A situação de embate entre o campesinato (índios, trabalhadores assalariados, foreiros, posseiros, seringueiros, sem-terras) e o latifúndio têm se intensificado ultimamente devido à crescente concentração fundiária. Na verdade, o conflito agrário é conseqüência de mais de cinco séculos de favorecimento de oligarquias em detrimento da população camponesa.
Acevedo Marin98 pontua esta situação de embate discorrendo sobre os “antagonismos sociais no campo” da seguinte forma:
No Brasil agrário, as relações sociais entre grupos definem-se por uma forte oposição, o que mostra que mesmo as formas econômicas e políticas, consideradas modernas, mantêm um conteúdo repressivo e violento. Na estrutura agrária, desenvolvem-se relações antagônicas devido à crescente disparidade no controle de recursos naturais – terra, água, floresta, minérios, pastagens. Milhões de famílias experimentam a falta de meios materiais para satisfazer suas necessidades básicas de alimentação, moradia e trabalho. Estão, ainda, privadas de condições para um convívio estável, de serviços mínimos. Não opinam e nem são consultadas sobre questões que lhes dizem respeito, enquanto centenas de indivíduos, grupos
86 empresariais e o próprio governo utilizam-se de posições políticas para realizar e ampliar o controle sobre territórios e recursos dos quais dependem a existência de índios, camponeses, posseiros, pescadores, garimpeiros, seringueiros, quebradeiras de coco babaçu, entre outras categorias.
O embate no campo produziu inúmeros assassinatos de trabalhadores rurais, sindicalistas e missionários. Todos foram vítimas da violência implementada contra indivíduos que trabalham em prol da defesa dos direitos humanos dos trabalhadores rurais, que tentaram minimizar o conflito99 no campo, a grilagem, o desmatamento e a extração
ilegal de madeira da floresta amazônica.
A luta pela terra passa a ser marcada pelo sangue das classes populares e dos defensores dos direitos humanos. Os grandes proprietários visando manter o “império do latifúndio” e as empresas nacionais e internacionais que estavam se beneficiando de alguma forma com a política implementada pelo governo federal de incentivos fiscais e da compra de terras por preços irrisórios, utilizaram e ainda utilizam meios de extrema violência100 para tentar expulsar os posseiros e a população nativa da terra. Essa realidade passa a ser marcada por raptos, sumiços, espancamentos, estupros, assassinatos e expropriação. Casos como o Massacre de Eldorado do Carajás e o assassinato da Irmã Doroth Stang, chocam o país.
Em 17 de abril de 1996, na curva do S, nas imediações da Cidade de Eldorado do Carajás, localizada no sudeste do Estado do Pará, um agrupamento de policiais militares com a “justificativa de desobstruírem uma rodovia interditada por cerca de dois mil trabalhadores rurais sem-terra”, provocou a matança de 19 trabalhadores rurais e feriu 75 pessoas. Este episódio ficou conhecido internacionalmente como o Massacre de Eldorado dos Carajás. Dos policiais militares envolvidos no ocorrido, 153 foram absolvidos e somente 2 foram condenados, mas encontram-se em liberdade.101
A Irmã Dorothy Stang trabalhava há mais de três décadas na região da Rodovia Transamazônica com trabalhadores rurais e reivindicava aos “poderes públicos que as terras pertencentes à União fossem destinadas à criação de assentamentos rurais de
99 Segundo Rosa Acevedo Marin, Conflitos agrários no Pará,
p. 214 “os conflitos configuram-se de diversas maneiras, como ameaças, intimidações, despejos, raptos, estupros, espancamentos, torturas, prisões ilegais, trabalho escravo, assassinatos, chacinas e massacres”.
100 Maria Aparecida de Moraes Silva, A luta pela terra: experiência e memória, p. 40, entende que a violência
sofrida pelo trabalhador rural durante o projeto de modernização da região vai além da violência física
(assassinatos, destruição material e cultural), ela significa também a negação da cidadania, pois compromete os direitos das vítimas.
101 BRELAZ, Walmir Moura. Os sobreviventes do massacre de Eldorado do Carajás: um caso de violação
desenvolvimento sustentável”, mas a sua atuação não era benquista na região por parte dos latifundiários. E em 12 fevereiro de 2007, a missionária americana foi assassinada com seis tiros, por pistoleiros a mando de um consórcio de grandes fazendeiros e madeireiros de Anapu (PA) 102.
O confronto que a sociedade paraense tem presenciado dos movimentos de camponeses, índios, seringueiros e sem-terras com jagunços, pistoleiros, grileiros, latifundiários, e com agentes do próprio Estado é resultado da tentativa destes setores de reivindicar o que lhe é devido de fato, que é o direito de ter uma moradia, um pedaço de chão para o plantio, de utilizar os recursos naturais para a sua subsistência e de suas famílias.
O antagonismo no campo não se restringe à figura do trabalhador rural e do grande latifundiário. Há o embate ainda entre seringueiros com índios, colonos, com posseiros, colonos com grileiros; fazendeiros e empregados que são subjugados à condição análoga a de escravo; trabalhadores rurais com agentes do Estado (como os policiais militares). São inúmeras as relações que se desdobram do antagonismo vivenciado no campo.
O conflito agrário tem produzido muita violência, em ambos os lados dos contendores, principalmente pelo lado dos trabalhadores rurais. Mas é inadmissível a tolerância à mesma e a sua validação, na medida em que prolifera a omissão ou o descaso por parte do poder público, pois nada justifica a violência, nem mesmo a defesa de pretensos direitos.
A tolerância com a violência tende a banalizar as mortes ocorridas e transformar em número pessoas que perderam a vida em prol da defesa de seus direitos, e acabar por fortalecer o império do latifúndio, colocando os trabalhadores rurais como vilões e não como vítimas.
Embora a violência seja estimulada pela impunidade dos assassinos, pela falta de políticas públicas eficientes, ela deve ser repelida de qualquer modo.
A tabela 8, a seguir, oferece uma amostragem da situação de violência no campo em que o Estado convive, a qual aponta a existência de 681 homicídios, 259 inquéritos policiais ou ações penais e apenas 18 casos julgados. O que se percebe através dos números é que apesar da violência continuar a ser perpetrada contra os trabalhadores rurais e seus defensores, não há a devida apuração e respectivo julgamento dos crimes praticados.
102
88 Tabela 8 – Assassinatos e julgamentos 1982-2008
Ano Número de
assassinatos inquéritos em Processos ou Tramitação Casos Julgados 1982 3 3 0 1983 2 2 0 1984 1 1 0 1985 31 11 8 1986 7 6 0 1987 8 6 2 1988 8 5 3 1989 4 4 0 1990 7 5 1 1991 6 5 1 1992 8 7 0 1993 7 4 0 1994 10 8 0 1995 7 4 0 1996 25 2 1 1997 9 6 0 1998 5 4 0 1999 4 3 1 2000 3 3 1 2001 8 6 0 2002 16 15 2 2003 21 13 1 2004 7 6 0 2005 16 16 2 2006 16 12 0 2007 5 5 0 2008 14 11 0 Total 259 166 18
Fonte: Relatório Comissão Pastoral da Terra, 2010.
Apesar dos números conhecidos, nenhuma estatística que exista desse período tem condições de revelar o que realmente se passou no campo, e indicar dados quantitativos que indiquem o montante da violência sofrida pelo trabalhador rural, o sofrimento a que foi submetido.
A maioria dos crimes conhecidos contra os defensores dos despossuídos inseridos nos conflitos agrários permanece sem solução judicial, reina a impunidade, principalmente dos mandantes dos crimes que dificilmente são julgados.
A Portaria Conjunta nº 01, de 26 de janeiro de 2010, do Conselho Nacional de Justiça e do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, instituiu o Mutirão de Julgamento dos Crimes no Campo, que objetiva enfim alterar este contexto de impunidade e adotar providências efetivas para que os processos que apuram esses crimes sejam ultimados.