ÜÇÜNCÜ BÖLÜM
3. HABERLERDE YOKSULLUĞUN TEMSĠLĠ VE YAPISAL YANLILIK YANLILIK
3.1. MEDYA VE TEMSĠL
A noção de diáspora, movimentada nesta pesquisa, é inspirada nos escritos de autores dos Estudos Culturais88 e Pós-Coloniais,89 como Du Bois (1999, 2007a, 2007b), Gilroy (2001)
88 De acordo com Mattelart & Neveu (2004), os Estudos Culturais nascem na década de 60 do século XX, mais precisamente em 1964, no Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS) da Universidade de Birmingham, tendo como pais fundadores: Richard Hoggart, Raymond Williams e Edward P. Thompson, também fundadores da New Left Review. Estes autores eram oriundos das classes populares, estudavam a influência da cultura difundida na classe operária pelos meios de comunicação modernos, bem como estavam preocupados com a formação de adultos das classes populares e, eram influenciados pelo marxismo althusseriano. Com a contratação de Stuart Hall e Charles Taylor para o CCCS em 1968 e, a inauguração da Universidade Aberta em 1970, o CCCS procura ganhar legitimidade acadêmica. Entretanto, Hall e Taylor são oriundos das minorias britânicas e, por isso, serão vistos com desconfiança e por muito tempo serão considerados autores marginais dos Estudos Culturais. Diferentemente de outros país fundadores, Hall não é autor de livros de referência, apesar de produzir uma enorme quantidade de artigos, insistindo na importância da experiência do colonizado, em relação à postura britânica paternalista acerca da sua família na constituição de sua identidade. Nos anos 1970 surge a segunda geração dos Estudos Culturais, com destaque para a presença de figuras como Paul Gilroy e Kobena
126 e Hall (2006, 2011a, 2011b, 2013). Tal noção foi e vem sendo utilizada por esses e outros autores em referência à dispersão de comunidades negras e afrodescendentes em redor do mundo, cujo deslocamento produz identidades moldadas e localizadas em distintos e por diferentes lugares (WOODWARD, 2013).
Na sua acepção original, o termo se reporta à dispersão do povo judeu pelo mundo. Entretanto, a utilização da noção de “diáspora” referindo-se às populações negras foi cunhada por Du Bois (2007),90 comovido com a situação dessas comunidades, em distintas regiões no
continente americano,91 a vivenciarem condições comuns de subalternidade, de opressão,
sendo racializadas e discriminadas por conta de seu passado escravo. Tais comunidades tinham como principal característica em comum a experiência do sofrimento, causado pela escravidão racial na modernidade. Du Bois é o primeiro afroamericano que realiza estudos e descreve sociologicamente as duras condições de vida nas comunidades negras norte- americanas, expondo o impacto da opressão racial e seus efeitos devastadores nas comunidades dos negros libertos da escravidão. Desse modo, faz críticas aos estudos feitos na época por falta de zelo, imparcialidade e por serem exageradamente acadêmicos, apelando, assim, para a necessidade de realização de estudos interaciais mais rigorosos. Na sua ótica “o Mercer, dois pesquisadores negros britânicos. O CCCS ganha uma crescente visibilidade cientifica seguindo uma tradição anglófona. Finalmente, em 1979, Hall entra para a Universidade Aberta.
89 Os Estudos Pós-coloniais nascem na década de 80 do século XX, quando um vasto campo de estudos se constitui em torno das culturas chamadas subalternas ou pós-coloniais, dos grupos minoritários e dos colonizados de outrora. Essas culturas subalternas e minoritárias deslocam o olhar da “racionalidade da razão” para um outro nível de racionalidade, o das ações efetivas, das emoções e das sensibilidades, contribuindo para subtrair as visões do mundo ao domínio do universalismo do logos ocidental. Os Estudos Pós-coloniais permitiram contextualizar o poderoso desejo que se experimenta em numerosos países do Sul de construir modos de pensamento mais aptos a dar conta das próprias realidades. Dessa forma, os Estudos Pós-Coloniais se desenvolveram a partir das questões presentes nas últimas grandes compilações do CCCS, em 1982, apoiando-se nos escritos de Martin Luther King e de Frantz Fanon. Paul Gilroy é um dos autores mais significativos desse eixo de estudo, através da sua obra O Atlântico Negro, visto como uma reação ao etnocentrismo dos trabalhos sobre a cultura. Juntamente com outros pesquisadores negros, Gilroy explora os estilos de vida e as criações artísticas das comunidades negras e asiáticas na Grã-Bretanha, bem como coloca em discussão os pressupostos e as rotinas moralizadoras de inúmeros discursos antirracistas (MATTELART & NEVEU, 2004).
90 William Edward B. Du Bois (1868-1963), nascido em Massachussets nos EUA e falecido em Acra no Ghana, foi historiador, sociólogo, escritor, intelectual, ensaísta, jornalista e líder político afro-americano, na passagem da escravidão a precária cidadania da população afrodescendente na América. Nascido três anos após a abolição da escravatura nos EUA, formado na Fisk University, depois, uma nova formação em Harvard e com pós-graduação na Alemanha, Du Bois viajou por vários países da América Latina, África, Europa e China estudando a condição da população negra e proferindo palestras. Dedicou toda a sua vida à causa da comunidade negra no mundo, escrevendo vários livros. Reconhecendo as condições de vida das comunidades negras e o preconceito racial da sociedade dominante, insistia que o negro lutasse, incessantemente, pelos seus direitos e assumisse seus deveres, visando a ascensão social da coletividade. Organizou os Congressos Pan-africanos e, no final da vida, exilou-se no Ghana, onde faleceu aos 95 anos de idade, deixando inacabada a Enciclopédia Africana.
91 Para uma compreensão minuciosa e detalhada acerca das culturas negras nas Américas Cf. a obra de Arthur Ramos (2013), intitulada Culturas Negras no Novo Mundo.
127 problema do século XX é o problema da barreira racial – a relação das raças mais escuras com as raças mais claras na Ásia e na África, na América e nas Ilhas Oceânicas” (DU BOIS, 1999, p. 64). Nas suas obras, Du Bois (1999, 2007a, 2007b) utiliza metáforas e eufemismos raciais que se tornaram famosos, cabendo destacar: “sombra do véu” e “barreira racial” para se referir ao preconceito e discriminação que separa dois mundos: branco e negro; “décima parte talentosa” para afirmar a existência de uma elite intelectual na população negra americana e “diáspora africana” para se referir à população afrodescendente nos EUA, bem como a noção de “dupla consciência”, para se referir à tensão permanente de ser, ao mesmo tempo, negro e norteamericano.
Já Gilroy (2001) estuda a diáspora constituída pelas populações afrodescendentes nos territórios que constituem o Reino Unido e EUA, cunhando a designação Atlântico Negro, expressão que dá título à sua principal obra. O autor apresenta uma noção de diáspora distinta como “negociação de rotas”, uma alternativa ao “retorno às raízes”, à metafísica da raça, da nação e de uma cultura territorial fechada, codificada no corpo, perturbando a mecânica do pertencimento. Senão vejamos:
Como alternativa à metafísica da “raça”, da nação e de uma cultura territorial fechada, codificada no corpo, a diáspora é um conceito que ativamente perturba a mecânica cultural e histórica do pertencimento. Uma vez que a simples sequência dos laços explicativos entre lugar, posição e consciência é rompida, o poder fundamental do território para determinar a identidade pode também ser rompido. (GILROY, 2001, p. 18).
De fato, esta sua ideia apresenta-se como uma alternativa ao conceito de raça e, rompe com as noções de território, lugar e posição social como referências identitários e explicativos da Diáspora. Em suas reflexões, Gilroy (2001) argumenta que seu conceito de Diáspora supera as definições essencialistas, até então usadas, para caracterizar as populações negras deslocadas de seus territórios de origem, baseadas na raça negra e raízes cultuais no continente africano como território de origem.
Esta versão da diáspora é distinta porque ela enxerga a relação como algo mais do que uma via de mão única. Ela nunca ofereceu apenas resposta aos interesses, tanto acadêmicos como políticos, que tentaram negar as sobrevivências africanas, seus contágios e as influências da escravidão para além dela. Esta abordagem das relações diaspóricas surge depois que a lógica cultural da combinação, do tangenciamento e as suplementaridade foi estabelecida [...] (GILROY, 2001, p.21).
Sua visão inovadora aponta para a diáspora em termos de negociação de rotas, de intercâmbios entre culturas políticas que tomam lugar dentro de um contexto baseado na memória social, ativamente produzida pela experiência daquilo que Gilroy (2001) designa de
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terror racial – escravidão racial, sistema de plantation, colonialismo, segregação – das populações negras e afrodescendentes. Assim, o autor circunscreve da sua noção de diáspora, em jeito de crítica aos discursos essencialistas de alguns movimentos diaspóricos que, adotavam o essencialismo como estratégia de luta diante do racismo:
Diria que a discussão contemporânea sobre o conceito de diáspora surge como uma resposta mais ou menos direta aos ganhos trans-locais do movimento Black Power92 durante a Guerra Fria. Primeiro, ela circulou como parte de um argumento que propunha a reconfiguração da relação entre África e as populações parcialmente descendentes de africanos do hemisfério ocidental. Sustentada por frutíferas revisões da ideia de libertação nacional, esta iniciativa cada vez mais audaz se dirigiu contra- argumentos mais gerais que iluminaram as limitações políticas reveladas pelas formas essencialistas de conceituar a cultura, a identidade e a identificação. Diferenças dentro do coletivo em questão não podem ser indefinidamente reprimidas em prol que se maximize as diferenças entre este grupo em particular e os outros. As teorias baseadas na noção de diáspora têm por vezes reagido de forma impaciente contra o poder coercivo e autoritário da unanimidade racial. Tal essencialismo tem procurado atalhos em direção à unidade e tem repousado sobre concepções totalitárias e mesmo fascistas sobre a comunidade política, especialmente quando toma emprestado teorias alemãs sobre a hipersimilaridade racial e o absolutismo étnico. (GILROY, 2001, p. 17-18).
Dessa forma, Gilroy mostra a primeira concepção de diáspora – essencialista – que circulou como um argumento que propunha uma reconfiguração da relação entre África e as populações afrodescendentes no mundo ocidental que, era sustentada por ideais profícuos de libertação nacional. Tal noção utilizava-se de essencialismos na sua abordagem e conceituação de cultura, identidade e identificação, passando por cima das diferenças na tentativa de criar unidade entre os distintos movimentos, muitas das vezes, caindo na ideia de similaridade racial e absolutismo étnico.
Ao invés de uma visão de diáspora unificada partindo de África e suas raízes, Gilroy (2001) propõe uma visão rizomática,93 objetivando uma conexão cultural entre comunidades
negras em distintos lugares, a partir de uma memória social, emergida do terror racial. Assim, o autor propõe a noção de diáspora como alternativa ao conceito de raça – negra – como estando ligada a um território e lugar de origem específicos – em África – como fatores explicativos da diáspora. Este autor critica as concepções essencialistas, étnicas, raciais e nacionais de identidades.
92 Black Power, em tradução livre poder negro, foi um movimento entre pessoas negras no mundo ocidental, especialmente nos Estados Unidos. Mais proeminente no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, o movimento enfatizou o orgulho racial, racismo e da criação de instituições culturais e políticas negras para cultivar e promover interesses coletivos, valores antecipadamente, e segura autonomia para os negros.
93 A ideia de rizoma remete-nos em primeiro lugar à Biologia, a um caule subterrâneo enraizado que se prolifera por todos os lados, dificultando a localização do seu centro nervoso. Entretanto, na acepção dos Estudos Culturais, a metáfora do rizoma é utilizada para mostrar as diversas e distintas conexões culturais das diásporas oriundas de distintos lugares e não apenas de um único centro.
129 Por sua vez, Hall (2006, 2011a, 2011b, 2013) utiliza a noção de diáspora para se referir às identidades heterogêneas dos imigrantes oriundos da região do Caribe na Grã- Bretanha, seus mitos de origem, enfatizando as necessidades e os perigos que enfrentam diante dos processos de globalização. O autor faz uma crítica às concepções essencialistas étnicas, raciais e nacionais da identidade acerca da cultura e da política de localização, resgatando o conceito de identificação como um processo de articulação e costura nunca completa, engendrada pelos sujeitos diaspóricos. Vejamos seus argumentos antiessencialistas: O momento essencializante é fraco porque naturaliza e des-historiciza a diferença, confunde o que é histórico e cultural com o que natural, biológico e genético. No momento em que o significante “negro” é arrancado de seu encaixe histórico, cultural e político, e é alojado em uma categoria racial biologicamente constituída, valorizamos, pela inversão, a própria base do racismo que estamos tentando desconstruir. Além disso, como sempre acontece quando naturalizamos categorias históricas (pense em gênero e sexualidade), fixamos esse significante fora da história, da mudança e da intervenção políticas. (HALL, 2011b, p. 326-327).
O conceito de identidade, desenvolvido por Hall, apresenta-se relacionado a outros conceitos e categorias como nação, raça, etnia, classe social, gênero. Seu argumento principal é de que, na modernidade tardia,94 as identidades são cada vez mais fragmentadas e
fraturadas, multiplamente construídas ao longo dos discursos, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicas (HALL, 2011a). Na sua ótica, o que caracteriza as populações diaspóricas é a condição de hibridismo e não a mistura racial, a miscigenação, como muitos tem perspectivado. Senão vejamos:
Um termo que tem sido utilizado para caracterizar as culturas cada vez mais mistas e diaspóricas dessas comunidades é “hibridismo”. Contudo, seu sentido tem sido comumente mal interpretado. Hibridismo não é uma referência à composição racial mista de uma população. É realmente outro termo para a lógica da tradução. Essa lógica torna-se cada vez mais evidente nas diásporas multiculturais e em outras comunidades minoritárias e mistas do mundo pós-colonial. Antigas e recentes diásporas governadas por essa posição ambivalente, do tipo dentro/fora, podem ser encontradas em toda a parte. Ela define a lógica cultural composta e irregular pela qual a chamada “modernidade” ocidental tem afetado o resto do mundo desde o início do projeto globalizante da Europa. O hibridismo não se refere a indivíduos híbridos, que podem ser encontrados com os “tradicionais” e “modernos” como sujeitos plenamente formados. Trata-se de um processo de tradução cultural, agonístico uma vez que nunca se completa, mas que permanece em suas indecibilidades. (HALL, 2011a:71).
94 Em Hall (2006, p. 9), modernidade tardia ou pós-modernidade refere-se à “mudança estrutural que estaria transformando as sociedades modernas no final do século XX, fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade que, no passado tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais.
130 De fato, Hall chama atenção para o processo de tradução cultural e identitárias em populações diaspóricas como importantes para a sobrevivência dos indivíduos, referindo-se a identidades multiculturais como algo que nunca se completa, que permanece indecisivo, gerado pela modernidade ocidental por meio da globalização europeia. A lógica da tradução acima descrita refere-se à ideia de aceitação que as identidades estão sujeitas aos contextos históricos, políticos, de representação e da diferença, não sendo unitários ou puro. A tradução diz-nos muito acerca do modo como as identidades devem ser conceptualizadas na sua relação com o futuro da modernidade, opondo-se à ideia de tradição que tenta recuperar a pureza anterior e recobrir as unidades e certezas perdidas (HALL, 2006). Vejamos:
Pois há uma outra possibilidade: a da Tradução. Este conceito descreve aquelas formações de identidade que atravessam e intersectam as fronteiras naturais, compostas por pessoas que foram dispersadas para sempre da sua terra natal. Essas pessoas retêm fortes vínculos com seus lugares de origem e suas tradições, mas sem a ilusão de um retorno ao passado. Elas são obrigadas a negociar com as novas culturas em que vivem, sem simplesmente serem assimiladas por elas e se perder completamente suas identidades. Elas carregam os traços das culturas, das tradições, das linguagens e das histórias particulares pelas quais foram marcadas. A diferença é que elas não são e nunca serão unificadas no velho sentido, porque elas são, irrevogavelmente, o produto de várias histórias e culturas interconectadas, pertencem a uma e, ao mesmo tempo, a várias “casas” (e não a uma “casa” particular). (Op Cit, 2006, p. 88-89).
Para Hall, o processo de tradução implica negociação com novas culturas, sendo produto de várias histórias e culturas interconectadas. Nesse contexto, Hall (2006) é de opinião que as sociedades da modernidade tardia são frutíferas em produzir diferenças, isto é, elas são atravessadas por distintas divisões e antagonismos sociais que produzem diferenças e, diferentes posições de sujeitos. Assim, produzem identidades culturais mutáveis e em transição, diferentes posições e distintas tradições culturais, fruto de cruzamentos complicados e misturas culturais. Dessa forma, o autor vincula as discussões sobre identidade aos processos e práticas que têm perturbado o caráter estabelecido de muitas populações e culturas nacionais, referindo-se aos processos de globalização, modernidade, migração forçada ou livre, fenômenos esses que têm se tornados globais. Para ele, as novas identidades sociais tornaram-se visíveis, provocando processos de afirmação e diferenciação, novas divisões sociais e, particularmente, o nascimento daquilo que se designa de “política de identidades” (Idem, 2006). Na sua ótica, na modernidade tardia, as identidades tornam-se “celebrações móveis”, formadas e transformadas continuamente em relação às formas pelas quais os indivíduos são representados ou interpelados nos sistemas culturais em que estão
131 inseridos (HALL, 1987 apud HALL, 2006, p. 13).
Dessa forma, Hall afirma a perspectiva de que as identidades e as identificações constituem processos sempre em construção, a partir das negociações que os indivíduos efetivam ao longo de suas trajetórias. Tais identidades apresentam-se como processos em aberto, em movimento, de negociações de trajetórias, que expressam diferentes contextos sociais e trajetórias peculiares de cada indivíduo. [...] “elas invocam uma origem que residiria num passado histórico, têm a ver com a utilização de recursos da história, da linguagem e da cultura para a produção não daquilo que somos, mas daquilo no qual nos tornamos” (HALL, 2006, p. 108-109). Hall é um autor, particularmente importante para a pesquisa que estou a desenvolver, pois, trabalha a relação entre a diáspora e as identidades sociais nos finais do século XX, um eixo central do meu estudo. Esta perspectiva de diáspora é decisiva, estando no horizonte analítico da minha pesquisa.
De fato, as noções de diáspora anteriores às obras de Gilroy (2001) e de Hall (2011a, 2011b) situavam-na como algo referente ao passado, como fenômeno racial, econômico- demográfico e como raiz cultural. Gilroy e Hall pensam a diáspora para além dos essencialismos, encarando-a como fruto da hibridização racial e cultural. Ao invés da origem em uma raiz cultural comum, esses teóricos pensam no processo de hibridização e tradução cultural engendrado pelos indivíduos diaspóricos. Suas obras abordam acerca das comunidades minoritárias, das culturas que se vão gestando quando se está “longe de casa” na “terra dos outros”, da “dupla consciência”, da posição ambivalente dos indivíduos ao se sentirem dentro e ao mesmo tempo fora de suas culturas nacionais, de identidades em aberto gestadas nas diásporas no contexto da modernidade tardia.
Nas suas análises, Hall (2006, 2011a, 2011b, 2013) e Gilroy (2001) partem de realidades e contextos distintos de um mesmo território, mas que se aproximam pela abordagem teórica. Na sua análise, Gilroy (2001) parte da realidade vivenciada pelas comunidades descendentes de escravos africanos na Grã-Bretanha para pensar a realidade contemporânea das populações afrodescendentes, ao longo dos territórios banhados pelo oceano Atlântico.
Já Hall (2006, 2011a, 2011b, 2013) é inspirado nas condições de vida dos imigrantes caribenhos, nesse mesmo país europeu, como resultante do processo de globalização. Suas visões acerca da diáspora, apontam para a ideia de “culturas viajantes” – diferindo-se das visões essencialistas acerca da diáspora – por ter várias mãos e fornecerem uma resposta
132 acadêmica e política, a àqueles que negavam a existência de culturas africanas para além daquelas resultantes do processo de escravidão.
Particularmente, na ótica de Gilroy (2001), a abordagem diaspórica cria diversas possibilidades e vantagens, permitindo estabelecer novas compreensões sobre o eu, a semelhança e solidariedade. A diáspora sugere um modo diferente de ser, movimento de resistência, de transformação e outros processos políticos. A diáspora cria novas possibilidades, novos prazeres para os povos dispersos e torna a questão da origem inacessível e irrelevante, nos quais, as populações deslocadas terminam aceitando que não são mais as mesmas, obrigando-os a reelaborar as noções de nação, lugar e de espaço, permitindo-os