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O termo Nação, como prerrogativa política, é uma invenção moderna, que emerge após longo processo histórico, entre unificações e rupturas, buscando a formação do estado nacional. Guibernau vê traços singulares que caracterizam a nação moderna em comunidades étnicas e grupos anteriores ao que alguns teóricos vêem como fenômeno político moderno. Defendendo traços de lealdade e identidades de certos grupos, argumenta a autora que “se voltarmos nossa atenção para as mudanças na organização da sociedade através dos tempos, podemos ver como, depois da queda de Roma e da subseqüente desintegração do Império carolíngio, a Europa ocidental dividiu-se em feudos relativamente pequenos e áreas de influência que, por meio da conquista, dos casamentos e da anexação, criaram grandes unidades que desenvolveram um senso de comunidade, sobretudo mediante a guerra contra outros grupos”. 290

Benedict Anderson, em seu clássico estudo, busca as possíveis raízes culturais dos elementos integrantes que podem explicar a idéia de nação. Mesmo reconhecendo e dando importância à perda de prestígio da “comunidade imaginada”, ligada a uma “comunidade sagrada”, nação é algo que contempla elementos novos e que, por isso, não é de fácil análise, uma vez que “é perfeitamente possível conceber o surgimento das novas comunidades nacionais imaginadas, sem que algum deles, talvez nenhum deles, estivesse presente. Num sentido positivo, o que tornou imagináveis as novas comunidades foi uma interação semifortuita, mas explosiva, entre um sistema de produção e de relações produtivas (capitalismo), uma tecnologia de comunicações (a Imprensa) e a fatalidade da diversidade lingüística do homem”. 291

Hobsbawm, em seu estudo acerca das nações, considera que uma vez que a concepção de nação é fruto da Modernidade, “o melhor modo de entender sua natureza é seguir aqueles que, sistematicamente, começaram a operar com esse conceito em seu discurso político e social durante a Era das Revoluções, especialmente a partir de 1830, com o nome de principio da nacionalidade” 292.

Novidade histórica, como entendem Hobsbawm e outros autores, o que a princípio se tomou como nação nada tem a ver com os elementos que integram o conceito revolucionário de nação num momento onde os estados dessa natueza estavam a se formar e o mapa da Europa era redesenhado. Não bastasse a dificuldade para conceituarmos o que seja uma nação, lembra Hobsbawm que categorias analíticas como língua e etnia, são ambíguas, mutáveis e opacas, o que torna problemática a

290 GUIBERNAU BERDUM, M. Montserrat. Nacionalismos: o estado nacional e o nacionalismo no século XX. Rio de

Janeiro: Jorge Zahar, 1977.p.59

291 ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989.p.52

292 HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1990.

definição daquilo que seja uma nação. Seguindo o autor, o que mais tarde veio ser indispensável às nações e ao nacionalismo, servindo como princípio da nacionalidade, especificamente a partir de 1830, era um quadro inovador que via a ascensão das burguesias liberais, representadas por seus intelectuais, que agora se debatiam com o problema de que nem todos os estados coincidiam com nações. Objetivando a delimitação dos estados nacionais, que requer a existência de um “povo”, é que fazem sentido elementos a serviço do nacionalismo como território, língua, etnia, o que aqui nos interessa. Portanto, ao momento histórico do Estado como suposta expressão política de um povo, conforme pensam Gellner e Hobsbawm, que vamos nos ater.

O Estado requer um corpus político indispensável à viabilização dos elementos integrantes da nação, que leva ao despertar do sentimento ou da consciência nacional. É com a vinda da Corte para o Brasil em 1808 que as ferramentas para a formação do Estado nacional começam a ser articuladas entre nós. Isso porque, como colônia de Portugal, não foi possível o Brasil engendrar um sentimento de nação, dada a relação política, econômica e social que ligava o país a sua metrópole. Tornando-se independente de Portugal, toda uma estrutura política, econômica e social precisou se elaborar. O movimento de independência não deixou de ser um acontecimento “revolucionário”, uma vez que toda uma estrutura política, econômica, social agora tinha que se ordenar, embora mantendo relações de dependência em relação a outros países (particularmente, a Inglaterra) e vigorasse em seu interior o forte poder de uma elite fundiária. A emergência do Estado nacional brasileiro apenas se readaptou a essa nova ordem. Ele foi pensado a partir de sua herança colonial, donde as rupturas e continuidades frente aos vários Brasis pensados pelas elites provinciais dominantes.

Uma vez independente, o Brasil carecia de todo um aparato político que respaldasse juridicamente sua condição de nação, tendo que esboçar projetos políticos. Esses esboços surgem das províncias mais significativas economicamente, como a Bahia. A princípio, mesmo que os projetos políticos da formação do Estado nacional fossem provenientes das províncias de forte Economia, em defesa dessa ou daquela ordem, desse ou daquele modelo de Brasil, cabia readaptar toda uma estrutura de práticas políticas, com os costumes e Educação da camada senhorial para a nova ordem legal. O Liberalismo fora de vital importância na articulação das rupturas e continuidades na formação do Estado nacional, isso se deveu, conforme Florestan Fernandes, a interpretações oriundas da assimilação das idéias liberais, tanto pela camada senhorial quanto por grupos menos privilegiados, o que acabou diluindo uma possível divisão do país numa estrutura apenas autoritária e permitindo uma leitura que se opunha aos interesses exclusivos da camada senhorial.

Sabemos das interpretações provenientes das leituras liberais materializadas nos movimentos de contestação colonial, que iam desde o protesto contra a dependência do Brasil em relação a Portugal até ao sonho socialista almejado pelas camadas subalternas, pessoas “perigosas”, condenadas por

conta da cor, como negros e mulatos, e mais milhares de trabalhadores livres. Ainda que se saiba do forte prestígio político da camada senhorial, agenciando as mais variadas práticas políticas, o autoritarismo dos donos do poder não foi maior, como pontua Florestan Fernandes, por conta do Liberalismo, o que parece ser ambíguo porque à medida que servia para manter a camada senhorial no poder, ao mesmo tempo, desinflava esse mesmo autoritarismo, uma vez que, contrariava muito da estrutura do mundo senhorial, mas não o poder e a força do dono de terra.

Essa bipolarização liberal tornou possíveis continuidades do mundo senhorial na ordem legal, sendo possível readaptar elementos da vasta herança colonial, de modo específico, questões de ordem política, cultural e social. O aparato político do Estado nacional brasileiro modelou-se sob as instâncias do ancien règime, do projeto monárquico que tinha como base a figura do rei como instância máxima. Primeiramente, vale lembrar que predominava na colônia o poder das camadas senhoriais que, mesmo sendo os legítimos donos do poder, eram parte e peça da política patrimonial implantada pela Coroa. Embora o status de colônia ainda perdurasse por mais quatorze anos, é com a vinda de do regente D. João (a partir de 1816, rei D. João VI) que se articulam as premissas para a formação do Estado brasileiro. Uma vez que não existe Estado sem nação, ou seja, a existência de um “povo” provido de sua identidade, é a partir do rompimento com a metrópole portuguesa, com o movimento da independência, que veremos o Brasil se pensar como nação.

Antes de refletirmos sobre como se desenrolou o complexo processo da emergência do Estado nacional brasileiro, é preciso remontar ao estatuto colonial, não apenas no nível de situação política, mas a partir da vasta herança colonial, abordando aspectos sociais e culturais, para que possamos compreender que grosso modo o emergente estado apenas fora uma readaptação dos elementos herdados do Brasil colonial. Dominado por uma camada senhorial imersa numa sociedade estamental, somente possível por causa da relação patrimonialista daquela camada com a política lusitana, o Brasil independente que se forma é a transplantação dos donos do poder, reinante ao longo do Império brasileiro, agora estabelecido na ordem legal do Estado independente.

É paradoxal ter experimentado o Brasil diversos motins liberais para legalizar uma monarquia constitucional que tanto lutou para por fim à dominação frente à mãe pátria, conclamando sempre o “povo”, quando sabemos que o Estado nacional brasileiro apenas suprimiu a exploração da colônia pela metrópole ficando agora submetida à elite fundiária de seu próprio país. Uma vez independente, e contando com raças diferentes, donde o medo constante das elites fundiárias no que se refere a uma revolução por parte da população escrava, cabia apaziguar as diferenças por meio da idéia nação. Se tomarmos as falas dos responsáveis pela formação da nação brasileira, veremos não apenas um discurso fechado, típico de suas formações na Europa, como também a dificuldade na criação da idéia

autores publicavam seus trabalhos na metrópole e para um público metropolitano, sob o olhar vigilante da Igreja e do Estado. Assim seus escritos não podem ser considerados como representativos do desenvolvimento de uma consciência de sua própria classe e muito menos da massa dos habitantes iletrados da colônia, especialmente aqueles de origem africana, indígena ou mestiça”. 293

Mesmo que imaginadas como semióforo 294, as representações se processaram por práticas enviesadas de um Liberalismo conservador, onde “nação” muito mais excluía do que incorporava ou integrava as camadas despossuídas do país. Nas falas que sustentavam os projetos nacionais, nação acabava por excluir qualquer homem não branco, obstando-lhe qualquer possibilidade de cidadania. Mas muitos eram os brasis, grandes e difíceis de abordar, tanto no plano geográfico, de sua riqueza material, e acima de tudo, com uma população mestiça. Muitos eram os homens que pensavam o Brasil, vários foram os projetos políticos para o país que não mais se encontrava sob o jugo português. A partir de então, os projetos políticos, orquestrados por homens herdeiros da tradição iluminista, começam a serem pensados num país constituído por milhares de índios, negros, mulatos etc. Para além da mera constatação de ser o Brasil um país formado por uma pluralidade de populações indígenas, urgia amalgamar diversas etnias na população integrante do nascente estado brasileiro. Conforme a assimetria apontada (o projeto político do nascente estado brasileiro marcado pelos caracteres do Antigo Regime), um dos mais importantes problemas era conformar hierarquicamente uma sociedade em nada homogênea.

Segundo visão de Hipólito da Costa, redator do Correio Brasiliense, a equação era a primazia no corpus político da monarquia dos Braganças num país juridicamente livre de Portugal. Schwartz conclui que “O Brasil, enquanto idéia, foi frequentemente mais um projeto do que uma realidade, às

vezes geográfica, às vezes nacional ou até social. A definição do “verdadeiro Brasil”, em oposição ao Brasil do momento, se tornou um método de estratégia argumentativa e discursiva, assim como uma projeção para o futuro” 295. Portanto, o Brasil é mais uma idéia, no sentido de projeção, do que algo

em si.

As peças do mosaico luso brasileiro se mostravam cada vez mais complexas quando se buscava dar homogeneidade a uma sociedade estratificada. István Jancsó aponta as peças indissociáveis de sua moldura, o que acabava por resultar na assimetria entre rei e nação. Enfrentando os movimentos liberais, tanto em Portugal (Revolução Liberal do Porto, impedindo qualquer forma de recolonização) como as agitações no Brasil (que iam de encontro à política absolutista da metrópole), os responsáveis

293 SCHWARTZ, Stuart B. “Gente da terra brasiliense da nasção. Pensando o Brasil: a construção de um povo. p. 106. In:

MOTA, Carlos Guilherme (Org). Viagem Incompleta. A experiência brasileira. Formação: Histórias. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1999.

294 CHAUÍ, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Ed. Fundação Perseu Abramo, 2000. 295 SCHWARTZ, Stuart. Viagem Incompleta. Op. Cit. p. 105

pela liquidação do Ancien Régime em Portugal tiveram que reorganizar um Estado brasileiro completamente diferente do cenário português. Nesse sentido, a dificuldade se mostra patente pois, lembra Jancsó, “o fato de a matriz das formações sociais luso-americanas radicar-se na lógica do

Ancien Régime português faz com que as especificidades americanas devam ser tomadas como problema crucial a ser enfrentado. Por um lado, porque aquelas sociedades reciclaram os paradigmas peninsulares por força da sua condição colonial e escravista, e por outro, porque a longa História da interface entre a metrópole européia e suas colônias americanas não foi linear”296

Tendências e rupturas se configuram na instauração dos projetos políticos quando da formação do estado brasileiro. Habitado por diversas nações indígenas, escravos, mulatos, somado à variedade das diversas formas de escravidão, que ia do trabalho na lavoura ao trabalho mecânico, cabia ao estado brasileiro unir toda esta multiplicidade na nação brasileira.

É aqui que aparece o projeto conservador do estado brasileiro, uma vez que, mesmo com a independência, mantém algumas práticas da monarquia lusitana, que Nilo Odália resume tão bem: “a independência, analisada sob esse aspecto, nada mais é do que a realização de um pacto e de um consenso em que se achavam envolvidos tão somente os senhores de terra e de escravos e que visava preservar o que lhes interessava basicamente, a saber, um modo de produção escravista e a propriedade da terra. Assim, os regionalismos se acomodam, momentaneamente, e os grupos sociais, limitados e poucos numerosos, que manifestavam idéias revolucionárias puderam ser facilmente dominados” 297

O Estado brasileiro que nascia era produto das elites locais, educadas sob a tendência liberal, mais ou menos inspiradas pela independência americana de 1776, tudo isso somado aos argumentos de igualdade, que teoricamente trariam o povo para o centro de discussão. Do Liberalismo se filtrou o rompimento com a metrópole; dos ares revolucionários que chegavam da França e influenciaaram as demais revoluções por todo o Atlântico, restava à idéia de soberania popular.

Sendo o proprietário de terra e o comerciante de escravo basess de análise de uma sociedade composta por homens escravos e livres, cidadãos e não cidadãos, a complexa organização social não possa ser simplificada a mera identificação da presença da escravidão no Brasil. Com uma variedade de formas de trabalho, fosse escravo ou livre, o certo é que a sociedade colonial moldou, com suas rupturas e continuidades, o Estado nacional brasileiro. Diante de um complexo quadro social, a História da emergência do Estado nacional brasileiro guarda profundos antagonismos sociais,

296 JANCSÓ, István. Independência, independências. Independência: História e historiografia. São Paulo: Hucitec:

FAPESP, 2005.p.22.

297 ODÁLIA, Nilo. As formas do mesmo: ensaios sobre o pensamento historiográfico de Varnhagen e Oliveira Vianna. São

econômicos, políticos e culturais. Onde buscar um ponto de apoio ou uma identidade num país onde poucas eram as províncias de destaque comercial, como Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Pará?

Não é surpreendente que as cartas para a formação do Estado brasileiro tenham sido lançadas pelas províncias mais significativas do ponto de vista econômico. Uma vez que sociedade e nação são categorias analíticas diferentes, a cada passo que damos para enxergar o Brasil independente, mais percebemos a complexa estrutura na qual teve de se amoldar o Estado brasileiro. A cada passo em que verificamos “linhas de corte” com relação à política do Ancien Régime mais se torna traumática a formação deste estado.

Se, como aponta Schwartz, “O Brasil - colônia foi uma sociedade escravista não meramente

devido ao óbvio fato de sua força de trabalho ser predominantemente cativas, mas principalmente devido às distinções juridicamente entre escravos e livres, aos princípios hierárquicos baseados na escravidão e na raça, as atitude senhoriais dos proprietários e à deferência dos socialmente inferiores. Através da difusão desses ideais, o escravismo criou os fatos fundamentais da vida brasileira” 298, todo esse estado de coisas não desapareceu com a independência do país, pelo

contrário, as bases do emergente Estado nacional foram articuladas pela camada senhorial, que, no dizer de Schwartz, ditou“os padrões sociais na colônia e foram os que mais se aproximaram dos modelos vigentes na metrópole. Assim, examinando a composição e o comportamento desse grupo, podemos estabelecer a norma com a qual os demais indivíduos na sociedade eram comparados”. 299

Após todo o processo revolucionário influenciado pelas idéias liberais, articularam-se as bases constitucionais do Brasil, formadas por pessoas ligada à antiga nobreza, do alto e do baixo clero, homens do magistério, das Forças Armadas e do Judiciário. Para formação das bases constitucionais brasileiras, várias foram as posturas políticas dos deputados que confeccionavam os mais díspares e variados discursos clamando pela soberania nacional. Conforme Márcia Regina Berbel, “o trabalho

do Congresso era de “regeneração” da monarquia e dos Direitos tradicionais da nação portuguesa, os quais, estipulados desde a formação do Reino, haviam sido desvirtuados pelo absolutismo, em nome da “idéia sacrílega” do poder divino dos reis. O “soberano Congresso” aparecia, nesse discurso, como legítimo herdeiro das antigas Cortes. A proposta de Constituição era a afirmação dos Direitos tradicionais e não uma transcrição dos publicistas modernos”. 300

Sociedade formada pela intolerância, sob a égide do poder oriundo da exploração do braço escravo, o estado que se formava no Brasil era afeito as benesses para as camadas favorecidas, os

298 SCWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Companhia

das Letras, 1988. Op. Cit. p. 208.

299 Ibidem. p. 224.

300 BERBEL, Márcia Regina. A nação como Artefato: deputados do Brasil nas cortes portuguesas (1821-1822). São Paulo:

proprietários de terra. Não causa nenhuma surpresa ser o estado brasileiro formado a partir dos interesses das classes abastadas, ilustradas e fechadas em seu mundo “ilustrado”. As simetrias entre o nascente estado brasileiro e a monarquia lusitana não eram poucas nem tênues, eram óbvias. Sem corte com as bases herdadas do passado, o Liberalismo brasileiro, ao mesmo tempo em que suscitou a negação da ordem colonial reforçada pela busca da soberania, fora muito bem conduzido por uma elite que buscava não abrir uma maior participação política a outros grupos sociais, mas tão somente romper com a antiga situação de colônia. Assim é que as bases políticas constitucionais do novo Brasil só podem ser compreendidas tendo em vista o movimento de independência, que trazia consigo todo o poder senhorial legitimado por uma corrente ideológica por demais artificiosa e certeira. De maneira genérica, o Estado nacional brasileiro nascia sob a égide das elites agrárias que manifestaram a aversão ao pacto colonial, mas sabiam dos limites desse Liberalismo, vigiando atentamente o olhar sob a propalada soberania. Fernando Novais e Carlos Guilherme Mota sintetizam bem o Estado nacional brasileiro

“Não se tratava propriamente de contestar os fundamentos da organização do regime monárquico. Estava-se, antes, diante do que Vicente Barreto denominou “Liberalismo monárquico da Restauração”. O próprio constituinte Antônio Carlos, durante a Assembléia, combaterá seus oponentes que vinham, segundo dizia, com a “arenga da Assembléia Constituinte que em si concentra os poderes todos”. Ora, a monarquia era anterior, e qualquer ampliação “seria usurpação”. Nesse sentido, no novo pacto social, o Executivo surgia fortalecido, com o monarca ocupando o centro da organização política.

O revolucionário da época do Reino Unido via-se parcialmente amortecido e canalizado após 1822. A revolução intentada mostrava sua verdadeira face, ao buscar o estado ideal dos proprietários, preservando a dinastia. As justificativas mais sólidas foram encontradas nas idéias do jurista Benjamin Constant, que forneceria aos liberais e ao próprio imperador os elementos para o controle da vontade popular, definindo sua extensão e seus limites. Ao dirigir-se aos constituintes, pela pena de José Bonifácio, o imperador definiria claramente tais limites, oferecendo idéias para uma constituição que pusesse “barreiras inacessíveis ao despotismo quer real, quer aristocrático, quer democrático” e afungentasse a “anarquia”. Mas os constituintes ultrapassaram, com seus debates, os limites visualizados pela dinastia, vendo dissolvida a Assembléia e outorgada a Constituição de 1824, em que se preservava o livre-cambismo e consagrava-se a base jurídica para o Estado de proprietários, a partir do voto censitário” 301.

Mesmo que se tratasse de um projeto, a idéia de nação era forjada por homens ilustrados, por uma elite rural coberta de etiqueta de nobreza. Foi essa elite europeizada e treinada nas universidades