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NakĢibendiliğin Din Aracılığıyla Toplumda Etkin Duruma Gelememesi Gelememesi

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3.3. NAKġĠBENDĠ TARĠKATI

3.3.6. NakĢibendiliğin Din Aracılığıyla Toplumda Etkin Duruma Gelememesi Gelememesi

Como apresentei no capítulo anterior, parto, nesta tese, de uma visão de cognição como processo de produção de conhecimento que se dá de forma distribuída

materialmente e socialmente, sendo, portanto, também situada, e representando a manifestação das relações concêntricas estabelecidas entre forças culturais, locais e individuais (HATCH e GARDNER, 1993). Assim, há sob essa visão dois tipos de cognição distribuída, que se integram ao longo da interação que estabelecemos com o ambiente e com as pessoas que nele se encontram: entre uma mente e um artefato externo e entre mentes individuais (ZHANG e PATEL, 2006).

Essa visão de cognição distribuída traz para os estudos em e sobre o ensino escolar a concepção da sala de aula como um nicho cognitivo (GERHARDT, 2014):

Para discussões sobre ensino, esse lugar é a sala de aula, que assume um estatuto específico por ser um espaço de cognição, ação e construção de significados com peculiaridades que não encontramos em outros lugares. Tais peculiaridades permitem-nos definir para a sala de aula a condição de nicho cognitivo - um locus onde as pessoas pensam e agem de forma situada, e relativamente ao qual elas constroem suas intersubjetividades (GERHARDT, 2014).

Entendendo, então, que, na escola, os pensamentos e as ações das pessoas se dão de forma altamente institucionalizada, e que “é através de práticas cognitivas concretas e efetivas que subjetividades são constituídas, sujeitos cognitivos são produzidos,

mundos são também constituídos, tudo em movimento em coengendramento”

(KASTRUP, 2012, p.55), torna-se essencial compreender como as pessoas atuam situadamente a este espaço. Para que essa compreensão se desenvolva, é fundamental que se observem os materiais que se encontram no nicho e que demonstram, de diferentes maneiras, como o espaço (e tudo que há nele) afeta as pessoas, bem como as pessoas também o afetam. Como nos lembra Gerhardt (2014):

como nicho cognitivo, não apenas a sala de aula afeta as pessoas que a ocupam, como também as pessoas, através de suas ações cognitivas, constroem os artefatos simbólicos e materiais propostos para uso, e transformam-nos em coisas que elas podem compreender, usar (...). Mas elas também reconstroem, ou seja, agem significativamente sobre esses objetos, por isso a forma como os alunos os percebem é parte integrante da natureza da sala de aula e dos relacionamentos em que ali eles se engajam.

Portanto, entender a história do livro didático no Brasil e entender seu papel na escola brasileira hoje é entender a própria história da construção da sala de aula como nicho cognitivo e as possibilidades institucionalizadas para que nela atuem alunos e professores.

a. Sua natureza local [do nicho cognitivo] diz respeito ao fato de que o reconhecimento de um determinado espaço como nicho cognitivo articula-se intimamente com o reconhecimento dos artefatos materiais

e simbólicos de um dado ambiente como elementos propiciadores e desencadeadores das ações cognitivas pretendidas e realizadas naquele espaço.

b. Sua constituição intersubjetiva [do nicho cognitivo] relaciona-se às pessoas que constroem, participam de e têm as suas formas de cognição organizadas relativamente ao nicho. Essas pessoas assumem entre si, e em condições de ação conjunta, formas de cognição baseadas no nicho, bem como nos problemas que justificam sua existência, e nos objetivos de ação e cognição específicas àquele espaço (Carassa et al. 2008).

c. Seus elementos de regulação normativa [do nicho cognitivo], que podem se apresentar em âmbito mais ou menos institucional, afetam e estruturam os comportamentos cognitivos das pessoas e suas construções de significado (GERHARDT, 2014).

Nesse sentido, é fundamental, então, entender que, na sala de aula, o livro didático atua como uma importante affordance, utilizada, como apontarei mais adiante, como metonimização das intenções e expectativas da escola em relação ao aprendizado dos alunos e ao desempenho dos professores. Entretanto, a construção e o uso dessa affordance para o aprendizado escolar não é pré-dado, mas é também aprendido ao longo do processo de escolarização. Como salienta Duque (2015a, p.62), “é na atuação que descobrimos, revelamos ou até mesmo criamos o que elas [as affordances] realmente proporcionam”. Além disso, a percepção (que é também conceptualização) dessas affordances envolvem a mediação social e “não podem ser determinadas por alguém que desconheça tais artefatos e esteja isolado de outras pessoas” (DUQUE, 2015a, p.62).

A affordance não se limita a um objeto isolado, mas depende de uma coleção de objetos relacionados e de eventos. Em especial, as

affordances de artefatos não costumam ser autônomas. Elas dependem de um contexto mais amplo que envolve outros artefatos e um conjunto de ações envolvendo tais objetos (DUQUE, 2015a, p.62).

Não se pode esquecer que o uso do livro didático como affordance (ou como suporte para a construção de affordances) não pode ser entendido fora de um contexto específico de uso. Entretanto, não se pode negar o papel histórico que ele vem ocupando na escola e que vem definindo também seus usos em microcontextos específicos. Nesse sentido, é possível entender o que se planeja para esse uso para se entender as possibilidades postas para os usos que alunos e professores fazem dele em um contexto tão normatizado como é a sala de aula brasileira.

Em Vargas (2012a), eu já havia apontado que o livro didático atua como um objeto semiótico formador de comportamentos cognitivos, modelando práticas e

estruturando relações em sala de aula. Nesta seção, trago parte da discussão lá posta, atualizada e articulada aos estudos em cognição distribuída e à noção de políticas cognitivas. Retomando os estudos sobre a história social do livro didático, é possível notar que o modelo de livro didático que hoje existe na escola brasileira, tendo como função principal a estruturação do trabalho pedagógico a ser desenvolvido em sala de aula, se constituiu definitivamente no Brasil por volta da década de 60 (BATISTA, 2003; 2004; 2009; GERALDI, 2003; LERNER, 2004).

Esse modelo se caracteriza basicamente pela apresentação de conteúdos curriculares e atividades para o ensino, por parte do professor, e a aprendizagem, por parte dos alunos, desses conteúdos, e por sua distribuição de acordo com a progressão escolar em séries e em unidades de ensino. Dentro desse modelo, então, o livro didático se dirige especificamente ao aluno, mas seu uso deve ser feito com a mediação do professor, direcionando, inclusive, o seu fazer através, mais recentemente, do manual do professor. Desse modo, os livros didáticos acabam por atuar mais como um condicionante e organizador da ação docente do que um material de apoio ao seu fazer, como fora em outros tempos (BATISTA, 2003; 2004; 2009; GERALDI, 2003; LERNER, 2004).

É importante observar, porém, que o processo de cristalização desse modelo de livro didático não se deu de maneira isolada de qualquer contexto histórico. Ele representou e ainda hoje representa o resultado de políticas públicas dirigidas ao próprio material, em um nível mais restrito, e a projetos pedagógicos, em um nível mais amplo. Nesse sentido, essa modelização acompanha a própria formação da escola brasileira como ela é hoje constituída e de, portanto, um processo maior de sistematização de projetos pedagógicos em nosso país – o que se comprova pelas crescentes políticas públicas voltadas para esses materiais (GALVÃO e BATISTA, 2009; GERALDI, 2003).

Paralelamente à formação desse modelo de livro didático, a escola brasileira foi se transformando em um espaço em que deveriam ocorrer um conjunto de atividades reunidas em um ensino seriado de método simultâneo. Assim, os alunos passaram a ser organizados em classes, que, teoricamente, representariam grupos com o mesmo grau de desenvolvimento, e o professor passou a desenvolver atividades coletivas com eles, a partir de um mesmo material.

Os livros didáticos vão passando, então, a ocupar esse papel de reproduzir e, ao mesmo tempo, condicionar fortemente o “modo de organização da cultura escolar,

concepções pedagógicas, [e] maneiras de escolarizar saberes” (GALVÃO e BATISTA,

2009, p. 16). Isso se deu, por volta dos anos 60 e 70, em meio a um processo de intensa ampliação do sistema de ensino, em especial da rede pública, que gerou, juntamente a um aumento significativo do número de matrículas de alunos, um recrutamento docente, por necessidade de dar conta desse número de alunos, mais amplo e menos seletivo. Dessa forma, deterioraram-se suas condições de trabalho e o livro atuaria como um manual impresso de conteúdos e exercícios delimitados em áreas de conhecimento e Disciplinas para que esse professor, cujo trabalho entrava em suspeição, pudesse ser de alguma forma direcionado (BATISTA, 2003; 2004; 2009; GALVÃO e BATISTA, 2009; GERALDI, 2003).

Em função dessas transformações, os conteúdos a serem ensinados passaram a ser organizados em progressão, acompanhando o ano letivo e possibilitando o controle sobre o trabalho do professor (BATISTA, 2003; 2004; 2009; GALVÃO e BATISTA, 2009; GERALDI, 2003). Como denuncia Geraldi (2003, p.95):

O material está aí: facilitou a tarefa, diminuiu a responsabilidade pela definição do conteúdo de ensino, preparou tudo - até as respostas para o manual ou guia do professor. E permitiu: elevar o número de horas- aula (...); diminuir a remuneração (...); contratar professores independentemente de sua formação ou capacidade (GERALDI, 2003, p.95).

Portanto, é possível entender que o livro didático atua como um objeto que metonimiza a instituição escolar, uma vez que é a representação mais concreta da forma como a escola se vê e de como ela quer ser vista pelos que nela atuam. Nele, revelam- se, então, as intenções e as expectativas da instituição escolar em relação aos seus objetivos e à atuação dos diferentes sujeitos que a integram (VARGAS, 2012a):

Assim, a solução para o despreparo do professor, em dado momento, pareceu simples: bastaria oferecer-lhe um livro que, sozinho, ensinasse aos alunos tudo o que fosse preciso. Os livros didáticos seriam de dois gêneros: verdadeiros livros de textos para os alunos, e livros-roteiros para os professores, para que aprendessem a servir-se bem daqueles. Automatiza-se, a um tempo, o mestre e o aluno, reduzidos a máquinas de repetição material (GERALDI, 2003, p.117).

Como aponta Geraldi (2003), essa configuração acaba por introduzir, na relação entre a atividade de produção de conhecimentos e a atividade de ensino, uma nova realidade intermediária: a produção do material didático que está unicamente a serviço do trabalho de transmissão.

Trata-se de uma “parafernália didática” que vai do livro didático (para o professor, com respostas dadas) até recursos de informática (...). Em relação ao trabalho do professor, a profecia de Comenius se concretiza: “tudo aquilo que deverá ensinar e, bem assim, os modos como há de ensinar, o tem escrito como que em partituras” (GERALDI, 2003, p.93).

No Brasil, estudos sobre o livro didático vêm sendo divulgados também desde os anos 60. Em sua maioria, acabam por denunciar a falta de qualidade desses materiais em relação aos seus conteúdos e às práticas que eles viabilizam (BATISTA, 2003). Entretanto, como já apontado em Vargas (2012a), quase nada se fala sobre as relações que se podem estabelecer entre o uso desses materiais por alunos e professores e a forma como atuam cognitivamente, em um espaço tão institucionalizado como é o espaço escolar. Nesse sentido, não se pode esquecer a importância dos objetos materiais não apenas como ferramentas para o pensamento (VIGOTSKI, 2008) e como mediadores semióticos do desenvolvimento cognitivo do aprendiz (SINHA, 1999), mas como parte mesmo da própria cognição do aprendiz (ZHANG e PATEL, 2006), contribuindo também para o seu posicionamento em determinada prática discursiva de aprendizagem (SINHA, 1999).

Com base nisso, entendendo o livro didático como um objeto semiótico formador de uma forma de cognição específica da aprendizagem escolar, desenvolvida em sala de aula (VARGAS, 2012a), é possível observar que historicamente o livro didático foi se construindo para atuar como uma affordance que fomenta políticas de recognição, que emergiriam, então, no momento em que o professor colocaria as atividades nele postas em prática. Assim, já se sabendo do papel fundamental que os livros exercem em sala de aula, eles acabam por ser pensados para concretizar-se em meios de controlar a atuação dos interactantes em sala de aula, enquadrando, portanto, formas de pensar situadamente a esse espaço.

Sobre isso, Vigostki (2008) já havia apontado que a cognição humana é também modelada pelos instrumentos e pelas ferramentas que o homem utiliza, sendo as funções da mente e do corpo também desenvolvidas pelos objetos com que interagem em meio a um contexto social que define essa interação. Sinha (1999) a isso acrescenta o fato de que não apenas o contexto social define essa interação, mas também a própria interação, em seu microcontexto, enquanto espaço de negociações entre os intersujeitos nela presentes, se define e define o papel a ser desempenhado por cada um, por meio também dos objetos que dela fazem parte. Assim, como os signos podem ser vistos

como ferramentas ou mercadorias, sob a ótica dos estudos em cognição, os objetos também podem ser vistos como signos e como mediadores semióticos do desenvolvimento da cognição, integrando o posicionamento e a perspectiva do sujeito- aprendiz aos contextos das práticas que enquadram significativamente a aprendizagem (SINHA, 1999; VIGOTSKI, 2008).

Como explicou Vigotski (2008) – e esse pode ser um conceito fundamental para a noção de affordance –, um instrumento só é utilizado pelos seres humanos para resolver problemas se a pessoa consegue conceptualizar simultaneamente as funções do objeto e o objetivo a ser alcançado por meio dele: “mesmo o melhor instrumento para a solução de dado problema não será utilizado pelo chimpanzé se ele não puder vê-lo ao

mesmo tempo, ou quase ao mesmo tempo, que o objetivo” (VIGOTSKI, 2008 [1934],

p.49). E affordances, por sua vez,

são as entidades primárias que são percebidas, e perceber affordances

é perceber o mundo significativo. Importante para finalidades em curso, affordances não são meramente entidades no ambiente, e eles também não são projeções de significado estabelecidas por animais em um ambiente meramente físico. Affordances são funcionalidades dos sistemas animais-meio ambiente, e existem em tais sistemas apenas em virtude de animais possuirem as habilidades necessárias para perceber e tirar proveito deles (Anderson e Chemero, 2009, p. 306, apud GERHARDT, 2012).

Desse modo, um instrumento só pode ser usado se é posto para ele um objetivo, uma vez que só assim é possível ao homem enxergar nele uma affordance. Em relação ao livro didático, existe um objetivo pretendido para seu uso em sala de aula e que pode também ser conceptualizado pelo aprendiz que se põe em interação com ele. Assim, por meio de uma política de recognição, esses livros acabam por contribuir para a formação de sujeitos reprodutores, o que se concretiza através da verificação das ações cognitivas da pessoa que aprende. Dessa forma, como apontei em Vargas (2012a), mais uma vez, é possível afirmar que o livro didático entra em sala de aula como um objeto que não

ensina apenas “conteúdos”, mas ensina também – e principalmente – o aprendiz a se

comportar como aprendiz, a formar seu comportamento cognitivo enquanto aprendiz: como explica Gerhardt (2006b), a aprendizagem de conteúdos na escola é incidental, uma vez que se ensinam, na verdade, comportamentos (socio)cognitivos e metacognitivos.

Além disso, como consequência da construção desse modelo de escola e desse perfil de livro didático elaborado por pessoas que não vão trabalhar com ele em sala de

aula, gera-se uma clara separação entre o grupo dos que executam o trabalho didático e o dos que pensam esse trabalho. Sob a ótica dos estudos em cognição, então, o resultado que se tem é que o livro didático passou a assumir o papel de formador de comportamentos cognitivos tanto do professor, como sujeito-ensinante, como do aluno, como sujeito-aprendiz. Entretanto, ambos atuam como reprodutores e não como produtores de um conhecimento que deveria ser construído conjuntamente em sala de aula. E o pior: sem a consciência de que o sistema educacional os colocou nessa posição de emuladores e (re)produtores (SINHA, 1999), os professores acabam por responsabilizar o aluno pelos fracassos que são, como já dizia Soares (1997), da escola (VARGAS, 2012a).

Essa situação toda se agrava quando se observa que ainda hoje o livro didático, em muitos casos, é o único instrumento de letramento dos nossos alunos, constituindo o único meio de acesso sistemático deles à cultura escrita (PERINI, 1988; ROJO e BATISTA, 2003; GALVÃO e BATISTA, 2009). Como salientam Rojo e Batista (2003,

p.16), “muitas vezes, o livro didático é o único material de leitura disponível nas casas

destes alunos de Ensino Fundamental e, por isso mesmo, são fundamentais para seu

processo de letramento”, uma vez que “os textos e impressos escolares parecem vir

sendo, assim, para parte significativa da população brasileira, o principal meio em torno

do qual sua escolarização e acesso à cultura escrita são organizados e constituídos” (GALVÃO e BATISTA, 2009, p. 17) ou como cita Perini (1988, p. 81), são “o único

tipo de material escrito com o qual esses alunos têm oportunidade de um convívio

relativamente prolongado”.

Nesse sentido, não se pode negar que sejam, muitas vezes, esses materiais que estejam ensinando os estudantes da escola brasileira a se posicionarem como aprendizes, ensinando visões de aprendizagem e, portanto, ensinando e construindo políticas cognitivas. Por isso, concordo com Rajagopalan (2003) quando ele diz que

“com certeza, esses materiais têm uma importância fundamental na formação dos

alunos, posto que eles orientam a escolha do modelo que vai ser seguido pelos alunos” (RAJAGOPALAN, 2013b, p.67).

Igualmente, por conta de todo o cenário de precarização docente que ainda hoje vivemos e que parece agravar-se de maneira vertiginosa, devido a fatores externos ao trabalho em sala de aula, mas que acabam por defini-lo – entre eles, a inadequada formação de professores e/ou suas precárias condições de trabalho, e as dificuldades de

produção e circulação do livro no Brasil -, o livro didático se transformou “numa das poucas formas de documentação e consulta empregadas por professores e alunos” (BATISTA, 2003, p.28). Assim, ele atua também como referência teórica para a formação e informação do professor, sendo, por muitas vezes, seu único meio para isso, uma vez que se encontra em um estado legitimado pela tradição escolar (BATISTA, 2003; BATISTA e COSTA VAL, 2004; BARROS e COSTA, 2010b; BRÄKLING, 2003; ERES FÉRNANDEZ et. al, 2012; GALVÃO e BATISTA, 2009; GERALDI, 2003; LERNER, 2004; ROJO, 2003; SEBOLD, 1998).

Sobre isso, Eres Fernández et al. (2012) chegam a dizer que os professores, em sua maioria, não realizam análises prévias, não verificam os princípios teóricos nos quais se pautam os livros, e não sabem como analisar os livros didáticos, comentando pontos negativos de maneira genérica, o que, consequentemente, restringe suas possibilidades de intervenção. Citando a pesquisa de Xavier e Urias (2006) com professores de inglês, Rojo (2013) apresenta que o livro didático, para os professores pesquisados, assume as funções de orientar as ações pedagógicas; de auxiliar e facilitar o trabalho do professor, de complementar as aulas e a aprendizagem dos alunos; e de estabelecer o conteúdo de ensino-aprendizagem e a sua sequência, isto é, viabilizar e concretizar o programa e o currículo. Assim, como afirma Sebold (1998, p.34): “na falta de informação, de subsídios e de uma definição clara de objetivos didáticos institucionais, o livro-texto aparece como um elemento organizador da prática

pedagógica do professor”, constituindo-se, então, “na única referência metodológica de

que o professor de LE [língua estrangeira] dispõe e, portanto, se torna indispensável e,

muitas vezes, inquestionável”, uma vez que

Esses manuais [os livros didáticos] às vezes adquirem tanta importância que acabam sendo a única referência para a elaboração do planejamento de curso e, nesses casos, o professor normalmente apenas transpõe para o plano os conteúdos apresentados no índice do livro (BARROS e COSTA, 2010b, p.88).

Sobre essa questão, Rojo (2013) apresenta, então, três alternativas a partir das quais o professor poderia se posicionar em relação ao livro didático. A primeira seria o professor estar completamente refém do livro escolhido, executando-o em sala de aula tal e como ele se apresenta – o que, pelo que apontam as pesquisas, é o que acontece na maior parte dos casos. A segunda seria o professor ter uma “autonomia” total em relação a ele, o que se torna impossível para a maior parte dos professores a partir da organização do tempo escolar, da jornada de trabalho e das tecnologias disponíveis para

a preparação das aulas e para o trabalho em sala de aula. A terceira via seria, “além de gerenciar o tempo e a disciplina escolar, selecionar bons livros, afinados com suas concepções tanto sobre o ensino-aprendizagem como sobre os objetos de ensino, e deles extrair seu melhor, combinando-o com outros recursos disponíveis” (ROJO, 2013, p.171).

Transpondo essa reflexão para a discussão proposta por essa tese, é possível dizer que a terceira via seria justamente assumir um movimento de invenção em relação ao livro didático, assumindo-o como uma affordance que está ali para ajudar o professor e os alunos na construção de práticas inventivas de aprendizagem. O livro didático deixaria, portanto, de ser um objeto de controle e passaria a ser uma ferramenta a mais no trabalho do professor, que, pelas condições precárias de trabalho que tem, não pode