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ÜÇÜNCÜ BÖLÜM

3.1. SÜLEYMANLI CEMAATĠ

3.1.3. Cemaatin Eğitim Fırsatı ve Yöntemi

Até aqui é possível notar que têm se apresentado pressupostos que apontam para uma natureza processual e dinâmica da cognição humana e, portanto, da construção do significado. Assim,

não estamos considerando as expectativas prévias de como as coisas significarão, tampouco postulamos um jogo entre uma virtualidade e uma efetividade semântica, mas sim visualizamos as formas de construção do significado que emergem na interação on line e nela vão sendo negociadas, ajustadas. Isso permite que nos coloquemos em

posição de observar o significado de forma dinâmica, ou seja, como construção e articulação entre experiências, habilidades, conhecimentos e processos, incluindo as formas dos acordos interacionais possíveis (ou não) durante a interação (GERHARDT, 2006a, p.01).

Essa natureza processual e dinâmica da cognição se dá essencialmente porque, mais do que acumular conhecimentos, somos capazes de articulá-los processualmente para criar novos saberes. Essa capacidade se dá em função de todo o exposto nas seções anteriores e porque, como será apresentado aqui, possuímos a habilidade de estabelecer projeções entre elementos de diferentes domínios. Sobre isso, Salomão (1998), em uma comunicação pessoal, aponta o que Miranda (1999, p.81) chama de “hipótese-guia” de

um “arcabouço teórico de uma teoria [sobre a cognição humana] de grande alcance explicativo”: “O princípio nuclear da cognição humana corresponde à projeção entre

domínios, desta forma operando produção, fracionamento da informação, transferência

e processamento do sentido” (SALOMÃO, 1998).

Segundo Miranda (1999), as projeções eram vistas tradicionalmente como fenômenos periféricos, ganhando destaque nos estudos em cognição a partir da fundação do Modelos dos Espaços Mentais. Como dito anteriormente, os espaços mentais são tratados, dentro dessa abordagem, como domínios locais de conhecimento, sendo, portanto, dinâmicos.

EM [espaços mentais] são domínios dinâmicos, i.e., proliferam enquanto pensamos e falamos. Por isso são diferentes e novos a cada semiose. São produzidos como funções da expressão lingüística que os suscita e do contexto que os configura. Externamente esses domínios estão ligados uns aos outros por conectores: marcas lingüísticas e contextuais (Construtores de Espaços Mentais (CE)). Internamente são estruturados por domínios estáveis (MIRANDA, 1999, p.86).

As projeções, inicialmente, foram vistas como exclusivamente acontecendo entre os espaços mentais. Porém, ao observarem o papel central que ocupam na cognição humana, os pesquisadores foram ampliando seu escopo de atuação para outros domínios. Conforme explica Gerhardt (2006, p.04), a assunção de que a linguagem não é autônoma e de que, por isso, os processos envolvidos na construção do significado linguístico também estão nas representações cognitivas de outras naturezas trouxe para

as projeções o papel de “ação cognitiva humana mais importante”. Uma vez que “domínios são evocados o tempo todo e, por isso, sofrem ajustes a fim de acomodarem

(DUQUE e COSTA, 2012, p. 75-76), “a perspectiva dos domínios conceptuais coloca as projeções numa posição central da cognição humana, tendo em vista que operam para construir e conectar domínios” (DUQUE e COSTA, 2012, p. 86).

Gerhardt (2006a) inclui a mesclagem na categoria por ela denominada de

“saberes processuais”, em complementação aos chamados “saberes acumulados”

apresentados anteriormente. Os saberes processuais permitem, assim, o uso dos saberes acumulados na produção dos significados e se constituem de mecanismos de projeção inter e intradominial, tais como a metonímia, a metáfora, a mesclagem, o reenquadre, a contrafactualidade, a correlação, a refocalização e a referenciação.

Fauconnier (1997), por sua vez, apresenta a possibilidade das projeções acontecerem entre partes de domínios, de um (domínio-fonte) em direção a outro (domínio-alvo), entre domínios por conta de funções pragmáticas, e a partir de um esquema abstrato para estruturar uma situação em contexto. Além disso, o autor apresenta um modelo especial de projeção, ao qual me dedicarei nesta seção, em função do papel essencial que ele vai ocupar no desenvolvimento desta tese – a mesclagem (blending, no original), posteriormente denominada também de integração conceptual (FAUCONNIER e TURNER, 2002).

Em Fauconnier (1997), o autor apresenta a mesclagem como ocorrendo apenas entre espaços mentais. Entretanto, já em Salomão (1999, apud MIRANDA, 2001), a mesclagem passa a ser tratada como um fenômeno geral da cognição humana, operando sobre múltiplos domínios, estáveis ou locais. Em Fauconnier e Turner (2002), é possível encontrar uma compreensão geral do fenômeno – também denominado de “integração

conceptual”, que chega a ser tratado pelos autores como “uma ótima capacidade mental

que, na sua forma de duplo-escopo mais avançada, deu aos nossos ancestrais superioridade e, para o melhor e para o pior, fez de nós o que somos hoje”42 (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.V, tradução minha). A isso, os autores

acrescentam que “os produtos da integração conceptual são onipresentes”

(FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.V, tradução minha)43.

42

Original: “a great mental capacity that, in its' most advanced "double-scope" form, gave our ancestors superiority and, for better and for worse, made us what we are today” (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.V).

43

Original: “The products of conceptual blending are ubiquitous” (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.V).

Dessa forma, a integração conceptual aparece como fenômeno cognitivo geral. Os autores, sobre isso, descrevem que:

Como a integração conceitual apresenta tantas aparências diferentes em diferentes domínios, sua unidade como capacidade geral tinha sido perdida. Agora, no entanto, a nova disposição dos cientistas cognitivos para encontrar conexões através dos campos tem revivido o interesse nos poderes mentais básicos subjacentes produtos dramaticamente diferentes em diferentes tipos de vida (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.15, tradução minha).44

A mesclagem, tal e como definida por Fauconnier (1997) e Fauconnier e Turner (2002) se dá através da projeção entre dois domínios-fonte, em função da projeção parcial de suas contrapartes, ou seja, trata-se de uma projeção interdominial complexa. Essa projeção só é possível se, entre os domínios, houver estruturas comuns que permitam sua articulação. Essas estruturas, em geral, mais abstratas que os dois domínios, se situa em um terceiro espaço, denominado de espaço genérico. Por fim, surge, então, um espaço-mescla, no qual se projetam parcialmente os dois domínios- fonte. Essa projeção se dá de forma seletiva e, dela, resultam novos elementos, formando-se, assim, uma estrutura emergente própria, que é diferente da soma simples dos dois domínios-fonte.

Figura 1 - Esquema básico de integração conceptual

44

Original: “Because conceptual integration presents so many different appearances in different domains, its unity as a general capacity had been missed. Now, however, the new disposition of cognitive scientists to find connections across fields has revived interest in the basic mental powers underlying dramatically different products in different walks of life” (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.15).

Segundo Fauconnier e Turner (2002), a mesclagem envolve três processos básicos: a identidade, a integração e a imaginação. Segundo os autores, o reconhecimento de relações de identidade (e de oposição) não seria uma ação inicial primitiva, mas já seria o produto de um trabalho inconsciente imaginativo complexo. Dessa forma, a integração deriva do processo de construção de relações de identidades e de oposições, ocorrendo de maneira despercebida, uma vez que trabalha com propriedades estruturais e dinâmicas e restrições operacionais bastante elaboradas. Os autores reforçam ainda que a identidade e a integração não podem ocorrer nos processos

de significação sem o terceiro “I” – o da imaginação, que pode acontecer mesmo sem

estímulos externos, em processos já comumente taxados como “criativos”, mas que ocorre também mesmo nas mais simples construções de significado – “os produtos da

mesclagem conceptual são sempre imaginativos e criativos” (FAUCONNIER e

TURNER, 2002, p.06, tradução minha)45.

(...) o trabalho em vários campos converge para a reabilitação da imaginação como um tema científico fundamental, uma vez que é o motor central do significado por trás dos eventos mentais mais comuns. A mente não é um Ciclope; tem mais de um I; tem três46 - identidade, integração e imaginação - e todos eles trabalham inextricavelmente juntos (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.15)47.

Fauconnier e Turner (2002) partem do pressuposto de que a mesclagem surge da nossa necessidade de manter o que eles chamam de “escala humana”, assim, podendo tornar, por meio de um processo de compreensão, ideias complexas facilmente compreendidas e armazenadas em nossa memória: “Nós dividimos o mundo em entidades a uma escala humana para que possamos manipulá-las em nossas vidas, e essa divisão do mundo é uma realização imaginativa” (FAUCONNIER e TURNER, 2002,

45

Original: “The products of conceptual blending are always imaginative and creative” (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.06).

46

Nota de tradução: Aqui, o autor faz um trocadilho em inglês, uma vez que a pronúncia do nome da letra “i” lembra a palavra “eye” (olho). Assim, ele remete ao personagem da mitologia grega, o Ciclope, que só tinha um olho.

47

Original: “As we continue to see, work in a number of fields is converging toward the rehabilitation of imagination as a fundamental scientific topic, since it is the central engine of meaning behind the most ordinary mental events. The mind is not a Cyclops; it has more than one I; it has three--identity, integration, and imagination-and they all work inextricably together. Their complex interaction and their mechanisms are the subject of this book” (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.15).

p.8)48. “Um dos benefícios centrais da mesclagem conceptual é sua habilidade de prover

compressões à escala humana de sequências difusas de eventos” (FAUCONNIER e

TURNER, 2002, p.30)49. Assim, essa nossa capacidade de reestruturar diferentes domínios para criar novas estruturas emergentes nos permitiu, ao longo do desenvolvimento de nossa espécie, a criação de novas ferramentas, novas tecnologias e novas maneiras de pensar (FAUCONNIER e TURNER, 2002).

A mesclagem transforma imaginativamente as nossas realidades humanas mais fundamentais, as partes de nossas vidas mais profundamente sentidas e mais claramente conseqüentes. Significado vai muito além do jogo de palavras. Significar vai além de jogar com as palavras. Significar importa, de maneira que tenha relevância para o indivíduo, para o grupo social, e para a descendência da espécie

(FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.28)50.

Nesse sentido, aponta Salomão (2003, p.78): “a natureza essencialmente social da cognição torna imprescindível que disponhamos de âncoras materiais para as integrações conceptuais, através das quais rompemos as barreiras de nossa

“internalidade” (nossa experiência mental subjetiva)”. Como aponta Gerhardt (2006, p.02): “uma teoria cognitiva que reconhece a realidade da integração conceptual

compactuará com o significado visto de forma dinâmica, on line e real time”. Isso porque, ao se trabalhar com a noção de “projeção interdominial”, entende-se que a

mesclagem “manipula elementos presentes na memória de trabalho no continuum da

comunicação” (GERHARDT, 2006a, p.02). Dessa maneira:

Compreende-se que todo evento de linguagem evidencia e deflagra, a um só tempo, modelos e planos de realidade e de compreensão da representação linguística, envolvendo conhecimentos sistematizados de mundo que se articulam via processos cognitivos intra e interdominiais, e gerando diferentes qualidades de interpretação, relacionadas às condições pragmáticas de validação de cada construção linguística (GERHARDT, 2006a, pp.02-03).

48

Original: “We divide the world up into entities at human scale so that we can manipulate them in human lives, and this division of the world is an imaginative achievement” (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.8).

49

Original: “one of the central benefits of conceptual blending is its ability to provide compressions to human scale of diffuse arrays of events” (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.28).

50

Original: “Blending imaginatively transforms our most fundamental human realities, the parts of our lives most deeply felt and most clearly consequential. Meaning goes far beyond word play. Meaning matters, in ways that have relevance for the individual, the social group, and the descent of the species”.

Nesse sentido, a compreensão do papel da integração conceptual na construção de significados torna-se de grande valia para uma pesquisa como esta preocupada com o ensino de leitura, posto que leitura é construção de significado. No capítulo 4, será apresentada mais detalhadamente a concepção de leitura com que trabalharei nesta tese, entendendo-a como também construída com base em integrações conceptuais.

A integração conceptual aparece também como a chave para a compreensão da natureza intersubjetival da cognição humana.

Os processos de integração/mesclagem conceptual de que tratamos, decisivos para a interpretação simbólica e, nestes termos, para a ordenação de nossa relação com o mundo, encontram a mais nobre de suas aplicações na constituição da própria cena comunicativa, de que participamos como pessoas do discurso e na qual radicamos toda a experiência de percepção, concepção, referenciação e identificação das coisas (SALOMÃO, 2003, p.80).

Assim, de acordo com Salomão (2003), a própria interação humana só é possível porque nos mesclamos uns aos outros, em um processo de reflexividade profundo, que, como apontado anteriormente, radicaliza o dialogismo bakhtiniano. Como se vê na figura 2, realizamos projeções com base nos domínios conceptuais distintos (as identidades comunicativas que interagem no discurso), que se integram a partir de um esquema genérico da ação comunicativa. No espaço-mescla, emerge, então a redefinição da pessoa como participante no discurso a partir de si e de seu interlocutor.

Para Salomão (2003), no espaço mescla emerge um Interlocutor 1’, porém,

Gerhardt (2006a) acredita que ali emirja também um Interlocutor 2’, na medida em que havendo mesclagem entre os egos para a configuração do interlocutor, comunicamo-nos não para um outro, especificamente, mas sim para uma mescla entre o que somos, ou que pensamos ser, e os outros, ou o que pensamos sejam os outros, porque projetamos neles expectativas relacionadas aos resultados de nossa fala. Assim, não vemos as pessoas tais quais são, mas mescladas às expectativas que alimentamos sobre elas, as quais, em última instância, somos nós mesmos, já que estas expectativas são as de que elas se assemelhem a nós, fazendo o que faríamos numa dada situação (GERHARDT, 2006b, p. 1193).

Por isso, para a autora, “a mescla conceptual entre os sujeitos engajados numa

comunicação seria assim a ação sociocognitiva mais primordial do ser humano, que

fundamenta a sua compressão de significados” (GERHARDT, 2006b, p. 1191), o que,

de maneira aprofundada, reforça a proposta de Fauconnier e Turner (2002):

Essas operações mentais básicas são altamente imaginativas e produzem nossa consciência de identidade, mesmice e diferença. Enquadramento, analogia, metáfora, gramática e raciocínio de senso comum, todos desempenham papel nessa produção não consciente de reconhecimentos aparentemente simples e atravessam divisões de disciplina, idade, nível social e grau de especialização. A integração conceptual, que também chamamos de mesclagem conceitual, é outra operação mental básica, altamente imaginativa, mas crucial para até mesmo os tipos mais simples de pensamento (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.18, tradução minha)51.

A proposta de Salomão (2003) põe em foco a noção central adotada nesta tese de que a cognição é distribuída –, neste caso, entre os interactantes que atuam em uma determinada situação de interação. A ideia de que a cognição é distribuída, na verdade, já se apresentava nas seções anteriores, uma vez que, desde o início, a visão de cognição aqui adotada rejeita uma visão modular da mente humana, que encapsularia determinadas funções cognitivas em regiões do cérebro desconectadas entre si. Na próxima seção, que encerra este capítulo, desenvolvo, então, especificamente, o conceito de cognição distribuída, articulando-o às ideias apresentadas anteriormente.

51

Original: “These basic mental operations are highly imaginative and produce our conscious awareness of identity, sameness, and difference. Framing; analogy, metaphor, grammar, and commonsense reasoning all play a role in this unconscious production of apparently simple recognitions, and they cut across divisions of discipline, age, social level, and degree of expertise. Conceptual integration, which we also call conceptual blending, is another basic mental operation, highly imaginative but crucial to even the simplest kinds of thought” (FAUCONNIER e TURNER, 2002, p.18).