3.1 Tarım Devrimi ve İlahi Otoritenin Temsilcisi Olarak Rasyonalist
3.1.3 Sanayi Devrimi ve Araçsal Rasyonalist Planlamanın Yükselişi
3.1.3.2 Sanayileşen Kentin Sorunları ve Kentlere Sistemci Rasyonalist
Além da seleção de parentesco e do altruísmo recíproco vistos em seções anteriores, uma outra solução para o problema da cooperação é a reciprocidade indireta, em que “a reciproci- dade direta acontece na frente de um público interessado” (Richard D. Alexander, citado por YAMAMOTO; FERREIRA; ALENCAR, 2007). Ou seja, os agentes operam orientados pelo princípio de que ajudar alguém agora melhora a sua reputação e aumenta as suas chances de ser beneficiado num momento posterior.
Em experimentos com crianças conduzidos por Alencar, Siqueira e Yamamoto (2008), o principal fator determinante da cooperação num jogo de produção de bem público foi o tamanho do grupo de cooperadores em potencial. Nos experimentos, estudantes de uma mesma sala de aula, com idade entre 5 e 11 anos, recebiam três doces e tinham a oportunidade de fazer uma doação para um fundo público. As crianças tinha privacidade para fazer (ou não) a doação sem
serem vistas e para cada doce doado, os pesquisadores acrescentavam outros dois, sendo o total dividido entre todas as crianças do grupo. O experimento era repetido com o mesmo grupo oito vezes com intervalos de 1 a 3 dias e o resultado geral foi uma redução gradual das doações com o passar das sessões, mas a redução nas doações foi significativamente menor nos grupos pequenos. O fato interpretado pelos autores como resultante da maior efetividade da vigilância e pressão social nesses grupos. As crianças que conseguissem construir uma boa reputação se tenderiam a ser beneficiadas nas interações com os colegas no restante do ano letivo.
Numa situação em que predomina a reciprocidade indireta, os indivíduos não recebem benefícios de quem ajudaram no passado, mas de terceiros dispostos a ajudar indivíduos de boa reputação. A teoria da reciprocidade indireta é útil, portanto, para explicar como a cooperação pode evoluir e se manter num ambiente em que predominam encontros entre estranhos egoístas e não entre altruístas puros que, para beneficiar a própria comunidade, dispensam oportunidades de enriquecimento e acúmulo de poder.
Nowak e Sigmund (1998) desenvolveram um modelo baseado em agentes para melhor investigar em quais circunstâncias é possível a evolução da cooperação por meio da reciprocidade indireta. No modelo, os agentes têm, alternadamente, oportunidade de ajudar outro ou receber ajuda. A ajuda implica num custo para o doador menor do que o benefício para quem a recebe. O mundo artificial era habitado por 100 agentes e, a cada geração, os agentes que haviam recebido maior premiação (diferença entre benefícios recebidos e doações feitas) se reproduziam em maior quantidade. Ao ajudar alguém, um agente tinha sua reputação elevada num ponto e ao recusar ajuda, rebaixada. Os agentes decidiam ajudar ou não outro quando a sua estratégia, definida por um número inteiro, k, era igual ou menor do que a reputação do beneficiário da ação. Com estes parâmetros, o valor de k tende a evoluir para zero e, em uma das simulações, após 166 gerações toda a população tinha k = 0. Ou seja, os agentes mais bem sucedidos somente
ajudavam àqueles com reputação neutra ou positiva (NOWAK; SIGMUND, 1998, p. 573). Nowak e Sigmund realizaram novas baterias de simulações para tornar o seu modelo algo mais realista. Um dos problemas do modelo acima, por exemplo, é o conhecimento perfeito por todos os agentes da pontuação adquirida pelos outros ao ajudarem ou negarem ajuda. Para contornar esta irrealidade, foi empregado um novo modelo em que cada interação era observada apenas por uma amostra aleatória de 10 agentes. Com estas novas condições, o valor médio de k se manteve menor ou igual a zero em apenas 18% do tempo. Mesmo para populações de apenas 20 agentes, durante 10% do tempo, k era maior do que zero (NOWAK; SIGMUND, 1998, p. 573). Deve-se observar que mesmo esse novo modelo continua bastante distante do que
ocorre no mundo real, onde as interações entre as pessoas não são observadas por um número aleatório de membros da população total, e sim pelas pessoas física e/ou socialmente próximas
dos atores envolvidos na cena principal. Tal simulação da proximidade física ou social poderia mais facilmente ser feita por um modelo de mundo em forma de tabuleiro, em que os agentes estivessem espacialmente distribuídos. Outro problema dos modelos é a reprodução simultânea de todos os agentes de uma geração.
Em uma revisão dos trabalhos que seguiram a abordagem da reciprocidade indireta na construção de modelos baseados em agentes, Nowak e Sigmund (2005) observam que, uma vez que a reputação de um agente se eleva sempre que ele ajuda um outro agente qualquer, a cooperação alcançada por meio da reciprocidade indireta pode ser minada pela existência de um número elevado de altruístas incondicionais. Sempre fazer doações pode ser benéfico para um indivíduo por melhorar a sua reputação e, conseqüentemente, aumentar a probabilidade de receber doações dos agentes que seguem a estratégia de somente fazer doações para outros agentes com boa reputação. Entretanto, altruístas incondicionais aumentam as chances de sucesso dos não-cooperadores, permitindo a invasão da população por desertores (NOWAK; SIGMUND, 2005, p. 1294).
Assim, poderia ser benéfico para a evolução da cooperação se os agentes seguissem uma regra mais sofisticada do que a citada acima para incrementar ou rebaixar a reputação de um agente. A imagem de um agente somente seria prejudicada se ele deixasse de ajudar alguém com boa reputação, não sofrendo alteração se ele negasse ajuda para quem venha falhando em cooperar até mesmo ao interagir com cooperadores. Tais agentes que discriminam entre cooperadores e desertores no momento de decidir se irão ajudar outro podem ser considerados seguidores de uma estratégia semelhante à Tit for Tat, mas não exatamente igual porque só raramente estão baseando suas decisões em suas próprias interações com o beneficiário em potencial de suas doações (NOWAK; SIGMUND, 1998, p. 576). Entretanto, segundo Nowak e Sigmund, uma regra como essa implicaria numa regressão infinita:
[. . . ] the problem with the concept of justified defection is that it requires information not only about the past of the co-player but also about the past of the co-player’s co-players, and their co-players, and so on. (2005, p. 1294). Apesar da possibilidade de se cair numa regressão infinita, as pessoas reais parecem interagir numa situação semelhante à descrita por esse último modelo. No mundo real, não existe informação perfeita e completa sobre os atos passados das pessoas, mas as pessoas também não dependem apenas das próprias interações e observações para avaliar a reputação de um agente. A linguagem permite às pessoas terem algum conhecimento sobre interações que não testemunharam. Mas, como lembram Nowak e Sigmund, a fofoca também pode ser usada para espalhar falsos rumores sobre a reputação de alguém e a relação entre reciprocidade indireta e linguagem é um tema ainda pouco explorado (2005, p. 1295).