2.1. YOKSULLUK KAVRAMI VE FARKLI TANIMLAR
2.1.2. ĠNSANĠ YOKSULLUK
2.1.2.1. GELENEKSEL YOKSULLUK/YENĠ YOKSULLUK
século XX, seus territórios eram constituídos de populações maioritariamente analfabetas, alcançando cerca de 98% da população. No geral, cada nação africana continha pequenos grupos de dirigentes que formavam uma minoria “ocidentalizada”, demograficamente não significante, mas que era a única parcela da população que sabia ler e escrever e, estava em condições de se adaptar ao tipo de estruturas burocráticas e organização jurídico-política herdadas do colonialismo, ou imposta pelas antigas metrópoles ou, ainda escolhidas pelos órgãos de tutela da ONU (NEME, 1966). Acerca desse período crucial, Elikia M’bkolo (2007) bem circunscreve os desafios e paradoxos vivenciados pelos países e sociedades africanas, após obterem suas independências das potencias colonizadoras europeias:
O ano de 1960 foi indiscutivelmente o ano da África, pois, perante a surpresa, a perplexidade e a incredulidade dos outros continentes, viu dezoito colônias da Europa aceder em alguns meses à soberania e ao reconhecimento internacional como Estados; simultaneamente, era brutalmente abalada e, aparentemente, ficava para sempre, comprometida, a imagem da África complacentemente difundida pelas potências coloniais, segundo a qual os africanos seriam, por um período mais ou menos longo, incapazes de se governar por si próprios e precisavam de ser orientados por potências tutoras.[...]. Por um lado, a questão da soberania estava longe de ter encontrado a
112 solução definitiva, tanto pelo número elevado de colônias ainda sujeitas à dominação europeia, como porque todos os indicadores, em especial as crises que acompanhavam as independências, confirmavam a determinação das antigas potências coloniais a envidarem todos os esforços para defenderem os seus interesses nas antigas possessões. Por outro lado, amachucados e frustrados por muitos decênios de dominação colonial, os povos africanos esperavam ver os seus novos dirigentes lançar a África independente em estratégias, ações e realizações que provocassem uma ruptura completa com o colonialismo europeu, e que, simultaneamente, correspondessem às suas aspirações (M’BOKOLO, 2007, p.547).
É fato inconteste que, após as independências, os povos africanos esperavam de seus líderes e governantes, a tão ansiada liberdade –libertação da terra e dos homens –, bem-estar e desenvolvimento, até então negados pela dominação europeia. Havia um “mito” acerca das independências dos países africanos do jugo europeu, de que estas trariam liberdade e desenvolvimento e bem-estar, enfim, “a África para os africanos”. Entretanto, logo após as independências, a soberania política e econômica dos governos dos países africanos foi colocada à prova pelas diversas crises político-econômicas que enfrentaram e pela relação de dependência com as antigas metrópoles europeias, cujas relações e termos de troca eram caracterizadas, muitas vezes, por um neocolonialismo econômico e cultural.78 Assim, muitos
estados africanos independentes vivenciaram paradoxos político-econômicos e, foram obrigados a se posicionar, entre adotar uma política subalterna, de continuidade das relações coloniais ou, optar pela redefinição das suas relações com as antigas potências coloniais, adotando uma política nacionalista, capaz de responder aos anseios de suas populações.
Nesse contexto, nem sempre, as instituições políticas adotadas pelos governos africanos se ajustavam, à maneira de ser, viver, pensar e fazer da maioria das populações nativas africanas. Na maioria das vezes, os modelos de governação, divisão administrativa e sistema político, implementados pelas lideranças e elites africanas, utilizavam o aparato político e institucional herdados do colonialismo europeu, muito semelhantes aos dos Estados-nação da Europa Ocidental e sua cosmovisão. Alguns estados mantiveram suas estruturas tradicionais africanas, como são os casos da Etiópia, Swazilândia e Marrocos, mas, a grande maioria dos estados africanos optou por modelos presidencialistas ou semipresidencialistas europeus ocidentais e, outros ainda, por modelos socialistas, inspirados
78 Um exemplo do neocolonialismo pode ser circunscrito, a partir da atuação da França em África. A França foi a potência europeia com maior número de colônias no continente africano, cujo poder estava baseado na sua presença militar, econômica e cultural. Após as independências dos países africanos na década de 1060, consciente dos novos rumos, a França iniciou um processo de criação de diversas organizações e instituições que congregavam os países africanos francófonos nas mais diversas esferas: política, econômica e cultural, assentando assim, suas bases neocoloniais, dentre os quais, bancos e corporações comerciais, fundos sociais e estudantis, uniões, conselhos, etc.
113 nos países do leste europeu ou asiático.
Ainda assim, dentre esses estados africanos pós-coloniais que optaram por modelos europeus ocidentais e socialistas, poucos adotaram sistemas democráticos parlamentares, com base no princípio de representação e na existência de partidos políticos de âmbito nacional. A maioria dos países africanos eram dominados e dirigidos por ditadores ou, por pequenos grupos, elites e líderes formados em países da Europa Ocidental capitalista e da Europa Oriental socialista e pelos padrões de civilização desse continente. Dessa forma, mesmo após as independências, as economias de muitos países africanos continuavam dependentes do comércio com as metrópoles europeias colonizadoras, por conta do modelo de exportação, resultado de décadas de extrativismo e exploração de matérias-primas em bruto, num sistema conhecido como neocolonialismo.79
Cerca de 75% dos países mais pobres do mundo localizam-se na África Subsahariana, Situação que permanece no século XXI (COQUERY‑VIDROVITCH, 2010). Mais uma vez, tem-se uma expressão da violência europeia em África, entretanto, nesse momento, não há mais colonialismos com ocupação de territórios e implantação do sistema político europeu, mas permanece como perspectiva, o colonialismo e exploração econômica dos recursos africanos. Assim, muitos países optaram por governos socialistas, de orientação marxista- leninista, em regimes de partido único que fracassaram poucos anos depois. Aliado a essa conjuntura político-social, “o início dos anos de 1980 marcou um agravamento preocupante da situação, acelerado pela grande estiagem que, entre 1983 e 1985, afligiu 20 países e cerca de 35 milhões de pessoas” (COQUERY‑VIDROVITCH, 2010, p. 360).
Na realidade, quando atingiram suas independências, nem todos os Estados africanos estavam preparados para gerir as máquinas estatais e administrativas, herdadas do colonialismo europeu. Suas economias eram voltadas para exportação de monoculturas, como cacau, chá e não para a produção de bens alimentícios. A maioria dos países africanos eram constituídos de pequenas nações e populações heterogêneas, com fronteiras físicas artificiais – muitas vezes dividiam os grupos etnolinguísticos ao meio e não respeitaram as fronteiras
79 Samir Amin et al (1977; 1981) com suas obras marcantes A Crise do Imperialismo e, Imperialismo e
Comércio Internacional: a troca desigual, à luz de teorias marxista, é um dos teóricos africanos que melhor
aborda a questão das trocas comerciais entre os EUA e países europeus com chamado “terceiro mundo”, constituído na sua maioria por antigas colônias europeias em África, Ásia e América Latina. Em suas obras, denuncia os termos de trocas entre as metrópoles europeias e suas antigas colônias –periferia– como tendo agravado as desigualdades de desenvolvimento nos últimos países, classificando tais modelos de trocas comerciais como: relações imperialistas, de trocas desiguais, neocolonialismos e geradoras de dependência econômica, criadas pela Europa e EUA para subdesenvolver a “periferia”.
114 tradicionais desses povos – gerando conflitos armados, guerras de secessão, massacres e genocídios. De fato, as fórmulas e receitas político-econômicas, ocidentais se mostravam artificiais e até contrárias às instituições autóctones africanas, criando conflitos de interesses, classes sociais antes inexistentes e, mais tarde, lutas entre facções, entre grupos e partidos, golpes de estado e levantes militares. Dessa forma, a maioria desses países africanos enfrentou conflitos políticos armados e guerras civis fraticidas, étnico-religiosas e de secessão, majoritariamente por conta da má distribuição dos dividendos resultantes da exploração de riquezas naturais e recursos minerais.
Assim sendo, desde o início das independências na década de 1960 até meados de 1980, o continente foi marcado por uma grande fragmentação política, registrando cerca de 70 golpes de Estado, nos quais os países enfrentavam conflitos entre chefes tradicionais, dirigentes ocidentalizados e forças armadas, clivagens herdadas do colonialismo europeu e decorrentes da polarização, internacional no contexto da “Guerra Fria”. Desde então, os países africanos vivem alternâncias forçadas entre governos militares e governos civis, liderados por um só homem, em regimes ditatoriais que se perpetuam indefinidamente por mais de 40 anos no poder. Aliado a esse contexto, a desarticulação da URSS, no final da década de 80 do século XX, veio agravar a situação política, econômica e social de muitos Estados africanos que tinham nos países desse bloco, seus principais parceiros econômicos e ideológicos. Vejamos, a análise de M’bokolo (2007) acerca da dependência e desenvolvimento do continente africano, no contexto da ordem mundial em constante mutação, nas décadas finais do século XX:
Aos olhos dos combatentes da independência, a ruptura definitiva do nexo colonial era condição prévia para toda e qualquer tentativa de reorganização econômica e política do continente. Ora, mal haviam sido declarados soberanos, os Estados africanos foram precipitados num sistema internacional, o da «guerra-fria», prenhe de tensões e conflitos e, simultaneamente, percorrido por dinâmicas, pleno de potencialidades e aberto a perspectivas das quais todos eles, independentemente das referências ideológicas que proclamavam, queriam tirar o máximo proveito: a maioria julgava receber uma preeminência do mundo capitalista a que pertenciam os seus antigos Estados colonizadores e para o qual iam as suas preferências; alguns, muito menos numerosos, apostaram no campo socialista, sem que por isso tivessem necessariamente aderido aos «marxismo-leninismo»; outros ainda, mais hábeis, davam a impressão de se entregarem a um exercício de equilibrismo entre os dois campos, mas mantendo-se muito ligados ao mundo ocidental. Foi nesse contexto que os novos Estados se organizaram para levar a cabo a emancipação política completa e tentaram pôr em prática um desenvolvimento econômico que desse resposta às expectativas das populações (M’BOKOLO, 2007, p. 548).
Dessa forma, um segmento significativo de países africanos vivenciou diversas crises em todas as dimensões da vida de seus indivíduos e das próprias sociedades, por causa das
115 transições bruscas de modelos econômicos estrangeiros. Até aos dias de hoje, na segunda década do século XXI, o continente africano enfrenta problemas políticos, econômicos e sociais, há muito ultrapassados pelos outros continentes, como insegurança alimentar, fomes cíclicas, epidemias ligadas a questões de saúde básica, conflitos fronteiriços, territoriais, conflitos político-militares antes, durante e após as eleições, assim como sofre com a ausência de governos democraticamente eleitos e com situações de desrespeito pelos direitos humanos fundamentais. E, mesmo sendo o território que mais concentra recursos naturais e riquezas minerais, o continente africano é o território mais empobrecido do planeta. Nesse contexto de crises e conflitos, poucos países africanos puderam ser donos de seus destinos. Muitos permanecem até hoje como estados subalternos das potencias capitalistas da Europa, EUA e, mais recentemente, da China, que hoje assume uma postura colonialista, dentro do modelo extrativista, nas suas relações com o continente africano e latino-americano.