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VERĠ TOPLAMA ARACI (GAZETECĠLERĠN YOKSULLUK VE MEDYADA TEMSĠLĠ YAKLAġIMLARI ÖLÇEĞĠ)

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4. GAZETECĠLERĠN YOKSULLUK VE MEDYADA TEMSĠLĠ HAKKINDA GÖRÜġLERĠ HAKKINDA GÖRÜġLERĠ

4.2. VERĠ TOPLAMA ARACI (GAZETECĠLERĠN YOKSULLUK VE MEDYADA TEMSĠLĠ YAKLAġIMLARI ÖLÇEĞĠ)

A transcrição das entrevistas constituiu uma das etapas cruciais da pesquisa de campo, ainda em curso, requerendo esforço específico e investimento de tempo para a sua realização. De fato, transcrever as entrevistas realizadas com os estudantes africanos é uma tarefa árdua, representando, mesmo para um pesquisador africano, um verdadeiro desafio metodológico, tendo em conta a diversidade linguística dos estudantes, oriundos de diferentes países africanos. Ainda que a maioria dos estudantes fosse originária dos PALOP, encontrei dificuldades na transcrição das entrevistas por conta das distintas formas de apropriação da língua portuguesa existentes nesses países, produzindo diferenças de sotaque, de dicção e, da própria construção lexical e frásica. Por outro lado, a forma de falar, de organizar ideias no processo de comunicação verbal é distinta, dentre os estudantes africanos, variando de acordo com o país e com a cultura. Assim, quando se expressam, os estudantes utilizam o jargão popular e as gírias locais, próprias de seus países e culturas de origem. Outros, como é o caso dos estudantes cabo-verdianos e bissau-guineenses, misturam a língua portuguesa com o crioulo, idioma esse usado na comunicação cotidiana entre seus conterrâneos e familiares. É emblemático este depoimento:

Eu nunca disse uma pessoa que eu sinto assim orgulho ou algum assim sabor de falar crioulo, entendeu. Mas, eu me sinto mais à vontade em falar crioulo, entendeu. Que é..., lá em Guiné, o pessoal fala assim: “eu não vou aceitar a tua cultura antes de você respeitar a minha”, entendeu. [...]. Os guineenses falam, não vou dizer, que eu também penso assim. Não, não vou me excluir, pois eu também penso assim, que português inglês francês, essas línguas são de trabalho. O que é nosso tem valor. Lá em Guiné fala assim: “quil que nosso tem balor” em crioulo, “o que é nosso tem valor”. Quil

que de nós inta pui sentir, “o que é nosso é pra prestar atenção nisso”. [Estudante bissau-guineense cursando universidade pública estadual. Entrevista gravada em 23/09/2013].

167 Por essas razões, transcrever as entrevistas tornou-se um processo lento e penoso que, de forma alguma, poderia ser transferido para terceiros, visto que nem sempre é possível entender as palavras em crioulo e também as expressões e formas de falar do português típico dos países africanos. Dessa forma, para transcrever vinte minutos de uma entrevista, levava cerca de duas horas. Tal ritmo de produtividade tornou esse processo deveras estafante.

Além desses desafios e dificuldades com os estudantes oriundos dos PALOP, tinha ainda as entrevistas realizadas com estudantes africanos de países anglófonos e francófonos, como a Nigéria, República Democrática do Congo, Senegal e Togo que aprenderam a falar o português no Brasil. Assim, tais sujeitos usavam palavras da língua inglesa e francesa que não têm equivalência na língua portuguesa, o que torna ainda mais difícil a tarefa da tradução linguística e cultural. Outra situação desafiadora encontrada nessa etapa crucial foram os distintos contextos históricos, político e sociais dos países africanos, muitos deles atingidos por crises políticas, secessões, massacres, genocídios, conflitos armados e até por situações de guerra civil.

Por conseguinte, muitas das vezes foi necessário recorrer a conhecimentos históricos, políticos, étnicos, culturais e contextuais de cada país ou região, inclusive situando os principais nomes de atores políticos no contexto das distintas nações africanas, como presidentes da república e primeiros-ministros; personagens vinculados a movimentos de libertação nacional, à guerrilhas rebeldes; nomes de partidos políticos: o conhecimento dos fatos políticos, fenômenos culturais e personagens históricos de cada nação africana mostrou- se deveras necessário para compreensão das entrevistas, possibilitando periodizações e demarcação e marcos históricos, além de expressões linguísticas próprias dessas regiões ou nações. Nesse sentido, é emblemático o ocorrido na entrevista com um dos sujeitos que ao narrar a trajetória de sua família e do seu país, termina apresentando um cenário complexo, constituído pela história do país e da região, suas relações internacionais, seus diversos conflitos nacionais, políticos e ideológicos que, só se tornam perceptíveis compreendendo todo o contexto histórico de seu país de origem bem como dos países vizinhos. Senão vejamos:

Eu tenho 20 anos, eu sou de Togo e sou solteiro. Em nasci em Lomé, capital do Togo, nasci em vinte de janeiro. Eu sou da etnia Ewe (evê). No Togo se diz Evê, mas no Gana falam Ewe. Nós temos uma história controversa com o Gana, com Kwame Nkrumah e com o presidente Eyadema. Sou cristão, católico, batizado, crismado, por aí. [...]. Na verdade eu acho que os togoleses em geral são gente felizes, sabe. Eu digo assim, a gente de se vestir, de brincar, de... todo o resto. A gora tinha muitos problemas assim, ligados à política, essas coisas, nunca chegou a ter guerra assim,

168 mas teve uns, umas confusões. Não chegou a ser um conflito armado, mas era aquelas coisas assim, brigando. Teve uma eleição em 2005, acho que você sabe mais ou menos depois da morte de Eyadema, aí os, como é que chama... os membros dos partidos políticos, quando estavam fazendo a campanha deles, você via um cara que passava com um grupo assim. Assim o pessoal do partido no poder se vestia de branco, e o pessoal do partido de oposição se vestia de amarelo e de vermelho. Aí você via os caras passando em grupo assim branco e os outros de amarelo, aí começava se xingar. Rolou uns problemas assim. Teve uns negócios assim... [mortes] mas enfim, era mais gente mais ou menos envolvida no negócio do mundo da política e tal. Mas ainda bem que os togoleses são meio medrosos. Aí ninguém chegou a pensar em fazer uma guerra. Eu tenho um irmão, somos só dois e umas minhas primas. [ Estudante togolês, cursando faculdade particular, residindo há mais de 4 anos em Fortaleza. Entrevista gravada em 28/03/2014].

Assim sendo, antes de cada entrevista, era necessário fazer uma revisão histórica do país do entrevistado, de modo a estar dentro do contexto social, político, econômico, cultural e histórico do país. Tal revisão facilitava todo o processo de entrevista e, algumas vezes servia de aproximação, empatia e interesses mútuos entre pesquisador e entrevistado, bem como evitava a necessidade de grandes contextualizações e narrativas históricas que fugissem da temática da entrevista.

Foi nesse contexto que, durante as transcrições das entrevistas, utilizei meu conhecimento histórico, político, social e econômico para organizar de forma periódica e sequenciada, as narrativas e os acontecimentos da dos estudantes africanos entrevistados para esta pesquisa. Entretanto, em outras situações, ocorreram mal-entendidos culturais que, somente foram desfeitos após diversos contatos e conversas informais com os outros imigrantes, entre estudantes e professores africanos. Um desses mal-entendidos aconteceu com os estudantes francófonos da África Ocidental e seus gostos e preferências com roupas, trajes e vestimentas e outros adereços corporais. Num primeiro momento enquanto pesquisador africano, estranhei e, achei exagerado a preocupação e investimento excessivo com as roupas, calçados e outros adereços, até então, por mim percebidos como ostentação ou estratégia de distinção social, como mostra o depoimento de um estudante africano, oriundo da África Ocidental francófona. Vejamos o extrato da entrevista:

Bem, eu sou hip-hop então [risos], o tempo todo, ou eu estou com uma calça assim, duas vezes o meu tamanho. Às vezes eu gosto de calças apertadas e coisas assim, tipo esta que eu estou vestido, pra mudar. Eu não gosto muito de roupas sociais, só as vezes, acordo assim, aí hoje vou usar uma camisa assim mais. Agora Fortaleza é quente, então é meio complexo as pessoas se perguntam como é que eu consigo assim [risos] andar com essas roupas, mas eu não sou muito de usar bermuda também, então... hábitos. Eu sempre fui meio assim, sempre fui meio... exibido também [risos]. E eu gosto muito de sapatos [tênis], sabe assim às vezes eu faço sacrifício pra comprar um tênis porque quero. Aí... bem às vezes, eu acho que inconscientemente, às vezes tem aquela coisa de salvar a imagem por que você vem pra cá e as pessoas já vão

169 falando pra você, não sei o quê: - Olha lá tem comida? Essas coisas. E às vezes eles param e olham e dizem: - eu quero saber uma coisa, como é que não tem comida na África e você se veste assim? Essas coisas. Eu creio que você já ouviu essa pergunta [risos]. Então é uma coisa assim, a gente gosta de.... pelo menos eu sou assim. Eu acho que é alguma coisa da minha família também. Quando a gente tem problemas em casa, eles são é só em casa, fora de casa, ninguém precisa saber que a gente tem. Então, a gente salva a imagem de uma forma ou de outra. [Estudante oriundo de país da África Ocidental francófona, residindo há mais de 7 anos em Fortaleza. Entrevista gravada em 28/03/2014].

Entretanto, mais tarde, após maior convivência e contatos com outros, percebi a existência de uma cultura “refinada”, do bem-vestir, conhecida como sapeur, la sape ou

sapologie 109, bastante comum entre as populações e povos da região Central e Ocidental de

África que tem no francês uma das línguas oficiais. Assim, nas cidades, ruas, praças e avenidas desses países africanos, independentemente da classe social, bem como do clima, é comum ver pessoas cosmopolitas, bem vestidas, com ternos ocidentais, camisas, sapatos, meias, suspensórios, chapéus, gravatas, óculos e outros adereços de cores garidas, misturando diferentes tons e em diferentes estilos, tornando possível o dandismo, como cultura popular.

Na realidade, nessas sociedades e regiões, a sapologie, arte do bem-vestir, longe de ser um modo de vestir aleatório e algo improvisado, obedece a certas normas e regras sociais de combinação de cores e estilos, independente da classe social, prestígio ou renda. Assim, esse estilo de vida foi conquistando adeptos no mundo africano e afroeuropeu e os sapeurs espalharam-se por todo o mundo. De fato, nesses países, a moda, o vestir bem e com estilo constitui uma paixão entre homens e mulheres desde a sua infância, algo levado à sério pelo resto da vida. Dessa forma, a sapologie constitui um fenômeno social interessante, passível de estudo sociológico. Assim, no cenário migratório e diaspórico da cidade de Fortaleza, à medida e ao mesmo tempo em que ia transcrevendo as entrevistas, fazia um trabalho de “tradução” cultural e linguística das diversas formas e modos de ser africano, do pertencimento aos países, regiões, religiões, grupos e culturas, de ser e estar, pensar e agir, em um movimento constante de idas e vindas, sempre em aberto e em construção, procurando registrar, compreender e classifica-los em “tipos- ideais”.

109 Do francês sape, SAPEURS constitui acrônimo de Société des Ambianceurs et des Personnes Elegants, algo que pode ser traduzido como Sociedade de Ambientadores e Pessoas Elegantes. A Sapeur/Sapologie foi fundada na década de 1950 pelo músico Papa Wemba, do Congo-Kinshasa, antigo Zaire, astro da rumba africana em resposta à proibição do então presidente Mobutu Seseko do uso do terno Ocidental. Assim, os ternos africanos locais começaram a rivalizar com as grandes marcas e grifes europeias. Na França, Papa Wemba tornou-se embaixador da rumba africana, da moda e estilo de vida sapeur. Assim, atualmente, la sape ou sapologie, configura uma arte e ciência do bem-vestir, com cores colorida e um bonito estilo, característicos das culturas de alguns países francófonos da África Ocidental – Benin, Camarões, Congo-Kinshasa, Congo-Brazzaville, Senegal, Togo – ou entre os seus cidadãos residindo na Diáspora na Europa e América Latina.

170 5. CIRCUITOS DIASPÓRICOS: EXPERIÊNCIAS DE ESTUDANTES AFRICANOS NO CEARÁ

Por não conseguir sempre pôr em conformidade o direito e o fato, a imigração condena-se a engendrar uma situação que parece destiná-la a uma dupla contradição: não se sabe mais se se trata de um estado provisório que se gosta de prolongar indefinidamente ou, ao contrário, se se trata de um estado mais duradouro, mas que se gosta de viver com um intenso sentimento de provisoriedade. (Abdelmalek Sayad)

Na condição de estudante africano, oriundo de Moçambique, residindo há cinco anos em Fortaleza, sinto-me interpelado a compreender esse fenômeno, problematizando-o como objeto de estudo. A pretensão investigativa é compreender o cotidiano de estudantes africanos nos percursos da Diáspora, focando os seus processos identitários em construção nas suas trajetórias como imigrantes em Fortaleza. Nessa perspectiva, interessa-me trabalhar três dimensões: os sentidos e significados de ser negro, africano e imigrante na sociedade cearense; as interações entre cearenses e africanos; as estratégias de inserção dos estudantes em Fortaleza. Trata-se de um estudo sobre o cotidiano de migrantes africanos “temporários” residentes em uma metrópole do nordeste brasileiro com altos índices de violência, segregada por seus bairros ricos e pobres, bem como por distinções de classe, raça, sexo, gênero e religião, num cenário marcado por dificuldades de acesso à escolaridade e emprego. Os africanos são classificados como “temporários” pelas autoridades brasileiras devido à sua condição de estudantes, possuindo um visto “temporário: Item IV” que tem que ser renovado ou prorrogado anualmente.

Assim, neste Segmento, primeiro, faço uma contextualização e análise da presença de estudantes africanos na cidade de Fortaleza-CE, iniciada em finais do século XX e início do século XXI, descrevendo o cotidiano desses sujeitos, seus modos de vida e o encontro com a alteridade socioeconômica, racial e cultural cearenses. Em seguida, problematizo acerca do ensino superior nos países africanos, com foco nos PALOP e seus alunos integrantes desta Diáspora, sob a perspectiva do neocolonialismo das IES cearenses. No terceiro ponto, descrevo o ambiente hostil, caracterizado pelo preconceito, racismo institucional, diferentes vulnerabilidades, insegurança e desproteção que este segmento diaspórico vivencia, para logo

171 em seguida, verificar a interação dos estudantes africanios com o mercado imobiliário nos processos de aluguel de imóveis na cidade. As agremiações estudantis e outros movimentos associativos africanos também são objeto de análise e por último, discorro acerca dos desafios encontrados pelos estudantes africanos matriculados na Unilab, no interior do Ceará, nos municípios de Redenção e Acarape que, apesar da distância física e geográfica, vivenciam um ambiente semelhante ao da Diáspora na cidade de Fortaleza.

5.1. Estudantes africanos em Fortaleza no final do século XX e início do século XXI