1869: culturalmente falando, verifica-se no Brasil uma ruptura com o passado. A partir de então, as estruturas econômicas, políticas e mentais do país seriam arduamente reprovadas por Sílvio, apoiado em padrões e visões emanados da Europa. Nesse momento, o país seria pensando e projetado conforme idéias europeias, que reforçavam e sustentavam retoricamente, segundo o crítico, o atraso brasileiro. Atraso esse visto por Sílvio como refletido nas mais diversas áreas, o que fez dele um homem que enveredou pelo campo não apenas da Crítica literária, mas pelos mais variados ramos do conhecimento. Desse modo, interessou-se por História, Filosofia da História, Folclore, Sociologia, e História literária do país.
Sílvio Romero se formou na condição de um novo modelo de bacharel, não mais preso às instituições arcaicas; esse novo intelectual tinha a visão europeizada que ia de encontro à mente conservadora da elite anterior. O poderio econômico do bacharelado de outrora estava ligado uma visão política conservadora que não possibilitava uma forma de representação política a grande população, embora tenha o Brasil presenciado focos liberais em prol de melhores formas representativas. A sociedade imperial, adormecida sob o manto do governante, significava o atraso do país, e não é sem razão o combate de Sílvio ao pensamento haurido pela Igreja Católica, uma visão diletante, hermética, heurística, que não interessava ao crítico, uma vez que só legitimava uma sociedade de senhores e pobres.
Sílvio era um homem que visava a alterar todo esse quadro do atraso do país, daí seus ataques em várias frentes, fosse no campo político, literário, filosófico etc. Suas antipatias se davam por conta da estagnação de nosso ensino retrógrado, não baseado nos preceitos da Ciência da época. Na política, era Sílvio um defensor de um Estado forte, descentralizado, que não caísse em mãos oligárquicas e chegou a elencar as províncias e seus respectivos oligarcas. No campo filosófico, nada sobrou para ele da Filosofia ensinada por padres. Na História literária, rogava ter sido o primeiro a elaborar uma História da Literatura Brasileira conforme os padrões do que de mais novo existia na Crítica moderna. Sílvio pretendia ser por excelência um homem moderno.
Sua ânsia de modernizar o Brasil a partir da ampla renovação cultural a que se propôs só tem sentido se entendermos que Brasil atrasado era aquele que o escritor tanto combateu. Antes da imagem de Brasil fornecida por Sílvio quando de sua empreitada modernizante, os elementos para a visão do país estavam por conta do clero, propagador das Letras latinas e disseminador da evangelização. O que existia era a preocupação com temas como a existência de Deus e a base de apreensão do conhecimento - no caso, o Espiritualismo. A tradição cristã herdada pelo ensino católico serviu para
integrar o Brasil, num momento em que não existia uma visão realista do país, tratava-se de uma leitura para dentro. Nesse cenário, o que predominava era uma tradição literária e eclesiástica na qual a tendência ao diletantismo, somado à hostilidade pelo trabalho manual, dificultava o interesse pelas Ciências Naturais: “formou-se, por esse modo, a tendência intelectualista e literária que se
desenvolveu por mais de três séculos, para o bacharelismo, a burocracia e as profissões liberais. Se para ela devem ter concorrido às tradições intelectualistas do judeu, a cuja influência Gilberto Freyre atribuiu o gosto pelo anel do dedo, com rubi ou esmeralda, do bacharel ou do doutor, e a mania dos óculos e do pince-nez, “reminiscência oriental, de saber israelita”, é certo que nenhuma influência nesse sentido, na Metrópole e na Colônia, foi maior do que o sistema de ensino e a cultura que dele resultou”.302 Bem sintetiza Fernando de Azevedo, referindo-se a essa cultura, que “a formação
intelectual que recebiam, eminentemente literária, orientada não para a técnica e a ação, mas para o cuidado da forma, adestramento na eloqüência e o exercício das funções dialéticas do espírito, não podia fazer desses mestres em Artes e licenciados senão letrados, imitadores e eruditos, cujo maior prazer intelectual consistia no contato com os velhos autores latinos”.303
Sílvio Romero foi o oposto dç intelectual caracterizado por Azevedo, cultor da Arte e mais preocupado com a vulgarização dos clássicos latinos do que com a aplicação do conhecimento na resolução dos inúmeros problemas de seu país. A começar pelo combate à Retórica, que para Sílvio soava a tradicionalismo, uma vez que ia de encontro a sua vasta erudição naturalista, que foi um dos cernes de suas críticas ao ensino de cunho metafísico. Não se tratava de uma mera crítica ao estilo ou forma de ensino, mas a toda uma visão concebida como representação direta da elite fundiária, que, por sua vez, formou-se sob o tradicionalismo coimbrão. Ainda que pareça determinista a associação entre o ensino retórico de cunho ornamental, característico do Brasil colonial, que não desapareceu mesmo depois de instalada a república, ao tradicionalismo cultural, foi nota predominante processada pelo ensino jesuítico, no qual se prestigiava o culto às humanidades clássicas, até o momento de ruptura, representado pela influência promovida pelo bispo e governador Azeredo Coutinho. Frente a um cenário desssa natureza, tornava-se cada vez mais difícil o surgimento espontâneo do espírito crítico, o que veio a ocorrer somente com a geração de Sílvio. Ainda que já nos fins do século XVIII tenha o Brasil visto emergir uma série de pesquisas em decorrência das necessidades da metrópole, ligadas ao interesse em desvendar o potencial do solo e do clima, nesse momento já principiara uma nova situação. Lembra Maria Odila Silva Dias que “o fomento e a difusão dos estudos naturais na colônia, até então tidos como “suspeitos e ignóbeis”, constituíam fenômeno inteiramente revolucionário se o confrontarmos com os moldes do ensino jesuítico que predominava até o
302 AZEVEDO, Fernando de. A cultura brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. 4ª. Ed. São Paulo: UNB, 1963. 303 Ibidem. p. 278
momento. Particularmente interessante e digna de nota foi a fundação, em 1798, do Seminário de Olinda, pelo bispo D.José Joaquim de Azeredo Coutinho, com um currículo inteiramente voltado para a modernização do ensino, dando ênfase especial à Botânica e à Mineralogia”. 304
Tal afirmação nos leva não apenas a tomar conhecimento de que as interpretações deste novo Brasil partiam do que oferecia o repertório de idéias de fora, mas antes de tudo nos força a esboçar com qual Brasil Sílvio se deparou em seu tempo para que dessa forma fiquem claras as razões de toda sua ânsia modernizadora.
A modernização proposta por Sílvio recaía sobre três fatores: o Ecletismo espiritualista, a Filosofia católica e o Positivismo. Lutar pela modernização do Brasil era, antes de tudo, eliminar o Ecletismo de Cousin, não mais que “uma Filosofia incoerente e pretensiosa, inimiga da observação e
da experiência, uma sortida no campo do absoluto, divinizado o homem por meio da razão impessoal. Entretanto, a Filosofia que tem por dogma a relatividade de todas as coisas, mudando de método e reforçando os seus princípios, continuava surdamente a acumular os achados e da fortalecer a verdade”. 305
A citação acima não poderia ser mais fiel a um homem formado sob o espírito crítico, caracterizado por Sílvio Rabello como um homem de espírito geométrico, que buscou mudar o Brasil, tendo que, para isso, enveredar pelas mais variadas áreas de conhecimento, não abrindo margem para a simples especulação, fosse literária ou científica. Para além das fortes críticas de Sílvio ao Ecletismo, a importância dessa corrente fora por demais relevante para o desenvolvimento da cultura brasileira: “Victor Cousin foi vítima de mesquinha disputa literária e acabou passando à posteridade como uma
figura de segundo plano graças ao que escreveu Hippolite Taine (1828/1898) em Lês philosophes classiques du XIX siècle em France. A chamada geração de setenta investiu furiosamente contra a Escola criada por seus discípulos no Brasil, sem reconhecer-lhe qualquer mérito, salvo Tobias Barreto (1839/1889) que, mesmo encampando as Críticas proclamava ter-lhe despertado o gosto pelos estudos filosóficos”. 306
A Filosofia católica, personificada pela figura central do franciscano Montalverne, mais Eduardo França e Gonçalves de Magalhães, sofreu duros golpes de Sílvio, pois se mostrou “tão pobre, tão insalubre foi o alimento que lhe forneceu a cultura de sua pátria, em seu tempo; tão ingratas as influências a que teve que ceder, que a Crítica sente-se com impulsos de o absolver”.307
304 DIAS, Maria Odila Leite da. A interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2005. p. 53 305 ROMERO, Silvio. A Filosofia no Brasil. In. Obra Filosófica. p. 16
306 PAIM, Antonio. Escola eclética. Estudos Complementares a História das idéias filosóficas no Brasil. Vol. IV. 2ª. Ed.
Londrina: CEFIL, 1999.p.5
A Crítica de Sílvio à qualidade do ensino de cunho religioso que formou a mentalidade das elites brasileiras, divulgada nos seminários e nos ateneus, era antes de tudo a Crítica ao atraso do país, sem estabelecimentos educacionais e culturais de bom nível e que sempre copiava os costumes e as idéias que vinham de fora, especialmente, da França, criando uma imagem de si mesmo irreal, o que muito contrariava os anseios do bacharel.
Foi contra o Positivismo que Sílvio elaborou uma análise mais detalhada, não porque menosprezasse o poder das idéias anteriores, pois estas vigoraram por longo tempo, mas sim porque era a Filosofia de Comte que punha em risco toda sua empreitada modernizadora, por isso merecia ser combatida: “a pretensão positivista de formular nova síntese, novo dogma, nova doutrina, novo culto,
novo poder espiritual, novo clero, que devam guiar a humanidade e, como a maravilha suprema, trazer-lhe a paz geral e absoluta, por ser a síntese e o dogma e a doutrina e poder espiritual e o clero definitivos e finais, tal pretensão não tem o menor fundamento histórico e psicológico.” 308
Para alguns intérpretes de Sílvio, ele não pretendia propriamente uma síntese da cultura brasileira, buscava entender o país a partir das leis sociológicas, no tempo, influenciado pelo Evolucionismo, ele promoveu uma detida análise do Positivismo em seu livro Doutrina contra
Doutrina, guiando-se pela visão de Spencer. Nessa perspectiva, a Filosofia de Comte, ainda que
elaborada por etapas, chocava-se com a concepção evolucionista de Spencer. A modernização
do país passava inevitavelmente pela crença em que, a partir da cultura e do conhecimento dessa concepção, tornava-se possível aquela Modernidade. Já é essa uma visão modernizadora quando comparada com aquela que permitiam a Igreja Católica e o Romantismo brasileiro, onde não existia uma relação entre as causas e os efeitos. Sílvio rompeu com o Culturalismo de Tobias Barreto, promoveu uma aproximação entre cultura e natureza. Ao contrário de Barreto, que não acreditava na Sociologia e na Psicologia como Ciências, Sílvio punha todas as áreas em condição da análise científica - História, Sociologia etc.
A Escola do Recife era um projeto reformador que não deixava de ser ambicioso uma vez que almejava alterar todo o cenário brasileiro em busca da modernização. Outros grupos modernizadores se formavam no Brasil, como a Academia Francesa309, formada justamente por bacharéis que saíram do Ceará para estudarem na Faculdade de Direito do Recife e quando retornaram a sua província de origem divulgavam o que de mais novo existia no plano das idéias científicas. Surgida para divulgar os benefícios de uma sociedade regida pelos avanços da Ciência moderna, a Academia Francesa, nome
308 Ibidem. p. 325
309 COSTA FILHO, Cícero João da. Padaria Espiritual: cultura e política em Fortaleza no final do século XIX (1892-1898).
Dissertação de Mestrado apresentada a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São Paulo, 2007. pp. 63-64. BARREIRA, Dolor. História da Literatura Cearense. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1948. AZEVEDO, Sânzio de. A Academia Francesa do Ceará (1873-1875). Fortaleza: Casa de José de Alencar da Universidade Federal do Ceará, 1971.
escolhido por gracejo e que “acabou pegando” para se contrapor a outros centros, também redutos das idéias novas, como Recife e, remotamente, São Paulo, era um movimento filosófico, segundo o crítico Tristão de Ataíde. A “moderna geração cearense” era constituída por Rocha Lima, Capistrano de Abreu, Thomas Pompeu de Souza Brasil Filho, Xilderico de Faria, França Leite, Araripe Junior, Antônio José de Melo, Felino Barroso e Amaro Cavalcante.
A designação “Academia Francesa”, escolhida por Rocha Lima - o mais novo de todos -, era inspirada pelo simples fato de seu grêmio recorrer às leituras de autores franceses em contraposição ao grupo “moderno” de Recife, que se baseou também em obras de pensadores alemães. O grupo da Academia Francesa se reunia na casa de Rocha Lima, segundo Capistrano de Abreu, a “mais fulgurante estrela” que rebentou no Ceará.
No Amazonas, surgiu a Revista Amazônica e bem antes que as demais regiões brasileiras uma universidade, que contou com a colaboração de José Veríssimo, no momento em que grupos positivistas e evolucionistas se formavam respectivamente no Rio e em São Paulo e quando surgiam os germanistas do Rio Grande do Sul.
A personalidade de Sílvio não permitia reconhecer a existência desses grupos, o que confundia a
Escola do Recife com sua própria imagem: “o maior crítico da Escola do Recife tomou a valorização do legado de Tobias Barreto como uma questão pessoal, o que fez com que muitas de suas polêmicas tenham tido, como ponto de partida, a defesa do “amigo” atacado por “adversários desleais”. Romero fez a apoteose ou o elogio irrestrito de Tobias Barreto de Menezes, o bacharel pobre e mulato que, apesar dos conflitos com a Faculdade de Direito do Recife, acabou por fazer parte de seu corpo de professores”.310
Foi através do grupo fundado pelo mulato e também sergipano Tobias Barreto que Sílvio obteve repercussão nacional. Se a Escola do Recife não tem existência real, como apregoa José Veríssimo, o escritor paraense reconhece e elogia a importância da História da Literatura de Sílvio, caracterizando seu autor como um escritor arrojado e de caráter aguerrido. No que pese a confusão entre Sílvio e o grupo de leitores da Faculdade de Direito, é inegável a importância desses jovens bacharéis em busca de modernizar o Brasil. Tomando conhecimento das leituras de Kant, Bagehot, Joufrroy, que se propunham por a prova de que maneira se apreendia o conhecimento, o que prevaleceu foi uma interpretação científica. Nesse sentido, conhecendo as leis da História e da Sociologia, mais fácil se tornaria resolver os males brasileiros. Tratava-se, pois, de um movimento fortemente nacionalista, que trazia para fora o que ainda não havia sido tocado e que agora passava a ser encarado de maneira crítica. Essa Crítica que Sílvio tanto buscou elaborar em sua concepção era a própria prova da
310 VENTURA, Roberto. Estilo tropical: História cultural e polêmicas literárias no Brasil, 1870-1914. São Paulo:
Modernidade. “A Escola do Recife estimula e desenvolve o interesse e o amor pela produção
intelectual brasileira, herdada dos primeiros românticos, mas despindo-a da feição ingênua de que se revestira. Esse trabalho agora assume a forma de inventário, pretende-se científico e duradouro. Embora não tenha autoridade para dizer-lo, tenha a impressão de que se revestem desse caráter o que nos legaram em matéria de História da Literatura brasileira, de registro de manifestações folclóricas e da cultura popular.” 311
Muito antes do ousado plano iniciado por Tobias Barreto, houve manifestações de reforma como a promovida pelo Marquês de Pombal, defendendo a cultura portuguesa, o de Luís Antônio Verney, objetivando alguns segmentos da cultura, e o programa dos ecléticos, cuja ambição era reformar todas as instâncias culturais. Aqui, sobressai a figura de Gonçalves de Magalhães, “O primeiro em data dos
nossos homens de Letras, e um dos maiores pela inspiração fundamental, variedade e ainda mérito da sua obra. Pode dizer-se que ele inicia, quanto ela é possível aqui, a carreira literária no Brasil e ainda no Brasil e ainda por isso é um fundador”, 312. Mas, o plano do grupo de jovens bacharéis era
ambicioso. Era ousado não apenas porque disseminava saberes e assim tornava possível o surgimento de novos campos, como por exemplo, a Ciência jurídica, mas porque buscava por em prática nos mais variados planos o projeto modernizador discutido pelo grupo.
O projeto reformador tanto no plano cultural quanto político e social, calcado nas leis científicas, formadoras dos novos campos do conhecimento, confundiu-se com a visão de Sílvio no sentido em que o escritor sergipano pôs em prática as ideário científico dessa modernidade. Atesta Paim que
“Essa preferência pela vida espiritual no que ela tem de mais nobre e elevado configura bem o eixo do projeto da Escola do Recife. Reformar o país é alterar e redirecionar essa camada mais alta de sua tradição cultural, inclusive a meditação de caráter ético. É certo que, como disse, visaram também às instituições políticas, mas sempre com esse vezo intelectualista, tão bem caracterizado por Evaristo de Moraes Filho, a que pretendo voltar para exame mais detido. Na medida em que o país não os segue é que irão dar-se conta de que a cultura tem efetivamente um “mundo subterrâneo”, constituído pela tradição da vida cotidiana, a que chamaram ora de costumes ora de Psicologia coletiva”. 313
Não sabemos de que outra forma poderiam se dirigir tais bacharéis às estruturas do país sem esse
vezo intelectualista que fala Paim. Apesar das várias leituras conhecidas no âmbito da Escola do Recife, esse repertório integrava e era o próprio projeto modernizante. Em todas as frentes se dava o
ataque ao Brasil arcaico para a construção do moderno Brasil. Não existe exemplo melhor desse projeto modernizante do que a figura do próprio Sílvio Romero. Buscando um ponto de partida em sua
311 PAIM, Antonio. A Escola do Recife. Londrina: UEL, 1999. p.95 312 Ibidem. p. 93
empreitada modernizadora, Sílvio partia sempre do que tinha fundamentação científica. A Ciência era seu único instrumento de análise, somente a Crítica filtraria o que podia se aproveitar do que ficou do passado brasileiro. Era assim que Sílvio partia para as leituras de seus Comte e seus Buckle, dos seguidores da Escola de Ciência Social e dos escritores que chegou a considerar como seus mestres para decretar a morte do Brasil do passado.
Sua visão é a de um experimentalista objetivando mudar a sociedade em que vive. Daí se entender que Sílvio nunca ficou apenas no terreno da Crítica literária, nunca viu Literatura como apenas Arte, nunca separou Teoria de prática, nunca se prendeu à pura especulação. Apegou-se à Escola de Le Play porque esta lhe permitia observar de maneira objetiva a trama da sociedade, visando a identificar que sociedade era a nossa e como esta tinha sido formada. Tal era a maneira como Sílvio pensava que tinha conclusões certas sobre o brasileiro, uma delas, a de que este era apático por nascimento devido a sua formação não particularista ou individual, o que não possibilitou o desenvolvimento do povo brasileiro e do país. Eram explicações baseadas no que oferecia a Ciência da época. Tínhamos um caráter que explicava até no plano literário a apatia de nossas Letras e de nossos poetas que morriam precocemente.
Não é gratuito que Sílvio tenha fundamentado toda sua obra sobre essa falta de iniciativa, mostrando o caráter brasileiro não interessado pelas coisas nacionais e que, imerso nas vilas, se prendia ao chefe local em busca apenas do que comer. Esse caráter explicava a situação de atraso do Brasil. Num país onde milhares de pessoas trabalhavam para manter uma pequena elite no poder, seria necessário conhecer os escritores da Crítica moderna para alterar tal estado de coisa. O atraso do país tinha suas causas e como um cientista, Sílvio identificava quais elementos eram esses. Um deles era a raça, a História do país teria sido outra se outra tivesse sido a raça colonizadora pois esta se encontrava em estágio de degradação. Segundo Sílvio, há um passado em que nada se aproveira, uma herança que