Leakey (1994, p. 151) aponta a capacidade de mentir ou, melhor, o nível de sofisticação das mentiras, como outro indício da existência de autoconsciência. A mentira, em sentido amplo, é largamente praticada por plantas e animais sem absolutamente nenhuma implicação de que eles tenham consciência do que estão fazendo. O mimetismo pode ser considerado o exemplo mais claro deste tipo de mentira. Alguns casos de mentira, entretanto, não podem ser explicados como características físicas ou comportamentais geneticamente determinadas ou mesmo como resultado de reflexo condicionado. Alguns casos de tentativa de enganar o outro envolvem a
previsão de vários estágios das próprias ações e reações e das ações e reações do outro indivíduo (como num jogo de xadrez) e ocorrem em situações novas, podendo ser descartada a possibilidade de reflexo condicionado. Além dos seres humanos, somente os antropóides revelam capacidade para produzir mentiras com esse nível de sofisticação, como nos exemplos seguintes:
An adult male chimpanzee was alone in a feeding area when a box was opened electronically, revealing the presence of bananas. Just then, a second chimp arrived, whereupon the first one quickly closed the box and ambled off non- chalantly, looking as though nothing unusual was afoot. He waited until the intruder departed, and then quickly opened the box and took out the bananas. However, he had been tricked. The intruder had not left but had hidden, and was waiting to see what was going on. The would-be deceiver had been deceived. This is a persuasive example of tactical deception. (LEAKEY, 1994, p. 152). [. . . ] he [o orangotango Chantek] stole the caregiver’s pencil eraser, pretended to swallow it and ‘supported’ his case by opening his mouth and signing FOOD- EAT. (MILES; HARPER, 1994, p. 263).
De acordo com Miles e Harper (1994, p. 263), para um indivíduo ser capaz de se exercitar em mentiras com este nível de sofisticação, ele precisa elaborar um cenário mental da realidade, elaborar um cenário de como essa realidade é percebida pelo outros indivíduos, e ser sagaz o bastante para planejar ações que deverão mudar a percepção que esses outros indivíduos têm da realidade de modo a fazê-los agir favoravelmente ao mentiroso. Para negar que os antropóides têm consciência de si próprios e de que muitas vezes representam um papel conscientemente, seria preciso restringir o conceito de consciência a linguagem simbólica.
Outro indício da capacidade dos antropóides de pensar em si próprios como objetos e do uso dessa capacidade para enganar os outros é um certo grau de controle consciente da expressão das emoções por eles demonstrado. Tanto as emoções quanto os instintos têm uma clara base biológica, mas as emoções alcançam maior evidência na nossa consciência, como fica claro pelo episódio protagonizado por Luit, um chimpanzé macho adulto no zoológico de Arnhem, na Holanda:
When heard the renewed sounds of provocation he bared his teeth but imme- diately put his hand to his mouth and pressed his lips together. I could not believe my eyes and quickly focused my binocular on him. I saw the nervous grin appear on his face again and once more he used his fingers to press his lips together. The third time Luit finally succeeded in wiping the grin off his face; only then did he turn round. (de WAAL, 1982, p. 133).
Chimpanzés e bonobos demonstram freqüentemente que são bastante inteligentes, e sua inteligência, certamente, é derivada da complexidade de sua vida social:
Embora um número considerável de habilidades práticas seja, sem dúvida, exigido a fim de explorar uma fonte de alimentos diferente e amplamente distri- buída, essas habilidades se tornam relativamente básicas, quando comparadas com as demandas intelectuais de fazer e manter alianças sociais, fazer manobras políticas para conseguir progressos sutis em status social, e de simplesmente interagir com outro indivíduo essencialmente imprevisível. (LEAKEY; LEWIN, 1996, p. 170).
4.5.4 Empatia
O termo empatia costuma ser empregado com o significado de capacidade de se colocar no lugar do outro, ou seja, habilidade para imaginar o que o outro está pensando e sentindo. Nos momentos de empatia, o indivíduo imagina o que pensaria, o que sentiria e como reagiria se estivesse na situação em que o outro se encontra. No caso dos seres humanos, o “se colocar na situação do outro” pode ser algo tão complexo quanto imaginar como seria ter a idade, o sexo, a educação, a profissão, as amizades etc. do outro indivíduo.
Teoricamente, é possível imaginar uma espécie de empatia objetivamente informada, em que o sujeito não precisa se imaginar no lugar do outro para criar hipóteses sobre quais são os seus pensamentos e sentimentos. Ele partiria de premissas sobre como os indivíduos do tipo observado pensam e sentem em determinadas circunstâncias para imaginar o que um indivíduo específico está pensando e sentido. Um psicopata incapaz de sentir remorsos, por exemplo, poderia usar seu conhecimento teórico de que pessoas sentem remorsos quando se tornam conscientes de ter cometido uma injustiça para manipular o comportamento de algum indivíduo. Ao que tudo indica, entretanto, os indivíduos reais devem sua capacidade de empatia, principalmente, à sua capacidade de imaginar a si próprios como objetos. Ou seja, a autoconsciência é um pré-requisito para a empatia. A propósito, são justamente os animais que passam no teste do espelho os que demonstram capacidade de empatia, como no exemplo seguinte:
[. . . ] chimpanzees are famous for their trademanship. Experimental studies indicate that the ability comes without any specific training. Every zookeeper who happens to leave his broom in the baboon cage knows there is no way he can get it back without entering the cage. With chimpanzees it is simpler. Show them an apple, point or nod at the broom, and they understand the deal, handing the object back through the bars. (de WAAL, 1989, p. 82).
É preciso ser capaz de “ler a mente” do outro para que uma troca seja realizada, e, como pode ser visto no exemplo acima, este pré-requisito para existência de uma sociedade capitalista (e de qualquer sociedade complexa) já está embrionariamente presente nos antropóides. De acordo
com os pesquisadores que trabalham diretamente com esses animais, eles são tão perspicazes quanto os humanos para perceberem mudanças sutis no estado de humor das pessoas com quem convivem:
Nobody working with adult anthropoids escapes the feeling of being uncannily transparent. Apes respond to all sorts of moods before we human realize how nervous, depressed, or irritable we are that day. And they read our mind when we try to hide something disagreeable, such as an imminent visit by the veterinarian. (de WAAL, 1989, p. 220).
Os antropóides não são capazes de falar — talvez por limitações neurológicas (FITCH, 2005, p. 200) — e, em seu ambiente natural, não usam uma linguagem simbólica complexa. Mas eles possuem um amplo repertório de gestos e expressões faciais que os ajudam a comunicar seus desejos e estado de espírito:
All the (more than a hundred) behavior patterns which are regularly observed among chimpanzees in our colony have also been observed in their natural habitat. The playface, the grin and begging gesture are not imitations of human behavior, but natural forms of non-verbal communication which humans and chimpanzees have in common. (de WAAL, 1982, p. 36).
Franz de Waal argumenta — e exemplifica ao longo de todo o seu livro — que os chimpanzés, com suas complexas estratégias de formação de alianças para subir na hierarquia da comunidade, demonstram uma inventividade social comparável à dos humanos (de WAAL, 1982, p. 51). É claro que o autor se refere apenas às táticas de formação de alianças que se limitam a tentativas de conquistar aliados e vencer inimigos entre os poucos indivíduos que compõem o próprio grupo, embora muitas vezes tratando-se de estratégias empregadas por vários anos até darem os resultados esperados. Ainda está reservada apenas aos humanos a capacidade de pensamentos mais abstratos, que levam à formação de alianças entre tribos e à preocupação com as gerações futuras. Tais habilidades exigem o uso de um pensamento conceitual de nível mais elevado do que qualquer primata não-humano é capaz.
Bonobos e chimpanzés apresentam desempenhos diferentes quando suas habilidades cogniti- vas são comparadas, como fica claro pelas citações seguintes:
[. . . ] on tasks such as puzzle construction, tool use, mazes, and so on, Panzee [uma chimpanzé] has always been ahead of Panbanisha [uma bonobo]. In anything outside the domain of social communication, involving object manip- ulation or spatial orientation, the chimpanzee was reliably ahead. Whereas in communicatory and perceptual abilities, such as combining television images with the narration, the bonobo was always advanced. (Sue Savage-Rumbaugh, citada por de WAAL, 1997, p. 40).
If you compare the ability to use tools or to use partners for strategic purposes, bonobos are not particularly smart. But if you look at intimate social rela- tionships, their cognition is highly developed due to their long dependency as infants. In the domains of attachment, affection, and the avoidance of conflict, they are very intelligent. For example, chimpanzees are unable to develop peaceful relationships with other groups. Their social organization focuses on how to gain advantage and how to fight other groups. (Suehisa Kuroda, citado por de WAAL, 1997, p. 61).
Em relação a agressividade e comportamento político, os chimpanzés estão mais próximos de nós do que os bonobos. Quanto ao comportamento afetivo, ocorre o inverso, os bonobos são mais semelhantes a nós do que os chimpanzés. E quanto ao relacionamento entre os sexos, os bonobos são mais igualitários do que os humanos, tendo mesmo revertido a hierarquia entre machos e fêmeas. Num grupo de bonobos, são as fêmeas que lideram. Bonobos fêmeas possuem ligações mais fortes entre si do que os machos, e também mais fortes do que os relacionamentos entre machos e fêmeas. Os machos, mesmo os adultos, são dominados pelas fêmeas, e o macho alfa depende do apoio das fêmeas, principalmente de sua mãe, para manter a posição (de WAAL, 1997).
Para desenvolver sua capacidade de empatia, humanos e antropóides fazem uso da mesma “técnica”: quando crianças, brincam muito de “faz de conta”. Tanto crianças humanas quanto os filhos pequenos de chimpanzés e, principalmente, bonobos, gostam muito de fingir que desempenham determinado papel, o que pode ser considerado um exercício em teoria da mente, ou seja, um exercício que ajuda no desenvolvimento da capacidade de empatia. Como argumenta Whiten e Byrne (1988, p. 59), é de se esperar que espécies socialmente inteligentes sejam adeptas das brincadeiras sociais. Um exemplo da criatividade e interesse dos chimpanzés por essas brincadeiras ocorreu no zoológico de Arnhem quando um dos machos adultos ficou ferido após uma briga:
All the wounds are superficial although Luit does not walk on his hand for days afterwards. (Instead he supports himself on his wrist. Amazingly, all the young apes imitate him and suddenly begin stumbling around on their wrists.). (de WAAL, 1982, p. 135).