2. NÜFUSBİLİM VE EĞİTİM SEKTÖRÜ İLİŞKİLERİ
2.2. Nüfusbilim ve Eğitim Sektörü (Planlaması)
2.2.1. Nüfus Yapısı ve Eğitim Üzerindeki Etkileri
A maior parte dos trabalhos sobre pessoas que vivem nas ruas põe foco para as capitais brasileiras, tais como São Paulo, João Pessoa, Curitiba e Brasília. Já o meu estudo se afasta das grandes capitais e vai para uma cidade média paulista: São Carlos-SP.
Longe de ser uma metrópole, tampouco é uma cidade pequena. Com 241.389 habitantes (estimados pelo IBGE em 2015), São Carlos é considerado pela PNAS um município de grande porte,55 o que significa que o município deve ofertar todos os serviços constituintes da PNAS. Em 2004 – ano da publicação da PNAS – havia 237 municípios desse porte no país, entre um total de mais de 5.500 municípios brasileiros. Esse porte de município compreendia, então, 31% da população brasileira; já os municípios considerados metrópoles eram 17 em todo o país, e neles se concentrava cerca de 21% da população brasileira.
Meu estudo é feito em apenas um município, o que não permite nem de longe fazer generalizações para o resto do Brasil, nem mesmo para esta categoria de municípios, mas visa dar uma contribuição para os estudos sobre pessoas que vivem nas ruas e instituições de atendimento para além das grandes metrópoles do país.
As metrópoles são importantes em termos populacionais pela complexidade à qual se apresenta a vida nas ruas, bem como por serem centros de lutas políticas em torno dos governos municipais e estaduais e, portanto, de visibilidade para a questão da rua. Porém, generalizações teóricas são difíceis quando se pensa a extensão do país. Estudos em regiões e cidades de portes pequeno, médio e grande são igualmente necessários. Embora não haja nestes municípios uma grande concentração populacional (como se observa nas capitais), eles são, sem dúvida, a grande maioria dos municípios brasileiros.
Segundo a Política Nacional de Assistência Social, a rede de instituições e serviços assistenciais previstos se efetivam em cidades de grande porte e metrópoles; já as cidades pequenas devem ter os serviços básicos – por exemplo, ao menos um CRAS, enquanto que as cidades médias devem ter no mínimo dois CRAS, as cidades grandes quatro e metrópoles, oito. Os serviços de Proteção Especial são ofertados, sobretudo, nas cidades de grande porte e metrópoles. As cidades pequenas e médias não têm a obrigação de ofertar tais serviços de maior complexidade (como um Centro POP),56 podendo recorrer aos municípios grandes ou
55 Municípios entre 100.001 a 900.000 habitantes, segundo a Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social (NOB/SUAS) de 2005.
56 Até 2015, no Censo SUAS constavam 235 Centros POP castrados em todo o Brasil, sendo que 107 estão na região sudeste. Cf. o seguinte endereço: <http://aplicacoes.mds.gov.br/sagi-data/METRO/metro_ds.php?p_id=231>.
às metrópoles para suprir tais serviços, ou ainda fazer convênio com outras entidades assistenciais do município. Aliás, todos os municípios podem realizar convênios para prestar os serviços de utilidade pública que faltam na rede assistencial do setor público.
Portanto, a PNAS estabelece quais os padrões mínimos para os serviços de assistência social e oferece as coordenadas mínimas para a regulação de uma rede institucional que pode ser muito diversa em cada município.
Nas metrópoles, por exemplo, a estrutura mínima da rede pública agrupa em si uma quantidade tão grande de entidades conveniadas que não se tem uma visualização precisa dos limites entre o poder público e o privado – e nem mesmo qual é, precisamente, o papel da rede pública de assistência em meio a tão grande mar de entidades privadas.
Durante cerca de um ano frequentei mensalmente em São Paulo o Fórum Interssetorial de profissionais atuantes nos Sistemas de Saúde e Assistência Social para atendimento à população em situação de rua e usuários de drogas. Ao longo de todo um ano, a grande questão que perpassou as reuniões era saber o tamanho da “rede”. Os próprios profissionais nela envolvidos preocupavam-se em mapear todas as instituições envolvidas, e tinham dificuldade para tanto. Seriam as entidades conveniadas prestadoras de serviço para a Política de Assistência Social? Ou seriam as instituições públicas quem prestavam serviços ao mar de entidades sociais de longa data – e constantemente crescentes – na capital? Estas eram questões feitas pelos próprios integrantes do Fórum.
Ou seja, as metrópoles impõem questões específicas (por exemplo, a dimensão dessa “rede”) para a compreensão da efetiva política assistencial, o que não ocorre do mesmo modo nos municípios menores.
A rede socioassistencial de São Carlos-SP conta com uma Secretaria Municipal, um Conselho Municipal, quatro CRAS (distribuídos em quatro territórios considerados de maior vulnerabilidade), um CREAS, um Centro POP e oito Centros Comunitários. Esta é a rede mínima constituída e gerida pelo poder público do município. Além dela, há ainda mais de 30 entidades sociais conveniadas (até 2014).
No que se refere ao atendimento especificamente à população em situação de rua, a política municipal de Assistência Social está focada naquela população que é originária da própria cidade – pessoas que nasceram ou moravam na cidade antes de terem uma vida na rua, ou ainda, que possuem familiares na cidade. Ou seja, são pessoas que têm ou tiveram outros vínculos sociais na cidade antes de chegarem à vida nas ruas. São chamados, na linguagem da
rua, de “pardais” por serem fixos na cidade.
Destinado a atender esse público, é inaugurado em São Carlos, em julho de 2008, um Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), o qual em 2011 passou a ser nomeado Centro POP: unidade da Proteção Especial gerido Secretaria Municipal de Assistência Social e assim classificado pelo governo federal.
Além das pessoas que possuem vínculos com a localidade, há também um circuito de itinerantes presente na cidade. Isto é, são pessoas que circulam pelas ruas passando de cidade em cidade em busca de oportunidades, ou até mesmo que têm, nas viagens, um estilo de vida. Os itinerantes são uma categoria de população em situação de rua – também chamados “trecheiros” na linguagem da rua – que não se fixam em um lugar, buscando abrigo em cidades diferentes.
De São Carlos-SP, os destinos mais frequentes dos itinerantes são Araraquara, Descalvado, Itirapina, Rio Claro, e também Ribeirão Preto e São Paulo. Diante desses circuitos urbanos, os municípios apresentam Albergues Noturnos, instituições que surgiram destinadas a atender esse público migrante.
No Albergue de São Carlos, os itinerantes passam até três pernoites e, depois, recebem passagem para outras localidades. Em 2011, contabilizou-se um total de 1.300 passagens oferecidas aos itinerantes pela Secretaria Municipal de Assistência Social. Esta foi a primeira instituição na cidade destinada à população pobre, sem moradia e em trânsito na cidade. Em São Carlos, desde a década de 1970, a política do município foi ofertar passagens para que essa população migrante saísse da cidade, o que foi operado principalmente pelo Albergue (entidade filantrópica). Atualmente, ele é conveniado à Secretaria de Assistência Social, e faz parte da rede socioassistencial do município.
Fora desta rede há, ainda, uma série de outros grupos ou instituições que prestam assistência de maneira pontual às pessoas que vivem nas ruas. O exemplo que trarei na pesquisa é o de atendimento feito por um grupo de voluntários e também por uma comunidade religiosa que oferece abrigo, chamada aqui de Casa de Oração.
Meu campo de estudo foi principalmente o Centro POP, com incursões etnográficas às demais instituições (Albergue, voluntariado, comunidade religiosa) e entrevistas a cada um de seus coordenadores ou profissional responsável.
Por que uma política para população em situação de rua foi escolhida como recorte desse estudo?
Desde 2010, o Conselho Nacional de Assistência Social recomenda que cidades com mais de 250.000 habitantes tenham um Centro POP.57 Essa faixa populacional abarca cidades de porte grande e metrópoles. Esse é mais um parâmetro que estabelece um critério mínimo para a execução da Política Nacional para a População em Situação de Rua.
É de se supor que, dificilmente, cidades que não cheguem a essa dimensão populacional estabeleçam um Centro POP. Mas São Carlos é exceção em comparação a outros municípios de grande porte.
Tomando exemplos de outras cidades de grande porte temos Franca, com 342.000 habitantes estimados em 2015 e uma população de rua de 78 pessoas (segundo a Pesquisa Nacional feita em 2008), e Ribeirão Preto, com 666.323 habitantes em estimativa de 2015 e 441 moradores de rua. Ambas constituíram Centros POP em 2013. Já Rio Preto, cidade com 442.548 habitantes em 2015, não possui um Centro POP e divulga uma estimativa de 149 pessoas vivendo nas ruas. Todos os números foram captados pela Pesquisa Nacional da População em Situação de Rua (veja a lista completa no Anexo 1)
Não há uma pesquisa formal feita em São Carlos que contabilize as pessoas em situação de rua. As contagens são feitas a partir dos cadastros no Centro POP. A população de rua fixa e originária da cidade foi calculada em cerca de 95 pessoas em 2008; em 2011 eram 100 pessoas, e em 2014 eram 9358.
Duas cidades que estão na região de São Carlos e que tem um porte similar (são consideradas de grande porte, mas não atingem o critério populacional de 250.000 habitantes da Política para a População em Situação de Rua) são Araraquara, com 226.508 habitantes estimados em 2015 e 158 pessoas em situação de rua, de acordo com pesquisa municipal de 2013,59 e Rio Claro, com 199.961 habitantes e 55 pessoas vivendo nas ruas, segundo cadastros da Prefeitura realizados em 2015.60 Rio Claro é a única dessas cidades que não tem
•57 Resolução da Comissão Intergestores Tripartite – CIT no 7, de 07 de junho de 2010 - pactuou critérios de partilha de recursos do cofinanciamento federal para a Expansão dos Serviços Socioassistenciais 2010. Destinou, pela primeira vez, recursos do cofinanciamento federal para a oferta do Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua, ofertado no Centro de Referência para População em Situação de Rua, em municípios com mais de 250.000 habitantes e Distrito Federal.
58 Uma pesquisa de caracterização do perfil dos atendidos do Centro POP foi realizada por Sara Almeida. Cf. ALMEIDA, S. O retorno da população em situação de rua à educação escolar: entre dificuldades e possibilidades. Monografia (Curso de Especialização em Educação de Jovens e Adultos). Universidade Federal de São Carlos. São Carlos: UFSCar, 2011.
59 Araraquara realizou um Censo da população em situação de rua no mesmo ano em que inaugurou um Centro POP. Cf. a notícia: “Censo traça perfil dos 158 moradores de rua de Araraquara” (disponível em <http://www.araraquara.com/noticias/cidades/cidades_internaNOT.aspx?idnoticia=687861>. Acesso em: 25 jun. 2016).
60 Cf. a notícia “Morador de rua ganha campanha” (disponível em <http://www.jornalcidade.net/rio- claro/destaque-2/morador-de-rua-ganha-campanha/>. Acesso em: 25 jun. 2016).
Centro POP, e realiza atendimento com a população de rua no CREAS e no Serviço de Abordagem de Rua. Araraquara, por sua vez, também iniciou os trabalhos do Centro POP em 2013.
Esses exemplos servem para se ter um parâmetro quantitativo da proporção da população de rua em cidades na mesma categoria de classificação do PNAS.
A escolha em estudar a política para a população em situação de rua não se deve, portanto, à quantidade de pessoas vivendo nas ruas. Na média, pessoas vivendo nas ruas correspondem a 0,061 % da população nacional, segundo o que foi estimado pela Pesquisa Nacional publicada em 2008 (veja o Anexo 1). Na grande São Paulo – onde a população de rua vem aumentando ao longo dos anos61 – elas não chegam a contabilizar 1% da população total da cidade. No entanto, preocupa o constante aumento.
Apesar de não ser numerosa a população que vive nas ruas, ela pode revelar dinâmicas próprias das cidades de vários portes. Para dar um exemplo, Furini (2003) – quem fez pesquisa em Presidente Prudente-SP – levanta a hipótese de que há uma dinâmica de migração dos jovens em direção à capital, enquanto que no interior se encontram, nas ruas, pessoas com em maiores faixas etárias e que saíram da capital.
Além disso, a existência da população de rua nas cidades ganha visibilidade periódica na mídia local e instiga ações das prefeituras, como por exemplo as campanhas contra esmola e operações policiais. Mesmo sendo ações esporádicas, elas servem para explicitar que há, aí, um problema social, para o qual o governo municipal cria estratégias com a intenção de dar respostas.
Outro motivo significativo para esse estudo é que essa população costuma ser caracterizada pelas políticas públicas por ausências, privações e desvínculos sociais. Por exemplo, a Pesquisa Nacional mostra que os principais motivos para a ida à rua são o conflito com a família, o desemprego e o uso de álcool e drogas. As ausências apontadas nesta população fazem dela o melhor objeto de atenção institucional, a fim de suprir essas faltas e incluir essa população na sociedade.
Como público-alvo da Proteção Especial da PNAS, a população em situação de rua
61 Em São Paulo, a Pesquisa FIPE (realizada periodicamente) contabilizou, em 2009, 13.666 pessoas; em 2011, esse total subiu para 14.478, e em 2015 eram 15.905 pessoas nas ruas: números que revelam o crescimento dessa população na capital – levando em conta que os números correspondem àqueles a quem se teve acesso para fazer a Pesquisa, pois uma parte considerável de pessoas nas ruas são os “trecheiros” que, quando em percursos entre cidades, não são contabilizados em nenhuma delas. Cf. pesquisas e relatórios da Prefeitura de São Paulo no seguinte endereço: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/assistencia_social/observatorio_social/ pesquisas/index.php?p=18626>.
recebe atendimento em instituições de média e alta complexidade. Ou seja, é preciso mais do que uma instituição para suprir suas faltas: uma rede institucional – ainda que mínima – precisa necessariamente ser constituída no município.
Este aspecto será o objetivo dos dois próximos capítulos. Mas, antes disso, quero explicitar ao leitor o percurso feito para a realização desta pesquisa. Vejamos a seguir.