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Genel Değerlendirme ve Sonuç

5. GENEL DEĞERLENDİRME VE EĞİTİM SEKTÖRÜ İÇİN POLİTİKA

5.1. Genel Değerlendirme ve Sonuç

Quando a Política de Assistência Social para a população em situação de rua surgiu no município de São Carlos, as instituições existentes eram as que foram descritas no subcapítulo anterior.161 Como se pode perceber pelas informações apresentadas, cada uma delas opera com o mesmo público (ou similar), porém de modos muito diferentes.

O que cada uma pretende é prestar uma “ajuda aos necessitados”, “fazer o bem”, “oferecer proteção”, em resumo, oferecer algum cuidado a um público que se caracteriza por carências materiais, em todos os casos, mas também “espirituais” ou de caráter. As doações

161 Com exceção da Casa de Oração, embora trabalho similar já existisse em outra cidade, onde há a Comunidade Católica que a dirige.

são o denominador comum entre todos os que atuam em prol das pessoas que vivem nas ruas. Pode-se dizer que a doação é a expressão elementar da “ajuda” realizada pela filantropia.

As teorias do care são as que mais se aproximam do que aqui se chama de “ajuda”. As atividades do cuidado (ou care) se caracterizam pelo estar disponível ao outro. Profissionalmente, são atividades de atendimento ao público em que faz parte do trabalho prestado ofertar atenção, escuta e a própria presença (BESSIN, 2012). A disposição para o trabalho do cuidado do outro, segundo Bessin (2012), está ligada a formas de sociabilidade prévias, como por exemplo a participação em grupos religiosos ou os modos de sociabilidade diferenciados de homens e mulheres.

O trabalho voluntário se faz presente em espaço urbano, numa praça, entre árvores e bancos de cimento onde são organizadas cadeiras e uma mesa com utensílios para servir refeições. É um trabalho que tem uma temporalidade determinada – todo domingo, no mesmo horário e local.

Embora haja muita variação e rotatividade entre os voluntários, com maior ou menor quantidade de pessoas, o trabalho voluntário não cessa. Na cozinha se vê, em geral, duas ou três mulheres; os homens carregam os materiais pesados. Pessoas de várias faixas etárias, mas entre aqueles que estão sempre presentes estão os mais velhos, como é o caso do entrevistado Catarino.

As senhoras da cozinha do centro espírita, embora distantes da praça, marcam sua presença no trabalho voluntário. A presença não física na praça se faz por uma presença enquanto trabalho: a refeição e a organização das tarefas existem nos dois ambientes, tanto na praça quanto na sede do centro espírita. Portanto, um trabalho que se faz em copresença, em dois lugares ao mesmo tempo.

A ausência se contrapõe à presença, e ela pode ocorrer em algumas situações. No caso do trabalho voluntário, o “aviso”, em que se estabelecem as regras de convivência no local, cria distância entre aqueles que querem participar do círculo para ouvir a mensagem cristã e aqueles que querem fumar ou beber – e, para isso, devem se distanciar do círculo. Já a ausência se dá para solucionar um conflito.

Catarino dá um exemplo de uma situação em que houve um caso de violência que prejudicou o trabalho voluntário. Certo dia, dois irmãos egressos da cadeia e que estavam vivendo na rua agrediram outra pessoa na fila para pegar comida. O motivo, provavelmente, um esbarrão, um mal-entendido:

Aí a gente passou a mão nas coisas e falou ‘o trabalho tá encerrado’. Aí foi o Deus nos acuda porque... ‘por causa dos dois caras nós vamos ficar sem comer!’. Aí nós tivemos o bom senso e falamos ‘hoje vai ser só comida porque nós não vamos jogar comida fora, mas que não aconteça mais de novo!’. Então se alguém tiver alguma violência que resolva fora daqui. Então, essas são algumas regras que eles foram assimilando (Catarino).

Um momento de conflito mostra qual o limite da assistência. Diante da violência, os voluntários decidem por se retirarem. E só não o fazem pois a prática mínima da assistência é a doação de comida, mas não mais uma ajuda, pois o objetivo passou a ser o não desperdício de comida. E assim se resolve o conflito.

Na quebra da regra, a solução não é a punição, mas sim a ausência possível, que mostra qual é o limite para a “ajuda”.

“Não julgar” é o lema. “Não é à toa que as pessoas estão morando na rua”, diz Catarino. Isso é o que se aprende no trabalho voluntário, ou ainda, “fazer o bem sem olhar a quem”, como noticiado em um dos jornais locais – o que não quer dizer que os voluntários não produzam representações e classificações acerca do público a quem oferecem seu trabalho.

À medida que o morador de rua vai conhecendo você, ele vai contando alguns problemas, ou como ele chegou a isso, ele acaba contando alguma coisa da vida dele. Alguns são mais arredios porque estão na bebida. A maior parte dos mais jovens estão no crack. Os mais velhos eles estão mais na cachaça. […] E a pior coisa que existe é a solidão. Quando você tem uma casa, um lugar pra voltar, alguém pra trocar ideia, desabafar ou pelo menos ter a ideia de que tem alguém esperando... E na rua não tem ninguém. […] Uma das coisas é a solidão, e na rua eles não confiam nem em quem dorme do lado (Catarino).

A procura por entender a vida na rua aponta para os sofrimentos psicológicos causados pela solidão, para o uso do álcool e das drogas. Embora o trabalho voluntário dos espíritas não busque converter pessoas para o Espiritismo – pois, segundo o entrevistado, “para a maior parte deles a religião também não influi em nada” – por outro lado o trabalho voluntariado pode minimizar os sofrimentos psicológicos através conversas, assim como suprir as necessidades materiais básicas para a sobrevivência, como comida e roupas.

Mas as doações também tem seu limite. Catarino relata um exemplo: “o cara quer comprar um bujão de gás, a gente compra e coloca lá, mas não dou dinheiro. A regra é não

dar dinheiro e não dar remédio, porque se você está com álcool e eu te dou remédio potencializa o efeito”. O dinheiro, portanto, está proibido de ser o intermediador das relações de ajuda.

Essa regra que recai sobre a prática da doação impedindo a troca de dinheiro está presente também na campanha da Prefeitura, intitulada “Não dê esmola”. Doam-se coisas úteis, como roupas e alimentos, atenção nas conversas e até mesmo serviços (como o médico voluntário que providenciou uma consulta), um conselho para a procura de emprego ou de moradia. Mas a doação ao indivíduo não pode ser monetária.

O voluntariado é encarado como uma doação de si, de seu próprio trabalho , e não uma troca monetária, muito menos uma dádiva em que haja obrigação de retribuição. O valor da doação para o voluntário é a própria relação de ajuda, sem ter o dinheiro como mediador.

O trabalho voluntário visa não selecionar um público-alvo específico. Entre as pessoas que frequentam a praça aos domingos, há quem vive nas ruas, quem já viveu na rua mas já saiu dessa situação, há pessoas que estão de passagem pela cidade, há desempregados ou famílias pobres que por lá passam etc.

A partir da convivência na praça aos domingos, Catarino moldou uma representação de quem são as pessoas que vivem nas ruas e quais as causas para esta situação. Se “não julgar” se refere a não atribuir valor positivo ou negativo às pessoas, ainda assim, o trabalho voluntário opera suas distinções entre “nós” e “eles”. Essa fronteira se define pela existência ou não da disciplina enquanto obediência às regras.

A primeira coisa que acontece com as pessoas que moram na rua é a falta de disciplina. Você tem horário pra trabalhar, pra ir na escola, você tem uma casa, você tem uma mãe que dizia ‘faz tal coisa ou não faz tal coisa’ e você obedecia... Então, você observa que um dos fatores que acompanha o morador de rua é a indisciplina, ele não tem hora pra ir, não tem hora pra nada, não obedece ninguém (Catarino).

A Casa de Oração responde a esta indisciplina com a separação entre o mundo “lá fora” e as regras internas da Casa. Já os espíritas, realizando uma atividade na praça, não operando a separação entre a vida na rua e o trabalho voluntário. São os voluntários a irem “lá fora”, com a condição de que se cumpram as três regras do “aviso” para que se mantenham presentes na rua.

uso de álcool e drogas, onde não há autoridade a obedecer, onde a religião também não produz efeitos. A indisciplina como principal característica das pessoas que vivem nas ruas é apontada tanto pelo voluntário espírita quanto pelo da Casa de Oração quando aquele afirma que é “vida fácil”, sem a devida “disciplina” – o que foi percebido no Albergue como “falsa liberdade”. Veremos que, no próximo capítulo, se investigará como essa mesma dimensão das regras e disciplina vai aparecer no Centro POP.