Com a eclosão da I Guerra Mundial, em 1914, a guerra europeia em África foi essencialmente protagonizada por africanos na condição de soldados e carregadores, cujo papel nunca foi reconhecido pela historiografia europeia. Vejamos, em seguida, trecho extraído do Jornal português O Público, na sua edição de 05 de setembro de 2014, publicada pelo jornalista Miguel Jerónimo, que ilustra o conteúdo de uma carta, datada de (06) seis de maio de 1918, dirigida ao Governador de Moçambique, então colónia portuguesa, denunciando o recrutamento de africanos para a Grande Guerra e, descrevendo as condições dos africanos recrutados:
91 Os indígenas mais válidos da Província têm sido violentamente recrutados para fins expedicionários e já há hoje quem calcule o número de mortos em perto de 5 mil. Porque os indígenas só voltam quando moribundos ou estropiados, a repugnância pelo recrutamento e pelo nome português tem-se espalhado através do sertão; contam as vicissitudes porque passam, dias sem alimentação muitas vezes, ou com alimentação imprópria; os mortos e os moribundos abandonados pelo caminho como animais; a lenda funesta alastra-se, os pretos emigram em massa, a agricultura e a indústria Zambeziana lutam com falta de braços, e o Governo é vítima dos seus próprios métodos, só pela violência encontra quem o sirva, e chegará o momento, se os métodos não mudarem, em que nem carregadores encontre e em que as empresas da Zambézia tenham de assistir à ruína e transformação de tanto esforço e dinheiro empregado em puras perdas por falta de indígenas para o trabalho.[Extrato da carta conjunta enviada pelo Grémio de Proprietários e Agricultores da Zambézia, pela Companhia do Boror e pela Sociedade de Recrutamento de Indígenas ao Governador- geral de Moçambique, Manuel Luís Moreira da Fonseca de 06 de Maio de 1918.] (JERÓNIMO, 2014, p.6.).
De fato, a primeira Grande Guerra foi um conflito entre as potências europeias, na qual o continente africano viu-se direta e indiretamente envolvido porque, nesse momento, estava sob dominação dos contendores. Embora as batalhas travadas no continente exercessem uma influência marginal no curso do conflito mundial, suas repercussões foram drásticas para os africanos (CROWDER, 2010). Dessa forma, não era de estranhar que os “indígenas” tivessem começado a “odiar os que o arrancam ao seu lar e às suas florestas para o ir matar sem piedade, à míngua de tudo, nos trabalhos forçados das expedições”.65 Vejamos
então, a argumentação de Crowder acerca da participação e situação dos africanos na I Guerra Mundial:
Mais de um milhão de soldados africanos participou dessas campanhas ou de operações militares na Europa. Em número ainda maior, homens, mulheres e crianças foram recrutados, muitas vezes à força, para servir como carregadores em exércitos cujos suprimentos não podiam ser transportados por meios convencionais, como estradas, ferrovias e bestas de carga. Mais de 150 mil soldados e carregadores perderam a vida na guerra. Muitos mais ficaram feridos e mutilados. Ao termino das hostilidades, todos os países da África, com exceção dos pequenos territórios espanhóis que permaneceram neutros, estavam formalmente envolvidos num campo ou no outro (CROWDER, 2010, p. 319).
A primeira e imediata consequência dessa guerra para o continente africano foi a invasão das colônias alemães em África pelos países aliados. Ao fim do conflito, com a vitória dos aliados, coube a eles dividir as possessões alemães como despojos de guerra. No total, mais de 2,5 milhões de africanos – cifra que corresponde a bem mais de 1% da população do continente – participaram de uma forma ou de outra do esforço de guerra
65 Na ótica da administração colonial portuguesa, as populações africanas originárias eram denominadas de
indígenas, em oposição ao cidadão europeu e aos chamados assimilados, quais sejam, os africanos colonizados e
92 (CROWDER, 2010, p. 332).66 A derradeira consequência dessa guerra foi a consolidação das
posições das potências coloniais europeias e sua soberania sobre as populações africanas.
66 Este mesmo autor aponta que a migração voluntária de argelinos para a França teve origem com a I Guerra Mundial quando os africanos foram requisitados para substituir, nas usinas, os operários franceses alistados no exército, constituindo a mais antiga de todas as migrações originárias dos países do “terceiro mundo”. De fato, essa migração ocorreu em diversos momentos subsequentes: na I Guerra Mundial, durante e após a independência da Argélia, bem como após a II Guerra Mundial quando faltavam “braços” na França decorrentes da escassez de mão-de-obra por conta da guerra. Assim, no contexto da industrialização da França e da recuperação de sua economia, nas décadas de 60,70 e 80 do século XX, ao abrigo de acordos governamentais, a antiga metrópole colonial irá importar contingentes significativos de mão-de-obra argelina, criando uma ponte migratória de magrebinos na própria França que se prolonga até à atualidade, com diversos desenvolvimentos, transformando-se no “problema argelino”. Abdelmalek Sayad (1998) é um dos autores que estuda esta tal migração, como demonstro mais à frente, quando analisar as migrações africanas contemporâneas. Em verdade, a segunda e terceira geração de argelinos e outros magrebinos, bem como as gerações posteriores de filhos de imigrantes nascidos na França irão vivenciar a exclusão social, a discriminação racial e religiosa, o desemprego, a falta de oportunidades, sendo vistos como cidadãos franceses de segunda categoria, ainda que tenham nascido nesse país europeu. Assim, estes jovens veem no radicalismo islâmico uma expressão identitária, a partir do qual, muitos deles desenvolvem um nacionalismo islâmico e anti-francês e, uma ínfima parte adere aos diferentes movimentos e grupos islâmicos radicais, considerados “terroristas”. Assim, a partir dos anos 2000, com a entrada no cenário internacional de grupos de grupos internacionais bem organizados como a Al-Qaeda e, mais recentemente do Estado Islâmico ou Daesh, esses jovens europeus se radicalizam e aderem a tais movimentos, passando a realizar ataques armados e bombistas esporádicos. Tais ataques tem o seu auge no ano 2015, com dois ataques marcantes: o primeiro no mês de janeiro com cerca de três ataques simultâneos, e o segundo no dia 13 de novembro com cerca de sete ataques em simultâneo, onde morreram cerca de 130 pessoais, cerca de 90 numa casa de shows, outras dezenas num café e cerca de três nas proximidades do Estádio da França, onde se realizava uma partida de futebol entre a França e a Alemanha. Estes e outros ataques posteriores deixam não apenas a França e Bélgica em estado de alerta, mas toda a Europa Ocidental, a Rússia e os EUA. Assim, a cada ataque, emerge, de novo, o estado do alerta, onde os governos francês, belga e de outros países europeus fecham, temporariamente, as fronteiras, anunciam o “Estado de exceção” e, restringem o direito de ir e vir de todos os cidadãos, passando a revistar e invadir casas de suspeitos de ligação aos ataques sem mandatos de segurança ou autorização da justiça. Cabe lembrar que a instabilidade política e militar em muitos países africanos, particularmente, os francófonos, têm a “mão” da França, assim como a instabilidade em muitos outros países africanos têm o “dedo” da Grã-Bretanha, Itália ou os EUA que, ao longo de histórias, fizeram dezenas de intervenções político-militares e econômicas em África, derrubando presidentes democraticamente eleitos e colocando em seu lugar, ditadores que eram favoráveis às suas políticas neocolonialistas. Desta forma, o radicalismo islâmico no mundo francófono foi criado pela própria França na década de 1980, quando esta, juntamente, com outros países europeus, impediu a governação da Frente Islâmica de Salvação (FIS) um grupo islâmico que ganhou as primeiras eleições presidenciais na Argélia. A FIS aproveitara-se do vazio institucional gerado pela morte do ditador Ahmed Boumedine e a queda do socialismo argelino, fez campanha eleitoral arregimentando os mais pobres, particularmente os jovens, alegando que a cultura ocidental era a causa de todos os males da Argélia, bem como a colonização francesa e o socialismo. Utilizando-se do seu braço armado o
Grupo Islâmico Armado (GIA) nos bairros mais pobres, ganhou as eleições. Entretanto foi impedido de governar
pela França que fez uma vasta campanha na imprensa desacreditando a FIS e seu braço armado, o GIA. Assim, a FIS declarou guerra a todos aqueles que defendiam uma sociedade democrática e plural bem como aos estrangeiros ocidentais residentes na Argélia, realizando gerando terror com ataques armados, atentados à bomba que tinham como objetivos jornalistas nacionais e estrangeiros, intelectuais, professores e todo os estrangeiros. Assim, assiste-se a uma fuga de estrangeiros na França que trabalhavam em diversos setores, deixando o país estagnado, bem como parte da população abandona o pais devido à instabilidade. O GIA é o primeiro grupo contemporâneo designado de “terrorista” que, utilizou estratégias, técnicas e táticas de ataques com bombas, com sucesso, tornando a Argélia o primeiro laboratório mundial desta prática, décadas antes do grupo palestiniano
Hamas, ou da Al Qaeda, do Daesh, do Al-Shabab, do Boko Haram e de outros grupos islâmicos radicais. Ainda
assim, mundialmente, têm-se uma visão de que os processos de descolonização das ex-colónias francesas e britânicas em África decorreram, de certo modo, em “transições pacíficas”, com estas duas potências europeias a reconhecerem a caducidade das relações coloniais, o direito dos africanos liberdade e autonomia, abandonando os territórios por si ocupados na década de 60 do século XX. Entretanto, essa visão dos processos de
93 O período entre as duas guerras mundiais é designado de “idade de ouro” do colonialismo europeu em África. Além das consequências políticas, econômicas e sociais, a guerra afetou a vida de milhões de homens e mulheres africanos, deslocados de suas aldeias para milhares de quilômetros. Dessa forma, a guerra também despertou novos horizontes para milhares de africanos, particularmente, aqueles que pertenciam às elites, favorecendo o despertar dos movimentos nacionalistas em relação ao poder colonial. Ao mesmo tempo, este período é bastante fértil para a emancipação dos africanos pois, coincide com uma grande movimentação e atuação da Diáspora africana contra a colonização europeia, constituindo a génese do pan-africanismo.
Via de regra, enquanto os africanos eram subjugados, suas vozes sufocadas pela colonização europeia, bem como, não estavam em condições de falar por si, foram os negros norteamericanos e os negros antilhanos que, defenderam os direitos dos africanos. De fato, sempre houve relações históricas dinâmicas, entre o continente africanos e suas diásporas, formadas pelos sobreviventes do tráfico de escravos e afrodescendentes. Senão vejamos o que dizem os historiadores Joseph Harris e Slimane Zeghidour acerca desse assunto:
Estas citações mostram claramente que a dinâmica das relações históricas entre a Africa continental e as suas diásporas, estudada nos volumes anteriores, prosseguiu após 1935. Estas relações, sobreviventes aos tráficos escravistas em direção a Ásia, Europa e Américas, foram consolidadas pelas experiências psicológicas e sociais da diáspora, de onde nasceram os movimentos de protesto, as revoltas e as ações internacionais conduzidas em prol da libertação dos negros, da liberdade e igualdade dos africanos e dos seus descendentes, no continente e no estrangeiro. Igualmente, a natureza, a maior ou menor crueldade da escravatura, o número de escravos e a sua proporção em relação aos senhores, influenciaram profundamente o processo de socialização e assim contribuíram, para modelar a representação da África, própria as diferentes comunidades da diáspora. Do mesmo modo, a imagem da maneira variável através da qual os africanos do continente se fazem representar, os pertencentes a diáspora tem a sua atuação em função da sua experiência de colonização. (HARRIS; ZEIGHIDOUR, 2010, p. 850).
Assim, são os intelectuais negros diaspóricos e outros africanos estudando na Europa – na França e Grã-Bretanha – e EUA que, irão defender o direito à autonomia e o direito de os africanos disporem de si próprios. Desta forma, havia uma solidariedade internacional entre os afroamericanos e afroantilhanos para com os africanos. Particularmente, entre os negros americanos, havia a ideia comum de necessidade de “salvamento” da África, a provocar independência dos territórios africanos ocupados pela França e Grã-Bretanha enquanto “transições pacíficas” deve ser relativizada, particularmente, quando analisadas a independência de países como a Argélia, bem como, as sucessivas interferências políticas, econômicas e até intervenções militares dessas duas potências europeias em África, e a sua tentativa de influenciar o destino das nações africanas em relações neocolonialistas, após as independências e mesmo nos dias de hoje.
94 emancipação dos negros e demonstrar suas capacidades de se autogovernarem e contribuírem para a civilização mundial. Esta ideia impôs-se, particularmente, na diáspora e, irá alavancar o nascimento dos movimentos negros internacionais para a libertação de África e, que mais tarde, dará forma ao pan-africanismo. Voltando à situação vivenciada no continente africano nesse período de 1935, de acordo com Oloruntimehin (2010), a maior parte das colônias africanas, criadas pela ocupação europeia, abrigava grupos nacionais cultural e historicamente distintos, cuja unidade fundava-se no fato de estarem submetidas ao domínio estrangeiro. Tal situação colonial forjou identidades novas, na luta contra as atrocidades da dominação racial europeia e seu sistema que impunha seus valores, nomes, evolução política e social.
Convém reconhecer que, enquanto sistema de relações, o colonialismo apresenta certa base racista. Se a evolução, em um contexto colonial, resulta das interações entre colonizador e colonizado, a consciência racial é a base do desenvolvimento do nacionalismo enquanto busca da soberania e da independência (OLORUNTIMEHIN, 2010, p. 658).
O colonialismo europeu sobreviveu, particularmente, graças à difusão da cultura do colonizador por meio da educação, criando desse modo, elites no seio das populações colonizadas. Os membros das novas elites africanas, assim como os chefes tradicionais acreditavam que seriam absorvidos e aceitos como colegas pelos colonizadores. Em alguns tipos dessas estruturas locais foram aproveitadas pela Administração colonial europeia, como são os casos do indirect rule britânico e francês. De fato, as administrações inglesas e francesas em África são conhecidas pelo indirect rule, um sistema de administração indireta, cujo poder colonial usava as estruturas tradicionais locais – chefes tradicionais, régulos,
sobas, warrant chiefs, native authorities, chefs de paille – para melhor administrar os territórios africanos. Portanto, as autoridades tradicionais africanas não foram banidas com o sistema colonial, mas sim reutilizadas como subalternos a favor dos colonizadores.67
67 Cabe aqui mencionar, a participação de antropólogos e da própria Antropologia Europeia nesses processos coloniais do indirect rule. Assim, este tipo método de colonização foi aprovado e aperfeiçoado pelos antropólogos europeus, tornando-se sistema e teoria, utilizados nas suas inserções e circunscrições nas sociedades africanas. Primeiramente descrito pelo capitão Frederick John Lugard (1958-1945) que, desempenhou papel importante na história colonial britânica nas regiões Oriental e Ocidental africanas e na Ásia. Enquanto administrador, governador e governador-geral, em seu projeto administrativo, John Lugard definia como primeira grande tarefa da política colonial: “encontrar um homem influente como chefe, agrupar sob a sua autoridade as aldeias ou distritos que for possível, ensiná-lo a delegar poderes, interessá-lo na tesouraria indígena, apoiar a sua autoridade e inculcar-lhe o sentido das responsabilidades” (LECLERC, Gérard, 1973, p. 104-105). Assim, a palavra de ordem de Lugard “find the chief!” que, – consiste numa compreensão das sociedades nativas ou indígenas e da interrelação das partes – foi retomada por Malinowski e seus discípulos, estando na origem de numerosas pesquisas de campo, na teoria funcionalista e consagradas naquilo que, mais tarde se denominará de “Antropologia Política” (LECLERC, op. cit.).
95 Na realidade, os reis e chefes tradicionais desses territórios reinavam, mas não tinham poder. Assim, o indirect rule constituía mais uma encarnação da dominação colonial a submeter os africanos. Contudo, a própria situação e Estado coloniais os oprimiam, pois, os africanos eram colocados em posições inferiores às dos europeus, mesmo que tivessem formação e experiência equivalentes. O mesmo acontecia com os chefes tradicionais africanos que estavam em posição ambígua, muitos dos quais haviam perdido seu poder real, posição e prestígio social. Nesse período, apenas a Etiópia havia logrado resistir à colonização europeia e mantinha-se independente.
De acordo com Ki-Zerbo (1972b), o período colonial constituiu, no entanto, uma fase histórica durante a qual este nacionalismo domesticado ou esmagado só se podia exprimir sob a forma de revolta. Em todo o continente africano, surgem questionamentos aos estatutos de colônias e protetorados com que os países africanos são designados pelas potências europeias. Esse questionamento é feito por associações de profissionais e sindicatos africanos, ligados à indústria, pesca e portos. Ao mesmo tempo, as crises econômicas atingem os territórios africanos, muito dependentes das economias das metrópoles europeias, até à eclosão da II Guerra Mundial. Essas crises pré-guerra dão origem a diversos nacionalismos africanos, que surgem a partir de movimentos sindicais, associações culturais, fundadas na etnia ou parentesco, dentro do continente e elites intelectuais formadas na Europa.
Na ótica de Ki-Zerbo (1972b), em África, certas categorias sociais estavam mais sensibilizadas com os problemas gerais e, acabam tornando-se interpretes naturais e catalisadores das aspirações das massas. São eles os sindicatos e os intelectuais. O autor reconhece que os movimentos sindicais se desenvolveram tardiamente em África por conta do atraso na industrialização, inerente ao sistema colonial. Assim, somente em 1930 o movimento sindical emerge no continente. No contexto do colonialismo europeu, o proletariado africano, tanto urbano como rural, foi mantido no mais baixo nível de vida, compatível com a mera subsistência, por meio de diversos sistemas de espoliação, imposições, restrições e baixos salários, destinados a assegurar mão-de-obra barata e abundante para os seus empreendimentos (COMITINI, 1980).
Tal sistema tem como base a ocupação de terras aráveis pelos fazendeiros e companhias europeias, com a consequente expulsão da família rural africana para as chamadas “reservas”, insuficientes em recursos água, qualidade do solo, etc. Não obtendo rendimentos suficientes para a sua manutenção nas reservas, estas famílias africanas
96 migravam para as fazendas dos europeus, para as minas ou para as cidades em busca de trabalho assalariado, cumprindo assim, os objetivos do colonizador em suas múltiplas formas de dominação. Muitas das vezes, o salário pago pelo europeu foi calculado para manter o africano o maior tempo possível como empregado e suficiente apenas para a sua reprodução e sobrevivência.
Enquanto os empregados e operários africanos alcançavam a consciência nacionalista, em grande parte, através da dura experiência das relações do trabalho, os intelectuais chegavam também a esta consciência pela experiência da alienação cultural (KI-ZERBO, 1972). São as duras e miseráveis condições de vida das populações africanas que instigam estudantes e intelectuais africanos na Europa e negros norte-americanos para a denúncia e lutas que antecedem o nacionalismo africano. Assim, os intelectuais africanos vão encontrar- se com escritores antilhanos, afro-americanos e malgaxes, denunciando, por meio de obras literárias, as condições dos negros nos seus territórios que vivenciavam uma condição servil, privados de direitos civis, políticos e econômicos.
Nesse contexto, em 1903, Du Bois escreve a obra As almas da gente negra, uma coletânea de textos literários, na qual, questiona: como nove milhões de negros americanos poderiam viver numa terra privados de direitos sociais, civis e político-econômicos básicos e impossibilitados de integrarem-se livres e iguais na sociedade norte-americana? Por sua vez, Price-Mars publica em 1928 a sua obra Ainsi parla l'oncle: essai d’ethnographie, exaltando o
continente africano e seus povos. De fato, a negritude foi o nome dado a uma corrente literária que agregou escritores negros francófonos e também foi uma ideologia de valorização da cultura negra nos países africanos e em outros, com populações afrodescendentes, que eram ou foram vítimas do colonialismo.
Em 1930, o poeto martinicano Ettiénne Léro funda um jornal literário intitulado
Légitime Défense, no qual, pela análise marxista e pela expressão surrealista, discutia a
questão do racismo. Já René Maran, das Ilhas Martinica publica, em 1921, a novela Batouala:
um verdadeiro romance negro, obra em que, pela primeira vez, aparece a palavra de negritude. Com esta obra é agraciado com o prêmio Goncourt de língua francesa. Anos mais