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KATILIMLARINA GÖRE DAĞILIMLARI

5.2.2. MAKRO YAPI ĠNCELEMELERĠ

5.2.2.1. TEMATĠK YAPILAR

A negação da existência de um contingente significativo ou inexpressivo de africanos e afrodescendentes escravizados, a invisibilização da escravidão racial de africanos e de afrodescendentes no território cearense, bem como a discriminação e o racismo institucional contra as populações negras e afrodescendentes, têm raízes históricas profundas no Ceará, com consequências nefastas na atualidade.129 Nesse contexto, as influências, as contribuições

129 Cabe destacar um episódio marcante do racismo brasileiro, particularmente, o cearense, ocorrido no dia 26 de agosto de 2013, quando um grupo de 50 médicos cearenses, liderados pelo Sindicato dos Médicos do Ceará (SIMEC), dirigiram-se ao Aeroporto Internacional Pinto Martins para manifestações contra a contratação e presença de médicos estrangeiros neste Estado, tendo vaiado, hostilizado e discriminado racialmente cerca de 79 médicos cubanos, parte significa deles negros, de um grupo de 96 médicos estrangeiros que, desembarcaram em Fortaleza no âmbito do Programa do Governo Brasileiro “Mais Médicos”. Com, apitos, vaias e ofensas raciais,

194 e as participações política, econômica, social e cultural dos africanos escravizados, das populações negras e afrodescendentes na História do Ceará têm sido negadas e tidas como mínimas ou até inexistentes na historiografia do Estado.

Conforme essa historiografia “oficial”, escrita a partir de documentos, descrições e relatórios deixados por autoridades, historiadores, intelectuais e políticos cearenses, acerca dos processos de escravidão racial, percebe-se que tais relatos, obras e versões enfatizam a benevolência das autoridades, abolicionistas, fazendeiros, senhores de escravos, famílias escravocratas, políticos e outros figuras ligadas à escravidão no Estado, ignorando as realidades socioeconômicas da população negra e da região que, mostravam sinais de esgotamento e insustentabilidade social do sistema escravista nesta região.130 Alex Ratts

(2011a) assim descreve sua juventude, diante desta perspectiva histórica que invadiu diferentes esferas de sua vida e tal como aconteceu com muitos outros cearenses, teve impactos profundos na sua trajetória biográfica:

Na segunda metade do século XX, era comum ler nos livros regionais e também escutar em casa, no colégio e na faculdade que “no Ceará não havia negros”, ou, pelo menos, muitos negros, “nem índios”. Dizia-se que o cearense era uma mistura de branco e índio, ou seja, a figura do caboclo da nossa fábula das três raças. Em meados dos anos 1980 surge o movimento negro cearense, mais precisamente em 1982 com a criação da seção cearense do Grupo de União e Consiciência Negra. Algumas comunidades negras rurais, a exemplo de Conceição dos Caetano e Água Preta, tornaram-se conhecidas principalmente no centenário da abolição da escravidão, em 1988. (RATTS, 2011a, p. 20-21).

Assim, tais ideias, pontos de vistas e perspectivas historiográficas de negação ou minimização da presença negra perduraram ao longo dos tempos, durante décadas e os médicos cubanos foram recebidos aos gritos de: “escravos, escravos”. No início da noite do mesmo dia, o mesmo grupo de médicos cearenses dirigiu-se à Escola de Saúde Pública do Ceará onde decorria a solenidade de acolhimento dos médicos estrangeiros e montaram uma barreira humana barulhenta com cartazes, apitos, altifalantes, faixas e aos gritos de “escravos, escravos”, vaiavam e xingavam os médicos estrangeiros. Após o término da solenidade, os médicos cubanos ficaram retidos no interior das instalações da referida Escola durante 40 minutos e só saíram de lá, após a chegada da Polícia Militar em 5 viaturas que os escoltaram. As imagens destes episódios de racismo foram captadas com telefones celulares e pelas câmaras das televisões locais, tendo circulado pelo mundo e mostrado o “racismo à cearense”. De fato, médicos e distintas associações, profissionais e sindicatos médicos municipais, estaduais, regionais e federais brasileiras eram contrárias à vinda de médicos cubanos no âmbito do programa governamental federal brasileiro “Mais Médicos”. Porém, nenhuma outra manifestação contraria ao Programa chegou ao nível de acirramento ocorrido em Fortaleza. O “Programa Mais Médicos” foi lançado no dia 08 de julho de 2013 pela então presidente do Brasil Dilma Rousseff, dentro de um amplo pacto de melhoria do atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro que, objetivava levar mais médicos a regiões onde havia escassez e ausência de médicos. Assim, diversos segmentos da classe média e alta brasileiros – deputados, empresários, partidos políticos e grupos ligados aos planos de saúde privados foram – contrários e ofereceram resistência ao Programa.

130 Dentre esses historiadores, destaco a figura de Raimundo Girão, na sua monografia sobre a abolição da escravidão no Ceará, onde este autor relata a “quase ausência do negro no Ceará” (RATTS, 2011).

195 transitaram o século XIX e XX, tornando-se na visão, percepção oficial e hegemônica sobre a escravidão de africanos e negros no Ceará. Nas décadas de 1970 e 80 do século XX, as perspectivas de historiadores e intelectuais como Pedro Silva, Oswaldo Riedel e Geraldo Nobre, a partir de textos publicados na Revista do Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará (IC), também transparecem e reforçaram a ideia segundo a qual: “não houve negros no Ceará”.

Contudo, a partir do final do século XX e início do século XXI, tais argumentos, ideias e linhas de pensamento historiográfico têm sido relativizadas e até rebatidos por distintos estudiosos das culturas, identidades e presenças de comunidades negras, afrodescendentes e indígenas no Ceará, entre os quais destaco os trabalhos de teóricos e militantes das causas negras e indígenas no Ceará. Dentre estes, destaco as obras dos historiadores Eurípedes Funes (2007) e Tshombe Miles (2011), do teórico da afrodescendência e militante Henrique Cunha Júnior (2011), dos cientistas sociais Alex Ratts (1998, 2011a, 2011b), Isabelle Silva (2011) e Pedro Mendes (2010, 2012).

Na contra-mão desta perspectiva histórica de “inexistência de populações negras”, ainda na década de 1980, o próprio Ratts mapeava a existência de diferentes famílias negras em bairros populares de Fortaleza que, estavam liagadas a agrupamentos negros rurais – Conceição dos Caetano, Goiabeiras e Lagoa do Ramo – bem como, apontava a existência de comunidades negras em 51 municípios cearenses, chegando a cerca de 140 localidades, num cenário em que todas as áreas do Ceará têm comunidades negras, com menor incidência no sertão central e no noroeste do Estado (RATTS, 2011a). Já Mendes (2012), num estudo monográfico acerca dos diferentes tipos de racismos existentes no Ceará, assim analisa a atuação do referido Instituto, suas interfaces com o sistema racial brasileiro e suas consequências na atualidade cearense:

Diferente do ideal de democracia racial construído para o Brasil, o mestiço cearense, segundo o Instituto, seria fruto somente de duas matrizes: a indígena e a portuguesa. Os historiadores do Instituto, ao considerarem que a presença do escravo foi ínfima na história do Ceará, negam o componente afrodescendente em suas contribuições físicas e culturais para a Pátria Ceará. Ainda que a presença escrava fosse de fato irrelevante, o que não é unanimidade entre os historiadores, os intelectuais do Instituto incorreram em um equívoco ao relacionar diretamente o escravizado com o negro. Uma confusão que é reproduzida até hoje e dissemina uma ideia não correspondente à realidade: a de que no Ceará a presença afrodescendente foi irrelevante. Nega-se no Ceará a presença de um pressuposto da democracia racial: a existência de negros na população cearense (MENDES, 2012, p.132).

196 Tais perspectivas de negação, minimização e invisbilização da presença e contribuições negras no Ceará foram construída ao longo dos séculos, sendo fundamentadas por historiadores e intelectuais locais e suas fontes historiográficas oficiais.131 Tais

afirmativas segundo as quais “não houve tráfico direto de mão-de-obra escrava da África para o Ceará”132 ou a partir de outras afirmativas, minimizadoras dessa presença, segundo as quais:

“houve sim, um número reduzido de escravos negros na Capitania do Ceará”133. Ou ainda,

declarações como – “o Ceará sofre pouca influência africana” – estão ainda presentes nos debates e perspectivas da historiografia oficial do Estado. Senão, vejamos tais concepções, reforçadas com relatos historiográficos oficiais:

A capitania cearense não utilizou a mão-de-obra africana nos primórdios de seu povoamento, em virtude de uma conjuntura econômica em formação que se servia da escravidão dos «negros da terra», pois o indígena e seus descendentes, servindo como escravo, agregado ou aldeado, foi a mão-de-obra dominante na Capitania durante o período colonial”.

Muitas das vezes, tais fontes históricas e historiográficas, são utilizadas para negar a existência de preconceito e discriminação racial no Estado, ou até mesmo para justificá-lo, em casos de discriminação racial contra essas populações, com a justificativa de “os cearenses discriminarem africanos e afrodescentes porque não estão habituados a ver negros”.134 Uma

131 Refiro-me ao pensamento historiográfico representado pelos intelectuais do Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará (IC), particularmente, aos textos publicados nos números da Revista deste Instituto nos anos de 1979 e de 1987, da autoria de Pedro Alberto de Oliveira Silva (1979, 1987), nos seus artigos intitulados,

As origens da Escravidão no Ceará no Ceará (1979, p.325) e, A escravidão no Ceará: o trabalho escravo e a abolição (1987, p. 141).

132 Refiro-me a intelectuais como P. A. de O. Silva (1979, 1984, 1987), Oswaldo Riedel (1888), Alcântara Pinto (1984), G. Nobre (1987) que, apontam que o número reduzido de escravos de escravos negros no Ceará se deve a pelo menos cinco razões, a saber: o povoamento tardio da capitania cearense; a sua dependência da Capitania do Pernambuco; a mão-de-obra cativa indígena abundante; uma atividade econômica centrada na pecuária favorecida pelas condições ambientais e; ao preço do cativo africano, incompatível com o numerário do colonizador.

133 Idem.

134 Refiro-me a um episódio ocorrido na piscina do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), situada no bairro Benfica, onde pratico natação há cerca desde o ano 2011, há cerca de quatro anos. Assim, durante três anos que frequentei a piscina, sempre fui invisível, quase ninguém prestava atenção na minha pessoa e presença. Por outro lado, eu também não interagia com outros usuários dentro e fora da piscina, por conta do preconceito racial de alguns usuários e uma treinadora. No mês de março de 2014, após uma reportagem, onde eu aparecia como entrevistado e denunciava situações de preconceito e discriminação racial, num dos principais jornais da cidade de Fortaleza, houve uma mudança de atitude por parte de colegas e treinadores na piscina. Enfim, fiquei mais visível, famoso e um pouco mais “respeitado” por causa da entrevista e porque fazia “doutorado na UFC”. Assim, após essa entrevista, nas semanas seguintes, passei a ser alvo de atenção de colegas e de uma treinadora. Recordo-me que durante o treinamento, um dos colegas aproximou-se e em jeito de conversa, justificou-se afirmando de que o “cearense discrimina os negros porque eles não estão habituados a ver negros, aqui sempre teve pouco negro”, bem como ouvi alguns comentários dirigidos a mim, de forma indireta por uma treinadora que dizia “já não se pode brincar e mandar piadas porque agora tudo é racismo”.

197 das poucas referências históricas à população negra e seu contributo no Ceará é a figura do “Dragão do Mar”, nome famoso com que ficou conhecido na História oficial do Ceará, o jangadeiro negro Francisco José do Nascimento, o “Chico da Matilde”135 que, no século XIX,

se recusou a embarcar e transportar na sua jangada – negros oriundos de África que iam desembarcar do navio negreiro – para o cais, mais uma leva de africanos que iam ser escravizados no território cearense. Ao se recusar desembarcar mais negros africanos e promover essa causa entre os outros jangadeiros, o Dragão do Mar entrou para a história do Brasil e alavancou a abolição da escravidão ao impedir o comércio de escravos nas praias do Ceará. Em outras ocasiões, este líder negro também fechou o Porto de Fortaleza, impedindo desta forma, o embarque de escravos do Ceará para outras províncias, bem como vigiava a costa de Fortaleza e quando localizasse alguma embarcação entrando no Porto, conduzia a sua jangada até lá e informava o fim do comércio de escravos no Ceará.

Assim, por conta do seu ativismo abolicionista, Dragão do Mar esteve presente na sessão da Assembleia do dia 24 de maiode 1883, quando o Fortaleza libertou oficialmente os seus escravos. Já em 25 de março de 1884, aconteceu a libertação de todos os escravos da Província do Ceará. É assim que, a data de 25 de março de 1884 entra para a história do Ceará e do Brasil, como a data da primeira abolição da escravidão, quatro anos antes da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, que abolia a escravidão no Brasil. Estima-se em cerca de 30.000 (trinta mil) o número de escravos libertados nessa data no Ceará.

Entretanto, cabe destacar que, a elite escravista, os políticos da época e os posteriores, logo se apropriaram da data e do discurso abolicionista como sendo ideia e propriedade da “bondade”, filantropia e pioneirismo cearense, conforme reza a Historiografia Oficial do Ceará de que, “nosso Estado foi palco de relevantes movimentos abolicionistas, que denunciavam, pela imprensa, os abusos cometidos pelos senhores de escravos e combatiam o comércio negreiro entre estados”.Desse modo, nos Anais da História do Ceará, os fazendeiros

135 Francisco José do Nascimento (1839-1914), o Chico da Matilde, mais conhecido por “Dragão do Mar”, líder negro abolicionista e dos jangadeiros nas lutas abolicionistas, nasceu em 15 de abril de 1839, em Canoa Quebrada, no litoral cearense. Foi criado apenas pela sua mãe, Maria Matilde da Conceição, frente a muitas dificuldades, pois, seu pai Francisco José do Nascimento havia falecido nos seringais da Amazônia. Cedo, “Chico da Matilde” envolveu-se na vida do mar, tendo trabalhado como “moço de recados” em um veleiro. Aos 20 anos de idade, aprendeu a ler. Em 1959 trabalhou nas obras do Porto de Fortaleza e também como marinheiro em um navio que fazia a linha Maranhão-Fortaleza. Em 1874 foi nomeado prático da Capitania dos Portos, convivendo com o drama do trafico de escravos, até se envolver na revolta contra o sistema escravista no litoral cearense. Por conta de sua luta contra a escravidão, perdeu o cargo de prático e, somente reassumiu em 3 de março de 1889, após ordem do Imperador e torna-se Major-ajudante. More em 6 de março de 1914. Para mais informações sobre a trajetória de Dragão do Mar, cf. a página de Canoa Quebrada no domínio: <http://www.canoabrasil.com/dragao-do-mar.html>.

198 esclavagistas, senhores donos de escravos e políticos abolicionistas é que aparecem como protagonistas desse evento histórico, enquanto “libertadores” dos africanos e negros escravizados, quando nunca o foram na realidade. Já a população negra e seus líderes ou são ignorados ou aparecem como agentes passivos, sem capacidade de ação, de “agência” e de resistência, sendo sempre conduzidos e andando “a reboque” das iniciativas da população eurodescendente. Uma situação e condição semelhantes – aquelas dos africanos e negros cearenses – foi e vem sendo vivenciada pelos distintos grupos indígenas no Ceará, historicamente chamados de “negros da terra”. Vejamos, então, as discussões acerca do polêmico “Relatório Provincial de 1863” que decreta a extinção dos indígenas no Ceará e a consequente expropriação de suas terras no Estado, num artigo da antropóloga Isabelle Silva (2011):

A ideia de escrever este artigo surgiu de uma polêmica lançada na rede de discussão Temince136 em março de 2007. Na ocasião, formulou-se a pergunta “existiu ou não o tal decreto?”, em referência ao Relatório provincial apresentado pelo presidente José Bento da Cunha Figueiredo Júnior à Assembleia Legislativa do Ceará em 9 de outubro de 1836, quando de sua instalação. Esse documento é marco da historiografia cearense, considerado o ato final do governo local relativo à “extinção” dos índios no estado do Ceará (Op. cit, p.327).

Esta autora apresenta extratos do referido Relatório no tocante aos aldeamentos indígenas e analisa seu significado para o futuro deste grupo etnicorracial no Ceará e suas consequências na atualidade. Senão, vejamos:

Já não existem aqui índios aldeados ou bravios. Das antigas tribos de Tabajaras, Cariris e Pitaguaris, que habitavam a Província, uma parte foi destruída, outra emigrou e o resto constituiu os aldeamentos da Ibiapaba, que os jesuítas no princípio do século passado formaram em Vila Viçosa, S. Pedro de Ibiapina e S. Benedito com os índios chamados Camussis, Anacaz, Ararius e Acaracú, todos da grande família Tabajara.... Os respectivos patrimônios territoriais foram mandados incorporar à fazenda por ordem imperial, respeitando-se as posses de alguns índios. (Op. cit. p. 328-329).

De acordo com Silva (2011), os enunciados –“ já não existem aqui índios” – que se lê no “decreto da extinção” repete o que havia algum tempo, era dito pelas autoridades administrativas da província sobre a presença indígena no Ceará, o que autorizava a Tesouraria a a sequestrar as terras dos indígenas e incorporá-las aos nacionais. Cerca de 80% dessas terras pertencentes aos índios. Na ótica da autora, “tudo isso serve para enfatizar o

136 Grupo de discussão abrigado pelo Yahoo que, segundo sua própria definição, “é um canal de informação sobre a temática indígena no Ceará, o qual conta com a participação de lideranças indígenas, representantes de entidades governamentais e não governamentais, ativistas e estudiosos de várias disciplinas” (Silva, 2011, p. 327).

199 quanto o discurso da negação da presença indígenea no Estado em tal período histórico não conduzia com o que de fato se verificava na dinâmica social” (p. 331). Outra conclusão da autora é de que “pode-se dizer que o voraz e permanente processo de expropriação das terras indígenas que nos acompanha até a contemporaneidade teve início com o não reconhecimento da propriedade coletiva indígena, inaugurado pela Coroa portuguesa” (p. 335).

A rigor, os indígenas – que constituem o grupo original “tradicional” e dono do territorrio cearense, brasileiro – também têm sido invisibilizados e subalternizados ao longo dos séculos da História do Brasil. Se os negros e afrodescendentes são as maiores vítimas do preconceito, racismo e genocídio no espaço urbano brasileiro, por sua vez, os indígenas constituem as maiores vítimas nas florestas, selvas, reservas naturais, comunidades ribeirinhas e no campo. Nesse cenário, ainda na época colonial, os indígenas foram descritos como oficialmente “extintos” no Ceará após séculos de catequização e caçadas, para servirem como mão-de-obra escrava da população eurodescente da sociedade cearense.

Via de regra, ainda hoje, registraram-se no Ceará, disputas de terras entre fazendeiros, empresários, grupos hoteleiros e turísticos, empresas de energia eólica, criadores de peixes, de crustaceios e outros setores capitalistas de um lado e as comunidades indígenas do outro. Também se têm notícias de comunidades quilombolas que têm sido sitiadas por empresários, grupos hoteleiros privados e às vezes, por grupos integrantes da própria comunidade. Dentre os conflitos mais recentes no Ceará, cabe destacar aqueles que envolvem as comunidades indígenas Tremembé de Almofala em Itarema e fazendeiros por conta de terras; os Tremembé da barra do Mundaú em Itapipoca e grupos ligados à energia eólica; as comunidades quilombolas do Cumbe em Aracati e grupos empresariais; as comunidades tradicionais da Prainha do Canto Verde em Beberibe, entre outros conflitos.

Assim, ao longo da história e ainda hoje, observamos na toponímia do Estado do Ceará, muitas regiões, municípios, ruas, avenidas, praças, palácios, auditórios, anfiteatros, túneis, pontes, viadutos e outros logradouros que, ostentam nomes e homenageam grandes figuras, políticos, senhores e famílias escravocratas cearenses. Na cidade de Fortaleza, cabe destacar figuras e nomes como os “Pontes Vieira” que, nomeiam viadutos e avenidas na cidade de Fortaleza; ou a família “Fontenele” de Quixadá, cujo, avô da primeira prefeita de Fortaleza Maria Luiza Fontenele, era “dono” de africanos de origem senegalesa, escravizados no Ceará; ou mesmo a família escravocrata de José António Machado, entre outras.

200 estes fatos históricos foram suprimidos ou apagados da memória com a mudança dos nomes das localidades. Mesmo assim, parte destes nomes e expressões africanas perdurou no tempo. Tal se percebe não apenas pelo vocabulário cearense que, possui muitas expressões de origem

bantu, mas também pelos próprios nomes desses locais, a exemplo de Mombaça, Mulungu,

Caponga, Cumbe, Requenguela, entre outros. Desta forma, na Historiografia oficial do Ceará, os discursos e registros “históricos” apontam para a extinção de grupos indígenas e quase “ausência” dos negros, ao mesmo tempo em que os eurodescendentes são apresentados como “donos” ou “verdadeiros cearenses”. Vejamos então, as ilações de Ratts (1998) acerca desse