ÜÇÜNCÜ BÖLÜM
3.4. FETHULLAH GÜLEN ÖRGÜTÜ
3.4.4. Fethullah Gülen‟in Dinler Arası Diyalog AnlayıĢı
pós o enfrentamento inicial da tropa de soldados e índios às intempéries da peregrinação pela floresta, finalmente, o grupo chegou à terra de Santa Cruz, banhada pelo verde lento do rio. O ar e a luz eram de um esverdeado úmido que cheirava à água, nas palavras do narrador (USLAR PIETRI, 1956). Chovia intensamente há meses e tudo parecia molhado e pegajoso. A selva se apagava na névoa leitosa que parecia fumegar da terra enlameada:
Las estrechas chozas no podían contener la aglomeración de los soldados hacinados en ellas. No había espacio para moverse. Amontonados unos sobre otros, la espalda del que jugaba a los naipes tocaba con la del que estaba asando maíz en unas topias, o con la cabeza del que dormía. Había que espantar hacia afuera, constantemente, las gallinas, los cerdos y los perros que buscaban el cobijo de los techos. […] Los raros días de sol podían dispersarse por el estrecho espacio abierto, acercarse al linde de la selva, llegar al río, alborotar un poco los caballos en galopes y carreras, reunirse con los amigos y oír misa en la iglesuela de la espadaña. Eran también días de tratar con los indios que llegaban de rostros pintados como máscaras, a trocar yuca y maíz por cuchillos y cuentas y baratijas de Castilla. (USLAR PIETRI, 1956:184)
Porém, o tempo de chuva permanecia mais longo e os soldados de Pedro de Ursúa encontravam-se tristes e encolhidos nas choupanas como cavalos atados às árvores. Durante horas, limpavam as armas, jogavam cartas, cantarolavam e, sobretudo, conversavam. Entre o espesso ruído da chuva, as conversas se formavam, enchendo os espíritos impacientes daqueles homens. A imagem do Eldorado estava sempre presente nessas conversas, em indagações dos homens sobre a veracidade da intenção do governador Pedro de Ursúa em viajar rumo ao descobrimento dos Omaguas e do Eldorado. Desde que saíram da cidade de Lima, no Peru, a dúvida e a expectativa pairavam no imaginário daqueles soldados:
Muchos quisieron estar lejos. Marchando por caminos de sed, en la costa, en el mar. Pensaban con desazón en el maravilloso país que esperaban hallar. Todos sabían algo de él. En todas las chozas, a ratos, como una chispa, se iluminaba en los ojos el nombre de El Dorado. Pedro de Miranda, el mulato, era el que hablaba en el fondo de la cabaña oscura entre los apiñados rostros febriles que lo oían:
- Toda la ciudad es de oro. Las paredes, los techos, las calles. Tienen ídolos tamaños así como yo, todos de oro macizo. Y es grande como Sevilla, con sus torres y sus puentes. El Dorado, que es el rey, anda cubierto de polvo de oro y reluce como una onza nueva. Todo se mira amarillo de oro. Todo es de oro. De noche dicen que relumbra como las brasas de un brasero.
- Pero ¿quién lo ha visto? ¿Quién lo ha visto? – preguntaba por entre la sombría barba un rostro de ojos ardientes.
- Virurata, el que subió hace diez años con los portugueses y con los indios brasiles por el Marañón, el que se lo dijo a virrey, ése lo vió – decía otro. (USLAR PIETRI, 1956:185-186)
No subcapítulo “O mundo da imagem: transformação de ideias icônicas e
construção de uma poética”, estudamos que a mente anseia por uma nova forma de
aproximação com o mundo e o conhecimento, e a imagem se constrói a partir do acesso a uma espécie de interregno, em que a imaginação criadora atua. Uslar Pietri (1947), em El camino de El Dorado, comprova esta premissa ao representar imageticamente os detalhamentos do imaginário coletivo daquela tropa de soldados a respeito do Eldorado. O Eldorado é o lugar da plenitude de todas as coisas, real no imaginário humano, ainda que ilógico ou inverossímil para o pensamento racional.
Como vimos na reflexão proposta neste subcapítulo, para a efetivação do pensamento e linguagem metafórica, faz-se mister uma inevitável abstração e relativização conceitual, de modo que tanto o imaginário visual quanto o coletivo são compostos por metáforas. O Eldorado tensiona as metáforas que conduzem o pensamento comum europeu, na medida em que constituem nova(s) metáfora(s) concernente(s) ao real imaginário do Novo Mundo. Ainda que os soldados busquem em sua memória referências imagéticas da cidade de Sevilha, na Espanha, como âncora de expectativa do porvir, o Eldorado não está a serviço do senso comum, não constitui uma imagem simbólica preexistente, senão que configura a abertura às novas simbologias, desestabilizadoras da previsibilidade, rumo ao desconhecido.
Entendemos, com base em nosso estudo sobre a imagem, que o papel da literatura é inegável no processo de construção de imaginários individuais e coletivos, haja vista que a ação estética e a ação política caminham juntas. Constatamos, assim, que não é diferente quando pensamos na construção imaginária deste “Novo Mundo” americano. O Eldorado representa a proeminência de novos eventos, novo entendimento e estrutura de civilidade, um anúncio de redenção para os esforços humanos em encontrar abundância de segurança e paz através da satisfação de sua busca por riquezas e honra.
Em retomada à definição de Justo Villafañe (2002:13), “o mundo da imagem
está aí, em seu tremendo poder de sugestão e inegável influência social, suas
incógnitas e problemas, os quais exigem uma pronta solução, ainda que ilusória”. O
Eldorado, nesse sentido, representa uma cosmovisão mágica a qual aponta para um desejo de conhecimento, de domínio da realidade enquanto tal, pelo método mágico,
não pelo método filosófico-científico, de acordo com as contribuições de Julio Cortázar (1999), neste mesmo subcapítulo.
O escritor, nesse sentido, assim como o poeta, atua como um ser “primitivo”,
retomando Cortázar (1999), na medida em que está fora de todo sistema conceitual petrificante, preferindo sentir a julgar, cuja direção analógica é intencionada, erigida em método e instrumento. Em outras palavras, o escritor contemporâneo, em especial, Uslar Pietri reconhece sua escrita como produto de uma urgência que não se assume apenas estética, mas também como expressão de seu desencanto, semelhante ao de um poeta angustiado, consciente de que somente a poesia do poema pode, analogicamente, evocar e reconstruir seu balbucio existencial.
Pedro de Arana, soldado presente em muitas guerras e conquistas nas Índias, tomou a palavra, a fim de narrar a experiência de Urre, governador há vinte anos naquela região, o qual avistou o Eldorado em suas viagens desbravadoras:
- Salió con su gente de la costa y empezó a internarse hacia el mediodía. Atravesaron montañas y montañas y montañas. Y después llanuras y llanuras y llanuras. Caminaron semanas y meses y años. Mucha gente se murió de hambre y de calentura. Encontraron a muchos indios bravos. - ¿Y después?
- Entonces siguieron caminando más. Llevaban indios amigos. Y un día desde un cerro vieron la gran ciudad de los Omaguas. Se perdía de vista. - ¿Y qué vieron?
- Mucha gente, muchas casas, mucho oro. Quisieron entrar, pero salieron millares y millares de indios armados y empezaron a matarle los soldados. Todos salieron heridos y tuvieron que huir. Iban mal heridos. Unos se morían aquí y otros más adelante.
- Y el Urre, ¿no volvió?
- No volvió – dijo Arana recalcando las palabras –. En el primer poblado de españoles que topó le cortaron la cabeza sin confesión. (USLAR PIETRI, 1956:187)
Para manter o protagonismo da natureza, os homens e os acontecimentos pareciam flutuar dentro do surdo ruído da água, nas palavras do narrador (USLAR PIETRI, 1956). Retomavam-se as conversas, a chuva regressava e as mesmas imagens diante dos mesmos olhos extasiados ressurgiam. Os enfermos voltavam a queixar-se das febres, agoniados pelos inchaços de seus corpos. Enquanto isso, navios de expedição eram construídos e sangue derramado em execuções públicas constantes. Pedro de Ursúa preocupava-se com o descontentamento geral e com a iminência de loucura e atrevimento causados pela ociosidade.
Finalmente, Lope de Aguirre surgiu, pela primeira vez, na narrativa, quando Pedro de Ursúa recebera uma carta de don Pedro de Añasco, proveniente de Lima,
a qual objetivava alertar ao governador Ursúa do risco de levar em sua expedição os piores homens do Peru, com fama de traidores, dentre os quais, Lope de Aguirre. Neste momento, surgia, também, a primeira personagem feminina do romance: doña Inés. Uma dama dentre as mais belas do Peru, a qual estava decidida a
acompanhar Pedro de Ursúa em sua aventura da expedição – de glória ou de morte.
A princípio, Lope de Aguirre não representava uma ameaça, na visão de Pedro de Ursúa: “A ese Aguirre lo conozco menos. Sé que tiene fama de loco, pero anda con hija y mujer, y me parece demasiado viejo, demasiado cojo y demasiado hablador para que vaya a ponernos en jaque. No hay que ver las cosas tan negras.
Todo va a mejorar ahora” (USLAR PIETRI, 1956:191).
Como efeito da crescente umidade, proveniente das chuvas, havia enfermos por toda parte em Santa Cruz. Muitos se permitiam ensalmar pelos índios, tomando suas ervas, usufruindo dos conhecimentos que eles disponibilizavam. Entretanto, quase diariamente, morria alguém. Os dias pareciam intermináveis, dentro de uma monotonia contrastante com o anseio de ação daqueles seres que haviam presenciado ou conhecido os incríveis acontecimentos da Conquista do Peru e se preparavam com naturalidade para chegar à região deslumbrante de todas as riquezas.
Alguns manifestavam seu descontentamento por meio de ruidosas explosões de ira contra a pessoa do governador, acusado de falta de esforços e iniciativas a fim de sanar a prolongada espera. Exacerbavam-se os ânimos e cresciam as paixões naquela atmosfera comprimida e tensa. Vozes enfurecidas eram ouvidas à noite sempre que um homem sofria um rapto de sua mulher ou filha. Além disso, uma pequena discussão terminava, facilmente, em facadas. A morte configurava um elemento mítico sempre presente na obra, representante, conforme Chevalier e Gheerbrant (1999), do aspecto perecível e destrutível da existência.
Dias mais tarde, uma primeira balsa com trinta homens partiu pelo rio, sob a liderança de García de Arce e, após mais alguns dias, Juan de Vargas partiu com mais setenta homens, a fim de alcançar o primeiro barco e aguardar com alimentos o embarque de toda a expedição. Com isso, os aventureiros no acampamento se reanimaram e doña Inés chegou à Santa Cruz. Pedro de Ursúa a amava com força extraordinária, ao ponto de decidir levá-la à expedição contra os conselhos de todos os companheiros.
Ursúa dera ordem de partida e a expedição completa iniciou a viagem, a princípio, caminhando em cavalos pela beira do rio. O rio, a partir de então, ganhou notoriedade especial na narrativa. Tratava-se do rio que saltava entre penhascos e correntezas, correndo em busca de novas terras. O simbolismo do rio e do fluir de suas águas, no entendimento de Chevalier e Gheerbrant (1999), é, ao mesmo tempo, o da possibilidade universal e o da fluidez das formas, o da fertilidade, da morte e da renovação. O curso das águas é a corrente da vida e da morte.
Pela estreita vereda que, sob a sombra da selva, costeava o rio, desfilava o conjunto de tropas, as quais saíam em distintas horas e dias, entregando-se à experiência de vida ou morte propiciada pelo rio. Jovens e velhos, soldados e aventureiros, padres, algumas mulheres e muitos negros e índios de serviço compunham os grupos. Durante o tempo que permaneceu em Santa Cruz, o governador Ursúa tratou de convencer os habitantes da região a embarcarem na expedição. Povo recém fundado, não valia muito o que teriam de abandonar, e a miragem do ouro e da fortuna que alucinava os soldados, se estendera, também, àquela gente não menos audaz a qual povoava aquele ponto perdido de terra entre as selvas e fragosidades da grande Cordilheira:
Ursúa, un hombre afable y atractivo, insinuaba en sus ánimos el ansia de la aventura y de la riqueza.
- ¿Qué van a hacer vuestras mercedes quedándose en este hueco de las montañas? ¿Qué provecho ni beneficio los espera? Los que van en esta entrada conmigo siempre serán pocos para las inmensas riquezas que vamos a encontrar. Más oro y fama han de hallar que toda la que pudo haber en la conquista del Perú. No es de españoles estar dudando en ocasión como ésta.
Y lo que Ursúa decía, en comedidas palabras, con su autoridad de joven jefe, lo repetían en términos más rudos, pero más directos y fulgurantes, los hombres de la expedición, en las chozas bajo las largas y torrenciales lluvias, mientras el viento sonaba en la arboleda profunda como el eco de un mar próximo.
- Vamos derechos a El Dorado, mis amigos. Este es el preciso camino que han señalado los indios brasiles. Es tanto el oro que allí se encuentra que uno anda como deslumbrado, casi sin poder abrir los ojos, como lechuza al mediodía. (USLAR PIETRI, 1956:199)
Diariamente, novas pessoas se apresentavam dispostas a embarcar na aventura, ao ponto de o prefeito da região, temendo a humilhação causada pela desertificação, propor que não apenas negros e índios acompanhassem Ursúa para servi-lo, mas toda a população embarcasse junto. Sendo assim, velhos vizinhos,
novos habitantes aventureiros, soldados de Ursúa, animais, móveis, vestimentas –
Soldados iam em companhia de seus capitães; os grupos de amigos se ajuntaram; mulheres estavam acompanhadas de suas criadas e longas filas de índios vestidos com roupas espanholas e negros escravizados carregavam os mobiliários e utensílios de cozinha. Padres dedicavam-se por horas a rituais de oração acompanhados de fiéis. Por vezes, algum ferido ou pessoa que sofria alguma febre causada por desconhecidos males da selva era socorrida em uma maca pelos índios e, em seguida, abençoada pelos padres.
Todos os homens estavam armados. Alguns espanhóis entretinham seus acompanhantes recitando romances das guerras entre mouros e cristãos; outros cantavam em couro canções e coplas de suas terras distantes. À noite, acampavam ao redor do rio, sobre uma manta ou sobre a terra, sem desvestir-se e abraçados às armas. A proximidade da aventura e o clima da marcha lhes aliviavam a fadiga.
Doña Inés saíra antes de Ursúa, seguida da mestiça María de Soto, muitas criadas e numerosos índios, os quais levavam sua volumosa bagagem, além dos soldados que a guardavam. O governador, dois ou três vezes por dia, durante a marcha, solicitava um jóquei que fosse se informar a respeito dela, o qual deveria atravessar um grande trecho passando por cada grupo que compunha a marcha até alcançar a formosa mulher.
Lope de Aguirre seguia em seu cavalo, coberto de armas, com certo ar de velho gavião, nas palavras do narrador (USLAR PIETRI, 1956:203). Sua presença débil, tagarela e inquieta molestava um pouco alguns soldados. Aguirre era um homem resistente, que gostava de cansar os demais. Sobre o Eldorado, Aguirre dizia o seguinte:
- De El Dorado se habla mucho, hijos míos, pero nadie lo ha visto. ¿Lo ha visto alguno de ustedes? Yo no lo he visto. En esto pasa un poco como en aquella vieja historia de los burladores que hicieron el paño para el rey, tan fino, que no podía verlo sino quien no tuviera sangre de morisco o de judío. Y la verdad era que el bueno del rey andaba desnudo y todos decían que veían el paño. Así se me da que andamos nosotros. Empeñados en ver este paño famoso de El Dorado, que tal vez no hayamos de ver nunca, y dejándonos a la espalda los reinos del Perú cuando tenemos hombres y bríos para conquistarlos y hacer esta vez lo que tantos en otras no han podido. Esa sí que es empresa segura y a la mano. ¿No te parece, Antoñico? (USLAR PIETRI, 1956:205)
Ninguém lhe respondera porque todos já dormiam. Todos, menos Aguirre, que caminhava, coxeando. Dando voltas ao redor da fogueira, murmurava entre os dentes. Pela madrugada inteira, atiçava brasas, sem render-se ao descanso. O
posicionamento de Aguirre, no trecho citado, é de fundamental relevância para o entendimento do avanço da narrativa, na medida em que o personagem se encontrava em um grupo focado na busca do Eldorado, porém, não tinha nenhuma esperança de encontrá-lo, ao contrário, estava convencido do aspecto ilusório desta esperança. Mais do que isso, contraditoriamente, à medida que se afastava dos reinos do Peru, mais estava convencido da capacidade da tropa de espanhóis em conquistá-lo mais do que o fizeram até o momento.