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ÜÇÜNCÜ BÖLÜM

3. HABERLERDE YOKSULLUĞUN TEMSĠLĠ VE YAPISAL YANLILIK YANLILIK

3.3. YAPISAL YANLILIK

3.3.3. ÖZNELERĠ KONUMLANDIRMA

Nos caminhos da pesquisa, vivenciei a aventura de adentrar no campo, no contato sistemático com os sujeitos da investigação. Para tanto, efetivei uma inserção nas IES, definidas como locus da pesquisa, em busca de estudantes africanos. Realizei esta inserção de campo em três IES de Fortaleza, sendo duas públicas e uma privada, concretamente, na UFC, na UECE, e nas Faculdades Nordeste (FANOR). No entanto, ao partir de uma rede de contato informal, cheguei a estudantes africanos vinculados a outras IES particulares de Fortaleza.

161 Assim, entrevistei estudantes de distintas nações africanas, de grupos etnolinguísticos, diferentes religiões e classes.

As visitas sistemáticas às IES permitiram aproximações com os sujeitos, com destaque para conversas informais, realização e agendamento de entrevista. Desse modo, parte das entrevistas foram realizadas nas próprias IES e parte em outros espaços devidamente acordados, inclusive nas residências dos africanos. Cabe destacar que a composição do grupo de africanos e africanas entrevistados também considerei contatos pessoais e indicações de entrevistados. De fato, conheci parte dos estudantes entrevistados “de vista”, porque frequentávamos, então, alguns espaços em comum, como o restaurante universitário da UFC, agremiações estudantis e festas africanas.

E via de regra, quando conseguia uma entrevista com um estudante, perguntava se ele não conhecia outro estudante do mesmo país e, eles iam passando a informação para seus colegas ou amigos, estabelecendo uma rede informal desses contatos. Usei esta estratégia como forma de contornar dificuldades em encontrar dados sistematizados acerca do contingente de africanos e seus respectivos cursos, no âmbito das IES, inclusive das duas públicas. A rigor, ausência de dados numéricos e estatísticos sistematizados acerca dos estudantes africanos inseridos nas IES brasileiras em Fortaleza, impediu-me de ter informações mais detalhadas sobre os estudantes e seu perfil nos percursos da Diáspora.

Relativamente aos critérios na escolha dos entrevistados, nem sempre pude entrevistar estudantes que residiam há cerca de quatro ou mais em Fortaleza, conforme pretendíamos e havíamos definido no projeto de pesquisa, devido à própria dinâmica do campo. Assim, acabei entrevistando alguns estudantes que moravam há menos tempo do que aquele definido como critério, por diferentes motivos: alguns eram oriundos de países francófonos e anglófonos; outros, mostravam-se interessados em participar da pesquisa e, ainda, porque eram do sexo feminino e, encontrei resistência, por parte das mulheres residindo há mais tempo em Fortaleza. Assim, parte das mulheres entrevistadas residia há dois ou, mesmo, um ano em Fortaleza.

Do total de vinte e seis estudantes entrevistados, metade cursava faculdades particulares e a outra metade estava inserida em universidades públicas. Entre os estudantes, dois estavam vinculadas em universidades públicas e faculdades particulares, ao mesmo tempo, fazendo dois cursos em simultâneo. Convém destacar que, embora o contingente de estudantes africanos em Fortaleza, inseridos em faculdades particulares seja bem maior que os

162 vinculados a instituições públicas, tive dificuldades de acesso aos estudantes das faculdades particulares, considerando a sua própria disponibilidade de tempo e a abertura para falar de suas trajetórias, marcadas por dificuldades e precarizações. Já em relação aos estudantes vinculados à UFC, encontrei considerável facilidade de acesso por estarmos no mesmo contexto universitário e pelas próprias condições de vida desses sujeitos. Dentre os entrevistados, dois eram líderes de agremiações estudantis africanas, tendo sido as duas primeiras entrevistas, realizadas no ano 2011, durante a semana africana.

No tocante aos cursos, grande parte das mulheres africanas estavam inserida no Curso de Enfermagem, em seguida vinha o Curso de Direito, depois o de Administração, Arquitetura e Relações Internacionais. Já entre os homens, havia maior dispersão e diversidade de inserção entre os Cursos, não havendo uma predominância. O curso de Enfermagem é o mais procurado por mulheres e homens bissau-guineenses pois, permite uma rápida inserção no mercado de trabalho. Já a maior parte dos estudantes são-tomenses estavam inseridos em cursos de Direito e Arquitetura.

Entre os estudantes entrevistados, cerca de doze trabalhavam ou, estavam envolvidos em estágios remunerados, dos quais, somente, três tinham “carteira assinada”. Os três que possuíam carteira assinada eram do sexo masculino. O estágio remunerado não apresentava segurança, pois, findo o semestre, poderia ser renovado ou não. Entre os estudantes vinculados às faculdades particulares, quase todos estavam inseridos no mercado de trabalho ou estágio remunerados. Entretanto, é nesse segmento que se verifica a inserção em trabalhos precários.

Já os estudantes inseridos em universidades públicas, quase todos auferiam de bolsas de estudos. Dentre os estudantes entrevistados, apenas um professava a religião islâmica, sendo que a maioria se afirmava católico, mas nem todos frequentavam a igreja com regularidade. Já entre as mulheres, parte delas frequentavam igrejas evangélicas. Dentre os entrevistados do sexo masculino, quatro eram casados com mulheres brasileiras. Por sua vez, entre as mulheres africanas, nenhuma era casada, somente uma morava “consensualmente” com o namorado e este era africano.

Alguns dos estudantes africanos que moravam “maritalmente” com mulheres brasileiras, alguns casaram-se oficialmente com estas, pouco tempo após as entrevistas. Com a exceção da mulher casada, as estudantes africanas estavam solteiras ou pareciam estar envolvidas em relacionamentos não muito estáveis.

163 Algumas namoravam à distância, por via do telefone ou da internet, pois seus namorados residiam fora de Fortaleza, em outras cidades do Ceará, ou outros Estados do Brasil e, mesmo fora do país, na Europa em Portugal, na Holanda ou, mesmo, em África. Dessas mulheres, apenas uma tinha namorado de nacionalidade brasileira, mais especificamente, um baiano, afrodescendente.

Relativamente a filhos, cabe destacar que dentre os africanos e africanas entrevistadas, dois estudantes do sexo masculino tinham filhos, duas mulheres estavam grávidas no momento das entrevistas e outra tinha filho em seu país de origem. Todos os estudantes com filhos estavam inseridos em faculdades privadas.

Em termos socioeconômicos, via de regra, os estudantes cabo-verdianos encontravam- se em melhor situação financeira, assim como os são-tomenses, apesar de um e outro caso de estudantes desses países apresentarem dificuldades econômico-financeiras. Os estudantes dessas duas nações contavam com a ajuda de familiares em África, em Portugal ou em outros países como EUA.

Alguns estudantes são-tomenses possuíam planos de saúde ou, frequentavam clinicas privadas, em caso de adoecimento. Já os estudantes bissau-guineenses levavam uma vida “mais sofrida”, com dificuldades financeiras, tendo que trabalhar “duro” para sobreviver e pagar mensalidades, com inserções precárias no mercado de trabalho. Alguns desses estudantes, em determinado momento, haviam abandonado, temporariamente, as faculdades por conta de dívidas. Os estudantes de países francófonos e anglófonos estavam quase todos inseridos na UFC.

Ao fazer a configuração do trabalho empírico, ao longo de quatro meses de pesquisa de campo, realizei, ao todo, 28 (vinte e oito) entrevistas, sendo 2 (duas) com profissionais que atendem aos estudantes nas duas IES públicas e 26 (vinte e seis) com estudantes africanos, sendo 9 (nove) da UFC, 2 (dois) da UECE, 6 (seis) da FANOR, 2 (dois) da Faculdade Estácio-FIC, 1 (um) da Faculdade Oboé, 1 (um) da Faculdade de Ensino e Cultura do Ceará (Faece), 2 (dois) da Faculdade Católica, 1 (um) do IFCE, 2 (dois) do Instituto de Assistência Social (IA Social). Dentre estes estudantes, (2) dois estavam inseridos em 2 (duas) faculdades diferentes, cursando, ao mesmo tempo, 2 (dois) cursos superiores. A Tabela 6 circunscreve elementos do perfil dos entrevistados:

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Tabela 5. Relação dos estudantes entrevistados na pesquisa de campo País Ano da Entrevis ta Tempo Estadia Fortale za Faculdade

onde estuda Sexo Curso Superior Vinculação no Mercado do Trabalho Guiné-

Bissau 2014 4 anos Estácio FIC Masc. Enfermagem Hosp. Geral Fortaleza- contrato de trabalho 2014 1 ano IA Social Fem. Enfermagem Clínica

Particular - contrato de trabalho 2014 4 anos Estácio-FIC Fem. Enfermagem Hosp. Cesar

Cals - contrato de trabalho 2014 5 anos UFC Fem. Letras Não tem vínculo 2014 2 anos UECE/Darc

y Ribeiro Masc. Admin./Filosofia Estágio Inst. Poliglota 2014 4 anos Oboé Fem. Administração Vendas/Barraca 2015 6 anos UECE Masc. Biologia UECE- contrato

de trabalho 2012 4 anos UFC Masc. Letras Não tem vínculo 2011 12 anos UFC Masc. Prodema/Química Professor IFCE 2014 5 anos IA Social Masc. Enfermagem Empresa de

Vendas-contrato de trabalho

Cabo- Verde

2014 4 anos UFC Masc. Arquitetura Estágio 2014 4 anos FAECS Fem. Administração Estágio/SEJUS 2014 7 anos Fac.

Católica Masc. Teologia Professor Escola Particular E.F. II

2014 5 anos FANOR Masc. Turismo Não tem vínculo 2014 6 anos UFC Masc. Publicidade Estágio

2014 1 ano UFC Fem. Arquitetura Não tem vínculo 2011 4 anos FANOR Masc. Jornalismo Não tem vínculo 2011 2 anos FANOR Masc. Não tem vínculo

Togo 2014 2 anos UFC Masc. Letras Cantor

São- Tomé

2014 6 anos FANOR Masc. Arquitetura Faz bicos pontuais 2114 4 anos FANOR Fem. Direito Estágio/ Fórum

Clovis Bevilac. 2014 4 anos FANOR Fem. Direito Não tem vínculo

Angola 2014 4 anos UFC Masc. Eng. Informática Não tem vínculo

Nigéria 2014 12 anos Fac. Católic /Academia. Segurança Pública Masc. Teologia/ Segurança Pública SEJUS/Contrato de Trabalho R. D. Congo

2014 3 anos IFCE Masc. Informática Não tem vínculo 2014 UFC Masc. Medicina Não tem vínculo

Total de

entrevis 26

165 No tocante, especificamente, à nacionalidade dos entrevistados, 10 (dez) eram oriundos da Guiné-Bissau, 8 (oito) de Cabo-Verde, 3 (três) de São-Tomé e Príncipe, 2 (dois) do Congo-Kinshasa, 1 (um) de Angola, 1 (um) do Togo e 1 (um) da Nigéria. Relativamente ao gênero, do total de estudantes entrevistados, 19 (dezanove) eram do sexo masculino e 7 (sete) do sexo feminino. Além desses estudantes entrevistados, mantive conversações informais com outros estudantes do Congo-Kinshasa, do Gabão, da Guiné-Bissau, do Benin, de Moçambique, de São-Tomé e Príncipe e um antigo estudante do Senegal, hoje professor radicado na Bahia.

Tais conversas informais decorreram em distintos lugares, quais sejam: encontros casuais nos ônibus, em reuniões das agremiações estudantis africanas, nas festas africanas, e mesmo chats na Internet, através das redes virtuais, como o Facebook e o WhatsApp. Cabe lembrar que das 26 (vinte e seis) entrevistas com os estudantes, 14 (quatorze) foram digitalizadas na íntegra e 12 foram pontualmente transcritas, a partir de determinadas temáticas. Ao longo das entrevistas, percebi que as conversas com os alunos africanos decorreram com relativa tranquilidade, particularmente, aquelas realizadas com estudantes do sexo masculino, com uma média de duração de tempo de 1 hora e meia. Já as entrevistas com estudantes do sexo feminino foram as mais difíceis de realizar e, normalmente, levaram metade do tempo das realizadas com os homens.

Em geral, as mulheres tinham mais receios em aceitar o convite para a entrevista e, durante o decorrer da conversa apresentavam posturas que dificultavam a interlocução: pareciam não entender às minhas colocações ou não se sentiam à vontade em responder às perguntas que eu fazia. Na realidade, revelavam pouco sobre si, suas identidades e transformações ocorridas nas suas trajetórias e percursos na diáspora. Algumas vezes, quando perguntava acerca de questões de caráter mais íntimo como a vida afetiva, as estudantes africanas não respondiam ou mudavam de assunto. Entendo que tais situações podem ser atribuídas às questões de gênero, isto é, ao nosso lugar social de pesquisador e de homem africano, como obstáculo no sentido de ganhar confiança das mulheres para que assim pudessem contar fatos mais pessoais de caráter mais íntimo sobre suas trajetórias e vida pessoal.

Durante as entrevistas, muitos estudantes revelaram suas trajetórias e percursos identitários entre os seus países de origem e o Brasil, os desafios e dificuldades encontradas nesses processos, os momentos de tensão, as conquistas e as mudanças mais significativas

166 ocorridas em suas vidas, bem como as suas expectativas quanto ao futuro. Nessas conversas, percebemos sempre uma maior abertura dos homens para discorrerem com maior desenvoltura sobre a sua inserção na sociedade brasileira, e suas interações na sociedade cearense. Cabe destacar que as interações dos homens africanos em Fortaleza efetuam-se em função da frequência a diferentes espaços sociais por conta do trabalho e amizade com brasileiros e, também, interações proporcionadas pelas viagens por diferentes lugares, cidades e municípios do interior do Estado. Ficou patente a maior incidência de relações de amizade e afetividade dos homens africanos, sobretudo com mulheres brasileiras.