4.6. Araştırmanın Yöntemi
4.6.8. Veri Çözümleme Yöntemi
Fernanda de Salles Cavedon (2003: passim) relaciona o conflito de interesses com o conflito de ideologias, afirmando que os próprios interesses podem ser constituídos com base em uma ideologia. Tendo em vista essa idéia, são expostos diversos conceitos de ideologia, e o proposto por Melo103 servirá como ponto de partida para as argumentações que se seguirão. Apenas “o caráter da Ideologia como critério de orientação para a seleção de alternativas”, será utilizado.
Concepções individuais não devem servir de critério de escolha em casos que envolvam conflitos de interesse, embora seja admitida a valoração, em um caráter diferente, totalizante, enquanto crença predominante em uma sociedade. Esta afirmação decorre da aceitação da idéia de Direito, proposta pela Teoria Tridimensional do Direito, enquanto fato, valor e norma.
O Conflito de Ideologias existirá quando houver uma valoração diferenciada de um mesmo objeto ou situação por indivíduos, grupos ou normas. No que se refere ao caso em estudo, do Conflito entre o discurso radical do Direito de Propriedade e o discurso relativista do direito à Propriedade relacionado ao acesso à terra, tendo o mesmo objeto (propriedade), é valorada de diferente forma, de um lado ela é entendida enquanto eminentemente individualista, de outro como contendo uma função sócio-ambiental. Dessa situação surgem duas concepções de Justiça e de Injustiça, uma para cada valoração.
Dentro da lógica capitalista de divisão do trabalho nas relações de produção, existe a dominação econômica de uma classe sobre a outra por meio da propriedade privada dos meios de produção e da utilização de força de trabalho. Essa relação de dominação leva a conflitos de interesses antagônicos.
De um lado, existe a extensão ideológica da classe dominante sobre as instituições estatais com intuito de manter o ciclo de dominação. De outro, os dominados tentando legitimar, juridicamente, os seus interesses práticos. Como conseqüência dessa situação antagônica surge o pluralismo jurídico. Dessa situação percebe-se que o modelo jurídico adotado já não é suficiente para resolver o conflito existente entre estas classes sociais.
Na atual conjuntura social do Brasil – principalmente em se tratando das situações de tensões, conflitos e violência no campo - emergem basicamente dois discursos acerca do
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direito de propriedade, um deles é proferido pelos proprietários de imóveis rurais, e o outro é proferido, principalmente, pelos trabalhadores rurais sem-terra, e pelos indivíduos a eles simpatizantes.
No discurso dos proprietários de imóveis rurais pode-se vislumbrar o argumento de que o direito de propriedade é consagrado pela Constituição e que não existe nenhuma restrição ao exercício deste direito. Afirmam que a propriedade deve ser defendida, a qualquer custo, dos esbulhos ocasionados pelas invasões dos trabalhadores rurais sem-terra. Neste discurso os trabalhadores rurais sem-terra são vistos como desocupados, profissionais de agitação e, ainda, como entes que violam a lei, que transgridem o direito, esbulhando de forma violenta e selvagem a propriedade rural.
As invasões violentas e selvagens de propriedades rurais, orquestradas por pessoas que detestam viver sob o manto do Direito e da Justiça, causam preocupação, insegurança e revolta junto aos agricultores.
São elas praticadas por indivíduos que nem ao menos são trabalhadores rurais, mas, sim, profissionais de agitação e que usam o lema do „quanto pior, melhor‟.
Trabalhadores rurais conscientes (...) não participam desses movimentos (...) Destaque-se que a propriedade é um direito que foi alçado à condição de um Direito Constitucional. (...)
Por ser um Direito Fundamental, a propriedade como Direito à vida, é um direito supra estatal, e que só se explica em virtude de ser um Direito Natural do Ser Humano.
Quando violada a propriedade, a própria natureza humana o é também104.
Se analisados os argumentos acima transcritos, veremos que o discurso nele defendido é de que a propriedade é um direito inquestionável e inviolável, diferentemente do que é determinado na lei, e quando ela é esbulhada por trabalhadores há o desrespeito à lei, a ordem. A legislação atual protege sim a propriedade, mas também a condiciona, impõe-lhe uma função social, mas isto é dificilmente mencionado neste tipo de discurso.
Já o discurso dos trabalhadores rurais sem-terra, em relação ao direito de propriedade, traduz que o direito de propriedade é questionável, e só é válido na medida em que atende às necessidades sociais, devendo a reforma agrária ser feita para que haja a redistribuição de terras, condição efetiva para a eliminação das desigualdades sociais, sendo a ocupação o caminho mais rápido para que este objetivo seja alcançado.
Ora, essas concepções, anteriormente expostas, surgem de forma realmente patente no momento em que acontece o conflito pela terra, quando uma fazenda é invadida
104 Luciana C. Caetano de Moraes. O direito de propriedade nos conflitos agrários: uma análise de discurso, p. 2
por posseiros, e o proprietário tenta defender o que lhe “pertence”. Assim, é em situações extremas que estas concepções emergem como forma de resolver para cada interessado, seja da classe dos grandes proprietários, seja pela dos sem-terra, o impasse de quem ficará de fato com a terra. Estas concepções, como já foi visto, são bastante diferentes tanto no que se refere à idéia que fazem da terra, quanto a forma de lidarem com a mesma. Fato mesmo, é que a produção da violência ocorre em ambos os lados sob a égide da defesa dos pretensos direitos defendidos.
Em suma, para a maioria dos proprietários, a terra significa um direito absoluto que a eles pertencem, e que tem a função de lucro, que possibilita alcançar poder. Já para os sem-terra, geralmente, a terra significa propriedade familiar, a qual será o instrumento que possibilitará, ao ser trabalhado, fornecer o sustento de sua família. Percebe-se uma clara disputa de ideologias105 nos dois discursos, tentando conseguir a validade de apenas um deles, mas o que se deve buscar é a harmonização desses interesses com o fim de se alcançar a pacificação do campo.
A composição desses conflitos ideológicos e de interesses deve ser feita através de decisões judiciais, as quais têm dois caminhos de escolha legalmente e conceitualmente válidos; mediações que atendem, de certa forma, ambos os interesses divergentes; ou ainda através do combate à grilagem com a recuperação de terras públicas ilegalmente registradas por particulares e posterior destinação fundiária; além destas possibilidades, é possível dispor ainda a implementação de políticas públicas voltadas à reforma agrária e à diminuição das desigualdades sociais. Devendo ser evitada a arbitrariedade, e as valorações particulares, embora se admita a utilização de parâmetros ideológicos relacionados com o Bem Comum, com a razão pública, através de critérios justos e adequados.
Antonino Moura Borges afirma que “A tendência de hoje é a modernização do direito para resolver os conflitos com o uso dos princípios fundamentais criados pela Constituição Federal de 1988, mas, sempre estará presente o Estado como mediador e titular do monopólio da jurisdictio”106
Dentro de um contexto em que subsistem diferentes discursos a respeito da propriedade, é importante salientar que a legislação atual a partir da Constituição de 1988 assegura que a propriedade deve cumprir a sua função social. Mas o que se vê, geralmente, é
105 O Conflito de Ideologias existirá quando houver uma valoração diferenciada de um mesmo objeto ou situação
por indivíduos, grupos ou normas.
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que inclusive os Tribunais, ainda se debatem com estas discussões, ao invés de garantir que a lei seja cumprida, assegurando a função social da propriedade, apenas asseguram o direito de propriedade de forma absoluta, fato este que não é mais cabível dentro do contexto jurídico hodierno. Quando são dispostas reintegrações de posses, ou desapropriações, sem considerar outros fatores além da titularidade do domínio, se favorece abertamente os proprietários de terras. Alguns juizes ainda tratam a terra, a propriedade imobiliária rural, em termos absolutos, coisa que deixou de ser legítimo e legal desde a Constituição Federal de 1934, em vez de fazerem incidir a sistemática socioambiental, que impõe uma relativização ao direito a propriedade.
Assim, a Justiça geralmente, menosprezando a lei, concebe a terra como um bem patrimonial, que independentemente de sua utilização, ou da função que exerce, deve ser defendido, ao invés de considerá-la como um bem de sobrevivência social e ambiental, que está condicionado ao atendimento de uma função, qual seja: o bem-estar econômico-social- ambiental da população em geral, não somente individual.
Ora, a “Justiça” deve atender a sociedade como um todo, e obedecer a lei, fazer com que ela seja cumprida de forma justa e eqüitativa. Não pode simplesmente defender interesses contrários as determinações legais, de forma tão anti-social, somente como forma de beneficiar uma determinada parcela da população, que detém o poder. Agindo dessa forma ela só consegue causar “injustiça” e trazer mais insatisfação social, fornecendo mais motivos para que continue havendo conflitos sangrentos pela posse da terra, e desrespeito ao meio ambiente.
2.5 A FORMAÇÃO DA RESISTÊNCIA SOCIAL À EXPROPRIAÇÃO DA TERRA NO