2.8. Zorluklarla Başa Çıkma Sürecinde Sabır
2.8.1. Başa Çıkma Stratejileri
2.8.1.2. Sabırla İlgili Psikolojik Kavramlar
2.8.1.2.4. Teslimiyet ve Tevekkül Diyalektiği
A arquitetura não é muito importante. Importante é a vida. A gente tem que arriscar sempre. Oscar Niemeyer292
Das vias que dão acesso ao Palácio do Planalto, da rampa ou do alto do parlatório em Brasília, o centro do centro do poder, ao espaço que o enquadramento fotográfico muitas vezes não permite divisar, são oito os corpos presidenciais aqui abordados. Sem ambicionar uma conclusão, esse é o percurso que a presente pesquisa acredita ter completado, nos limites de uma dita política de redemocratização do Brasil, ou, para usar um termo mais “político”, da “Nova República”. Em suma, tratam-se do espaço, do tempo e dos sujeitos apreendidos na “realidade” brasileira, cuja tessitura é o discurso da mudança política. E, nesse caso, importa ter em conta que a mudança:
(...) é ao mesmo tempo desaparecimento, fim, negação de alguma coisa, e aparecimento de outra, afirmação, novidade (absoluta ou relativa), começo (ou recomeço). Num dado estado de coisas, substitui outro: uma moda passa, a seguinte já está ali – o rei morreu, viva o rei! De modo que se poderia quase dizer de novo, mas formalmente dessa vez, que a mudança, em si mesma, nada é. Nada além do ponto de interseção ou da fase de transição entre dois estados: nada mais que a descontinuidade que, enquanto separa um “antes” de um “depois”, liga-os indissociavelmente.293
Na perspectiva de uma organização temporal, marcada pela descontinuidade do último general no poder e da primeira mulher na presidência, e demarcada pelos cortejos de posse e pelas cerimônias de transmissão do cargo, observa-se a “alternância” das figuras de corpos políticos num intervalo de mais de trinta anos. No arranjo discursivo imagético do movimento das “Diretas Já” e da campanha eleitoral de Tancredo Neves, as presenças de Fernando Henrique Cardoso (Fig. 13-a e 13-b), José Sarney (Fig. 13-c e 13-g), Marco Maciel (Fig. 13-c) e Lula (Fig. 13-f) posteriormente são examinadas como os “novos” corpos políticos desfilando em carro aberto ou no ato da passagem da faixa presidencial. Da mesma forma que, no espaço do sofá vermelho (Fig. 15), sentados da esquerda para a direita, Collor, Itamar e Fernando Henrique, são os três presidentes que se alternarão no governo a partir dali.
292. Ricardo KOTSCHO. Do golpe ao planalto, p. 260. 293. Eric LANDOWSKI. Presenças do outro, p. 109.
Jogo de cartas marcadas? Não, mas indiscutivelmente o jogo do poder político e, sobre isso, é significativa a consideração tecida por Landowski ao dizer que:
Certos elementos que se podem tirar dos trabalhos existentes sobre o caráter cíclico da história das modas, como da história política, parecem efetivamente indicar que os momentos de adesão forte e maciça a uma moda ou a uma tendência política dada geralmente não se dão sem a manifestação concomitante, quase tão insistente, algumas vezes até mais, da rejeição da tendência estética ou política considerada como seu contrário, cujo reino acaba de terminar ou cujo fim está em vias de se tornar inelutável.294
Isso explica e fundamenta, a partir do evento aleatório que foi a morte de Tancredo Neves, a seqüência de governos que se sucederam nos momentos de crise, ou seja, até a estabilização da economia com a eleição e a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Posteriormente, com o revés da situação econômica, a rejeição à política de FHC, e, a decorrente eleição e reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Com Dilma Rousseff, nota-se que a lógica foi reiterada com o incremento da colocação em circulação do discurso do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. Dito de outra forma, o êxito dos dois mandatos do governo Lula, legitimado pela sua popularidade não só em virtude do controle, mas do desenvolvimento econômico do país, foi “incorporado” à Dilma Rousseff, na forma de continuidade, por esse motivo, como “mãe do PAC” pode-se dizer que ela é a “eleita” de Lula. Tais situações assentam-se na esfera do que Landowski analisa como sendo da
(...) ordem dos valores perenes: liberdade, justiça, bem-estar, segurança, muitas apostas que põem em causa diretamente as próprias condições de existência dos agentes sociais, seus interesses “reais”, e que, por seu caráter de universalidade, transcendem o nível das preferências, a todo momento cambiantes, que se exprimem em termos de gostos e opiniões. Uma vez que nada do que se refere a esses valores, nem a maneira de hierarquizá-los, nem a escolha dos meios destinados a gerá-los, pode depender de modas por essência passageiras, a única instância suscetível de encarregar-se deles é, naturalmente, a instância política enquanto tal, concebida como o conjunto de instituições, das práticas e das normas pelas quais se manifesta justamente a assunção coletiva desse tipo de valores fundamentais. Certamente, nem mesmo essas instituições, essas práticas e essas normas podem ser imutáveis; porém, dir-se-á, não são simples intermitências do coração, mas a razão que deve presidir sua renovação.295
294. Eric LANDOWSKI. Presenças do outro, p. 117. 295. Ibid., p. 117.
296
296. Eric LANDOWSKI. Interacciones arriesgadas, p. 81.
Regularidade Probabilidade causal mítica Regularidade Probabilidade simbólica matemática Motivação Sensibilidade consensual perceptiva Motivação Sensibilidade decisional reativa * ou estratégia
o risco limitado a insegurança
Fazer querer Fazer sentir
Regime de sentido: Regime de sentido:
"ter significação" "fazer sentido"
Regime de risco: Regime de risco:
A MANIPULAÇÃO* baseado na intencionalidade (competência modal ) Regime de interação: O AJUSTAMENTO baseado na sensibilidade (competência estésica ) Regime de risco: a segurança Regime de risco: o risco puro Regime de interação:
(rol temático ) (rol catastrófico )
Regime de sentido: A "insignificância" Regime de sentido: O "sem sentido" C on st el aç ão d a "g ov er na nç a" C on st el aç ão d a "p op ul ar id ad e" Fazer ser Fazer fazer
Fazer advir (chegar) Fazer sobrevir
O ACIDENTE A PROGRAMAÇÃO
Regime de interação: Regime de interação:
baseado no azar baseada na regularidade
Não descontinuidade II
Continuidade III Descontinuidade I
A investidura desta pesquisa tinha por propósito depreender como esses corpos políticos racionais se davam a ver e o lugar era o espaço das mídias, dito de outra maneira, a publicização midiática do político e a política do corpo a partir das mídias. O resultado das análises, sem dúvida possibilitou depreender uma gama de variações, contudo, as mais significativas concentram-se na ruptura política desvelada no corpo de Fernando Collor de Melo, na retomada à continuidade no corpo político de Fernando Henrique Cardoso e na instauração de outra ruptura na corporeidade política de Lula. E, o mais extraordinário é observar a transição do corpo político baseado na racionalidade para a esfera da sensibilidade.
Na posse do último presidente militar, sob a promessa de fazer “desse país uma
democracia”, já se podem distinguir as marcas de uma outra política no corpo do general João Figueiredo. Há, por certo, o modo disciplinado da corporeidade formada na academia militar, mas em contrapartida, a relação do homem com o animal, a visibilidade do corpo viril e a forma como esse corpo é apreendido na transição da farda para o traje civil (Fig. 10), são “flagrantes” que desvelam a ambivalência do regime político vigente. Se a ditadura militar é da ordem da manipulação e da programação, os valores circulantes no corpo político do presidente João Figueiredo são da ordem do ajustamento. Ainda que Figueiredo, como quem governa o povo, exerça o poder de domar o cavalo, no ato de cavalgar ambos participarão de um fazer juntos. Ademais, não é só o fato de um militar visto em trajes civis, mais do que isso, é um corpo que se deixa ver descoberto, à maneira de um cavaleiro que, ao desvencilhar- se da armadura sai da programação e torna-se passível de ser sentido corpo à corpo.
Ao passo que Figueiredo se deixa apreender como um corpo-sujeito, o que é plausível, posto que é o corpo da transição do regime político ditatorial para o democrático e está no sentido da continuidade rumo à não continuidade, José Sarney ocupará freqüentemente a dêixis da programação. Obvio que todo o corpo político em algum momento deverá ser estrategista, mas a estratégia de Sarney consiste na manutenção da regularidade, ou seja, no ato permanecer na governança. Enquanto alguns dos corpos políticos aqui examinados estavam no palanque das “Diretas Já” (Fig. 13-a), Sarney compunha a triangulação política com os militares (Fig. 24), os quais, por constituírem o governo de situação, garantiam-lhe segurança. Desse modo, na esteira da racionalidade, Sarney vai desvelar-se no jogo político como o corpo que se desloca da direita (Fig. 24) para a esquerda (Fig. 13-c), porém, cauteloso, mantém-se um passo atrás, depois avança ao se tornar presidente por acaso (Fig. 21-b) e volta à retaguarda (Fig. 21-c) após passar o poder. O sentido de retaguarda no corpo político de José Sarney, a quem se atribui a consolidação da
democracia brasileira, tem na imanência a ação coronelista. Sarney, após ter assumido o mais alto cargo de governo, ao contrário dos seus antecessores, mas como um típico coronel, se elegerá quatro vezes senador. Se as leis descritas nos códigos estão ali para serem cumpridas, o corpo político de José Sarney desvela na política da continuidade, não um corpo para ser sentido, mas um chefe político que faz com que o regimento seja cumprido.
Em relação simetricamente oposta, Fernando Collor de Mello surge no cenário político brasileiro como uma legítima “vedete” (Fig. 14) para inaugurar a política da descontinuidade. Não cabe aqui mensurar o grau de racionalidade desse governante em suas decisões estratégicas, mas o certo é que Collor apostou na excessiva visibilidade de seu corpo político (Fig. 25) e o fez na dimensão da sensibilidade, o que culminou na sua renúncia e no impedimento do seu governo, o acidente. O impeachment foi resultado do “risco puro”, posto que, assim como se diz que “alguém é ‘muito cortês’ para ser ‘honesto’”297, a máxima de que
errar é humano não se aplica aos heróis. Na política do corpo de Fernando Collor o heroísmo em demasia o “desumanizava” diante do Outro, portanto, em meio à crise econômica, o que se percebe é uma dissonância cognitiva entre a sua popularidade e a competência do sujeito para governar, de modo que os seus “superpoderes” tornaram-se um ato “sem sentido”.
Concernente à política dos corpos de Tancredo Neves (Fig. 13) e de Itamar Franco (Fig. 14 e Fig. 15) observam-se características bastante peculiares entre eles, que, embora estejam nos limites da programação, portanto, opostos à Collor e próximos a Sarney, realizam uma trajetória no sentido da não continuidade. A relação de interação desvelada a partir do corpo de Tancredo (Fig. 23) e de Itamar (Fig. 27) é baseada na regularidade da discrição, o que significa o predomínio da circunspecção e da prudência como garantia de segurança sob a lógica da racionalidade, no entanto, é também uma remissão ao segredo. No que tange a trajetória política de Tancredo, observa-se um corpo assentado numa postura regular, que de tão circunspecto beira a insignificância e, por esse mesmo motivo passa a fazer sentido ajustando-se de forma sensível com o Outro. Resultante de uma probabilidade mítica, a morte “sobrevém” ao corpo de Tancredo como um aleatório que interrompe o seu percurso político e deixa em suspense o que teria sido a sua política de governo. Por conseguinte, se há algo da ordem do segredado na relação de interação entre Itamar Franco e o povo, ninguém soube melhor do que as mídias “revelar” os seus flagrantes. Sob a lógica da regularidade, o modo discreto de Itamar é facilmente apreendido de forma “delituosa” pela sua distração, portanto,
no trânsito do racional para o sensível. Nesse caso, “porque em política sempre foi assim, então, é assim que deverá ser”, a regularidade simbólica dá lugar à sensibilidade perceptiva.
O corpo político que mais se aproxima da não continuidade é o de Luiz Inácio Lula da Silva, no entanto, é também o único que, a partir da publicização midiática, vai ser visto interagindo em todos os quadrantes. De fato, a “constelação da governança” não parece o ponto forte de Lula, ele interage pouco sob a lógica da regularidade, como por exemplo, no seu retrato na galeria dos presidentes (Fig. 7-b), quando cumpre o protocolo, ou seja, assume a programação, mesmo assim com variações em relação aos demais. Reitera-se que política é estratégia, mas em termos de regime de interação baseado na intencionalidade, a presença de Lula na esfera da “não descontinuidade” se desvelou aqui em dois momentos bastante pontuais: nos diálogos com Ulisses Guimarães (Fig 13-f) e com Fernando Henrique Cardoso (Fig. 29). Nesses casos, Lula dá a ver um comportamento que faz remissão a sua competência modal, portanto, de ordem decisional, e, como ensina Landowski, “para os quais o que agora
não é pertinente são as noções de programação e de causalidade.”298Nessas duas situações
Lula desvela-se mais adepto ao risco limitado, o que não implica necessariamente em segurança, uma vez que na motivação decisional, como dito, não incorrem as noções de programação e causalidade. Caso fosse assim, seria o equivalente a afirmar a incompetência de Lula em termos de governança, o que não parece plausível uma vez que ele esteve no governo, não por uma mas por duas vezes, concluiu os mandatos e ainda por cima deu sustentação a eleição de Dilma Rousseff.
A situação se torna totalmente adversa, e quase que diametralmente oposta a de Collor, quando Lula é apreendido na dêixis da não continuidade. Nessa perspectiva, ele é um corpo político que se dá a ver interagindo na “constelação da popularidade”, então, se o acidente da queda dos óculos de FHC na transmissão do cargo (Fig. 21-e) e os efeitos colaterais do câncer, outro acidente, (Fig. 35-b) eram situações potencialmente favoráveis para instaurar o “sem sentido”, Lula subverte a situação e faz do que seria a catástrofe, a competência estésica. É desse modo, ajustando-se às situações, no fazer sentir o outro e ao outro, aos sujeitos do enunciado e da enunciação, que Lula se deixa apreender fazendo sentido (Fig. 8, 17, 31, 32, 33). Posto isso, se os críticos mais conservadores foram unânimes ao afirmar que a popularidade de um político é algo que não se transfere, há indícios para afirmar que entre Lula e Dilma Rousseff a questão não foi de transferência, mas de pregnância.
Posto isso, a eleição de Dilma se dá a ver como resultado de uma motivação decisional de Lula, ela se elege fazendo sentido (Fig. 34), cumpre a programação dita por ele (Fig. 35-b e 35-c) e, ao que parece, menos competente em relações de ajustamento, realiza o percurso elíptico dando visibilidade de uma interação da ordem a intencionalidade (Fig. 35-a e 35-d) e se deixa apreender tendo significação.
No que tange “ter significação”, que é o regime de interação da manipulação, ou da estratégia, sob a lógica da intencionalidade, é o corpo político de Fernando Henrique Cardoso que irá ocupar com predominância essa dêixis. Observou-se que o político no corpo de FHC desvela-se distintamente na motivação decisional (Fig. 15 e 29) e na motivação consensual (Fig. 7-c, 13-a, 13-b, 16 e 21-d), aquela que, segundo Landowski, tem na subjacência as práticas instituídas. Nessas duas formas de motivação, desvela-se a política no corpo político do intelectual Fernando Henrique, ou seja, a competência cognitiva, que é a sua
virtú, a serviço da competência modal, cujo resultado, que talvez se possa chamar de fortuna, permite depreendê-lo no quadrante da não descontinuidade, no ato da governança.
A postulação derradeira, cuja relevância está em consistir o resultado de todas as análises aqui descritas, dá conta dos valores circulantes a partir da percepção do político apreendido no palco da política brasileira. O cenário, edificado com o discurso da estabilidade e do crescimento econômico, tanto do ponto de vista do observador daqui quanto de alhures, é um espaço favorável para as vedetes, que oportunamente se fazem bufões, mas que só têm sentido numa sociedade que venera a visibilidade política. Sob a égide de uma dita crise da pós-modernidade, governados e governantes se dão a ver partícipes de um espetáculo que cada vez oferece menos espaço entre o palco e a platéia. Essa é a fronteira cada vez mais tênue, que faz com que o ritual pareça a mudança. Dito de outra maneira, significa acreditar, do ponto de vista do Outro, que se ouve a música e que se dança, quando o que se celebra é a “dança dos dervixes”, porque não é só a cena do poder, todo ato é político.
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