DÖRDÜNCÜ BÖLÜM
4. GAZETECĠLERĠN YOKSULLUK VE MEDYADA TEMSĠLĠ HAKKINDA GÖRÜġLERĠ HAKKINDA GÖRÜġLERĠ
4.4. BULGULAR VE YORUMLAR
4.4.1. MEDYADA YOKSULLUĞUN TEMSĠLĠ YAKLAġIMI ELEġTĠREL BOYUTU
da década de 1990, com o primeiro grupo oriundo de Angola.110 Nesse período, vinham
somente estudantes de países africanos que falam a língua portuguesa para integrar-se na UFC, através do PEC-G. Entretanto, em conversas com antigos estudantes, professores e funcionários que passaram pela UFC nesse período, revelam, ainda na década de 1990, a presença não apenas de alunos dos PALOP, mas também de estudantes oriundos de nações africanas francófonas e anglófonas. Vejamos, em seguida, o trecho de uma conversa informal, mantida numa rede social, com um senegalês, antigo estudante da UFC e integrante do PEC- G, em 1994. Durante a conversa, o antigo estudante revela nostalgia e saudades da vida de universitário na cidade de Fortaleza, descrevendo um pouco a realidade, então, vivenciada pelos alunos africanos do convênio.
Fortaleza e UFC eram meus lares. Já morei aí e foi nessa capital que fiz português para estrangeiros antes de seguir caminho de sucesso no Brasil. Saudade da residência universitária em Benfica, ao lado da Barbará de Alencar e da Av. da Universidade onde fazia o caminho todos os santos dias. Cheguei aí em 94, bem jovem e encontrei um marfinense do nome de Sebastien que fazia Agronomia. Morávamos juntos na residência. Foi ele que estava ali e eu para passar um semestre e era tempo bom. Tinham poucos africanos (um senegalo-guineense, menos de 10 cabo-verdianos, idem para angolanos, um gabonês e eu). O resto morava aí em apartamentos. A cidade não era como hoje (na última vez que estive aí, me perdi, quando ia para praia do Futuro e Beira Mar). Ainda tínhamos ligação para África quando precisávamos. Tinha residência, mas como muitos africanos tinham bolsas, preferiram apartamento do que dividir com brasileiros. [Conversa informal via Facebook, professor senegalês, radicado em Salvador-BA, relato capturado em 20/08/2013].
O relato acima bem descreve a presença de estudantes africanos de nações não lusófonas, bolsistas do PEC-G na UFC, oriundos de países como Senegal, Costa do Marfim e Gabão, no início dos anos 90 do século XX, na cidade de Fortaleza. Nesse período, tais
110 Informação verbal fornecida pelo presidente da Associação de Estudantes Africanos no Estado do Ceará (AEAC), estudante africano residente no Ceará há mais de uma década.
172 sujeitos moravam em residências universitárias, dividiam apartamentos e/ou casas, somente com conterrâneos seus ou, com outros estudantes oriundos do mesmo continente. A maioria auferia bolsa de estudos e apresentava bons resultados nas faculdades e nas relações com a população local. Entretanto, com o aumento do número de estudantes africanos, a situação de “certa estabilidade” parece ter mudado, diante da carestia da vida e inflação que afetou a sociedade brasileira nesse momento histórico da primeira metade da década de 1990, conforme aponta o depoimento desse antigo estudante, participante do convênio. Vejamos a continuação de seu relato ainda neste depoimento:
A situação ficou difícil em Fortaleza como em outros lugares pela numerosos africanos que chegaram. Soube que agora vocês são mais de 30 na cidade, coisa inimaginável nos anos 90 e início de 2000. O preço de ônibus era muito barato na época. O botijão de gás era 2,00. Mas era uma inflação muita dura. Cada dia, era preço de ônibus, de pão, tudo diferente. Eu andava pela cima e pelo baixo em Fortaleza, fiz muita amizade e voltei para Dacar e perdi contato. Não era como hoje com as redes sociais, mas estou encontrando alguns por pouco. Acredito que vocês estão bem, pois a primeira geração semeou uma semente e os africanos eram conhecidos pelo sucesso nos estudos, nos comportamentos. A integração africana no Brasil tem sempre algo a dizer. Uns sofreram, outros nem tanto, outros adoraram, mas sempre tem um olhar estranho e estrangeiro da parte brasileira. [Conversa informal via rede social Facebook, professor senegalês, radicado em Salvador-BA, relato capturado em 20/08/2013].
De fato, após algumas mudanças políticas e socioeconômicas acontecidas nesse período na sociedade brasileira, a vida dos estudantes que já cá estavam, assim como daqueles que chegavam passou a ser marcada por dificuldades econômicas. Acerca deste período da história do Brasil, pesquisadores como Boris Fausto (1999), bem como Del Priore & Venâncio (2010) circunscrevem o início da década de 1990 no Brasil, como um período de turbulência político-econômica, com acontecimentos-chave que passo a demarcar.
Em 1990, Collor de Melo chega ao poder numa eleição disputadíssima com mais seis candidatos à presidência da república. Já na Presidência, Collor deflagrou o processo de ajuste do país ao capitalismo financeiro. Neste sentido, dá início ao plano macroeconômico do seu governo chamado “Plano Collor”, marcado pela abertura do mercado brasileiro às importações, com redução dos impostos aos produtos importados, criando assim, uma oferta de produtos e consequente queda ou estabilização de seus preços. É o início de uma política de incentivo aos investimentos externos no Brasil e de um programa nacional de privatização das grandes indústrias brasileiras. Tais ações tiveram uma boa aceitação inicial da sociedade brasileira. Collor opera algumas reformas como a redução da máquina administrativa, através da extinção ou fusão de ministérios e órgãos públicos, demissão de funcionários e
173 congelamento de preços e salários.
Entretanto, para a maioria da população brasileira, ficou na memória, um governo que foi caracterizado pelo retorno da antiga moeda Cruzeiro, em substituição ao Cruzado Novo. E mais: pelo aumento dos preços de serviços públicos essenciais, como gás, energia elétrica e correios; pelo confisco dos ativos financeiros, incluindo as poupanças bancárias de milhões de brasileiros; venda das maiores indústrias brasileiras a juros baixos, através do processo de privatização, com perda de mais de 920.000 postos de trabalho e uma inflação na casa dos 1200%, criando um clima de descrédito em relação às políticas inflacionárias. Além de não ser bem-sucedido, o “Plano Collor” lança o Brasil numa profunda recessão econômica, em uma conjuntura marcada por comportamentos hostis ao Congresso e pela ampliação da corrupção numa escala, então nunca vista, resultando num fracasso. O seu governo mantém-se apenas dois anos no poder, mais precisamente, até 1992, sendo derrubado em meio a um processo de impugnação do mandato, que entra para a História como “impeachment”, por conta de denúncias de corrupção pela imprensa, a partir de acusações de seu próprio irmão. Assim, o presidente Color é obrigado a renunciar em 29 de dezembro de 1992, deixando o cargo para o vice-presidente Itamar Franco.
Ainda sobre a vivência deste tempo, o nosso interlocutor realça o “sofrimento” de parte dos estudantes africanos, diante do “olhar estranho e estrangeiro da parte dos brasileiros”. Tal olhar impregnado de suspeita transmitindo uma tensão constante – que, muitas das vezes, manifesta-se de forma preconceituosa e discriminatória – é percebido ainda hoje pelos estudantes africanos, particularmente, quando se trata de acessar serviços públicos e instituições, como lotéricas, bancos, ônibus, instituições de ensino, com as respectivas filas que se formam para acessar a tais serviços.
Em seu relato seguinte, este antigo estudante senegalês que, atualmente, é docente universitário – das disciplinas de Sociologia, Comunicação e Língua Estrangeira em uma IES Estadual da Bahia – narra um pouco de sua trajetória do Senegal ao Brasil na década de 1990, junto com seus conterrâneos: as preferências por algumas IES e por estados do Centro-oeste brasileiro, mais concretamente Brasília-DF por conta da proximidade com a Embaixada de seu país de origem; a descoberta do distanciamento da embaixada de seu país perante seus concidadãos; as viagens e mudanças efetuadas pelo Nordeste do Brasil para aprender a falar a língua portuguesa; as dificuldades em se adaptar e integrar num dos cursos por conta da influência de seus conterrâneos; a desistência de colegas que rejeitaram o Brasil e de outros
174 que preferiram ir a países ocidentais europeus e norteamericanos como a França e o Canadá, ao invés de continuar os estudos neste país latinoamericano; o sentimento de solidão e de isolamento por estar diante de seus compatriotas, quase todos em estados do Centro-oeste e sudeste brasileiros.
Muitas dessas situações revelam o estágio do PEC-G e das universidades federais brasileiras nesse período, um cenário em que poucas ofertavam curso de português para estrangeiros. Este antigo estudante também narra a sua tentativa frustrada de ficar em Fortaleza, após um tempo de adaptação, e a mudança para o Distrito Federal. Mesmo tendo mudado de curso e não tendo o português como língua materna, com muito esforço, este sujeito, então estudante do PEC-G, fez a sua Gradução em tempo recorde – três anos – e, logo em seguida cursou o Mestrado, mas sem bolsa de estudos. Em seguida, relata a facilidade em viajar de ônibus entre as capitais do Nordeste – Fortaleza, Natal, Recife – por conta do preço acessível das passagens, apesar da inflação alta nesse período de crise políticoeconômica. Leiamos e analisemos sua narrativa:
Hummm interessante! É sobre que curso. Ciênciais sociais? Eu responderei o questionário sem problema mas quero depois uma cópia do trabalho como professor de sociologia, comunicação e lingua estrangeira. A integração africana no Brasil tem sempre algo a dizer. Uns sofreram, outros ñem tanto, outros adoraram, mas sempre tem um olhar estranho e estrangeiro da parte brasileira. Na verdade, não queria nem vir para Nordeste, mas em Brasília. Quando fui selecionado, eram 19, 3 desistiram antes de chegar. Ficamos 16 e entre eles 3 para Nordeste (Natal). Eu queria estar perto da embaixada para qualquer coisa, vc grita e vão te ouvir, kkkkk (puro engano, não sabia que eles não estão nem aí com os estudantes). A minha decepção era que não havia vaga e escolheram para mim Natal e o resto ficou entre DF, BH, RJ e SP (eles eram mais perto uns aos outros). Eu estava mais longe de todos. Finalmente meus dois amigos que deveriam vir comigo em Natal desistiram e foram para França e Canadá. Na época, os estudantes estrangeiros faziam português em Porto Alegre e qdo começavam a se adaptar, tiveram que mudar para suas regiões para curso. Era mais uma outra adapção. Em 94, mudou-se isso e Fortaleza e Recife eram únicos lugares (UFC e UFPE) que ofereciam português para estrangeiros. Fui para Fortaleza a 8h de Natal mas Recife é mais Perto (4h). Fiquei aí de março a julho de 94 após a Copa do tetra do Brasil. Tive que voltar para Natal onde me matricularam. Tentei ficar em Fortaleza mas era coisa burocrática e tive que negociar em DF. Era fácil, mas não sabia dos mecanismos. Fui selecionado para cursar Serviço Social e fiz somente 15 dias de aulas para mudar para comunicação social- jornalismo. Não aguentei as chacotas dos africanos pois a turma só tinha lindas moças, coisa boa, mas era eu e mais um militar, os únicos homens. kkkkkkkk. Pedi para mudar e foi aceito em DF. Terminei em 3 anos de curso (adiantei fazendo no segundo semestres 3 semestres juntos manha, tarde e noite) e em dois semestres fazia 4. Fiz mestrado. O que era para fazer graduação (o tempo) aproveitei para mestrado. Estudei até terminar mestrado sem bolsa. Mas estava viajando toda semana entre Fortaleza, Natal, JP e Recife onde o preço de onibus eram muito barato na época. Fortaleza - Natal eram R$ 8,00; Natal - João Pessoa 2,00; Natal - Recife 6,00; Fortaleza - Recife 10,00. O botijão de gás era 2,00. kkkk. Mas era uma inflação muita dura. Cada dia, era preço de onibus, de pão, tudo diferente. Mas fiquei só 5 meses para que a moeda mudasse e tudo ficou legal e boa. Quando morei aí, não tinha Associação, mas um grupo de africanos que se reunem nas festas e na universidade (todos eram da UFC entre Benfica e Pici), Unifor
175 estava começando perto do shopping Iguatemi. Mas os africanos eram unidos só os caboverdianos que eram um pouco afastados, mas a gente se falava e se dava bem. 4 associações, waaaaw, vocês são muitos então. Tive até notícias de que alguns africanos estavam passando dificuldades aí. Pode deixar te visito qdo chegar aí. O André Haguette é gente boa, meu mestre meu amigo. Eu ficava no sítio dele qdo visitava Fortaleza. Conheci a ex-mulher que era professora e morreu antes de ele se casar de novo. Conheci ela tb. Ele foi um membro de minha banca de mestrado. Vc tb quando quiser visitar Bahia, a casa está aberta. [Conversa informal com Professor senegalês radicado na Bahia. Conversa mantida via Facebook em 20/08/2013]. Como é possível observar na parte final nesta narrativa, há uma descrição do cenário políticoeconêmico vivido no Brasil na década de 1990, particularmente, a inflação e o preço dos produtos na cidade de Fortaleza e em algumas cidades do Nordeste brasileiro, num contexto em que os preços de ônibus, dos produtos básicos e do botijão de gás aumentavam a cada dia, assim como este interlocutor descreve a estabilidade econômica que se seguiu após o
impeachment do presidente Collor de Melo. Ele aborda também a criação de uma das
primeiras universidades privadas de Fortaleza, a Unifor, sediada há alguns quilômetros do então maior Shopping da cidade. Este interlocutor também relata o contexto vivenciado pela comunidade africana, ainda sem estar organizada em agremiações estudantis, apesar da existência de um grupo de cabo-verdianos bastante coeso que se reuniam nas festas e na Universidade.
Por último, este sujeito lembra a amizade com alguns professores do Curso de Sociologia da UFC, hospitalidade destes desse casal de docentes, na qual ele se hospeda sempre que vêm ao Ceará e, demonstra também estar informado acerca do crescimento da Diáspora africana no Ceará e das dificuldades vivenciadas pelos seus integrantes residentes em Fortaleza na atualidade. Ainda acerca da presença africana na cidade de Fortaleza e no Estado do Ceará, vejamos agora, um relato de um estudante bissau-guineense, que apresenta outro momento, demostrando a existência majoritária de estudantes oriundos dos PALOP, ao abrigo do PEC-G. Entretanto, esse relato também mostra outra perspectiva, ao narrar, cerca de dez anos depois, a chegada, a partir dos anos 2000, dos primeiros estudantes com contratos para estudar em faculdades particulares. Trata-se da narrativa de um africano residindo há mais quinze anos nesta cidade e neste Estado. O depoimento revela-se marcante pois, trata-se da fala de um dos líderes do associativismo africano, relatando a experiência do contingente de estudantes nesse período e, as percepções e representações da sociedade local, acera desta presença. Ora, vejamos:
176 Bom, eu cheguei aqui em 2001. Em 2001 peguei uma turma de alunos africanos que já estavam já no finalzinho do curso. Acredito que esse grupo já tinha..., chegaram aqui em 1996-1998, acredito, tinha cabo-verdiano, angolano, moçambicano, guineense, né, praticamente. Tinha mais angolanos, tinha se não me engano, em média, 5 angolanos, 2 guineenses, mais 3-4 cabo-verdianos, 1 moçambicana e, só. Aí depois chegou o meu grupo, em 2011, né, éramos 4 guineenses, 1 cabo-verdiana, certo, participando efetivamente do PEC-G, né. Nos anos seguintes, 2002, 2003, 2004, começaram a chegar mais estudantes pra as faculdades privadas: o (X) [guineense] pra a FANOR, e o (Y) de Cabo-Verde também pra FANOR. Então a partir desses primeiros que chegaram pra aqui, começaram a vir mais estudantes paras faculdades privadas. Assim hoje, somamos mais de 1500 estudantes africanos aqui no Estado. Os primeiros vieram pra Universidade Federal, eu lembro muito bem que.., quando cheguei aqui, os que eu entrei ainda, passamos por algumas dificuldades né, de ordem mesmo financeira porque alguns países na época, no continente africano tavam tendo problemas internos, o caso de Angola, Guiné-Bissau, a gente tinha problemas, e esses aí, eu cheguei aqui eu vi o comecinho é..., da melhoria da situação desses alunos. E hoje estamos nessa situação diferenciada, né, totalmente diferente do que se vivia antes, né. Muita coisa mudou em termos de convivência com o povo local, né, temos hoje uma identidade própria. Antigamente éramos ou baianos ou maranhenses, ou sei lá. Cearense nunca poderia ser. Porque negro sempre consideravam os que eram de fora e, hoje já temos uma identidade própria devido ao número maior, já temos uma convivência mais próxima com os colegas e já sabem quem é da Guiné-Bissau, quem é de Cabo-Verde, quem é de São-Tomé, Moçambique e por aí vai. Então, as coisas têm se mudado bastante. [Estudante bissau-guineense residindo em Fortaleza há mais de 15 anos, cursando universidade pública, ativista e líder de associações africanas. Entrevista gravada em 22 de maio de 2011].111
O relato acima contextualiza historicamente, a inserção dos africanos no Ceará, nas universidades públicas e particulares, a situação de instabilidade político-militar nos seus países de origem, particularmente, Angola e Guiné-Bissau e, como esses acontecimentos afetavam o cotidiano e a vida desses sujeitos diaspóricos. Por outro lado, revela como foi a recepção dos estudantes pela sociedade local, cuja identidade própria era desconhecida, bem como as representações existentes acerca desses sujeitos, então tidos como baianos e maranhenses, por serem negros. Tal representação bem revela a autoimagem da população fortalezense, cujos referenciais fenotípicos são eurodescendentes, ignorando a existência de pessoas de raça negra e de afrodescendentes no Estado do Ceará.
Na ótica da população fortalezense, sendo negros, os estudantes africanos eram tidos como baianos ou maranhenses pois, como mostra o relato, “negros só os de fora”. No cenário da Diáspora em Fortaleza, os africanos sentiam-se e ainda sentem forasteiros, inseguros, expostos aos olhares constrangedores dos brasileiros, bem como aos riscos e às vezes surpresas desagradáveis: olhares oblíquos, gestos bruscos e cuidado redobrado com os pertences. Enfim, nesta atmosfera “pesada”, os africanos sentem que estão “na terra dos
111 Nesse relato, X e Y correspondem aos nomes próprios de dois estudantes que, por questões éticas, omite tais nomes, de modo a proteger suas identidades.
177 outros”. Senão vejamos o depoimento de um estudante moçambicano, acerca da interação com fortalezenses no acesso a um caixa eletrônico de um banco, localizado em uma loja de conveniência de um posto de gasolina:
Uma vez, fui consertar o meu laptop em uma loja de informática no bairro Varjota. O técnico de informática explicou-me que se pagasse em espécie teria 10% de desconto. Assim, dirigi-me ao caixa eletrônico mais próximo, que ficava em um Posto de Combustíveis na esquina das avenidas Santos Dumont e Coronel Jucá, dentro de uma padaria/lanchonete, para sacar o dinheiro. Entrei na lanchonete, dirigi-me ao caixa eletrônico e formei a fila. De imediato, percebi que os clientes da lanchonete e outras pessoas que estavam na fila se sentiam incomodados com a minha presença naquele local porque era negro. [Extrato de conversa informal com estudante moçambicano cursando Geografia em Universidade Federal, residente em Fortaleza há 4 anos. Extrato de conversa informal ocorrida em 03/06/2011].
De fato, o cotidiano dos estudantes africanos nesta Diáspora é perpassado por diversos constrangimentos e formas de expressão de violências simbólicas – evitação, distanciamento físico e social, mudança de rua, de calçada, de assento, atendimento diferenciado, mau humor, palavras secas e ríspidas – mesmo que não sejam mencionadas ou percebidas como tais, pelos estudantes, particularmente, sob forma do preconceito e das múltiplas formas de discriminação raciais e, mal-entendidos.112 Continuando a contextualização da presença
africana contemporânea no Ceará, cabe destacar que, a partir de 1998, inicia-se a imigração de estudantes bissau-guineenses e cabo-verdianos e, dois anos depois, estudantes são-tomenses, angolanos e moçambicanos, em menor número. No início dos anos 2000, há um aumento significativo do número de estudantes africanos residentes no Ceará, cuja maioria vem estudar em faculdades particulares, com contratos firmados em seus países de origem, a partir de publicidade e vestibulares realizados nos referidos países de origem, particularmente na Guiné-Bissau, mas também em outros países, como Cabo-Verde e São-Tomé e Príncipe.113
Chegado aos Brasil, especificamente, à Fortaleza, esses estudantes confrontaram-se com uma realidade bastante distinta daquelas facilidades prometidas pelas faculdades
112 Ao longo de cinco anos de vivência no Brasil, a palavra mal-entendido tornou-se comum no meu cotidiano. No Brasil, as diversas formas sutis de preconceito e discriminação racial contra pessoas de raça negra são classificados de mal-entendidos, particularmente, contra crianças negras. Assim, sempre que relatados, em lojas,