo mau (‘farsante’, ‘o pedinte rico’, o ‘falso mendigo’) corresponde, por sua vez, a um dualismo fundamental da existência, uma vez que entrou na faixa das normas que a estrutura redefine, segundo seus modos peculiares, em instâncias, leis e cesuras grupais (STOFFELS, 1977, p. 45).
Stoffels (1977) entende, então, que a mendicância é objeto privilegiado de estudo sociológico por estar no limiar de confluência entre a ordem econômica (do trabalho) e moral (bom/mau).
Estudando o fenômeno na cidade de São Paulo na década de 1970, a autora encontrou documentos dos órgãos governamentais datados de 1959 a 1970, de “campanhas de repressão à falsa mendicância e de recuperação social”. A partir das informações de Stoffels (1977) fica clara, então, a origem da mencionada campanha contra a esmola, ainda existente em muitos municípios brasileiros.
Há uma persistência nas definições maniqueístas da mendicância ao longo da história: “[...] o indivíduo que vive da esmola constitui uma ameaça para a ética do trabalho”, afirma a autora (op. cit., p. 96). O mendigo é, então, um transgressor da ordem do trabalho.
Stoffels (1977) vai se dedicar a estudar, entre tantas outras coisas, as Operações de Inverno em São Paulo, as quais mobilizaram todo o aparato institucional assistencial e repressivo da cidade. Essas Operações visavam recolher os mendigos da rua, triá-los identificando quanto a “caso de polícia” ou “caso social”, e classificá-los em uma série de categorias como mendigos “profissionais”, “ocasionais”, “falsos”, “inválidos”, “vadios” e, então, levá-los para determinadas instituições, como abrigos ou a prisão, como será comentado mais adiante.
Depois desta obra de Stoffels (1977), a mendicância não foi mais tomada como categoria de análise, embora o termo “mendigo” tenha permanecido. A mendicância, delito previsto pelo Código de Contravenções Penais de 1942, só foi retirado da lei em 2009 – mesmo ano em que foi promulgado o Decreto 7.053, que instituiu a Política Nacional para a População em Situação de Rua (PNPR), o que ainda é recente.
Nas décadas de 1970 e 1980, embora não haja muitos trabalhos sobre pessoas adultas vivendo nas ruas, tem-se visibilidade para os “meninos de rua”. Destaco a pesquisa de Rosa Ferreira (1979) por ser a primeira realizada em São Paulo com respeito a crianças e adolescentes.34 A autora justifica sua pesquisa pela falta de conhecimento de então e, por isso,
classifica seu estudo como exploratório. Ferreira (1979) visa entender a condição de marginalidade35 das crianças de rua. Contudo, para ela tal marginalidade precisa ser compreendida não como perigo a se reprimir, tampouco como desvio a ser recuperado – por isso a autora busca as falas das crianças para compreender suas “formas de ser e pensar”.
As crianças e adolescentes vivendo na rua apenas chamam a atenção do Estado quando se encontram delinquindo. Segundo Rosa Ferreira (1979),
o problema do menor marginalizado adquiriu status de problema na ótica do Estado e suas instituições apenas quando a ação desse menor passou a alterar a ordem instituída, com a eclosão pública em situações extremas de violência e criminalidade geradas pelas condições-limites de sobrevivência a que boa parte da população brasileira foi constrangida (FERREIRA, 1979, p. 49).
Os adultos, por sua vez, são entendidos como sujeitos do mercado de trabalho (sendo por meio da economia a sua integração social). Para eles, as instituições têm funções de assistência e repressão à vadiagem e mendicância. Já no que se refere às crianças e adolescentes, o papel do Estado é visibilizado por meio da disciplina e da repressão às infrações e à delinquência.
Neves (2010) argumenta que a análise sociológica de então entendia os mendigos como lumpemproletariado, isto é, mendigo é aquele que “[...] não é absorvido pelo mercado de trabalho”,36 e que apresenta perdas de atributos sociais, tais como família, casa, emprego. Ela
de direitos para estas pessoas. Logo, os estudos sobre crianças vivendo nas ruas se multiplicaram em várias áreas de pesquisa (tais como Educação, Psicologia e Direito). No entanto, estes trabalhos não serão devidamente tratados aqui, mas apenas mencionados como forma de especificar os enfoques sobre determinados objetos de estudo, visibilizando algumas questões mais que outras em um certo período. A respeito de crianças vivendo nas ruas, há a dissertação feita por Siqueira da Silva (1993), em São Carlos, no início dos anos 1990. Ele se propôs a entender as visões de mundo das crianças encontradas na rua. Foram nove seus entrevistados, e apenas um realmente vivia permanentemente na rua; os demais tinham a casa da família para onde retornar diariamente, mas permaneciam na rua mendigando e fazendo pequenos trabalhos como forma de ajudar financeiramente em casa. Eram crianças trabalhadoras; dentre elas se encontravam engraxates e aqueles que cuidavam de carros em estacionamento da igreja. Alguns grupos, inclusive, tinham autorização do juiz para trabalhar. Entretanto, quando encontrados na rua pela polícia, dormiam na cadeia e eram levados para conversar com a assistente social do Fórum. Estar na rua para conseguir dinheiro – mais do que viver na rua – era a característica dessas crianças nessa pesquisa, mas que também abrangia uma série de maus-tratos, preconceito, abusos de meninas e violência policial. 35 Existem inúmeros estudos sobre marginalidade na América Latina. Na obra de Ferreira, os meninos de
rua são entendidos como uma população marginalizada, cuja explicação se situa no sistema socioeconômico vigente. A marginalidade está atrelada à categoria exército industrial de reserva. Na obra de Ferreira, os “meninos de rua” estão em uma condição de marginalidade por terem sido destituídos do seu desenvolvimento humano (infância, adolescência) pelo modelo econômico vigente. Eles interiorizaram os estigmas sociais, por isso, não desenvolveram uma identidade de si, estão alienados de sua condição de sujeitos.
se propõe, então, a compreendê-los como parte da massa trabalhadora, sendo a mendicância uma das estratégias de sobrevivência. A partir de histórias de vida coletadas das ruas, a autora mostra que as pessoas que vivem nestas condições têm uma trajetória de trabalho.
Uma perspectiva interessante presente no texto de Neves (2010) é a de considerar o mendigo como resultado de todas as relações sociais em que está inserido – o que faz levantar a hipótese de que a “situação de rua” não é fato individual, e sim social, assim como a pobreza está em relação ao contexto social, no pensamento de Simmel (1998).
Para a construção da identidade de mendigo, colaboramos todos nós com as representações que fazemos sobre o que é, como deve ser e o que leva um indivíduo a ser mendigo. Colaboram as instituições sociais cujo objetivo é controlar o comportamento social do mendigo ou dos pedintes (instituições religiosas e assistenciais) ou reprimi-lo (instituições propriamente repressoras: polícia militar, civil, feminina etc.). Colaboram, enfim, os mendigos já socializados, ou seja, aqueles que detêm o conhecimento dos mecanismos e estratégias que permitem sua reprodução enquanto tal (NEVES, 2010, p. 107).
A década de 1990 por sua vez teve, na categoria exclusão social, o mote para os estudos sobre pessoas vivendo nas ruas (ESCOREL, 1999; ROSA, 1999; VIEIRA et al., 2004; GREGORI, 2000; BURZTYN, 2000).
Cleisa Rosa (1999), por exemplo, buscou compreender nas trajetórias individuais os motivos para ida às ruas tomando as categorias trabalho, estudo e moradia. No seu estudo, feito em São Paulo na década de 1990, aparece com importância a questão da migração para entender as rupturas na moradia. A partir de trajetórias individuais, a autora traçou relações com as transformações no mercado de trabalho nacional desde a década de 1970 até 1990 – portanto, processos de urbanização, industrialização e crescimento do setor de comércio e serviços
há a publicação do artigo “Mendigo: o trabalhador que não deu certo”. Para Neves (1983, p. 103), mendigo é aquele que necessita da caridade de outrem, e a mendicância pode ser estudada “[...] a partir de formas de reprodução social da massa trabalhadora”. O termo “mendigo” nomeia “[...] as pessoas que supostamente perderam certos atributos sociais (não tem família, nem casa), e por isso, sobrevivem na rua, apresentando-se sujas e maltrapilhas, além de não trabalharem. Como ‘pedintes’, são classificados aqueles que, embora disponham de atributos sociais reconhecidos, enfrentam dificuldades para sobreviver e, portanto, recorrem à ajuda de terceiros” (op. cit., p. 103). A perda do trabalho está no centro dessa trajetória de ida às ruas; segundo a autora, também se observa a perda da posição de homem-chefe de família e, consequentemente, os conflitos familiares e a bebida fazem parte desse processo. Neves também realizou um estudo com famílias pobres e catadores de lixo para compreender essas relações que se conectam com a vida nas ruas (NEVES, 2010). Neste estudo, queda claro o papel das instituições assistenciais, as quais têm uma atuação ambígua: têm, como objetivo em comum, recuperar o indivíduo que tem “ausência de determinados atributos humanos ou sociais” (NEVES, 2010, p. 108), contudo esbarram na própria impossibilidade de fazer com que se encaixem novamente no mercado de trabalho formal, por falta de vagas ou até mesmo pela falta de documentos.
aparecem como fatores de mudanças de vida que levaram as pessoas a irem morar na rua.
Até este ponto, as perguntas de pesquisa giravam em torno do como as pessoas chegam até a rua. Essas pesquisas se valeram, principalmente, de histórias de vida de indivíduos vivendo nas ruas. A partir dessas histórias, traçam-se as trajetórias descendentes até as ruas. E as respostas para a pergunta de pesquisa enfatizavam, então, as perdas, as ausências, principalmente, de trabalho, família, moradia, estudo. Mas a década de 1990 amplia a visibilidade sobre o papel do Estado,37 ampliando então as respostas até então apenas econômicas para o problema do ex-trabalhador.
A pesquisa feita em 1991 por Vieira et al. (2004) e publicada com o título “População de rua: quem é, como vive, como é vista”, marca uma mudança na categoria de mendigo- trabalhador para a de população, assim como demarca a presença de preocupações com a formulação de leis e ações governamentais.
Como parte de uma pesquisa feita em São Paulo em 1991 a partir da Secretaria do Bem- Estar Social, o objetivo de Vieira et al. (2004) era conhecer as características, a trajetória e as formas de sobrevivência da população de rua em São Paulo, assim como fazer uma avaliação de algumas formas de atendimento assistencial, tanto públicas quanto privadas.
Diante da crise do trabalho, o papel das políticas públicas fez produzir uma categoria nova: a “população de rua” (VIEIRA et al., 2004). Questionários e pesquisas quantitativas se somaram às histórias de vida. A pesquisa entendeu que a população de rua é um segmento da classe trabalhadora. É uma população sem trabalho, sem casa, com muita mobilidade e bastante heterogênea. Mas o que caracteriza esse segmento populacional é “utilizar a rua como espaço de sobrevivência e moradia” (op. cit., p. 47).
Dentre tantos fatores de heterogeneidade dessa população – como, por exemplo, faixa etária, origem, ocupação, motivos para viver nas ruas etc. – há ainda um outro fator diferenciador dos modos de vida na rua: o tempo de permanência nela. Este tempo não tem medida cronológica, pelo contrário: é medido pelo grau de sociabilidade das pessoas na rua.
• Ficar na rua: circunstancialmente; • Estar na rua: recentemente;
37 A década de 1990 apresentou uma série de construções de políticas sociais, tais como o Sistema Único de Saúde (1990), o Estatuto da Criança e Adolescente (1990), a Lei Orgânica da Assistência Social (1993) e a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação (1996). Tanto Neves (2010) quanto Bursztyn (2000) já mostram que há organizações de catadores de material reciclável na década de 1990, cujo Movimento Nacional veio a surgir em 1999. Rosa (1999) já mostrava o envolvimento de moradores de rua com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
• Ser de rua: permanentemente.
À medida que se permanece na rua, há perdas de vínculos de sociabilidade anteriores e aquisições de novas sociabilidades. Segundo os autores, então,
[...] essas situações podem ser dispostas num continuum, tendo como referência o tempo de rua; à proporção que aumenta o tempo, se torna estável a condição de morador. O que diferencia essas situações é o grau maior ou menor de inserção no mundo da rua (VIEIRA et al., 2004, p. 94).
“Vidas ao Léu: trajetórias de exclusão social”, de Sarah Escorel (1999) é um livro importante e que marcou os estudos sobre população de rua na perspectiva da exclusão social. Aqui também se faz presente a seguinte pergunta: Como se chega à vida na rua? Contudo, a categoria trabalho já aparece em uma outra formulação. A categoria de análise de Escorel é exclusão social.38 A população de rua seria a expressão máxima desse processo em que pessoas se tornam inúteis para o mundo.
Escorel (1999) se propõe a analisar histórias de vida com pessoas vivendo nas ruas no Rio de Janeiro a fim de identificar processos de exclusão, observando a importância das rupturas dos vínculos familiares e do trabalho. Essa perspectiva de exclusão social (cujo trabalho da referida autora é o mais detalhado e desenvolvido) também está presente nos trabalhos de pesquisa feitos em Brasília no fim dos anos 1990. Bursztyn (2000), por exemplo, organizou um livro intitulado No meio da rua: nômades, excluídos e viradores. Além de tomar como objeto de estudo a vida nas ruas e o trabalho de catadores de papelão, esta e outras pesquisas demonstram a preocupação e comprometimento com as proposições de
38 Exclusão social é um termo que veio a aparecer na França, ainda na década de 1970; porém, não era um
conceito ou categoria de análise, e vai ganhar importância e formulação teórica posteriormente. Com a “nova questão social”, tendo Castel (2008) como um dos principais teóricos, o termo foi criticado por ser estático, e em seu lugar o autor propõe entender o processo de desfiliação social a partir da crise do assalariamento. De modo bastante sucinto, pode-se dizer que Castel (2008) buscou demonstrar que a integração social se faz a partir do trabalho, em que o indivíduo é útil para o mundo. Para além do trabalho com garantias de proteção social, a integração se fragiliza e abre-se para uma zona de vulnerabilidade. Nesta zona, o indivíduo não está plenamente integrado, passa a recorrer a políticas de assistência e deixa de ser um “trabalhador” para ser um “assistido”. A persistência nessa situação vulnerável sem retorno ao núcleo de integração pode fazer com que o indivíduo se desvincule, também, das políticas de assistência, e passe a viver como um excluído. Como forma de operacionalizar a categoria “exclusão social”, Escorel (1999) analisa o processo de desvinculação com o núcleo familiar, bem como a desvinculação com o trabalho. “Exclusão” é, então, definida como uma ruptura dos vínculos sociais. Diversas são as dimensões dos vínculos que unem os indivíduos entre si e fixam os atores sociais ao modelo de sociedade; pode-se citar os vínculos sociais (materializados) e os vínculos simbólicos, das representações que conferem a identidade social (ESCOREL, 1999, p. 60).
políticas públicas. Questionar como se chega a viver na rua fez pensar, também, como sair dela. Entidades religiosas e movimentos sociais são destacados como importantes atores para a organização e mobilização das pessoas que vivem nas ruas, em especial em São Paulo (DE LUCCA, 2007). Por exemplo, o movimento dos Catadores de Recicláveis esteve presente no processo de criação do próprio Movimento Nacional da População de Rua em 2004 (DE LUCCA, 2007; BURZTYN, 2000).
Nos anos 2000, observa-se um maior número de investigações acadêmicas sendo realizadas, multiplicando, assim, os temas abordados e as perguntas de pesquisa. Além da pergunta Como se chega a viver na rua?, aparece também a seguinte questão: Como se mantém uma vida na rua? Como um fenômeno urbano, a vida na rua chama a investigação para a busca da relação entre as pessoas e o espaço urbano, bem como seu movimento nele.
Os modos de vida e as práticas cotidianas de quem vive nas ruas são enfatizadas, principalmente pelas pesquisas antropológicas (GREGORI, 2000; FRANGELLA, 2004; KASPER, 2006; MARTINEZ, 2011; DE LUCCA, 2007; MELO, 2011; RUI, 2012) e também pelas sociológicas dos anos 2000 (GIORGETTI, 2007; 2014; GRANADO, 2010; FERRO, 2011; OLIVEIRA, 2012; BARROS, 2004; PEREZ, 2005; PEREIRA, 2013 etc.).
Sem mais priorizar análises das “ausências” de atributos sociais, as novas pesquisas se preocupam em compreender o que está presente na vida de rua. Para dar alguns exemplos: não mais se estuda o “pedir dinheiro” enquanto mendicância, mas sim enquanto práticas de “mangueio”(MARTINEZ, 2011), ou ainda como a arte de contar uma “história triste” (MELO, 2011) – termos estes originários da própria vida na rua e captados por etnografias. O trabalho e a mendicância são algumas dentre outras tantas práticas de sobrevivência, assim como a “viração” (GREGORI, 2000), ou mesmo as atividades ilícitas (MELO, 2011; RUI, 2012). A falta de família também não é mais o foco principal das pesquisas quando se busca compreender as organizações dos grupos que vivem nas ruas e as relações entre si, desde os conflitos até os afetos (FRANGELLA, 2004; RUI, 2012; OLIVEIRA, 2013; MELO, 2011). Na falta de moradia, há várias tecnologias de abrigamento que se desenvolvem na rua, tais como lonas, marquises, mocós, Albergues (KASPER, 2006). As identidades de grupo não são sempre referências à vida de trabalhador, e outras tantas identidades de grupos de rua são identificados (MENDES, 2007; SOUZA, 2012), por exemplo, na distinção entre “trecheiro” e “pardal” (MARTINEZ, 2011), isto é, aqueles que circulam e os que não circulam pelas cidades, respectivamente. E, finalmente, as instituições, tanto as estatais quanto privadas, aparecem como parte da vida nas ruas e são apreendidas pela etnografia a partir da fala
daqueles que são assistidos por elas (GREGORI, 2000; DE LUCCA, 2007; PEREZ, 2005). Desta forma vê-se, nos anos 2000, uma grande diversidade de perspectivas e temas relativos a esta população.39 Mas é na tese de Frangella (2004), intitulada Corpos urbanos errantes, que identifico o início desses novos problemas de pesquisa sob a denominação geral de moradores de rua. A autora tem como objetivo investigar “[...] a construção da corporalidade de moradores de rua adultos na cidade de São Paulo. Tendo como ponto de partida a premissa de que o corpo realiza e enuncia a dinâmica complexa e conflitiva” (FRANGELLA, 2004, p. 13). O corpo é, simultaneamente, físico, simbólico, político e social, e constrói relações com outros corpos e com o espaço urbano. Os moradores de rua são nômades do espaço urbano. É por meio do movimento ou permanência no espaço que exercem resistências e reformulam os sentidos do meio urbano.
O universo dos moradores de rua, marcado por duplo movimento de exclusão e de vivência nômade, tem o corpo como locus de produção e enunciação dessa experiência. Privados de qualquer outro suporte material e simbólico em suas andanças que não o seu corpo, é nesse que se projetam as