MUHAFAZAKÂRLIĞIN YENĠDEN ÜRETĠMĠ 2. MUHAFAZAKÂRLIĞIN YENĠDEN ÜRETĠMĠ
2.1. Din-Toplum ve Cemaat ĠliĢkisi
O fato de a significação ser tratada como uma construção mental produzida pelos interactantes no curso de uma determinada interação comunicativa (SALOMÃO, 1997) aponta não apenas para o fato de que a cognição é social, mas também – e originariamente – para o fato de que a cognição é intersubjetival. E, consequentemente, para o fato de que nós somos intersujeitos (GERHARDT, 2013). Assim, entende-se que, em oposição à ideia defendida pelos gerativistas, o ser humano não é visto como um ser social porque possui uma capacidade inata para a linguagem, mas sim porque possui uma capacidade inata para o entendimento, sendo direcionado pela necessidade de interação. Nossa cognição é vista como social, portanto, porque parte de um princípio de partilhamento (TOMASELLO, 1999; VANIN, 2009).
Em função disso, Miranda (2001) nos lembra do caráter compartilhado da construção da significação, já que o sentido não está na linguagem, mas sim no resultado de uma atividade conjunta que exige cooperação: “a linguagem é ação
conjunta, o que significa dizer que, sem atenção partilhada, não há linguagem”
(MIRANDA, 2001, p.60). Como afima Tomasello (1999), o ser humano, em seu processo de desenvolvimento, se projeta no outro, construindo assim, em função do outro, sua própria identidade. Segundo defende o pesquisador, aprendemos através do outro porque nos identificamos e nos projetamos nele.
Assim, as habilidades cognitivas são também modelos culturais, e onde se desenvolvem os sistemas de dimensões coletivas a partir da capacidade de compartilhar intenções através da linguagem (VANIN, 2009, p.46).
Tomasello (1999), em trabalho fundamental para a construção dessa perspectiva, ao buscar investigar as origens culturais da cognição humana, aponta que a espécie humana compartilha algumas capacidades com outras espécies primatas, tais como a de se localizar espacialmente e temporalmente e a de categorizar. Porém, em oposição ao que apontam outros teóricos, ele defende que a nossa diferença evolutiva em relação a esses outros primatas não está em nenhuma mudança genética. Esta diferença reside, para ele, no caráter cultural que a nossa cognição adquiriu ao longo do tempo, através das gerações que compõem a história de nossa espécie no planeta.
Filogeneticamente, argumenta Tomasello (1999), não houve tempo histórico para que uma transformação biológica / genética, ocorresse, uma vez que somente há cerca de 200 mil anos nossa espécie humana teria iniciado um processo de desenvolvimento de ferramentas mais complexas, de formas mais complexas de comunicação e representação simbólica, bem como de organizações e práticas sociais. Ademais, ontogeneticamente, o pesquisador observou que crianças apresentam em seu desenvolvimento mecanismos de aprendizagem muito mais complexos do que a simples associação ou do que a indução cega. Além disso, ele parte de estudos mais recentes que revelam que a competência linguística das crianças é muito mais próxima da competência linguística dos adultos do que comumente se pensa.
Em relação a isso, Sinha (2005, p. 313, tradução minha), que compartilha da perspectiva definida por Tomasello (1999), defende que:
ao contrário dos sistemas de comunicação de sinais não-humanos, as línguas naturais humanas são sistemas de símbolos. A transição evolutiva do uso do sinal para o símbolo, e a elaboração exo-somática, culturalmente dirigida do uso do símbolo na linguagem, explica a complexidade única da linguagem humana (incluindo a gramática). Esta complexidade emergente, (...), tem, no decurso da evolução, cooptado ou capturado um conjunto de capacidades cognitivas que são exclusivamente desenvolvidas (mas não únicas) em seres humanos.29
Com base nessa perspectiva, nossa evolução se deu porque, ao longo do tempo, os processos socialmente e culturalmente desenvolvidos foram transformando nossas habilidades comuns a outros primatas em habilidades mais complexas. E isso só
29
Original: “My argument is rather that, in contrast to non-human signal systems of communication, human natural languages are symbol systems. The evolutionary transition from signal to symbol usage, and the exo-somatic, culturally-driven elaboration of symbol usage into language, accounts for the unique complexity of human language (including grammar). This emergent complexity, I suggest, has, in the course of evolution co-opted or captured a suite of cognitive capacities that are uniquely developed (but not unique) in humans” (SINHA, 2005, p. 313).
aconteceu porque, em determinado momento da história de nossa espécie, conseguimos nos ver como co-específicos e, consequentemente, como agentes intencionais, capazes de reconhecer e de compartilhar intenções. A cognição humana é, nessa concepção, então, o resultado de processos evolutivos, que construíram biologicamente a cognição primata, aprimorados pela nossa capacidade cultural de nos engajarmos em atividades de colaboração, sendo, portanto, uma cognição essencialmente cultural.
Assim, a espécie humana seria a única capaz de transmitir conhecimentos já existentes para membros de uma mesma cultura, mesmo através de diferentes gerações, modificando-os ao longo do tempo e transmitindo também essas modificações para as próximas gerações. Nesse sentido, retoma-se a ideia de que “a principal função da linguagem não é a descrição objetiva do mundo, mas sim a comunicação e o compartilhamento de experiências”30 (ROHRER, 2007, p.26, tradução minha), uma vez que ela teria se desenvolvido como instrumento para esse mecanismo de transmissão de conhecimentos, único de nossa espécie. Como aponta Sinha (2005, p.312, tradução minha):
As línguas naturais humanas são sistemas comunicativos, e o uso primário da linguagem é a comunicação. A extensão e a natureza da relação entre as funções comunicativas, e as propriedades sistêmicas, das línguas naturais podem ser contestadas, mas o que não pode ser contestado é que a linguagem é um veículo para a comunicação humana.31
Dentro dessa concepção, a linguagem não é considerada um aspecto crítico para a evolução de nossa cognição. Ao contrário, defende-se que a linguagem é apenas mais uma das consequências dessa capacidade humana de cognizar intersubjetivamente. Em função disso, Miranda (2001) defende que a linguagem é conhecimento para o outro, uma vez que nascemos programados apenas para nos entendermos como co-específicos e atribuirmos intencionalidades às ações dos outros. Como aponta Gerhardt (2006, p.1189), “a linguagem é uma forma de cognição constituída com a finalidade de
promover a comunicação interpessoal”.
30
Original: “the primary purpose of language is not the objective description of the world, but instead to communicate and share experiences” (ROHRER, 2007, p.26).
31
Original: “Human natural languages are communicative systems, and the primary use of language is to communicate. The extent and nature of the relationship between the communicative functions, and the systemic properties, of natural languages may be disputed, but what cannot be disputed is that language is a vehicle for human communication” (SINHA, 2005, p. 312).
Nesse sentido, Sinha (2005) diferencia o uso de sinais do uso de símbolos. Para o autor, no uso de sinais comunicativos, as únicas relações atencionais necessárias são entre o emissor e o estímulo e entre o receptor e o comportamento, não estando envolvida por intencionalidade. Dessa maneira, o intercâmbio social de sinais não envolve intersubjetividade, uma vez que não existe atenção conjunta nem um mundo socialmente compartilhado de referência conjunta. Segundo o autor, o mecanismo subjacente ao intercâmbio social de sinais é a simples coordenação do comportamento organísmico individual. Os símbolos, por outro lado, são convencionais, e seu uso se apoia na compreensão compartilhada, uma vez que se constroem em um campo de significado intersubjetivo.
Um sinal pode ser considerado como uma instrução (possivelmente codificada) para se comportar de certa forma. Um símbolo, por outro lado, direciona e guia, não o comportamento do (s) organismo (s) que recebe o sinal, mas seu entendimento (interpretação) ou (minimamente) sua atenção em relação a uma situação referencial compartilhada (SINHA, 2005, p.319, tradução minha)32.
Por isso, a simbolização é vista como uma propriedade emergente filogeneticamente da comunicação (SINHA, 2005). Assim, a natureza intersubjetival da
cognição humana “relaciona-se ao fato de que qualquer codificação lingüística é compartilhada na interação” (GERHARDT, 2006b, p.1187): “daí podermos afirmar que
toda forma de linguagem, para muito além de ser um produto de processamentos de informação, é uma ação conjunta, e é dessa forma que se observará qualquer
experiência humana que envolva a linguagem” (GERHARDT, 2006b, p. 1187).
O envolvimento em uma atividade de atenção conjunta, por sua vez, pressupõe a compreensão da intencionalidade do outro. Nessas atividades, monitoramos sua atenção e seus gestos em relação a referentes presentes no mundo, e, ao compreendermos que as ações do outro são distintas de seus resultados e que ações determinadas se relacionam com determinados resultados, entendemos também que podemos manipular sua atenção, por meio de gestos não linguísticos e, posteriormente, por meio da linguagem (TOMASELLO, 1999).
32
Original: “A signal can be regarded as a (possibly coded) instruction to behave in a certain way. A symbol, on the other hand directs and guides, not the behaviour of the organism(s) receiving the signal, but their understanding (construal) or (minimally) their attention, with respect to a shared referential situation” (SINHA, 2005, p.319).
Sob essa perspectiva, então, Tomasello (1999) defende que nossa motivação para compartilhar intencionalidades fez com que desenvolvêssemos formas complexas de colaboração que acabaram por resultar nas organizações culturais humanas modernas. Através dos processos de interação, socialmente e simbolicamente estruturados, as crianças aprendem as perspectivas de mundo de seu grupo social e a utilizá-las para mediar sua compreensão do mundo, sendo capazes de reconstruir em si normas sociais que permitem a conceptualização e o compartilhamento de crenças, de valores e de conceitos culturalmente estabelecidos.
Por isso, “a atenção conjunta é a base crucial para a emergência da
simbolização” (SINHA, 2005, p.321, tradução minha)33
. É ela também a responsável por nossa capacidade, desde crianças, de nos envolvermos triadicamente e colaborativamente em situações de interação, na medida em que, somos capazes de compartilhar nossos objetivos, nossas ações e percepções e que somos capazes de compartilhar também nossos estados intencionais e agirmos conjuntamente em função de um objetivo compartilhado (TOMASELLO, 1999). Como afirma Miranda (2001, p.69):
A integração entre sinalização e reconhecimento constitutiva de qualquer atividade conjunta, inclusive das ações de linguagem, espelha exatamente o caráter social singular da cognição humana: ao projetar-se como contraparte do outro, reconhecendo-o como agente intencional à semelhança de si mesmo, o ser humano é capaz de eleger um foco comum de percepção, construindo-o com ou através do outro. É esse foco comum de percepção que torna possível sinalizar e reconhecer sinais na busca de entendimento com o outro.
Tudo que um indivíduo cria cognitivamente em sua mente, então, parte da existência do outro em seu processo de interação com o mundo. Nesse sentido, Salomão (1997) aponta, inclusive, que, sob essa concepção, radicaliza-se o dialogismo bakhtiniano, uma vez que a presença do outro é vista como incorporada na produção linguística de forma muito mais compacta do que habitualmente se reconhece e que assim se rompe com a separação, normalmente estabelecida por estudos linguísticos, entre: a) sentença, enquanto objeto sintático; b) proposição, enquanto objeto lógico e c) ato de fala, enquanto objeto pragmático. Dessa maneira, a cognição humana se utiliza da linguagem para produzir infinitas representações “através das quais os sujeitos se conhecem e se dão a conhecer, ajustam a situação em que se encontram a
33
Original: “joint reference is the criterial basis for the emergence of symbolization” (SINHA, 2005, p.321).
conhecimentos previamente acumulados e, criam novos conhecimentos” (SALOMÃO,
1999, p.74).
Como bem explica Vanin (2009, p.57):
O significado não existe a priori: ele é fruto mutável das atividades cognitivas e de suas relações com o mundo. O mundo não é algo pronto, algo a ser nomeado pelos indivíduos. Seus significados surgem a partir de um princípio de partilhamento, em que a sua carga semântica é comunicada intersubjetivamente, até que o consenso – e até mesmo a convenção – o torne significativo para uma determinada comunidade de mentes. Acredita-se na noção de que o mundo só exista no momento em que ele é percebido. Isso porque é a partir da própria consciência de que algo existe – “extramentalmente” – que surge a necessidade de referir-se a ela.
Desse modo, entende-se que as interações fazem com que o aprendiz de uma língua assuma diferentes perspectivas do meio com que está interagindo, sendo as categorias linguísticas um importante instrumento para orientar essa perspectivização (TOMASELLO, 1999). Essa natureza perspectival da cognição humana é derivada, portanto, da compreensão de que ela se constrói gestalticamente, não sendo possível dissociá-la do meio ambiente em que os sentidos se produzem. O mesmo valeria para a linguagem. Entende-se, assim, que as formas linguísticas representam contextos nos quais interagem entidades e processos, sendo, então, enquadres de cenas visualizáveis na comunicação (GERHARDT, 2006a).
Pode-se dizer assim que se vê “a mente humana como fundada num mundo intersubjetivamente compartilhado e ecologicamente real: um mundo povoado e animado por artefatos, símbolos, convenções e significados intersubjetivamente compartilhados” (SINHA, 2005, p. 333, tradução minha)34. Desse modo, rompe-se, com a perspectiva cartesiana que separa corpo e mente e com o que Sinha (2005) chama de
“narrativa neo-cartesiana” que separa mente e cérebro, uma vez que “o caráter
intersubjetivo da cognição remete às experiências vivenciadas pelo sujeito e o torna apto a revivenciá-las a cada nova interação, transmitindo e sorvendo impressões e transformando-as em sentidos para o seu mundo em constante renovação” (VANIN, 2009, p.57).
Por isso, novos significados são dados continuamente ao mundo, a cada novo
contexto construído, o que só é possível pela “conjunção com outras mentes” (VANIN,
34
Original: “The alternative is to view the human mind as grounded in na intersubjectively shared, ecologically real world: a world populated and animated by artefacts, symbols, conventions, and intersubjectively shared meanings” (SINHA, 2005, p. 333).
2009, p.57) e pelo fato de que “a linguagem pode corporificar a experiência cultural e
histórica de grupos de falantes (e indivíduos)”35 (GEERAERTS, 2006a, p.05, tradução minha). Dessa maneira, entende-se que a cognição é também essencialmente experiencial e, consequentemente, corporificada – ideia que será desenvolvida na próxima seção.