ÜÇÜNCÜ BÖLÜM
3. HABERLERDE YOKSULLUĞUN TEMSĠLĠ VE YAPISAL YANLILIK YANLILIK
3.2. NESNELLĠK VE YANLILLIK
Na condição de estudante moçambicano, integrante da diáspora africana, ao longo de quatro anos, construímos um acervo pessoal, com matérias de distinta natureza acerca da presença de estudantes africanos no Brasil, particularmente, em Fortaleza. Mais especificamente, tal acervo é assim constituído: notícias e reportagens de jornais e da televisão; artigos acadêmicos, monografias, dissertações e teses; relatórios, anúncios de eventos, textos, fotos e outros materiais capturados em sites, blogs, redes sociais, dentre outras vias. A produção de meu acervo pessoal foi inspirada nas ideias de Mills (2009), a partir do seu texto já clássico, intitulado Sobre o Artesanato Intelectual, no qual aborda o processo de pesquisa sociológica comparando-o com a prática de artesanato. Nesse artigo, o autor narra suas experiências pessoais de pesquisa, descrevendo o ofício do sociólogo, os procedimentos e empreendimentos da pesquisa.
A primeira ideia inovadora por ele pontuada é a comparação do trabalho do sociólogo com o de um artesão, fazendo uma vinculação entre a trajetória pessoal e a experiência profissional do pesquisador, a partir da qual percebe-se que o ofício acadêmico não está dissociado da vida e experiência pessoal do pesquisador. Nessa ótica, o ofício da produção do conhecimento apresenta-se, para o sociólogo, como escolha de um modo de vida, imbricando vida e carreira acadêmica. Outro ponto importante é a sua recomendação de que o pesquisador deve usar sua experiência de vida no trabalho intelectual, examinando e interpretando-a continuamente, pois “a experiência no processo de pesquisa mostra que o passado influencia e afeta o presente e nossas escolhas futuras” (MILLS, 2009, p. 20). De acordo com o autor, a
150 melhor forma do sociólogo não dissociar sua vida de seu trabalho é através da organização e manutenção de arquivo e diário de campo, como uma produção intelectual. Senão vejamos:
Mas como fazer isso? Uma resposta é que você deve organizar um arquivo, o que é, suponho, a maneira de um sociólogo dizer: mantenha um diário. Muitos escritores criativos mantêm diários; a necessidade de reflexão sistemática em que o sociólogo se vê exige isso. Num arquivo como o que vou descrever, há uma combinação de experiência pessoal e atividades profissionais, estudos em curso e estudos planejados. Nesse arquivo, você, como um artesão, tentará reunir o que está fazendo intelectualmente e o que está experimentando como pessoa. (MILLS, 2009, p.22). Mills (2009) aponta a organização do arquivo como uma produção intelectual. O arquivo é um repertório de fatos e ideias acabadas ou não que demonstram o conhecimento e experiência do pesquisador acerca de determinado assunto, mas especificamente, a temática de sua investigação. Na sua ótica, uma forma do sociólogo controlar, aprender, classificar e usar essa experiência é através da organização do arquivo, isto é, manter um diário, onde o pesquisador combine a experiência pessoal e atividades profissionais, os estudos em curso e os estudos planejados. Dessa forma, o sociólogo deve confiar na sua experiência e usá-la para seu benefício no processo de pesquisa. No arquivo, o pesquisador deve escrever quase tudo: seus sentimentos fortes, eventos, ideias, etc. É seguindo essas trilhas de Mills (2009) que venho organizando o meu arquivo pessoal com o registro sistemático do caderno de campo, bem como, o levantamento de outros materiais constituído por notícias, reportagens, fotografias sobre a temática em estudo.
Relativamente ao levantamento bibliográfico, cabe destacar que vendo desenvolvendo esta etapa ao longo de cinco anos de estudos em Fortaleza. Desse modo, tenho coletado materiais bibliográficos de diversa natureza, referentes à presença de estudantes e imigrantes africanos em Fortaleza e não só e, agrupando em pastas conforme o assunto: estudos, trabalho, religião, sexualidade, movimentos sociais, migração, etc. O levantamento bibliográfico para elaboração deste texto tem sido realizado, ao longo dos anos, na Biblioteca do Centro de Humanidades I, bem como na Biblioteca do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais (NEPS), localizada no Departamento de Ciências Sociais, onde tenho consultado os diversos livros, teses e monografias que venho utilizando. Assim, disponho de mais de 30 trabalhos acadêmicos entre livros, teses, dissertações, monografias e livros, bem como mais de 70 artigos de revistas especializadas, em notícias e reportagens de jornais e revistas. Também possuo um pequeno arquivo digital de documentários e reportagens televisivas.
151 redes sociais virtuais que congregam pesquisadores acerca da temática da migração, a inscrição para a recepção de notícias em sites, blogs e revistas especializadas em migrações, bem como em grupos formados pelos próprios estudantes africanos e suas respectivas associações estudantis, muitos deles existentes internet, por meio de sites, blogs, perfis e fan pages nas principais redes sociais, com destaque para sites, redes sociais como o Facebook, lista de e-mails. Assim, cabe destacar a participação na lista de e-mails de grupos como o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios_RJ (NIEM-Rio de Janeiro), do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), da Revista Interdisciplinar de Mobilidade Humana (REMHU), da rede virtual Migrantológos, do Museu Virtual da Imigração e, em portais oficiais do governo brasileiro como o site do (Ministério da Educação e Cultura) MEC, Ministério da Justiça, e também dos sites da OIM, da OIT, da Unesco, dentre outros.
Nesses debates e discussões, cabe recordar as recomendações bibliográficas de professores e colegas que, se revelaram grandes aliados acadêmicos, com destaque para as indicações e recomendações feitas pelos professores Léa Carvalho, Carlos Subuhana e Bas’Ilele Malomalo, bem como do colega Edgar Braga Neto. Recentemente, a internet vem se relevando a principal ferramenta e maior aliado para a coleta de materiais bibliográficos, de som e imagem que constituem o meu acervo acerca da migração estudantil e presença de africanos no território brasileiro e em outras partes do mundo. Por último e não menos importante, é necessário mencionar a importância dos eventos acadêmicos – cursos, seminários, congressos, mesas redondas – e o contato com outros pesquisadores, com os quais troco informações e materiais bibliográficos. Foi a partir desses eventos que conheci e venho mantendo contato com outros estudantes, professores e pesquisadores que pesquisam a temática das migrações.
4.2. Construção do campo na investigação etnográfica: caminhos da observação e da